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O Sertanejo

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Capítulo 5 · O Sertanejo

O Sertanejo: Primeira Parte - Capítulo V: Jó

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Retirando-se da sala ao despertar da donzella, Arnaldo saira fóra no pateo.

Ahi encontrou ao lado de seu cavallo o baio, que o acompanhara ; prendeu este amarrando-lhe as reédeas a um dos pilares da varanda, e meteu-se pelo arvoredo para não ser visto da gente da casa.

Ao atravessar por detraz da habitação, lançou de passagem do alto da eminencia, um olhar para o terreiro, e percebeu o que lá se estava passando com a chegada de D. Genoveva.

Bem desejava ficar-se ahi, nessa posição, assistindo de longe àquella scena e tomando nella a sua parte, ao menos com os olhos e o pensamento. Mas chamava-o além outro cuidado, que mais o dominava naquelle instante.

Quem o observasse nesse momento notaria a expressão de ternura com que seu olhar envolvia a pessoa de Justa, como que acariciando-a.

Era sua mãi, a quem abraçava de longe, emquanto o segredo que o trazia arredado da casa lhe não permittia receber sua bênção.

Nessa occasião sentiu que lhe puchavam pela aba do gibão ; sem nenhuma sorpresa voltou-se. Encontrou, como esperava, uma cabra rajada, cujos chifres indicavam ser já bem idosa ; levantou-a pelas mãos, e reclinando-se, abraçou-a com effusão. Depois essa caricia affastou o animal, e com o gesto impediu que o seguisse.

Deu soga ao cavalo e desceu rapido a encosta rodeando para sahir em uma vargeta que demorava cerca de meia legoa de casa, ao longo de uma das vertentes da serra e cabeceiras do Sitiá.

De um relance d'olhos investigou o descampado. Apeando-se, endireitou á um ponto onde notara vestigios de palhas recentemente queimadas. Era precisamente o que elle buscava ; ali tinha começado o fogo que se communicara ao arvoredo proximo, e depois se propagara pelas matas da fazenda.

Junto as cinzas, havia no chão uns signaes que não eram de pégadas humanas, nem rasto de qualquer animal conhecido. Esteve observando-os o sertanejo por algum tempo, e seguiu-lhes o traço, que ali perto ia perder-se no matto.

Acompanhou Arnaldo por algum tempo aquella pista por entre o arvoredo, apezar do escuro que já ahi reinava. Afinal parou descobrindo entre o lastro das folhas seccas uma pègada, que não fôra de todo apagada.

Reclinou-se então quasi de bruços e esteve á estudar os traços indistinctos e quase imperceptiveis daquelle vestígio deixado por um pé humano, que ahi passara de fresco.

A profunda investigação do antiquario que se obstina em decifrar nas linhas confusas do hyeroglipho o sentido ignoto, não exige de certo mais forte contensão do espirito, nem tão poderosa reminiscencia.

Entretanto pouco demorou-se no exame o sertanejo, que ergueu-se com a feição de quem acabava de confirmar-se em uma suspeita ;

-- Não me enganei ;

Deliberou então voltar ; mas depois de haver gravado na memoria a lembrança do sitio, com essa energia de percepção que o habito da observação dá ao olhar do homem educado nas brenhas para a luta incessante do deserto.

Tornando ao mesmo logar, o sertanejo contornou a mancha negra que deixara a labareda no chão e que fôra como a cabeceira da ignea torrente, cujo surco rompia a selva.

Do lado opposto, occulto por uma grande touça de carnaubas, o massapê fazia um ressalto, formando uma coroa no alagadiço da varzea. Ali crescia entrelaçado com os estypes das palmeiras, um arvoredo viçoso apezar da estação, e que abrigava sob a rama verdejante uma choça de pegureiro.

O colmo da cabana era de palha da carnauba ; como do tronco eram os esteios e cumieira, e dos talos a porta, aberta nesse momento. O interior constava de um só repartimento com uma emposta de esteira da mesma palha, levantada á meio da choupana.

A um lado via-se um balaio com o feitio de mala e tampa tambem de palha de carnauba trançada ; fronteiro um catre cujo leito era formado das aspas da palmeira que fornecera todo o material da habitação.

Quando o sertanejo chegou á porta da cabana, estava deitado no catre um homem que pela sua immobilidade parecia dormir. O parecer era de um velho no periodo da decrepitude.

