Universo da obra
Universo da obra
Em caminho da casa de Ambrosina, Gustavo ia formulando intimamente as melhores considerações sobre os seus próprios atos. Sentia esse lisonjeiro gozo que experimentamos ao fazer bem a qualquer pessoa, e ao qual, sem intenções paradoxais, se poderia chamar egoísmo da bondade ou desvanecimento do altruísmo.
Calculava de si para si que iria entestar com uma pantomimeira impertinente e orgulhosa, ele, porém, ia bem prevenido, e não desanimaria por isso, nem se daria por achado -- havia de entregar-lhe a carta da pobre lavadeira, declarando francamente o deplorável estado em que viu a infeliz, e obrigando, com ríspidas razões, à famigerada Condessa, a mostrar-se menos desumana com a desgraçada que a trouxe nas entranhas.
E até, como sucedera noutro tempo com Gabriel em circunstâncias, aliás, bem diversas, punha já em ordem os seus belos raciocínios de poeta, formava em linha de batalha os esquadrões dos implacáveis e persuasivos argumentos, com que havia de vencer aquele duro coração de libertinha, e arrastá-lo à compreensão dos deveres filiais, por entre uma brilhante escolta de objetivos em brasa.
E caminhou firme para o alcácer inimigo, cuja porta atravessou impávido sendo introduzido lá em cima à voluptuosa saleta de espera por uma francesa velha e arrebicada, que lhe deu familiarmente o tratamento de "Cher mignon".
Gustavo, depois de medir desdenhosamente de alto a baixo, disse-lhe em tom de ordem que fosse prevenir à dona da casa da sua presença ali. E, fechando a cara e dilatando os lábios, soprou com força, como se atiçasse o morrão que levava aceso para lançar fogo à sua artilharia.
Mas, ao primeiro olhar da inexpugnável Ambrosina, que não levou muito a vir, todo esse arsenal de guerra se dispersou pelo ares, que nem um frouxel de paina ao sopro de inesperado tufão.
Ela, entretanto, parecia indiferente, e se alguma cousa transpirava dos seus gestos e da sua fisionomia, era uma formal amabilidade, cujo frio sorriso não passava dos dentes.
O noivo de Estela, embatucado e fulo de acanhamento, gaguejou algumas palavras de cortesia e entregou-lhe a carta de Genoveva.
A Condessa o fez passar para a mesma antecâmara em que recebera o Médico Misterioso, ofereceu-lhe uma cadeira e foi sentar-se a um canto, no divã, a romper vagarosamente o sobrescrito da carta.
Gustavo observava-a numa atitude cerimoniosa. Por mais esforços que fizesse, não conseguia pôr-se à vontade defronte daquela mulher deslumbrante, que o dominava com o seu ar de imperatriz romana. Sentia-se oprimido por uma irresistível e humilhante fascinação.
Vésper estava com efeito bela. Os braços e a garganta surgiam-lhe de uma confusão de rendas claras, como de um floco de mitológicas espumas do oceano. A cabeça, rica de contorno, destacava-se no enrodilhado artístico dos cabelos. Os olhos, mesmo quando fechados, transluziam os sutis fulgores da volúpia, e a boca o cruel segredo das paixões calculadas, das febres previstas e dos grandes delírios oficias do amor.
Ao terminar a leitura, ergueu-se altiva, e perguntou ao portador da carta se sabia quem a tinha escrito.
-- Um seu criado... disse timidamente o rapaz.
-- O senhor? Mas nesse caso, entre o senhor e minha mãe há velhas relações?...
-- Absolutamente, minha senhora. Eu mal a conheço!...
-- E ela confiou-lhe tudo o que vem escrito?!...
-- Sua mãe havia pedido a uma vizinha que lhe fizesse a carta; a vizinha não pôde servi-la e encarregou-me por sua vez de...
-- Ó senhores, com efeito! Mas então, minha mãe não teve o menor escrúpulo de envolver um estranho nos mistérios de minha vida?
