Universo da obra
Universo da obra
O sol transmontara.
As sombras das collinas do poente desdobravam-se pelos campos e varzeas e cobriam a rechã desse candor da tarde, que em vez da alegria da alva matutina tem o desmaio, a languidez e a melancolia da luz que expira.
Por aquellas devesas já envôltas no umbroso manto, só destacam-se as copas das arvores altaneiras ainda imergidas nos fogos do arrebol, e que de longe parecem as chammas de um incendio rompendo aquí e ali do seio da matta.
O gado espalhado pelas várzeas solta os profundos e longos mugidos com que se despede do sol, e que propagam-se pelo ermo, como os carpidos da natureza ao sepultar-se nas trévas.
Respondem as vacas nos curraes, e os bezerros misturam seus berros descompassados com os balidos das ovelhas e borregos, também já recolhidos ao aprisco.
Lá das mattas rebôa o surdo estridor em que se condensam os cantos de todos os passaros e o grito de todos os animaes, para formar a grande voz da floresta, que exhala-se, sobretudo nessa hora, abafada e sombria das espessas abobadas de verdura.
No meio, porém, desse concerto e do borborinho que ainda levantava a labutação diaria, atravessava o espaço uma nota dorida, plangente, ressumbro de saudade infinda. Si a alma da solidão se fizesse mulher, ela não tiraria de seu mavioso seio, um suspiro tão melancolico e tocante como o arrulho da jurity ao cahir da noite.
Nessa hora a lida jornaleira das fazendas torna-se mais pressurosa, como para aproveitar os ultimos instantes do dia.
Os lenhadores voltavam do mato carregados de feixes, enquanto os companheiros conduziam a bolandeira cestos de mandioca, ainda da plantação do anno anterior, para a desmancharem em farinha durante o serão.
As mulheres livres ou escravas, umas pillavam milho para fazer o xerem ; outras andavam nos poleiros guardando a criação para livra-la das raposas ; e os moleques as ajudavam na tarefa, batendo o matapasto, ou dando cerco às frangas desgarradas.
As cozinheiras, encaminhando-se para a fonte a fim de lavar alí na agua corrente a louça de mesa e fogão, assim como as cassarolas ; cruzavam-se em caminho com as lavadeiras que já se recolhiam com as trouxas de roupa na cabeça.
Nos curraes tirava-se o leite, acomodavam-se os bezerros, e cuidava-se de outros serviços proprios das vaquejadas, que já tinham começado com a entrada do inverno, porém só mais tarde deviam fazer-se com a costumada atividade.
Era á este, de todos o mais nobre dos labores ruraes, que o capitão-mór costumava assistir regularmente, para o que todas as tardes à hora da sombra transportava-se elle do seu posto no patamal da casa, e vinha com a família sentar-se defronte do curral na mesma poltrona, que o pagem levara apoz si.
D. Genoveva entendia mais particularmente com o leite, o qual ali mesmo distribuia ; uma parte entregava-se às doceiras incimbidas dos bolos e massas ; outra repartia pelas crias, e o resto era levado à queijaria. Isto quando não tinha chegado ainda a fôrça do inverno, porque nesse tempo havia tal abundancia, que enchiam-se todas as vasilhas e até os coches onde os cães do vaqueiro iam beber.
O narrador desta singela historia teve em sua infancia occasião de ver na fazenda da Quixaba, próxima à serra do Araripe, esse alluvião de leite, na maxima parte desaproveitado pelo atrazo da industria, e que podia constituir um importante commercio para a provincia.
Enquanto a mulher occupava-se com esses misteres caseiros, o capitão-mór percorria os curraes, tomando contas aos vaqueiros, mandando apartar os novilhos que era costume reservar para bois de serviço ; indicando a rez que se devia matar para o gasto da casa ; e assistindo a esfolar e esquartejar, no que se comprazia com a pericia dos carniceiros.
No tempo da férra, tratava de apurar os garrotes apanhados na safra do anno anterior, escolhendo os da propriedade para deixar o disimo do vaqueiro, segundo as condicções do trato, que ainda são actualmente as mesmas em voga no sertão da provincia.
Com estes e outros serviços das vaqueijadas deleitava-se o capitão-mór, que achava nessa vida activa e agitada as emoções das lides e façanhas guerreiras, para que o attrahia sua indole.
Mais de uma vez, quando algum touro bravo resistia aos moços do vaqueiro e acuado pelos cães no meio da varrea, bramia escarvando o chão, acceso em furia, com os olhos em sangue : o velho capitão-mór sentindo repontarem-lhe uns impetos de juventude, vestia o gibão de couro e as perneiras, montava no seu russo, e empunhando a vara de ferrão na esquerda, arremettia contra o animal, topava-o no meio da carreira, e o trazia ao curral pela ponta do laço.
