Atlantis, A Profecia - Livro 1: Ascensão

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Atlantis, A Profecia - Livro 1: Ascensão

Prólogo · Atlantis, A Profecia - Livro 1: Ascensão

CAPÍTULO 34

Sentada dentro do módulo flutuante, Rhena apertava nervosamente as mãos.

Os túneis pareciam não ter fim. Parecia estar sentada ali há horas, disparando sob o palácio em direção ao naviporto militar, mas sabia que era apenas sua ansiedade que lhe dava essa impressão.

O módulo se deslocava firme e velozmente, tendo na sua frente e atrás outros dois cheios de archets fortemente armados, além dos que estavam dentro do próprio módulo que Rhena ocupava, e quatro aeroliners o circundavam pelas laterais.

Não cruzavam com nenhum outro módulo, pois fora proibida a

circulação deles enquanto Rhena trafegasse pelos túneis.

Tal incremento na segurança fora implementado depois que a inteligência imperial descobriu indícios de um possível atentado contra ela antes mesmo de sua coroação, que estava próxima.

Agora mesmo, fora aconselhada a aguardar em seus aposentos, mas ela se recusara.

Mirna estava voltando para casa e ela não queria esperar nem um minuto sequer para reencontrá-la.

Como estaria ela?

A mensagem de Demon fora muito sucinta, bem ao estilo militar: “Estou com ela. Aguarde-me no início da noite.” E ela aguardou ansiosa o dia todo.

Soube por um de seus conselheiros que ela foi localizada pela manhã, mas seu transporte imediato não foi possível, pois uma forte tempestade carregada de carga magnética se abateu sobre a Terra de Agóz, impossibilitando o voo dos cruzadores atmosféricos.

Uma parte do percurso teve que ser feita por terra e até as comunicações estavam instáveis, então Rhena sequer conseguiu falar com Mirna através do holo visor.

Mas agora, finalmente, ela estava chegando.

O módulo parou na estação do naviporto.

Rhena tentou sair rápido, mas os Archets foram mais ainda. Quando ela colocou os pés na plataforma, eles já haviam formado o retângulo protetor tradicional, mas agora com uma linha de dois homens de largura. Ela bufou, contrariada, mas seguiu confinada ali, no mesmo ritmo da escolta.

Quando saíram para o ar livre, a noite já havia caído. Graabliners cruzavam o céu e havia soldados, muitos soldados. Tudo parte da rede de proteção dela.

Mas Rehna não viu nada disso, pois, entre os espaços que os soldados à sua volta deixavam, viu o cruzador pousado e duas figuras saindo da porta lateral, descendo a rampa. Ela reconheceu Demon e, ao lado dele… — Mirna! — sussurrou ela.

Ela se adiantou e se espremeu entre os soldados. Se livrou do retângulo protetor e saiu correndo em direção à nave. Os Archets reagiram rápido e correram atrás dela, meio sem saber como agir.

— Mirna! — gritou Rhena enquanto corria.

A menina levantou a cabeça quando ouviu seu nome. Sua respiração se acelerou, seus grandes olhos negros brilharam.

— Rhena! — E disparou em direção à princesa.

Demon levantou a mão para ordenar aos Archets que parassem.

As duas se encontraram no meio da pista.

Não houve um segundo sequer de hesitação para se olharem nos olhos. Se abraçaram fortemente e assim ficaram por vários minutos, aos prantos.

Rhena afastou Mirna para olhá-la. Beijou-lhe o rosto banhado de lágrimas, beijou-lhe a testa, os cabelos. Abraçou-a de novo.

— Mirna! Mirna! Que saudade! — disse com a voz embargada.

A menina apenas chorava.

A princesa afastou-a novamente e a olhou com ternura.

— Você cresceu, Mirna! E está mais magra! Você está bem, Maitea?

— Ela está ótima — respondeu Demon, que aguardava o momento certo para se aproximar. — O médico de bordo a examinou e não há nada errado com ela. Está apenas assustada e não quis comer nada o dia todo.

— É compreensível! — disse Rhena. — Mas você deve estar com fome! Venha, vamos para o palácio!

As duas seguiram abraçadas.

Rhena parou de repente, deixou Mirna e foi em direção a Demon.

