Universo da obra
Universo da obra
Salomé, que entrava trazendo na mão a bandeja com a merenda estacou, ao dar com Rabina
-- Por onde entrou este mariola?.. .
-- Pela janela, disse o rapaz.
-- Pela janela?!
-- Foi o sr. vigário que me deu licença. . . acrescentou Rabina coçando a nuca e passeando o olhar entre a criada e o padre.
-- Pois o sr. vigário fez muito mal!.. . declarou a mulher, depondo a bandeja sobre a mesa. Fez muito mal em deixar este tratante saltar a janela! Assim ele, nunca tomará caminho! Não sei o que quer dizer um biltre que. ..
Ângelo cortou-lhe a frase, segurando-lhe uma das mãos com ambas as suas.
-- Minha boa Salomé, interrogou vivamente interessado; diga-me com franqueza uma cousa: está bem certa de que eu ontem à noite não saí de casa?... Vamos! responda-me lealmente!
-- Pior vai o negócio! . . . pensou a criada, e acrescentou em voz alta:-- Como quer que lhe diga que não, sr. vigário?...
Ângelo voltou-se para o pequeno:
-- E tu, perguntou-lhe, estás bem certo de que viste o enterro da. . .
-- Da Condessa Alzira?. . . acabou Rabina Ora se estou! Pois se de lá venho!
-- Eu cada vez entendo menos... resmungou Salomé.
E disse, de si para si:-- Muito custa a mentir, mesmo por conta alheia!. . .
Depois, continuou em voz alta, falando ao cura, que parecia muito preocupado:-- O verdadeiro, sr. vigário, é tomar a sua merenda, que está esfriando, e deixar-se de querer saber de cousas que se não explicam! . . . Boa noite! Vou acender o altar da Virgem. . . Agora, veja se se deixa ficar aí, a cismar, em vez de fazer a sua refeição. . .
E, dando uma palmada na cabeça de Rabina
-- Anda tu também, daí, ó coisa-ruim!...
-- Boa noite, senhor vigário!
Ângelo ao ficar só, cruzou as mãos sobre o ventre e fechou as sobrancelhas fixamente, no mais intenso ar de interrogação e de pasmo.
-- Com que. . . pensou ele; sonhei que a vi morta, e ela com efeito morreria, justamente nessa ocasião. . . Logo, Deus não me abandonou de todo, e, ao contrário, protege-me, envolvendo-se neste meu amor pecador e profano!. . . Ah! sim, recordo-me agora que, no estranho sonho dessa noite, a própria Alzira me dizia que o Criador é o grande e nutriente manancial de ternura, que noite e dia se derrama sobre o mundo, para o fecundar, como o sol fecunda a terra!... Sim! sim! agora tudo compreendo! É Deus que vem em meu socorro! é Deus que me acode e me aparece em sonhos, como fazia antigamente com os eleitos do seu amor!. . . Sim! é que o pai misericordioso, reconhecendo a minha inocência e a pureza do meu desespero, enviou-me por um dos seus anjos o beijo de paz! . . .
E, abrindo ambas as mãos sobre o peito, respirou desabafadamente, e, cousa que havia muito não fazia, sorriu.
-- Ah! suspirou; que dose tranqüilidade sinto agora invadir-me a alma!. . . Obrigado meu bom pai! meu bom senhor! meu bom amigo!
E deixou-se cair de joelhos no chão, com os braços abertos e os olhos erguidos para o céu, na favorita postura dos seus êxtases.
-- Meu protetor e meu abrigo, disse contritamente; às vossas sacrossantas mãos me entrego todo, para que me protejais contra as cousas vis e torpes deste lameiro de lágrimas!... Minha alma já não sente o frio que a torturava; sente-se aquecida e agasalhada no aconchego do vosso peito de amor e perdão, sente-se fortalecida na fé e na confiança da vossa infinita bondade! Meu coração, pai dos desamparados, já me não quer saltar encandecido de dentro do peito em brasa, e meu sangue já me não ameaça sufocar o cérebro com uma terrível e infernal onda de fogo... Obrigado, meu Deus!
E acrescentou, depois de respirar de novo, sorrindo para o espaço:
-- A luz da vossa divina graça principia a iluminar-me, como nos primeiros tempos da minha virginal pureza d'alma. Vou adormecer como dantes, como um justo, como um dos vossos servos bem-aventurados. . . Amanhã poderei enfim celebrar o sacrifício da missa, sem o menor escrúpulo de consciência. . . Já não recearei que meus lábios queimem a hóstia consagrada com o fogo que os abrasava. . . Obrigado, meu Deus!
E fez o sinal-da-cruz, ergueu-se, e recolheu-se à cama.
Daí a pouco dormia tranqüilidade, sorrindo
como uma criança.
A casa adormeceu também. Só se ouvia o vento da noite sussurrar nas folhas dos castanheiros lá fora na estrada.
Ângelo principiou a sonhar:
Um coro etéreo descia dos céus e vinha cantar-lhe ao ouvido o epitalâmio dos anjos. O nicho da Virgem iluminava-se de fogos cambiantes, derramando no aposento uma doce claridade de luar multicolor, e a Santa sorria para ele, banhada de ternura, toda de branco e coroada de flores de laranjeira, como uma noiva.
