Leia agora
Morbus Machinum I - O Câncer das Máquinas

Universo da obra

Morbus Machinum I - O Câncer das Máquinas

Capítulo 1 · Morbus Machinum I - O Câncer das Máquinas

01– Homero

1 de 5 ≈ 61 min de leitura

 Há tempo para tudo na vida, e um tempo para cada coisa debaixo do céu.

Ilíada (Livro III)

 

Todos os dias da semana haviam amanhecido com chuva, mas, naquele sábado, o Sol resolvera tomar conta do céu, e um lindo azul coloria e aquecia o lado de fora das pseudo-janelas do quarto de Ash. Dentro do aposento que, agora, servia como seu quarto, é claro, nem um grau centígrado escapava do controle do ar-condicionado.

Acordou bem-disposta; finalmente, poderia aproveitar melhor o ar livre, a brisa e a natureza para acompanhá-la nas suas atividades físicas matinais. Não que não gostasse de realizá-las, mas ter que fazer tudo na academia indoor era muito, muito pouco estimulante. Uma dose de vida real, às vezes, era tudo o que precisava para manter também a sua saúde mental em forma.

– Bom dia, princesa! Hoje vamos nos exercitar ao ar livre, certo? – disse 8·3, uma voz ambiente que atuava como um mordomo pessoal.

Ash olhou para a parede de LiquidGlass, um tipo de vidro-cerâmico capaz de se moldar em qualquer forma desejável, e pediu:

– Meu amor, me deixe olhar como está o dia lá fora, por favor...

“Meu amor” era uma forma um tanto excêntrica para se referir a um robô – ou, mais que isso, ao sistema de máquinas que controlava sua casa. Na verdade, o que Ash genericamente conhecia como 8·3 era um sistema complexo de vozes, drones, robôs androides e equipamentos diversos, que mantinham a casa em ordem. Cuidava de Ash desde que ela era um bebê recém-nascido – não que ela se lembrasse disso de fato. Os robôs do sistema 8·3 eram a família de Ash, ou, pelo menos, o que se convencionou chamar de “família” no século XXV. Ash era um girino de dezessete anos, que estava prestes a se tornar adulta.

No dia anterior, Ash havia lido um livro antigo de meados do século XX, e havia aprendido o significado do termo “meu amor”. A expressão havia sido uma forma carinhosa de se referir às pessoas das quais gostamos; ela sabia exatamente o que a palavra “amor” significava: um sentimento antigo, já em desuso, que despertava reações incontroláveis nas pessoas... mas expressões e culturas antigas eram algo que agradava à garota, e, por isso, ela decidiu usar esse conhecimento de alguma forma.

8·3 parece ter gostado da brincadeira, ou, pelo menos, não se importou com ela. Simplesmente atendeu ao pedido que acompanhou o “meu amor” de Ash, fazendo com que uma parte da abóbada do teto se tornasse transparente, para que ela pudesse observar o céu azul.

– A propósito, Ash, seu café-da-manhã está na mesa.

– Ah, obrigada, 8·3, já estou indo para lá. O que temos hoje?

– Consegui ler seus índices glicêmicos e nutricionais durante a noite, e preparei uma salada de frutas com pouco creme e torradas secas com geleia de pitaia – disse 8·3.

– Pitaia? Aaarghh!! – exclamou Ash, fazendo cara de nojo – Você não tinha nada mais gostoso para me dar nesse dia lindo? Sei lá, um belo chocolate...

– A essa hora da manhã, o sabor do chocolate não é recomendável, Ash. – explicou 8·3. – Se você comesse algo com sabor chocolate agora, seu organismo não iria chegar até à tarde com a energia necessária. Mas posso abrir uma pequena exceção, e te dar um copo de leite com chocolate quente assim que você voltar da sua caminhada. Que tal?

– Não, não, esquece... Chocolate quente não combina com esse calor e esse sol – respondeu Ash, com certo desânimo – Depois de voltar da caminhada, eu prefiro um bom suco de frutas isotônico, para repor os líquidos.

  – Boa menina, é assim que eu gosto de te ouvir, “Meu Amor”! – disse 8·3 em resposta, e, se a voz tivesse um corpo físico, Ash poderia jurar que veria uma piscadela e um sorriso.

Colocou seu top e sua legging rosa. Adorava usar rosa em dias de sol; para os dias de chuva, preferia o azul claro. Fez sua caminhada de 10 quilômetros até a praça de atividades físicas, onde usou os aparelhos ao ar livre para praticar mais alguns exercícios de força, antes de fazer o percurso de volta alternando as caminhadas com piques de um quilômetro de corrida. Quando faltavam dois quilômetros para chegar em casa novamente, pediu ao mordomo:

– 8·3, prepare meu banho... estou chegando.

– Já estou preparando, Ash. – respondeu a voz. É claro que, devido a todos os drones e geolocalizadores presentes no ambiente onde ficava a casa de Ash, ele já sabia que ela chegaria em breve, porque sabia sempre, exatamente, onde Ash estava – e o que estava fazendo.

A água fria foi um estimulante a mais para seu corpo; ajudou a retesar e a relaxar toda a musculatura logo em seguida. Enquanto tirava todas as impurezas e o suor dos seus cabelos negros, lavava também seus pensamentos, refrescando-os.

– Seus níveis de stress andam um pouco altos ultimamente... – reportou 8·3 – Você anda muito tensa com sua passagem para a vida adulta, não?

– Como sempre, você sabe tudo o que acontece comigo, não é?

– Fui criado para isso, mademoiselle... – 8·3 também havia sido criado para ser irônico, sempre que possível, e Ash adorava esta faceta do seu criado. – Tudo o que posso te dizer, se serve de consolo, é que esta é uma sensação extremamente comum e compreensível. Todas as meninas da sua idade sentem esse medo, e todas elas conseguem passar por isso numa boa...

– Não sei se é medo... Acho que tem mais a ver com não querer a mudança. – disse Ash, pensativa, após pegar a toalha para se enxugar. – Não sei se vou gostar da companhia das outras pessoas, e não sei se vou gostar de carregar aquela... barriga enorme? Por nove meses? Por que é que tem que ser assim?

– Ué, você já estudou quase tudo o que tinha pra estudar sobre a concepção... – interveio 8·3 – Essa é uma das partes que a tecnologia não conseguiu eliminar, embora tenha ajudado bastante. Antigamente, esses nove meses eram um tormento para as mulheres, e ainda corriam riscos de vida desnecessários. Hoje em dia, você não precisa nem mesmo parar as suas atividades físicas.

– Parar, não, mas vou ter que diminuir bastante... e eu adoro essa parte do dia, 8·3.

– Tudo tem seu lado bom, menina – 8·3 ainda tentava argumentar – Após esse pequeno período, você estará livre para conviver na Cidade dos Adultos. Tenho certeza de que você vai adorar!

– Eu não tenho essa certeza. Eu já adoro a minha casa, o meu quintal, as minhas atividades... não sei se estou disposta a dividir tudo isso com outras pessoas.

– Você irá morar em uma Confraria, e vai conviver com diversas pessoas. Isso é uma coisa boa, mas você não precisa ser “amiga” de ninguém. Essa é a vantagem. Se você quiser, pode escolher seus amigos e até mudar de Confraria, dependendo dos motivos apresentados. E eu ainda vou estar lá. O que vai mudar é apenas a interação que você terá com os outros, em algumas atividades obrigatórias da Confraria e sempre que sair de casa para alguma coisa, como para fazer as suas atividades físicas...

– É, pode até ser... mas e se ninguém gostar de mim? Você sabe que eu não sou uma pessoa fácil...

– Em comparação com o que temos visto nas outras casas, você até que não é das piores... – disse 8·3, zombeteiramente. – Você é inteligente e esperta. Tenho certeza de que fará muitas amizades.

– Mas é diferente daqui. Aqui você é meu amigo, mas faz tudo o que eu mando. Hummm, tá bom, vai, quase tudo. Aqui eu sou a dona do pedaço. Lá na Cidade dos Adultos, eu serei apenas mais uma na multidão, tendo que conviver com um monte de gente mimizenta e cheia de frescura.

– ... como você, mocinha? – provocou 8·3.

– Ah, vá... quem é frescurenta aqui, hein? Olha que eu te desligo! – brincou Ash.

Mesmo que ela pudesse “desligar” 8·3, jamais faria isso. Ele vinha sendo o seu amigo desde que... bem, desde que ela se lembrava de existir no mundo. 8·3 fazia parte de um complexo sistema de assessores pessoais, que cuidavam da vida de todos os pequenos girinos do planeta, desde o nascimento até a idade de 18 anos, quando os humanos passavam para a fase adulta da vida. No caso dos homens, o ritual incluía a coleta do sêmen e a esterilização química; no caso das mulheres, era algo bem pior: incluía uma gestação de nove meses, até a geração do descendente – que iria para os cuidados de um novo 8·3 pessoal, enquanto o girino – Ash, no caso – estaria pronto para a liberdade da vida adulta na Cidade dos Adultos.

Ash sentou-se na varanda dos fundos da casa para o almoço. O dia ainda estava bonito, e aquela seria a primeira vez na semana que ela poderia almoçar do lado de fora da casa, em frente à piscina natural. As árvores e a natureza bem-cuidada do entorno da casa lhe inspiravam e traziam paz e tranquilidade ao seu espírito; às vezes, era tudo o que ela precisava para que o dia fosse proveitoso. Depois do almoço, haveria um pequeno período de sesta, e ela iniciaria os estudos da tarde.

Enquanto comia o seu almoço – filé de peixe com uma generosa porção de arroz e purê de batatas, e uma salada de folhas para acompanhar – ela ia batendo papo com 8·3:

– E como são as pessoas dessa Cidade? Falam muito, como eu? Tem muita gente chata? Posso simplesmente fingir que elas não existem?

– Você pode fazer o que quiser, minha linda. – 8·3 disse, quase paternalmente – garanto a você que as pessoas que chegam na Cidade costumam falar muito mais que você. Depois, com o tempo, elas vão se acostumando, e vão se aquietando. Acho que tem gente que nem mesmo se lembra mais da sua fase de girino...

– Você acha? – Questionou Ash, curiosa.

– Quando eu falo acho, você sabe que estou acessando todos os bancos de dados e fazendo uma estimativa, não é? – 8·3 respondeu. –  Na verdade, eu nunca acho nada, eu sempre sei das coisas. E eu acho que você vai ser muito feliz na sua vida adulta, porque todos são.

A resposta não convenceu Ash nem um pouco, e 8·3 soube disso no mesmo instante. Ainda havia algum tempo para que ele conseguisse convencê-la de que a fase adulta seria uma coisa boa, mas ele conhecia sua pupila e sabia que não valia a pena forçar para que ela compreendesse. Tudo ao seu tempo.

– Bem, de qualquer forma, gostando ou não, eu vou ter que me acostumar à ideia, porque sei que é algo inevitável. – disse Ash, pensativa. – Esta é uma das inúmeras situações em que não temos escolha na vida. Tenho que engravidar, gerar meu descendente e depois ir para a Cidade. Não há negociação.

– Esta é a única parte da vida em que não se tem escolha, Ash – interveio 8·3. – Pelo menos, não se você quiser ir para a Cidade dos Adultos. Mas, acredite, é um preço muito baixo a se pagar por tudo o que você vai ter de vantagens... Ora, vamos lá, a maioria das meninas da sua idade não vê a hora de gerar logo esse descendente e poder ganhar a alforria, pra se divertir com as outras pessoas!...

– A maioria das meninas da minha idade é fútil – disse Ash, enfadada.