Chegando em frente a ele, elevou-se nas pontas dos pés e lhe deu um beijo no rosto.

— Obrigada — disse baixinho e voltou para Mirna.

Demon ficou extático. Um meio sorriso bobo no rosto.

Alguns soldados próximos riram baixo. Ele assumiu uma expressão severa e os soldados calaram-se e se empertigaram. Demon relaxou novamente e sorriu.

Aquele beijo foi a melhor recompensa que poderia querer.

Mas sua expressão anuviou-se.

Tinha que fazer algo que não queria, mas não tinha opção.

Apertou próximo ao ouvido esquerdo para acionar o comunicador:

— Avisem ao sumo sacerdote Tunamoi que cheguei.

Rhena e Mirna seguiam sentadas juntas dentro do módulo, de mãos dadas.

A princesa se pegava a todo momento olhando para o perfil da menina a seu lado.

Sem se dar conta, procurava nos traços do rosto dela alguma semelhança com o seu próprio.

O que via era a imagem esculpida da Duquesa de Lours, mãe de Mirna, só que mais jovem.

Mas aquilo não fazia diferença para Rhena. Mirna era sua irmã e, mesmo se não fosse, isso não invalidava todo o amor que sentia por ela.

A garota virou em direção a ela. Seu olhar continuava doce e meigo, mas havia algo diferente neles. Uma maturidade nascente, fruto talvez das experiências que vivera.

Ela sorriu e abraçou Rhena. Esta lhe beijou os cabelos e sussurrou:

— Oh, Mirna! Que saudades que senti!

Desembarcaram, tomaram um elevador que as deixou em frente aos aposentos de Rhena. Elas entraram, deixando os soldados lá fora, e foram cercadas pelas demais servas e aias de Rhena, todas querendo abraçar Mirna.

Muitas choravam, pois a pequena serva sempre fora muito querida pela maioria delas. Mirna retribuiu todo o carinho, mas permaneceu calada.

Rhena, percebendo o estado dela, tentou adivinhar o que quereria:

—Você está cansada, Maitea. Quer se deitar? Ou tomar um banho? Jantar, quem sabe?

A garota respondeu sem muita ênfase:

— Tenho fome.

Rhena exultou:

— Excelente! Pedi para prepararem seu prato favorito! Cozido Anster! Está servido na sala de jantar! Venha, querida, venha!

E a puxou pela mão.

Berester, a aia-mor, responsável pela coordenação das servas e aias, percebeu o estado de espírito de Mirna e, achando que a princesa gostaria de ficar a sós com ela, impediu as demais de acompanhá-las.

Rhena agradeceu por isso, pois queria deixar Mirna à vontade. Entraram na sala de jantar e Mirna ficou parada à porta, observando o luxuoso ambiente.

Rhena a chamou:

— Venha, Mirna. Esta é sua casa e você pode ficar à vontade.

A menina caminhou timidamente até a mesa onde o jantar estava servido.

Sentou-se, puxou delicadamente a cadeira, estendeu o guardanapo em seu colo e, pegando os talheres, começou a comer parcimoniosamente.

Rhena se sentou ao seu lado e mais uma vez se pegou observando Mirna.

Neste um ano e meio que ficou perdida no meio da selva, ela não perdeu seus modos. Observou a postura firme e ao mesmo tempo graciosa dela.

“Ela tem a fibra de uma princesa”, pensou Rhena, orgulhosa.

Subitamente, Mirna depositou os talheres no prato, baixou a cabeça e começou a chorar.

Rhena, consternada, aproximou sua cadeira e colocou a cabeça dela em seu peito, abraçando-a e ninando-a.

— O que foi, Maitea?! O que é que você tem?!

Mirna chorou um pouco mais. Depois, afastando o rosto do peito de Rhena, a mirou com os olhos molhados e vermelhos.

— Eles… Eles atiraram nele! — balbuciou. — Não sei se o machucaram! Ele… Daniel…

E afundou novamente a cabeça no colo de Rhena, aos prantos.

A princesa abraçou-a com mais força.

“Daniel! Então é esse o nome dele!”

— Está tudo bem, meu amor. Você está segura agora. Ele não vai mais te machucar.

Ela afastou-se subitamente de Rhena e a encarou nos olhos, com expressão consternada.

— Machucar?! Oh, não! Ele… Ele não…

Rhena levou um choque. Não foi preciso Mirna terminar a frase para que ela compreendesse tudo. Nos olhos da menina ela via tudo o que precisava saber.

Tudo fora um engano. Todos os medos e ideias preconcebidas foram um engano. E, sem saber exatamente por que, aquilo lhe trazia um alívio enorme. Não puderam conversar mais, pois neste momento uma serva entrou na sala:

— Alteza, com licença. O sumo sacerdote e o comandante general a aguardam na sala de audiências — disse a moça servilmente.

Rhena confirmou com um aceno de cabeça e a serva se retirou.

Segurou o rosto de Mirna com uma das mãos e enxugou suas lágrimas com a manga de seu vestido.

— Maitea, o sumo sacerdote Tunamoi e o general Demon vão lhe fazer algumas perguntas sobre este tempo em que esteve desaparecida. É só responder o que lhe perguntarem. Eu estarei com você o tempo todo, então não precisa ter medo, certo?

A pequena confirmou com um aceno triste de cabeça.

Rhena adentrou a sala de audiências. Tunamoi e Demon se curvaram:

— Alteza — disseram em uníssono.

— Senhores — respondeu a princesa com um leve inclinar de cabeça.

Ela não se sentou no trono que lá havia, e sim ficou em pé ao lado dele. Se voltou para a direção de onde viera e chamou:

— Mirna, venha aqui, por favor.

A menina entrou, as mãos cruzadas à frente do corpo e o rosto voltado para baixo. Usava o mesmo vestido com que foi encontrada, que, apesar de limpo, era extremamente simples.

Rhena pensou em trocá-la, colocar-lhe um vestido melhor, mas achou que aquela simplicidade poderia deixar Tunamoi mais brando com ela. Mas, olhando a expressão dura do homem, percebeu que não seria assim. Nada parecia comover aquele coração de pedra.

Mirna parou ao lado de Rhena e curvou-se ante os dois homens:

— Senhores — cumprimentou-os e manteve os olhos baixos.

— Pode levantar a cabeça, serva — ordenou Tunamoi com sua voz cavernosa.

Quando Mirna levantou o rosto e o encarou diretamente nos olhos, ele sentiu um estremecimento.

Havia neles um quê de poder que fez Tunamoi se sentir momentaneamente intimidado. Ele encarou profundamente a menina por mais de um minuto, gerando um clima quase constrangedor na sala. Um pigarro de Demon o fez interromper, não o contato visual, mas sim aquela tentativa de leitura das energias que emanavam daquela criança.

— Nos diga, menina — começou ele —, onde esteve todos estes meses?

— Estive perdida na floresta, senhor — respondeu ela com simplicidade.

— Na companhia de traidores?

Se a pergunta visava desestabilizá-la isso não ocorreu, pois ela se manteve impassível. Mas Rhena encarou o velho com desagrado.

— Traidores? — Mirna devolveu a pergunta. — As pessoas com quem estive não eram traidores.

— O que eram, então? — perguntou o velho.

— Eles vieram de outro tempo.

Até Rhena olhou para ela com incredulidade. Mas Mirna não se abalou.

Contou como seus cinco amigos ficaram congelados em uma caverna e como chegaram até a Terra de Agóz, mas omitiu tudo sobre Kantor e o templo.

Tunamoi retomou as perguntas:

— E você acreditou no que lhe disseram?

Mirna deu de ombros.

— Por que não acreditar? Eles ficaram bastante chocados quando descobriram que estavam em outro tempo e sofreram muito quando entenderam que suas famílias e suas vidas não existiam mais. Seu sofrimento foi real. Eles não conheciam nossa língua, nem nossos costumes.

— Eles são terráqueos, então? — Foi Demon quem perguntou.

— Sim, mas de outro tempo — respondeu Mirna.

— E como foi que sobreviveram sozinhos tanto tempo na floresta? — perguntou o general.

— Eles tinham boas habilidades de sobrevivência. No seu tempo eles foram treinados em algo chamado escoteiro.