Gustavo sorriu.
-- Descanse, disse ele, erguendo-se; nunca terei ocasião de falar sobre semelhante cousa!...
-- Hein?! perguntou ela, virando rapidamente a cabeça.
-- Digo que não terei ocasião de falar no que me confiou a senhora sua mãe...
-- E o que quer dizer o senhor com isso?
-- Oh, minha senhora! quero dizer que não me meto com a vida alheia.
E o rapaz acrescentou, depois de uma pausa, durante a qual Ambrosina parecia meditar:
-- O acaso conduziu-me ao lado de sua mísera mãe; ao vê-la fiquei comovido, ofereci-me, não só para escrever essa carta, como para a entregar pessoalmente e exigir a resposta. Se a senhora, porém, não estiver por isso, eu direi à pobre lavadeira que se console, e veremos por outro lado... Sempre há de aparecer algum hospital que a receba por... compaixão.
-- Mas, para que diabo me está o senhor a mortificar?... Minha mãe fala-me aqui a respeito da venda que fiz da casa do Engenho Novo: eu, porém, não cometi nenhuma ilegalidade com isso -- a casa era minha! -- nem podia eu adivinhar que um fato, aliás tão insignificante, trouxesse tais conseqüências!... Minha mãe, se não está comigo, é porque não quer... ela sabe perfeitamente que eu não lhe fecharia a porta. E para acabar com a questão, vou dar-lhe uma mesada.
E tornou-se a assentar-se.
-- Mas, é o diabo! disse ela depois. Não me convinha envolver estranho algum neste negócio!...
-- Bem! rematou Gustavo, tomando o chapéu; isso já não é comigo... Direi, pois, à senhora sua mãe alguma cousa a respeito da mesada, e mais tarde, então, a senhora responderá à carta por escrito...
E fez um cumprimento, despedindo-se de Ambrosina.
-- Ainda não se vá!... pediu esta, com a voz suplicante e lançando sobre Gustavo um belo olhar de leoa subjugada.
-- Em que lhe posso ainda ser útil?... perguntou o rapaz voltando-se.
-- Em muita cousa, disse ela, tomando-lhe o chapéu e segurando-lhe uma das mãos. Venha cá... Conversemos...
E depois de novamente assentados:
-- O senhor vai ser o meu procurador em todos os negócios que disserem respeito à minha mãe.
-- Está bem...
-- Imagine que será a única pessoa senhora desse segredo, e que deve guardar sobre o assunto a maior discrição...
-- Pode ficar descansada.
-- Já que o acaso o pôs ao meu lado neste triste negócio, eu só ao senhor confiarei os meus sentimentos e as minhas intenções... Não me diga que não!
E, abalando mais a voz e chegando-se intimamente de Gustavo, acrescentou, quase com a boca em seu ouvido:
-- Não calcula quanto sofro!... Não calcula quanto me custou fingir a indiferença, que ainda há pouco afetei ao receber esta carta!... o modo pelo qual está ela escrita revela coração e caráter. Sei que nunca me hei de arrepender de fazê-lo solidário de minhas penas íntimas ...
O senhor será o único homem que participará dos meus segredos, mas antes disso há de prometer-me uma cousa...
-- Que cousa?...
-- Ser meu amigo e prová-lo prestando-me desde já um serviço...
-- Qual é?...
-- Prevenir minha mãe de que eu irei hoje visitá-la, e vir buscar-me à meia-noite para me levar ao cubículo em que ela mora. Está dito?...
-- Pois não...
-- Oh! Eu lhe serei muito grata!... Conto então com o senhor à meia-noite?
-- Sem falta.
-- Pois bem, à meia-noite o espero aqui mesmo. Já me encontrará pronta para o acompanhar.
-- Nesse caso, até logo, disse ele.
-- Adeus, meu amigo.