Naquella tarde, não se entreteve o fasendeiro, como em outras, com a inspeção do gado ; pois recolheu-se mais cedo que de costume ; e sua phisionomia que só nos raros, mas terriveis, transportes de ira, perdia a calma e apathica serenidade, mostrava nessa occasião symptomas visiveis de descontentamento.
Caminhava o capitão-mór com o passo grave e pausado, medido pela cadencia de sua alta bengala de carnauba, rematada em um castão de ouro lavrado, o qual tocava-lhe pelos ombros. Sua contrariedade denunciava-se, para quem lhe conhecia a solemnidade do gesto, na frequencia com que elle consertava o chapéo armado, como si lh'o incommodasse.
D. Genoveva ia ao lado do fazendeiro e embora não escapassem à sua sollicitude estes sinaes de impaciencia ; todavia não se animava a interrogar-lo directamente e esperava que elle se decidisse a communicar-lhe seu pensamento. O extremoso amor da bôa senhora não se animava a infringir o respeito e submissão que tinha pelo marido.
D. Flor e Alina tinham passado adiante e já iam longe, apesar-da sujeição a que obrigavam seu pé leve e agil para acompanhar a marcha lenta do capitão-mór. Atraz, mas em distancia conveniente para não escutar a conversa dos donos da fazenda, seguia o ajudante.
O capitão-mór consertou ainda uma vez o chapéo armado, e retendo o passo, disse para a mulher :
-- Não temos vaqueiro, D. Genoveva !
Depois do que, avançando o passo retido, continuou sua marcha para a casa. D. Genoveva, que esperara a continuação da confidencia, animou-se então a perguntar :
-- E o Ignacio Góes ?
-- O Inácio Góes é um cangueiro ; e mal ppode consigo. Não viu o que sucedeu com a Bonina ? Si lhe tivesse ido logo no rasto, como era sua obrigação, a novilha não havia de sumir-se. Mas elle nem conhece o gado de sua entrega ! Pergunta-se-lhe por uma vaca ; e o homem não faz sinão encher as ventas de tabaco !
Contrariado e prevenido por causa do desapparecimento da novilha que dera de mimo a D. Flor, o capitão-mór achara o vaqueiro em faltas que ainda mais o indispuseram.
-- Desde que tivemos a desgraça de perder o Louredo, que o nosso gado anda a mercê de Deus, D. Genoveva. É tempo de por cobro a isso. O Ignacio Góes nunca prestou nem mesmo para vaqueiro d'uma fazenda, quanto mais para nosso vaqueiro geral com o governo de todas as fazendas. Esse lugar, nós o guardamos para o Arnaldo, que já está em idade de servil-o ; portanto, senhora, cuide com toda a presteza no enxoval da Alina, para casa-la quanto antes com o rapaz. É o que havemos resolvido.
O fazendeiro tinha parado para dizer estas palavras à mulher, cuja sorpresa pintou-se-lhe no semblante.
-- O Arnaldo ? Mas elle não fugiu, Sr. Campello ? interrogou a dona suspeitando que o marido tivesse esquecido aquella circumstancia.
O velho voltou-se com emphase para a mulher e disse-lhe fincando rijo no chão a ponteira de ouro de sua bengala :
-- Hade apparecer e hade casar, que assim o determinamos, D. Genoveva.
D. Genoveva calou-se, e por algum tempo seguiu o marido silenciosamente ; mas levado pelo fio das idéias, seu espirito passara a outro assumpto, pois de repente voltou-se para perguntar ao marido :
-- E Flor ?
O capitão-mór reflectiu antes de responder :
-- Já temos pensado no seu futuro, D. Genoveva ; disse o capitão-mór.
-- Elle está com desenove annos.
-- Até os vinte não é tarde.
-- Mas o noivo ?
-- Eis a difficuldade. Lembramo-nos primeiro, de nosso sobrinho, Leandro Barbalho, de Pajehú de Flores. Agora com a vinda do Marcos Fragoso ao Bargado, estamos em duvida, qual nos convenha melhor.
-- O Marcos Fragoso, Sr. Campello, o filho do coronel ? Acha que Flor póde casar com elle ?
-- Si formos a esperar que appareça um mancebo com dotes para merecer a nossa filha, D. Genoveva ; ella não casará nunca, pois onde está esse ? Nem que vamos a Lisbôa procurá-lo na melhor fidalguia do reino, acharemos um marido como nos o queriamos para Flor. Assim que temos de escolher entre o que ha ; e o Marcos Fragoso é dos poucos ; as maldades do pai, elle não as herdou, com o grosso cabedal de sua casa.