Ângelo volta-se todo para ela e sonha que lhe estende os braços, pedindo-lhe que desça do seu altar e venha colocar-se ao lado dele.
Mas a Virgem começa a tomar as feições de Alzira. A sua branca roupa de noiva transforma-se em longa túnica mortuária, soltam-se-lhe os cabelos e caem-lhe pelas espáduas, como os da morta do castelo de Aurbiny.
Os olhos tingem-se-lhe de uma sinistra sombra cadavérica, e os seus lábios fazem-se roxos e tiritantes de frio.
Ângelo tem medo e volta-se todo contra a parede, cosendo-se aos travesseiros e tremendo aflito.
Mas o espectro de Alzira desce do nicho, e dirige-se para a cama dele.
Ângelo, frio de terror, sente-lhe os passos no chão, e ouve o estranho pisar daqueles pés duros e ossificados pela morte.
Retrai-se, encolhe-se, e arqueja com o rosto escondido.
Mas Alzira vai até à cama, verga-se sobre ele e toca-lhe no ombro com a mão gelada.
O mísero quer gritar e não pode.
Ela senta-se ao lado dele. e beija-lhe os cabelos.
Ângelo estremece, mas um voluptuoso fluido percorre-lhe o corpo inteiro, acorda-lhe o coração do sobressalto em que estava, e o seu medo vai a pouco e pouco desaparecendo.
-- Ângelo!... disse-lhe ao ouvido o espectro, com a voz mais doce e amorosa que um suspiro de saudade; Ângelo, amado de minha alma! . . . Ouve! . . . Volta-te para a tua Alzira!... Escuta-me!...
-- Alzira? exclamou ele, voltando-se.
-- Sim, meu amado, sou eu...
-- Que desejas de mim?... De onde vens?...
-- Venho de muito longe... venho da outra margem da vida, que tu ainda não conheces. . . venho do mundo dos mortos, mundo de sombras e de sonhos!. . . venho de onde nada se conserva desta vida senão a memória de ser aqui que amamos!...
-- E que desejas de mim?. . .
-- A tua companhia. Venho buscar-te.
-- Buscar-me?...
-- Sim. Com a força do meu amor, consegui vencer o abismo que nos separava e chegar até aqui. Minha alma foi arrojar-se aos pés de Deus e pedir-lhe, pelo muito que sofri em vida por amar-te em segredo, que lhe concedesse a graça de aparecer-te todas as noites durante o sonho. Deus, apiedado, porque eu te não possuí na vida dos sentidos, consentiu que me pertencesses nesta existência espiritual, melhor que a outra. Aqui me tens, e todas as noites, mal adormeças, eu virei buscar-te.
Ângelo escutava-a atentamente.
-- E para onde tencionas levar-me?. . . perguntou depois do primeiro abalo.
-- Para toda a parte, respondeu Alzira, onde possamos esquecer as dores que já sofremos, e fruir as delícias que ainda não gozamos! Para toda a parte, onde cada lágrima derramada pelos nossos olhos, seja resgatada por um beijo de nossos lábios. . .
E deu-lhe um beijo na fronte.
Ângelo soltou um gemido e retraiu-se.
-- Que tens?. . . indagou ela com meiguice.
-- É que teus beijos são frios como as gotas da noite! . . . Parecem beijos de uma estátua gelada!. . .
-- Sim! Enregelei na viagem. . . Ah! São tão frias as paragens que percorri!. . . Mas tu me aquecerás com os teus ardentes lábios de moço! tu me darás um pouco de calor do teu sangue!
Ângelo retraiu-se ainda.
-- Não tenhas medo, prosseguiu ela; este frio é todo exterior, meu coração arde-me dentro do peito, como um vulcão sob a neve. Não fujas de mim! Vamos! Ergue-te! Principiemos a nossa existência feliz! Vem, que só poderemos estar juntos até ao raiar do dia! Não há tempo a perder!. . .
E a sua túnica mortuária transformou-se por encanto num rico vestido de castelã da época, e o seu porte readquiriu a primeira graça fascinadora.
Ângelo ergueu-se deslumbrado, e viu com surpresa que a sua pobre sotaina também se transformava nas belas roupas de um cavalheiro nobre, e que seu corpo readquiria destreza e força.
-- Que é isto? exclamou ele.
-- É uma das vantagens da nova existência que te ofereço. Agora já não és um miserável cura de aldeia, és um homem, és livre, és senhor do teu corpo e de tua alma! Correrás comigo o mundo inteiro! Ao meu lado conhecerás todos os gozos, todas as paixões, tudo enfim que na outra vida representa os prazeres que te são vedados!
Ângelo passou-lhe o braço na cintura.
-- Sim! sim! disse. Eu irei contigo! Quero gozar! Quero viver!
E uma larga estrada maravilhosa abriu-se defronte deles, onde dois negros cavalos, esplendidamente ajaezados, impacientes os esperavam relinchando.
-- Vamos! Vamos!
Ângelo e Alzira montaram e partiram agalope.
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