Os cabellos compridos até se mesclarem com a barba, formavam como um capello d'alva que lhe cobria todo o busto. Sob este rebuço das cans, apenas se lhe distinguiam das feições as palpebras, cerradas naquelle momento.

O trajo do ancião compunha-se unicamente de uma tunica estreita de algodão, tinta de preto e cuja teia mal urdida era de grosseiro fio. Os pés tinha-os descalços, e cobertos de poeira e cinza.

Arnaldo aproximou-se do catre e apertou a mão do velho :

-- Benvindo, Arnaldo. Já sabia que estavas de volta ; disse o velho sem mover-se.

-- Como o soubeste, Jó, se acaba de chegar ?

-- Não careço de abrir os olhos para ver-te, filho. Desde esta manhã que eu te sinto chegar ; ouço os teus passos.

-- E quando eu chego, não te ergues d'ahi para dar-me um abraço depois de tão longa ausencia ! disse Arnaldo com doce exprobração.

-- Tambem já te abracei, filho, quando entraste, e ainda te tenho dentro d'alma.

O mancebo, habituado a essa linguagem mestica, não mostrava a menor estranheza ; ao contrario reclinou para o catre e estreitou o ancião ao peito.

O velho ergueu-se para corresponder á caricia de seu jovem amigo.

-- Antes de tudo, Job, diz-me, se alguma coisa te faltou ? perguntou Arnaldo com solicitude.

-- Que póde faltar á fera no meio das brenhas ?

-- O socego, Job ; e não ando errado, pois vim encontrar uma cillada, que nos armaram. Mas felizmente cheguei á tempo.

-- Deixa que se cumpra a vontade de Deos, filho. Elle prohibe que arrisques a tua mocidade por causa de uma poeira que se está esboroando a cada momento.

-- E' preciso que abandones por algum tempo a cabana, Job ! tornou o sertanejo com o tom resoluto.

-- Por ventura deixo eu nesta cabana a minha sina, para que abandonando-a, me esconda á cholera celeste, que pesa sobre mim ?

-- Não é a cholera celeste que te ameaça, é a vingança de um inimigo traçoeiro que deitou fogo á matta da fasenda, e o fez de maneira que as suspeitas recahem sobre ti.

O velho sacudiu os hombros.

-- Eu conheci os signais de um rasto apagado no lugar onde começou o incencio ; e já sei de quem é esse rasto. Mas na fazenda o ignoram ; e não faltará quem lance a culpa ao velho Job.

-- Outras maiores pesam sobre este mísero pecador, filho ; e ainda não acabaram de afundar pela terra á dentro.

-- O capitão-mór é severo, e duro de abrandar.

-- Mais dura é a miséria, filho, que já callejou-me a alma. Não se teme da iniquidade dos homens quem se entregou nas mãos de Deos.

-- Faz o que te peço, Job ; afasta-te destes sitios ao menos por alguns dias, até esquecer o perigo por que passou a casa com seus moradores.

-- Eu sou o peregrino da morte, Arnaldo ; quantas vezes já t'o hei dito ! Ando em romaria apos ella, que fugiu-me sempre até este momento. E quando enfim me sahe ao encontro posso eu voltar-lhe o rosto e arredar-me para longe ? Não o farei de certo ; nem tu o exigirás.

-- Não o exijo por ti, sinão por mim.

-- Tambem por tua causa, não devo demorarme neste mundo, onde estou roubando te uma parte dos pensamentos e cuidados dessa mocidade, que merece melhor destino. Não vês como tombam na matta os troncos velhos e carcomidos para deixar que remontem-se os jovens e robustos madeiros ?

-- Não me entendeste, Job ; quando te rogo por amor de mim, é porque si ficares aqui, e da fazenda te vierem buscar, achar-me-hão primeiro.

-- Não farás isto.

-- Enquanto eu vivo, ninguem te offenderá, juro-o pelas cinzas de meu pai. Ninguem, ainda que seja o capitão-mór em pessoa !

O mancebo pronunciou estas palavras com uma articulação energica ; mas logo apos subita emoção lhe offuscou a voz.

-- E tu sabes que o capitão-mór é a sombra de meu pai neste mundo.

O ancião ergueu-se promto :

-- Caminha, Arnaldo ; eu te seguirei aonde fores.