-- Diziam tanta cousa desse moço no Recife ! observou D. Genoveva abaixando os olhos com o recato calmo de uma senhora.
-- Rapaziadas que passam ; quando fôr marido de Flor, elle não se atreverá a faltar-nos ao respeito ; pois sabe que não lhe perdoariamos o menor descomedimento.
-- O Leandro sempre é parente.
-- Mas não é tão abastado como o Marcos Fragoso ; e não tem o seu porte fidalgo, respondeu o capitão-mór que era homem das formas.
Lá no campanario da capella, acabava de soar a primeira badalada do toque de ave-maria. O som argentino da sineta vibrando nos ares foi repercutir ao longe no borborinho da floresta, d'envolta com o mugir do gado e os rumores da herdade.
O capitão-mór parou, e descobrindo-se, poz o joelho em terra para fazer sua oração mental. As pessoas de sua família o imitaram ; e por toda a extensão da fazenda, a faina jornaleira interrompeu-se um momento. O carregador arreara o seu fardo ; o trabalhador cessara o serviço ; e todos de joelhos, com as mãos postas, resaram a singela oração da tarde.
Ainda retiniam as ultimas badaladas das trindades, quando longe, pela varsea além, começaram a resoar as modulações affectuosas e tocantes de uma voz que vinha aboiando.
Quem nunca ouviu essa aria rude, improvisada pelos nossos vaqueiros do sertão, não imagina o encanto que produzem os seus arpejos maviosos, quando se derramam pela solidão, ao por do sól, nessa hora mistica do crepusculo, em que o echo tem vibrações crebras e profundas.
Não se distinguem palavras na canção do boiadeiro ; nem elle as articula, pois falla ao seu gado, com essa outra linguagem do coração, que enternece os animales, e os captiva. Arrebatado pela inspiração, o bardo sertanejo fere as cordas mais affectuosas de sua alma ; e vae soltando às auras da tarde em estroles ignotas o seu hymno agreste.
A voz que aboiava naquelle momento tinha um timbre forte e viril, que não perdia nunca, nem mesmo nas inflexões mais ternas e saudosas. Ainda quando sua melodia se repassava de suavissimos enlevos, sentia-se a percussão intima de uma alma pujante, que brandia às commoções do amor, como o bronze ferido pelo malho.
O gado dos curraes, que já se tinha accomodado e ruminava deitado, levantando-se para responder ao canto do aboiador, mugia não ruidosamente como pouco antes, mas quebrando a voz, em um tom comovido, para saudar o amigo.
Alina estremecera, escutando os sons vibrantes da canção : e seu olhar vago, volvendo em torno cruzou-se além com o olhar de Agrela, que de longe a fitava. Nesse relance chocaram-se as almas de ambos. À muda interrogação da moça, o ajudante respondera affirmando; e à supplica instante que seguiu-se, oppoz um pallido sorriso, cuja ironia tinha um travo amargo e triste.
Tranzida de susto por esse sorriso, a môça inclinou-se para sua companheira e murmurou-lhe ao ouvido :
-- Arnaldo !
-- Aonde ? perguntou Flor distrahida.
-- Não ouve ?
D. Flor applicou o ouvido. Também ella conhecia os módulos frementes daquella voz, que enchia o deserto.
-- E agora ? continuou Alina palpitante. Se elle vem ?... O sr. capitão-mór !...
-- Meu pai o castigará, Alina ; e será um beneficio para elle, que está se perdendo. Arnaldo já não é criança ; carece emendar-se.
Alina retrahiu-se como uma sensitiva. Esperava achar protecção em D. Flor ; e a severidade da donzella, que bem revelava neste incidente a contrariedade de seu humor, a desanimou.
Nas outras pessoas o aboiar, que se aproximava cada vez mais, não causara a menor impressão, como coisa muito comum no sertão. Apenas alguns dos agregados e vaqueiros lembraram-se que era êsse o modo de cantar de Arnaldo; e viram que antes deles já o gado havia reconhecido o filho de seu antigo vaqueiro.
De repente uns gritos no curral chamaram para alí a atenção. Voltou-se o capitão-mór, e inquiriu do Agrela com o olhar a causa do rumor.
-- É a Bonina que apareceu, disse o ajudante apontando para a novilha parada junto à cêrca.
O capitão-mór para alí encaminhou-se tão satisfeito que alterou a sua habitual circunspecção. D. Flor, porém, tinha-se adiantado com Alina e já abraçava a ingrata, quando o pai aproximou-se.
Indagou o fazendeiro do caso; e Inácio Góis, insinuando-se como o descobridor da Bonina, começara uma história em que se derramaria sua habitual loquela, quando D. Flor o atalhou:
-- Alí está quem a trouxe, meu pai!
