Leia agora
A Viuvinha

Universo da obra

A Viuvinha

Capítulo 5 · A Viuvinha

A Viuvinha: Capítulo V

5 de 14 ≈ 5 min de leitura

Uma hora seguramente se passara depois da saída do velho.

O relógio de uma das torres da cidade dava duas horas. Jorge conservou-se na mesma posição; imóvel com a cabeça apoiada sobre o braço, apenas se lhe percebia o abalo que produzia de vez em quando um soluço que o orgulho do homem reprimia, corno que para ocultar de si mesmo a sua fraqueza.

Depois nem isto; ficou inteiramente calmo, ergueu a cabeça e começou a passear pelo aposento: a dor tinha dado lugar à reflexão; e ele podia enfim lançar um olhar sobre o passado, e medir toda a profundeza do abismo em que ia precipitar-se.

Havia apenas duas horas que a felicidade lhe sorria com todas as suas cores brilhantes, que ele via o futuro através de um prisma fascinador; e poucos instantes tinham bastado para transformar tudo isto em uma miséria cheia de vergonha e de remorsos.

As oscilações do pêndulo, que na véspera respondiam alegremente às palpitações de seu coração, a bater com a esperança da ventura, ressoavam agora tristemente, como os dobres monótonos de uma campa, tocando pelos mortos.

Mas não era o pensamento dessa desgraça irreparável, imensa, que tanto o afligia; os espíritos fortes, como o seu, têm para as grandes dores um grande remédio, a resignação.

A pobreza não o acobardava; a desonra, não a temia; o que dilacerava agora a sua alma era um pensamento cruel, uma lembrança terrível:

-- Carolina!

A pobre menina, que o amava, que dormia tranqüilamente embalada por algum sonho prazenteiro, que esperava com a inocência de um anjo e a paixão de uma mulher a hora dessa ventura suprema de duas almas a confundirem-se num mesmo beijo!

Podia, ele, desgraçado, miserável, escarnecido, iludir ainda por um dia esse coração e ligar essa vida de inocência e de flores à existência de um homem perdido?

Não: seria um crime, uma infâmia, que a nobreza de sua alma repelia; sentia-se bastante desgraçado, é verdade, mas essa desgraça era o resultado de uma falta, de uma bem grave falta, mas não de um ato vergonhoso.

O seu casamento, pois, não podia mais efetuar-se; o seu dever, a sua lealdade, exigiam que confessasse a D. Maria e à sua filha as razões que tornavam impossível esta união.

Sentou-se à mesa e começou a escrever com uma espécie de delírio uma carta à mãe de Carolina; mas, apenas havia traçado algumas linhas, a pena estacou sobre o papel.

-- Seria matá-la! balbuciou ele.

Outra idéia lhe viera ao espírito; lembrou-se de que no estado a que tinham chegado as coisas, essa ruptura havia de necessariamente prejudicar a reputação de sua noiva.

Ele seria causa de que se concebesse uma suspeita sobre a pureza dessa menina, que havia respeitado como sua irmã, embora a amasse com uma paixão ardente; e este só pensamento paralisara a sua mão sobre o papel.

Recordou-se de que D. Maria um dia lhe havia dito:

-- Jorge, a confiança que tenho na sua lealdade é tal que entreguei minha filha antes de pertencer-lhe. Lembre-se de que se o senhor mudasse de idéia, embora ela esteja pura como um anjo, o mundo a julgaria uma moça iludida. Espero que respeite em sua noiva a sua futura mulher.

E o moço reconhecia quanto D. Maria tinha razão; lembrava-se, no tempo da sua vida brilhante, que comentários não faziam seus amigos sobre um casamento rompido às vezes por motivo o mais simples. Deixar pesar a sombra de uma suspeita sobre a pureza de Carolina, era coisa que o seu espírito nem se animava a conceber; mas iludir a pobre menina, arrastando-a a um casamento desgraçado, era uma infâmia.

Durante muito tempo o seu pensamento debateu-se nesta alternativa terrível, até que uma idéia consoladora veio restituir-lhe a calma.

Tinha achado um meio de tudo conciliar; um meio de satisfazer ao sentimento do seu coração e aos prejuízos do mundo.

Qual era este meio? Ele o guardou consigo e o concentrou no fundo d'alma; apenas um triste sorriso dizia que ele o havia achado e que sobre a dor profunda que enchia o coração, ainda pairava um sopro consolador.

Toda a noite se passou nesta luta íntima.

De manhã o moço saiu e foi ver Carolina, para receber um sorriso que lhe desse forças de resistir ao sofrimento.

A menina na sua ingênua afeição apercebeu-se da palidez do moço, mas atribuiu-a a um motivo bem diverso do que era realmente.

-- Não dormiste, Jorge? perguntou ela.

-- Não.

-- Nem eu! disse, corando.

Ela cuidava que era só a felicidade que trazia essas noites brancas, que deviam depois dourar-se aos raios do amor.

Como se enganava!

De volta, Jorge dispôs tudo que era necessário para seu casamento e fechou-se no seu quarto até à tarde.

A Viuvinha

Sinopse

Leia A Viuvinha, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance breve clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978650029353126554613210
A Viuvinha

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A Viuvinha

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Viuvinha Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 5 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir