Universo da obra
Universo da obra
A cicatriz começou a arder quando Maura Varela ainda estava a duas quadras do café.
O sinal vinha antes da água. Primeiro, uma linha quente sob a blusa, do lado esquerdo das costelas. Depois, o repuxo no ombro, onde a pele perdera a elasticidade. Sua mãe chamava aquilo de choro da pele e procurava o guarda-chuva. Maura aprendera a conferir a previsão no celular.
Chuva forte às dezoito e vinte.
Eram seis e cinco quando ela parou diante do Café Iolanda.
Do outro lado da rua, o Cine Glória ocupava metade do quarteirão com a fachada coberta por uma tela de proteção. As letras de metal haviam sido retiradas. Restavam os furos alinhados no reboco, uma palavra legível pela ausência. Duas placas vermelhas interditavam as entradas. A água da última chuva deixara um risco escuro abaixo das janelas da cabine de projeção.
Maura tirou a câmera da mochila e fez uma fotografia.
O enquadramento saiu torto. Um ônibus atravessou a imagem e cobriu o cinema com uma faixa azul. Ela apagou o arquivo, guardou a câmera e entrou no café.
O sino da porta ainda era o mesmo. O balcão havia crescido, ou ela se lembrava de um lugar maior. Seis mesas quadradas ocupavam o salão. Perto da cozinha, uma mulher discutia a entrega de pães pelo telefone. Um rapaz trabalhava diante de uma xícara vazia. Na mesa do fundo, um homem mantinha uma planta aberta sob os antebraços e marcava números com lápis vermelho.
Maura escolheu a mesa junto à janela. Dali, via o cinema sem precisar virar o corpo.
A mulher encerrou a ligação e se aproximou.
— Café?
— Coado. Sem açúcar.
— Tem broa de fubá saindo.
Maura reconheceu a voz antes do rosto.
— Neide?
A mulher apoiou as duas mãos na cintura. Os cabelos, antes presos numa trança, estavam curtos e brancos nas têmporas.
— Eu ia perguntar de qual família você era. Esses olhos eu conheço.
Maura aceitou o abraço. Neide cheirava a farinha e sabonete de erva-doce. A mão dela encontrou o ombro ferido e recuou depressa.
— Desculpa.
— Está tudo bem.
— Você chegou hoje?
— Agora à tarde.
— Olga disse que você vinha esvaziar o apartamento.
Em Santa Augusta, uma chegada levava menos de três horas para alcançar todas as pessoas certas. Maura pousou a mochila no chão e passou a alça ao redor do tornozelo.
— Três semanas — disse. — Talvez menos.
Neide olhou pela janela.
— Escolheu uma época ruim.
— Por causa da chuva?
— Por causa daquilo.
O queixo de Neide indicou o cinema.
— Vão demolir?
— Começam a preparar na segunda. A rua de cima fecha amanhã.
Maura abriu o zíper da mochila e fingiu procurar o celular. Encontrou uma bateria, dois cartões de memória e o chaveiro da mãe. A chave do apartamento tinha uma fita amarela presa ao aro. Ela fechou o bolso.
— O café eu levo na mesa — disse Neide. — E a broa também.
— Eu pedi só o café.
— Sua mãe comprou broa aqui durante vinte e seis anos. Hoje a conta ainda é dela.
Neide voltou ao balcão antes que Maura respondesse.
Na mesa do fundo, o homem dobrou a planta pela metade. Tinha cabelo castanho cortado rente nas laterais, barba de dois dias e um casaco cinza molhado nos ombros. Uma trena a laser, coberta de poeira, ocupava o lugar do açucareiro. Quando ele estendeu a mão para pegar o lápis, Maura viu a pele lisa e irregular entre o polegar e o indicador.
Ela desviou os olhos.
Neide trouxe o café, a broa e um copo d’água. Colocou a xícara na mesa errada.
— O curto é meu — disse o homem.
Neide olhou para as duas xícaras e soltou um palavrão baixo.
— Desde que puseram aquelas máquinas novas, café virou ficha de hospital.