E Ambrosina estendeu a fronte, que Gustavo não beijou.
À hora predileta, já ela com efeito, entocada num carro de praça, esperava pelo rapaz defronte da porta de casa. E dentro em pouco chegavam os dois à miserável residência da viúva do comendador Moscoso.
Graças a Gustavo, a lavadeira tinha sido antecipadamente prevenida daquela misteriosa visita.
Todo o cortiço ressonava, prostrado pela grossa labutação desse dia.
Ambrosina, vestida de negro e embiocada em mantilha entrou na estalagem pelo braço do poeta.
Ia pressurosa e confusa, mas não era a mãe, coitada desta! quem a preocupava nesse instante, era o enigmático rapazola que lhe dava o braço. Apesar de toda a sua diabólica perspicácia, não tinha ainda a presumida conseguido formar seguro juízo sobre que espécie de animal vinha a ser aquele estranho escrivinhador de novelas, que a tratava por cima do ombro e com um sorriso tão irritante quão pouco amáveis eram as suas palavras.
Ah! que Gustavo lhe preocupava o espírito e a trazia intrigada desde aquele seu primeiro olhar à porta do Arnaud, disso já não havia dúvida. Ambrosina a princípio procurou, não obstante, explicar o fato por um simples fenômeno de antipatia, mas depois teve de abrir mão dessa hipótese, à vista do insólito abalo nela produzido pelo espinhoso bilhete do estouvado na noite dos seus maiores triunfos, e agora pela quase agradável impressão que lhe causara a generosa atitude do boêmio com respeito à pobre velha, de quem ela era filha e mal se lembrava.
Sim senhor! dizia consigo a loureira; podia ele gabar-se de ter maravilhosamente comovido o belo e frio mármore de que era talhada a Condessa Vésper!
-- Qual mármore! Os trinta anos de uma mulher, voluptuosa e materia1ista como aquela, jamais chegam desacompanhados de fundas modificações no seu temperamento. Ambrosina galgara à curvilínea idade em que a mulher perdida faz grande questão dos seus momentos de amor ex-ofício e, como para se desforrar dos intermináveis tédios do amor profissional, escolhe detidamente, gulosamente, contemplando, estudando em concentrado silêncio de conhecedor, o tenro e apetitoso eleito dos seus dispépticos sentidos, para afinal o saborear em remancho, reservada e grave, plenitude de uma delícia cevada e egoística. E Gustavo tinha então de vinte e quatro a vinte e cinco anos, fortes, sadios e bem aparelhados.
Essa é que era a verdade. Não se vá porém supor que, por ter já trinta anos, estivesse Ambrosina menos bela; ao contrário, o que perdera em graça juvenil ganhara em femínea plástica atingindo a esse glorioso apogeu da carne, que cresce precede na sua órbita fatal ao primeiro pungir do declínio, mas que naquele brilhante e rápido fastígio atinge ao mais alto grau da perfeição da forma.
Será preciso dizer que tão inesperada resistência por parte do mocetão, excitou, naqueles zodiacais e formosos trinta anos, a flama acesa pelo sensual capricho do momento? e que, ao terminar a visita, já se sentia a caprichosa perfeitamente resolvida a capturar o revesso boêmio, custasse o que custasse?
A visita foi breve, mas em compensação muito penosa para a rapariga. Não contava esta encontrar a mãe em tão negro e repulsivo estado de miséria; as acres fezes da existência tinham de todo corroído o que porventura ainda restasse de coragem na pobre vencida, cuja derradeira aparência de energia só na aguardente encontrava, agora por último, uns vislumbres de muleta. A desgraçada, quando logo pela manhã não bebia ó seu trago de cana, desabava para o resto do dia numa tristeza que a punha cismadora e demente.
Ao ver entrar a filha no quarto, ela começou a chorar. Ambrosina correu a beijar-lhe a mão, e com um gesto pediu a Gustavo que se afastasse.