O capitão-mór ergueu os olhos na direção indicada pela filha, e viu parado a pequena distância Arnaldo montado no cardão. O mancebo tirou o chapéu e ficou imóvel.
O ânimo de quantos assistiam a esta cena estava suspenso no pressentimento de um novo e terrível assomo de cólera da parte do fazendeiro. Entretanto o mancebo aguardava tranquilamente o choque, embora o olhar e atitude indicassem a resolução em que estava de não ceder.
A fisionomia do capitão-mór conservava sua habitual seriedade. A surpresa que a animara um instante, cedera à concentração da vontade sempre morosa e tolhida, quando não a arrebatava a paixão.
Tendo demorado por algum tempo o olhar no semblante do mancebo, retirou-o afinal para volvê-lo na direção do Agrela. Êste, porém, que previra o movimento, simulou uma distração a propósito e esquivou-se à consulta.
Então o capitão-mór revestiu-se de toda a solenidade de aparato e estendeu majestosamente a mão para Arnaldo, o qual apeando-se pronto veio beijá-la comovido.
-- Vá tomar a benção à sua mãe, disse o fazendeiro paternalmente.
Depois que a filha satisfez-se de acariciar a ingrata Bonina, o capitão-mór, passando a título de recomendação um novo capelo no Inácio Góis, tornou à casa acompanhado pela família.
D. Flor dirigiu-se pressurosa a seu camarim; e tomando alí um objeto que procurava, saiu com Alina em busca do casalinho da Justa.
Era noite já. O crescente da lua que surgia no horizonte azul esparzia sôbre a terra uma claridade tênue e indecisa que flutuava na atmosfera como gaze finíssima, tecida de fios de prata.
Além, no terreiro dos agregados, trilavam os sons cristalinos da viola, a ralhar no meio do susurro da conversa. Mais longe, em frente às casas dos vaqueiros, a gente de curral fazia o serão ao relento, deitada sôbre os couros, que serviam de esteiras.
Uma voz cheia cantava com sentimento as primeiras estâncias do Boi Espácio , trova de algum bardo sertanejo daquele tempo, já então muito propalada por toda a ribeira do São Francisco, e ainda há poucos anos tão popular nos sertões do Ceará.
Vinde cá meu Boi Espácio, Meu boi preto caraúna; Por seres das pontas liso, Sempre vos deitei a unha.
Criou-se o meu Boi Espácio No sertão das Aroeiras; Comia nos Cipoais, Malhava nas capoeiras. Foi êste meu Boi Espácio Um boi corredor de fama; Tanto corria no duro, Como na varge de lama. Nunca temeu a vaqueiro, Nem a vara de ferrão; Temeu a José de Castro Montado em seu alazão.
Os tons doces e melancólicos da cantiga sertaneja infundiram um enlêvo de saudade, sobretudo naquela hora plácida da noite.
Entrando no casalinho, Flor e Alina encontraram-se com Justa, que avisada pelo rumor das vozes acudia a recebê-las. Ao clarão do fogo aceso na cozinha próxima avistaram um vulto, que ambas reconheceram, a-pesar-de quase desvanecido na sombra do canto escuro.
Fôra um nobre impulso do coração que alí trouxera D. Flor naquele instante. Não tendo pouco antes agradecido a Arnaldo o serviço que êste lhe prestara, vinha mostrar à ama o seu contentamento e acompanhá-la na alegria que devia sentir vendo restituídas ao filho as boas graças do dono da Oiticica.
Em caminho, porém, a efusão dêste sentimento se acalmara, e de todo aplacou-se ao entrar na choupana. Abraçou com meiguice sua mãe de leite, e entregou-lhe o objeto que trazia na mão: uma bolsa de teia de prata como se usava naquela época.
-- Esta bolsa, mamãe Justa, é que eu trouxe do Recife para Arnaldo. Tinha feito tenção de não lha dar mais, por causa da desobediência que êle praticou, sobretudo depois de enganar-me, fugindo de minha companhia. Mas como êle achou a Bonina e voltou arrependido, eu quero perdoar-lhe, como meu pai. Aquí a tem; entregue-a da minha parte, como mimo que lhe faço.
-- Obrigada, minha Flor! Como êle vai ficar contente!...
O vulto surgiu da sombra. Era Arnaldo, o qual aproximando-se de Justa, tirou-lhe das mãos a bolsa e foi arremessá-la ao fogo.
-- Pague aos seus criados, disse êle com a voz áspera.
-- Arnaldo! exclamou Justa escandalizada.
D. Flor erguera a altiva fronte, e com um gesto de plácida dignidade atalhou a ama:
-- Fez bem: êle não merecia uma lembrança minha.
E retirou-se.
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