Ela recolheu o curto. O homem levantou-se e veio buscá-lo.
— Pode deixar — disse ele. — Eu já estou de saída.
Quando chegou perto, a manga do casaco tocou a borda da planta. Uma folha escorregou e caiu ao lado da cadeira de Maura. Ela se abaixou ao mesmo tempo que ele.
No papel havia o desenho do Cine Glória visto de cima. Um traço vermelho cruzava o corredor lateral. Ao lado, alguém escrevera à mão: parede deslocada, 4,8 cm.
O homem pegou a folha.
— Obrigado.
— A rua vai ceder?
Ele a examinou por um instante. Maura conhecia aquele cálculo: rosto, idade, sotaque, motivo da pergunta.
— A rua está inteira — respondeu. — A contenção do cinema se moveu.
— Quase cinco centímetros.
— Você lê planta?
— Eu leio letra grande em papel branco.
Um movimento curto apareceu no canto da boca dele.
— Já foi o bastante para muita obra dar errado.
Neide bateu a colher no balcão.
— Vicente, leve o café antes que eu erre outra vez.
Ele ergueu a xícara em agradecimento e voltou para a mesa.
Vicente.
O nome atravessou uma região da memória sem encontrar onde pousar. Maura mordeu a broa. O fubá estava quente no centro. Por alguns segundos, ela viu a mão da mãe quebrando o pedaço ao meio e soprando antes de comer.
Pegou o celular. Olga havia enviado quatro mensagens.
Chegou?
Estou fechando a lavanderia.
A chave do portão emperra. Puxa para você.
Não sobe pela Conselheiro Maia. Está interditada.
Maura olhou o relógio. Dezoito e dezessete.
O primeiro trovão correu atrás dos prédios. Neide acendeu as luminárias perto da janela e recolheu os vasos da calçada. O rapaz da mesa central fechou o computador. Vicente enrolou as plantas e prendeu o tubo com uma cinta.
A chuva chegou às dezoito e vinte.
As primeiras gotas fizeram círculos largos na poeira. Em menos de um minuto, a rua perdeu a cor. A água desceu pelo vidro do café e deformou a fachada do cinema.
Maura terminou o café, pagou a broa apesar do protesto de Neide e vestiu a mochila. Tinha um guarda-chuva dobrável no bolso lateral. Ao abri-lo na porta, duas hastes ficaram presas.
— Isso vai durar meia quadra — disse Vicente atrás dela.
Ele segurava um guarda-chuva preto e o tubo de plantas.
— Preciso de três.
— Pela Avenida Baixa?
— Rua Jasmim.
— São quatro quadras pela avenida.
— Pela Conselheiro Maia são duas.
Vicente apoiou o tubo no chão.
— A Conselheiro está fechada.
— Minha prima disse.
— Então a sua prima sabe contar quadras e riscos.
Maura puxou a haste até ouvir o encaixe.
— Eu morei aqui.
— A rua mudou hoje.
O tom não trazia intimidade nem ordem. Era o tom de quem havia medido alguma coisa e preferia não discutir com o resultado.
Maura abriu a porta. O vento empurrou a água para dentro e espalhou gotas no piso. Neide apareceu com um pano.
— Esperem cinco minutos.
— A previsão não dá trégua — respondeu Vicente.
Ele abriu o guarda-chuva do lado de fora e indicou a esquina.
— Posso deixá-la na marquise da farmácia. Depois você segue pela avenida.
Maura observou a calçada. A água já cobria a sarjeta. Seu guarda-chuva abriu por inteiro após outra tentativa.
— Eu consigo.
— Certo.
Vicente ajustou o tubo de plantas sob o braço. Aceitou a recusa sem insistência.
Maura saiu primeiro.
A haste frontal virou antes do poste.
Ela segurou o cabo com as duas mãos. O vento empurrou o tecido para trás, e uma peça de metal soltou-se perto de seu rosto. Vicente alcançou-a, ergueu o próprio guarda-chuva e esperou que ela decidisse se entraria no espaço coberto.
Maura fechou o objeto quebrado.