— Por que não procurou fugir deles e tentou encontrar algum cidadão atlante que a ajudasse? — Ainda era Demon perguntando.

— Por que fugiria deles?

— Você era uma cativa.

— Não.

— Eles a sequestraram — afirmou Demon.

— Eles me salvaram.

— Foi isso que lhe disseram? Você não se lembra de que eu estava no leilão de escravos?

— Não, não me lembro.

Rhena interveio:

— Demon, você disse que ela estava dopada.

— Sim — confirmou Demon, já um pouco irritado pela postura calma da menina.

Ele já participara de vários interrogatórios, claro que bem mais violentos do que poderia fazer ali, mas sabia que pressionar o depoente com perguntas frequentes fazia com que se estressassem e cometessem algumas falhas em sua história, mas a serva respondia de forma calma e convincente.

Sabia que Tunamoi também a pressionaria, mas não teria o mesmo pudor que estava tendo e que a presença de Rhena não o intimidaria. Então continuou as perguntas:

— Neste tempo todo você não viu nenhum soldado atlante ou soube que havia buscas por você na região?

— Não vi nenhum soldado durante o tempo em que estive perdida.

— Saberia voltar para o lugar onde vocês habitavam?

— Creio que não, senhor.

— O rapaz que tentou resgatá-la hoje estava a cavalo e tinha uma espada. Onde ele os conseguiu?

— Encontramos alguns cavalos perdidos na floresta, e a espada ele retirou de um mutante morto.

— Mutantes?! — perguntou Rhena, aterrorizada.

— Sim — respondeu Mirna. — Fomos atacados por dois deles, mas os rapazes os mataram.

Demon a olhou de forma incisiva.

— Por que se debateu quando os soldados a encontraram? Não os reconheceu como agentes do império ou você não queria abandonar seus “novos amigos”?

Mirna o encarou sem petulância.

— Senhor, eu fui capturada por traficantes de escravos. Bateram-me, me humilharam, apenas não me violentaram pois queriam leiloar minha virgindade. Mas vi várias outras cativas serem repetidamente estupradas. Vi pessoas sendo mortas. Mutantes tentaram me pegar para devorar minha carne. Estava no meio de uma floresta cheia de seres selvagens e nem todos eram animais irracionais. Como queria que eu reagisse quando alguém, do nada, me agarrasse e tentasse me arrastar à força para algum lugar?

A resposta calou Demon. Rhena tinha lágrimas nos olhos. Ela alcançou a mão de Mirna e a apertou suavemente. — Oh, Maitea! Tudo pelo que passou… Tunamoi não se comoveu.

— Diga-me, serva — perguntou com a voz dura —, vocês tiveram alguma ajuda durante este período?

— Não — respondeu ela simplesmente.

— Não mesmo? De algum atlante?

— Não.

— Conheceu um homem chamado Kantor?

— Não.

— Não acredito que um bando de jovens possa ter sobrevivido a tudo que narrou. Vocês tiveram contato com este homem?

— Não, senhor.

— Você sabe que mentir neste caso pode ser considerado traição?

— Sim.

— Então me responda, Kantor ajudou vocês? — A dureza nas palavras de Tunamoi poderia cortar um cristal, mas Mirna não se abalou.

— Não — respondeu ela novamente.

— Você pode…

Mirna se voltou para Rhena, com a voz chorosa:

— Estou cansada, Maitea!

Tunamoi se enfureceu:

— Como ousa... — Mas Rhena o interrompeu, erguendo a mão:

— Já chega, conselheiro! Já houve perguntas demais para o estado em que Mirna se encontra! Outra hora, quando ela estiver descansada, podemos continuar!

O velho se empertigou, mas depois se curvou.

— Como desejar, alteza, mas acho que não haverá mais necessidade de perguntas.

— Muito bem, então — disse Rhena. — Se nos dão licença, senhores. — E, pegando Mirna pela mão, se foi em direção a seus aposentos.

Os dois homens se curvaram mais uma vez e se retiraram.

Já no corredor, Demon perguntou:

— E então? A garota está mentindo?

— Não — respondeu Tunamoi. — Ela disse a verdade.

— Tem certeza?

— Tenho treinamento para detectar quando alguém mente. E ela disse a verdade, ou, pelo menos, a verdade que queriam que ouvíssemos.

— Como assim?

— É possível criar filtros mentais para que mentiras não sejam facilmente detectadas.

— E você acha que fizeram isso com ela?

— Só é possível saber se a analisarmos mais profundamente, mas a princesa não vai permitir que façamos isso com seu animalzinho de estimação. Mas acredito ser isto uma perda de tempo. Vamos observar a serva de perto e ver se ela realmente foi uma vítima em tudo isto ou se está de conluio com Kantor e os demais. E você, Demon? Enviou soldados ao local onde ela foi localizada?

— Com muito custo — respondeu o oficial. — A tempestade não dá trégua. O transporte terrestre que levava uma equipe foi atingido pela queda de uma árvore gigantesca. Dois soldados morreram, outro foi arrastado por um deslizamento quando tiveram que se deslocar a pé. Os três que conseguiram voltar ao posto disseram que o fundo da ravina, na qual o cavaleiro caiu, se tornou um rio. Se houvesse um corpo, foi arrastado sabe-se lá para onde. Não há como sobrevoar a região e não quero arriscar mais homens enviando-os por terra.

— Faz bem, Demon — disse Tunamoi. — Vamos acreditar, por ora, que o maldito Agar, se é que era mesmo um, tenha morrido, e vamos nos concentrar no andamento de nosso plano.

Demon o olhou de lado.

— Acredita que ele não seja, ou que fosse um Agar? Que não era o homem da profecia?

— Tenho agora minhas dúvidas — respondeu Tunamoi.

— E o que diz sobre essa história de serem de outro tempo, de ficarem congelados? Isso é possível?

— A criogenia é algo possível, sim. Pelo que a serva narrou, foi um evento natural. Ainda há muitos mistérios na natureza a serem decifrados. — Nisto, ele parou e voltou-se para a porta dos aposentos da princesa. — Aquela serva…

Demon ficou alerta. Teria Tunamoi percebido alguma coisa em relação à ligação sanguínea entre Mirna e Rhena?

— O que tem ela? — perguntou cauteloso.

— Não sei — respondeu o velho. — Há alguma coisa nela… bem, talvez não seja nada. Algumas pessoas detêm poderes especiais e nem se dão conta disto. Talvez seja o que há com esta menina. Talvez ela possua dons especiais, mas seria preciso examiná-la. Talvez ela seja uma potencial Mayyaris.

Demon riu, tentando dissimular sua preocupação.

— Ora, Tunamoi, mesmo que ela seja, sabe que isto é impossível. Ela é uma serva cativa e uma Traitress. Ela jamais poderia ser uma Mayyaris.

O velho voltou a caminhar.

— Você está certo, mas vamos mantê-la sob observação. Você providencia isso?

— É claro! — confirmou Demon, mas lá no fundo dizia a si mesmo que não moveria um dedo neste sentido.

Dentro dos aposentos reais, Rhena ajudava Mirna a se banhar.

Havia dispensado as outras servas e aias, principalmente a senhora Berester, pois sabia que ela não aprovaria o fato de Rhena cuidar de Mirna, quando o contrário era o que devia acontecer.

Berester era nobre, a irmã viúva e sem filhos do Conde Lucca, que pediu que a irmã pudesse servir a princesa.

Era uma boa mulher, mas como todo atlante, principalmente nobre, tinha um forte sentimento do lugar que cada um devia ocupar na sociedade.

Mas Rhena não estava nem aí para isso, principalmente por se tratar de Mirna, mas não queria comentários pelos corredores do palácio, então dispensara todas para que pudesse estar a sós com ela.

Sentia que a menina estava escondendo algo, mas não queria forçá-la a dizer. Acreditava que quando estivessem a sós ela se abriria.

Ajudou Mirna a se enxugar e reparou como o corpo dela começara a mudar. Ainda era a criança de um ano e pouco atrás, mas os seios dela estavam mais salientes e as curvas começavam a se insinuar.

— Ora — disse ela em tom de brincadeira —, minha menina está se tornando uma mulher.

Mirna sorriu, tímida.

— Eu menstruei — disse ela.

— Maitea! Que notícia maravilhosa! — vibrou Rhena. — Precisamos então fazer seu Kinaut!

— Eu já o fiz.

— Já? Como? — perguntou Rhena, surpresa.

— Com Cris e com Ana. — Diante do olhar interrogador da princesa, ela explicou: — Estes são os nomes das garotas que estavam comigo. Cris foi minha Kinaira.

— Ah, certo. Mas você vai precisar do seu cristal rosa, para mostrar ao mundo que já está se tornando uma mulher — observou Rhena.

— Eu já… — Mirna começou a dizer, mas, levando a mão ao pescoço, se calou. O cristal que Kantor lhe dera não estava ali, bem como o cristal de proteção. Lembrou-se que naquela manhã não os estava encontrando e, diante da insistência de Kantor em saírem logo, deixara para procurá-los depois. — É, vou precisar mesmo — completou tristemente.

Rhena reparou nos gestos dela e ficou ressabiada, mas nada comentou. Em vez, disso falou:

— Façamos assim. Vamos fazer novamente seu Kinaut e você pode escolher outra Kinaira, que tal?

A menina a olhou, ligeiramente contrariada.

— Mas Cris já é minha Kinaira!

— Mirna, não é correto que uma terráquea seja Kinaira de uma atlante — contemporizou Rhena.

A menina baixou os olhos.

— Cris sempre me tratou muito bem, aliás, ela cuidou de mim em todas as horas que precisei. Esteve sempre atenta às minhas necessidades.

Rhena passou a mão carinhosamente pelo rosto de Mirna e levantou o queixo dela para olhá-la nos olhos.

— E eu serei eternamente grata a ela por isso. E vou colocála em minhas orações, certo? Mas vamos deixar este assunto para depois. Você precisa descansar, aliás, nós duas precisamos. Venha, vamos nos deitar.

As duas foram para a cama de Rhena e deitaram-se abraçadas.

Rhena estava superfeliz em ter sua irmãzinha de volta, sua amada Mirna. Nunca mais deixaria que ela saísse de perto de si.

A menina se remexeu, inquieta.

— Maitea? — chamou ela.

— Sim.

— Eu menti.

Rhena suspirou, ao mesmo tempo aliviada e preocupada.

Aliviada, pois Mirna resolvera falar do que a corroía por dentro, e preocupada pelo que viria a seguir.

— Mentiu? Como assim, meu amor?

Mirna se desvencilhou do abraço de Rhena e se sentou na cama.

— Menti sobre Daniel, sobre tudo o que falei ao sumo sacerdote e ao general. Ou sobre quase tudo.

E então ela falou.

Confirmou o fato de que seus amigos ficaram congelados em uma caverna, que vieram do passado. Falou sobre como Kantor os encontrara e que Daniel era o escolhido de uma profecia que estava no livro sagrado. Contou como ele renegara isto, quando Kantor o colocara a par do que era esperado dele.

Rhena ouvia aquilo tudo boquiaberta, sem saber direito como reagir.

— Mas então — disse ela, interrompendo Mirna —, este Kantor é mesmo o bandido que Tunamoi disse! Ele trama contra a coroa.

— Não! — rebateu Mirna. — Ele é um homem muito bom! Ele apenas cumpriu o papel que, segundo ele, o destino lhe deu! Apenas informou Daniel do que as profecias disseram, de que vocês dois teriam um filho! Kantor não o forçou a nada!

— Nós o que?! — perguntou Rhena sentindo seu rosto ruborizar. Ah, se Mirna soubesse dos sonhos que tivera com aquele rapaz que ela sequer conhecia.

— Que o que está escrito no Livro das Profecias está errado! Que você e Daniel deveriam ter um filho que uniria Andros, Agars e terráqueos, e conduziria o império para uma era de paz! Mas Daniel não quis!

Rhena ficou desapontada.

— Ele… não me quis? Quer dizer…

— Quando Kantor mostrou uma holo imagem sua, Daniel a reconheceu! Disse que já havia sonhado com você!

— Sonhou? — “Oh Athos!”

— Mas Daniel recusou, não você, mas o papel que o destino estava lhe impingindo! Ele é muito independente, muito forte, ninguém pode forçá-lo a nada! E além do mais, ele ama a Cris!