-- Não sairás assim por teu pé, que deixarias o rumo para te buscarem.

Proferindo estas palavras o mancebo cingiu os rins do velho com os braços e carregou-o aos hombros por um largo tracto, até dentro da matta e o pousou em uma cepa de gamelleira.

Tornou então atraz, cortou uma palma de carnaúba que esgarçou com a faca, e entrou na cabana, onde apagou os rastos que ahi tinham deixado seus passos.

Para consegui-lo, sassara a poeira, prurindo sutilmente o chão com os foliolos da palha verde, de modo que a terra parecia intacta de qualquer impressa, e apenas ao de leve frisada pelo sopro da viração.

Concluida a tarefa dentro, sahiu fóra, andando sempre de costas, e expungindo do caminho pelo mesmo processo não somente o rasto que agora ia deixando, como os anteriores.

Chegou assim ao sitio onde ficara o velho, o qual em completa contradição com a sua tenacidade recente, deixaxa-se conduzir como uma creança docil e submissa.

Carregou-o outra vez Arnaldo aos hombros, e desta vez levou-o até um bamburral espesso e impenetravel, que embrenhava as fragas alcantiladas de um grupo de penhascos.

Mergulhando por baixo dessa espessura, em um ponto onde mais fechada se mostrava, o sertanejo surdiu ao cabo de algumas braças em uma fenda de rochedo, que formava a boca de uma gruta.

A poucos passos, achou-se em uma cripta aberta na rocha viva, e que recebia a claridade de estreitas fisgas da lapa concava que lhe servia de abobada.

O sertanejo triscou fogo, e accendeu um rolo de cera amarella guardado n'uma greta da pedra.

A um canto via-se no chão a cama feita de um couro de boi em cabello, servindo-lhe de cabeceira a armação dos chifres do mesmo animal presos á caveira.

Da parede granitica da caverna pendia uma canastrinha tambem de couro de boi em cabello, como ainda hoje se usam no sertão, e chamam-se broacas.

-- Ahi está a cama, e aqui dentro as provisões ; disse Arnaldo. Promettes não sahir deste retiro enquanto não passar o perigo, Job ;

-- Vae em paz, filho. Estou bem aqui ; e como não estaria, si essa é já meia sepultura, que me começa a enterrar em vida ? Guarde-te Deus !

Arnaldo não se demorou na gruta, sinão o tempo necessario para installar o novo habitante desse ermiterio. Uma vez fora, desandou o caminho percorrido, desvanecendo todo o indicio de sua passagem até o ponto onde havia deixado o seu cavallo, que o esperava sem nenhuma impaciencia, resmoendo um abrolho mais novo de mandacarú.

Cavalgou e affastou-se, não deixando apoz si o minimo traço de sua ida á choça do velho Job. Si alguem se lembrasse de rasteal-o, não descobriria sinão que passára á cavallo pela varzea na direção das vertentes.

-- Amanhã nos entenderemos, Aleixo Vargas ; disse entre si o moço sertanejo.

E buscou no recondito da floresta a sua malhada favorita. Era esta um jacarandá colossal, cuja copa magestosa bojava sôbre a cupola da selva como a abobada de um zimborio.

Ali costumava o sertanejo passar a noite ao relento, conversando com as estrellas, e a alma á correr por esses sertões das nuvens, como durante o dia vagava elle pelos sertões da terra.

E' este um dos traços do sertanejo cearense ; gosta de dormir ao sereno, em céo aberto, sob essa cupola de azul marchetado de diamantes, como não a tem nos mais suntuosos palacios.

Ahi, no seio da natureza, sem muros ou tectos que se interponham entre elle e o infinito, é como se repousasse no puro regaço da mãi patria, acariciado pela graça de Deos, que lhe sorri na luz esplandida dessas cascatas de estrellas.

Arnaldo desaparelhara o animal que tambem tratou de buscar a sua guarida. Os arreios e a maca de pellego foram guardados na bifurcação dos galhos do jacarandá, enquanto o viajante encostado ao tronco fazia uma tão rapida como sobria refeição.

Compunha-se esta de uma naca de carne de vento, e alguns punhados de farinha, que trazia no alforge. De postres um pedaço de rapadura, regado com agua da borracha.

Era noite cerrada.

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Sinopse

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