— Até a farmácia.
— Até a farmácia.
Andaram lado a lado. Vicente mantinha o guarda-chuva inclinado para o lado dela, e a água escorria pelo ombro do casaco dele. O tubo batia na perna a cada passo.
— Você trabalha no cinema? — perguntou Maura.
— Faço o laudo estrutural.
— Para a demolição.
— Para saber o que ainda fica em pé.
— E depois?
— Depois outras pessoas escolhem o que fazer com a resposta.
A cicatriz ardeu com mais força quando passaram diante do portão lateral. A chapa de aço tinha três lacres numerados. Um deles pendia torto. Maura reduziu o passo.
— Esse lacre estava assim quando você saiu?
Vicente parou.
— Você fotografou o prédio.
— Fotografei da outra calçada.
— Viu alguém perto do portão?
— Só o ônibus.
Ele tocou o lacre sem encostar na chapa. A fita plástica estava inteira. O parafuso superior havia sido retirado da madeira, levando consigo uma lasca.
— Saí daqui às cinco e quarenta — disse. — Estava preso.
— O vento arrancou?
— O vento teria rompido o plástico.
Um carro buzinou atrás deles. Vicente conduziu Maura até a marquise da farmácia. A água caía da borda em uma cortina espessa. Ele fechou o guarda-chuva e passou a mão molhada pelo cabelo.
— Fique pela Avenida Baixa.
— Tem alguém dentro?
Vicente observou o cinema. A tela de proteção estalou no alto da fachada.
— Eu entrei na cabine pouco antes de fechar o prédio. A instalação elétrica está desligada há seis anos. Os cabos foram removidos.
— Isso responde outra pergunta.
— Eu vi luz na janela.
Maura seguiu a direção dos olhos dele. A cabine ficava acima do salão principal, duas janelas estreitas voltadas para a rua. A da esquerda estava escura. Na direita, atrás do vidro coberto de fuligem, surgiu um retângulo amarelo.
A luz permaneceu acesa durante três segundos.
Depois apagou.
Vicente puxou o telefone do bolso e ligou para alguém. Maura ergueu a câmera. Quando o obturador disparou, a janela já estava negra.
Na tela, o cinema apareceu inclinado pela perspectiva. A chuva cortava a imagem em riscos prateados. Perto do portão lateral, entre a chapa e o muro, uma faixa clara indicava a madeira recém-partida.
— Maura — disse ela.
Vicente afastou o telefone do ouvido.
— O quê?
— Meu nome. Você me levou até a marquise e ainda não sabia.
Ele guardou a informação com um aceno.
— Vicente.
— Eu ouvi a Neide.
— Fique aqui, Maura.
— Você vai entrar?
— Vou esperar a Defesa Civil.
— Isso não foi o que eu perguntei.
Vicente olhou outra vez para a janela.
— Hoje ninguém entra.
Uma sirene começou a subir pela Avenida Baixa. A luz da viatura tingiu as fachadas de azul. Maura ampliou a fotografia até os pixels se abrirem.
No vidro da cabine, o retângulo amarelo havia desaparecido.
Uma forma escura continuava ali.
Nove anos depois de sobreviver ao incêndio do Cine Glória, a fotógrafa Maura Varela volta a Santa Augusta para esvaziar o apartamento da mãe e partir em três semanas. Uma encomenda do inventário municipal a leva ao cinema condenado, onde suas imagens revelam horários incompatíveis, uma saída lateral alterada e um reflexo numa cabine oficialmente vazia.
O engenheiro Vicente Nogueira carrega na mão as marcas do mesmo incêndio e, no sobrenome, uma ligação direta com a reforma clandestina que estreitou a rota de fuga. Enquanto reconstroem aquela noite por fotografias, laudos, depoimentos e um rolo de filme preservado durante nove anos, Maura e Vicente precisam enfrentar as versões que suas famílias construíram para sobreviver.
Onde Choram as Cicatrizes é um romance dramático contemporâneo sobre memória, responsabilidade e uma aproximação que não promete apagar o que aconteceu.
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