— Cris? A sua Kinaira?

— Sim! E eles tiveram um filho!

Aquilo foi como um balde de água gelada em Rhena. Eles tiveram um filho? O filho que deveria ser dela?

Mirna falou sobre Darian, sobre as circunstâncias de seu nascimento. Falou sobre Ana, sobre Carlos e Pedro. E falou sobre Daniel, muito.

Rhena bebia cada palavra, cada descrição que Mirna dava dele, sem saber bem o que fazer com toda aquela informação. Ele já tinha um filho com outra que ele amava.

— Esta Cris — perguntou a certa altura — é bonita?

— Sim, ela é — confirmou Mirna. — Mas acima de tudo é uma pessoa maravilhosa.

— É por isso então que ele a ama?

— Sim, acho que sim. Não tenho experiência em sentimentos como este, mas vejo que ele é apaixonado por ela, apesar de fazê-la sofrer as vezes.

— Como assim? — perguntou Rhena, curiosa.

Ela se recriminou intimamente. Mirna estava lhe narrando sobre o que era potencialmente uma ameaça ao império e ela estava preocupada com questões românticas.

Que Athos a perdoasse, mas naquele momento ela queria que o império fosse para o inferno de Adru.

Mirna lhe contou do que soube e viu dos altos e baixos do relacionamento entre Cris e Daniel, de como estavam rompidos no momento.

Aquilo acendeu uma chama de esperança no peito de Rhena. Mais uma vez, se recriminou. Como podia estar se fiando na história de uma criança que ficara perdida sabe Athos onde, que ouvira uma interpretação do Livro das Profecias de um velho renegado sobre um homem que era um inimigo de sua dinastia?!

Mas ela queria acreditar. Pois isto explicava aquela “necessidade”, aquela ausência que sentia por Daniel, alguém que ela sequer conhecia. A ligação entre eles era divina, um desígnio celestial e teria que acontecer de uma forma ou de outra.

Mirna, interpretando erroneamente o silêncio de Rhena, a abraçou e pediu, soluçando:

— Oh, por favor! Não envie soldados atrás deles! Eles não são ameaça para você! Deixe-os lá em paz, que eles seguirão suas vidas, e nós, as nossas! Eu lhe imploro!

Rhena acariciou os cabelos da menina.

A vontade que sentia naquele momento era de enviar todo o exército atlante, até o último homem, para procurar Daniel e trazêlo para ela. Para ser só dela! Mas sabia que aquilo não aconteceria.

Falou baixinho, tentando tranquilizar Mirna:

— Fique tranquila, Maitea! Eu não vou atrás deles. Vamos, como disse, deixá-los seguir seus caminhos, e nós seguiremos o nosso.

Mirna a encarou enquanto enxugava as lágrimas na manga do pijama.

— Se bem que eu nem sei se… se Daniel está vivo!

— O que diz seu coração? — perguntou Rhena com suavidade.

A menina fechou os olhos, como se consultasse seus sentimentos.

Quando os abriu, havia uma alegre certeza neles:

— Ele está vivo! Eu sinto isso!

Rhena acariciou-lhe o rosto.

— Então assim será, meu amor! Assim será!

E Rhena também queria acreditar naquilo, com todas as suas forças.

Atlantis, A Profecia - Livro 1: Ascensão

Sinopse

Imagine que você é um jovem comum, cursando o ensino médio, se preparando para o vestibular, com sua namorada e seus amigos. Aí você decide fazer uma viagem de férias e sua vida muda completamente. Aliás, o mundo muda completamente. Pior ainda, o mundo como você conhece, deixa de existir, substituído por uma nova realidade. E ironicamente, este novo mundo que massacrou o seu, vai depender de suas escolhas para continuar existindo. O que você faria? Ascensão é o primeiro livro da saga Atlantis: A Profecia, uma história fantástica que conta sobre impérios, lutas de espadas, batalhas espaciais, mas que antes de tudo fala sobre amor, amizade, comprometimento e amadurecimento, coisas estas que farão a diferença na vitória ou derrota do caos.

Atlantis, A Profecia - Livro 1: Ascensão

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