O rapaz saiu, cerrando sobre si a porta, e, durante a abafada conversa das duas mulheres, ouvia-se o som dos passos dele, que lá fora passeava, à espera, por entre a récua de casinhas do cortiço.
Ficou resolvido que Genoveva, com um nome suposto iria para a companhia da Condessa Vésper. Não foi sem repugnância que a infeliz, apesar de seu geral desfibramento, aceitou semelhante derivativo da miséria, mas esse pobres restos de dignidade não conseguiram vir à tona do lodo em que a triste mãe se aniquilava. Iria viver das migalhas dos bródios pagos pelos amantes da filha, e bem compreendia ela, coitada! o alcance de tão extremo recurso, porém que remédio, se lhe faltava agora o ânimo para tudo, até para deixar de existir?
Já em caminho de casa, Ambrosina, fazendo-se muito íntima de Gustavo e sem largar da boca o nome da mãe, encarregou o rapaz com respeito a esta de várias delicadas incumbências.
-- Não a desampare, por amor de Deus!... dizia ela, segurando-lhe as mãos; faça com que mãezinha vá para junto de mim o mais depressa possível!... Se soubesse como dói na consciência a ter deixado chegar àquele estado!... O senhor é a única pessoa envolvida nisto... Não me abandone, que eu morreria de desgostos! Mãe, só temos uma na vida! lembre-se, meu amigo, que é uma filha que intercede aflita pela salvação de sua própria mãe!
-- Não me descuidarei, descanse! balbuciou ele, um pouco perturbado.
-- Ela prosseguiu:
-- A ninguém, a não ser ao senhor, seria eu capaz de falar deste modo... Veja como correm as lágrimas dos olhos!
E levou às suas faces as mãos de Gustavo, demorando-as depois contra os lábios, como para lhe dar, com um ósculo de gratidão, humilde cópia de quanto a penhoravam aqueles serviços.
-- Mas que profunda confiança me inspira a sua pessoa!... segredou ela, acarinhando-lhe as mãos com os lábios. Nunca fui assim, creia, com mais ninguém, nem mesmo com, meu marido! Oh! se o senhor me abandonasse neste transe, nem sei o que seria de mim!
-- Não tenha receio
-- Se for preciso gastar, não meça despesas... olhe! o melhor será levar já algum dinheiro... Eu vim prevenida!
-- Não, não! Dir-lhe-ei ao depois o que gastar...
-- Obrigada! obrigada! Sei que o senhor vai ter incômodos e infinitos aborrecimentos, mas neste mundo devemos socorrer-nos uns aos outros, não é verdade? Oh! como seria eu feliz se algum dia lhe pudesse ser útil em qualquer cousa! Socorra minha mãe, e pode dispor de tudo que possuo! Disponha de mim! toda eu estou sua da ponta dos pés à ponta dos cabelos!
-- Muito agradecido, mas que exagero! Não vejo motivo para tanto!
E Gustavo, sentindo agitar-se-lhe o sangue, afastou-se discretamente do corpo de Ambrosina, que ao dele se havia ligado inteiramente.
-- Ah! chegamos! exclamou o perseguido com um suspiro de desabafo.
O carro havia com efeito parado à porta da Condessa.
-- Não se vá... disse esta ao moço, despedindo o cocheiro. Sinto-me tão abalada pela comoção, que receio ficar sozinha... Faça-me um pouco de companhia à ceia... É um favor que lhe peço. Juro que não o deterei por muito tempo!...
Gustavo esquivava-se com desculpas e agradecimentos, sentindo-se quase ridículo.
Ela o prendeu pelos braços, puxando-o para dentro do corredor. E, tomando-lhe a cabeça entre as mãos, disse-lhe com o rosto encostado ao dele:
-- Não sejas tolo, meu amor!
E com violento beijo, em que os dentes dos dois se chocaram, Ambrosina injetou-lhe no sangue o alucinante morbus da sua venérica luxúria.
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