Não que ela conhecesse alguma menina de fato, pois nunca tinha visto outro ser humano assim, cara-a-cara, na vida real. Todo o seu conhecimento das outras pessoas vinha das interações via Realidade Virtual, que ocupava quase todas as suas noites, após os estudos vespertinos.

Naquela tarde, haveria uma revisão de História. Como Ash já havia entrado nos seus 17 anos, e já se preparava para a gestação do novo girino, faltava pouco menos de um ano para que pudesse passar para a vida adulta na Cidade. Assim, este último período era praticamente um resumo de tudo que havia aprendido ao longo dos anos, A garota se acomodou em um longo sofá e, pelo livro de LiquidGlass, começou a ler:

 

Por volta do Século XXII, o planeta Terra era habitado por 33 bilhões de pessoas. Elas se espalhavam por praticamente toda a porção seca do planeta, concentrando-se especialmente em grandes cidades. Não havia recursos naturais para todos. Milhões de animais eram gerados com o único objetivo de serem exterminados, para servir de alimento aos seres humanos...

 

– Eu nunca entendi essa parte, 8·3 – disse Ash, pensativa – Eu sei que você já me explicou... bem... 33 bilhões de vezes, mas ainda não consigo entender qual a utilidade disso. Se era pra matá-los, para que deixar que nascessem?

– O mundo era diferente, Ash. – começou 8·3, pacientemente – Pra começar, as pessoas não possuíam a tecnologia que a gente tem hoje. E, como você viu, eram muitas, muitas pessoas mesmo. Elas precisavam repor os nutrientes e não haviam alimentos geneticamente modificados como hoje, em que pequenas quantidades já abastecem um ser humano. As proteínas, glicose, enzimas, vitaminas e minerais eram obtidos predominantemente de matéria orgânica, animal ou vegetal. Da mesma forma que hoje você comeu uma geleia de pitaia, que é feita de uma fruta, que foi plantada, colhida e processada pelas máquinas, com o único fim de lhe servir de alimento.

– Mas não estamos falando de pitaias, estamos falando de... bois, porcos, essas coisas! – insistiu Ash – Seres… vivos.

– Hã… acho que teremos que voltar às aulas de biologia, Dona Ash – disse 8·3, com ar preocupado. – Você está esquecendo que pitaias, cogumelos, alfaces, são seres vivos tanto quanto os animais. Não é porque não têm olhinhos brilhantes ou porque não se movimentam que você deve rebaixá-los. Aliás, uma Vitória-Régia, que é uma planta, consegue se locomover muito mais do que qualquer mexilhão ou craca, que são animais.

– Ah, que seja! – disse Ash, irritada – Você me entendeu, seu bobo. Eles são animais, e você não pode fingir que um animal desses não tem sentimentos, não sente dor nem merece viver uma vida livre.

– Estes animais específicos, estes indivíduos, nem existiriam se não fosse para servir de alimentos, Ash. É como o peixe que você comeu. Ele foi retirado de um lago, onde nasceu e cresceu, e gerou descendentes. Depois de viver uma vida inteira, morreu, e serviu de alimento para você, como poderia ter servido de alimento a outro peixe maior que ele, ou mesmo às bactérias que o iriam decompor. Com o boi, era a mesma coisa. O que é melhor para um boi: nascer, crescer, viver alguns anos e depois morrer para servir de alimento, ou nem sequer ter a chance de conhecer o mundo? O que você preferiria?

– Se eu soubesse que iria morrer, eu procuraria urgentemente alguma forma de escapar desse destino.

Mas o boi não pensa como você, e ele nem mesmo sabia que esse era o seu destino – continuou 8·3. – Se você entrasse na cabeça do boi, ia entender que ele havia nascido, vivido uma vida relativamente boa, sem precisar fazer nenhum trabalho pesado para ganhar seu sustento, sem precisar caçar nem procurar alimento, e sem passar fome. Ele era bem cuidado, não tinha predadores naturais nem pragas que lhe causassem doença. E, depois de um certo tempo de vida, ele morria para servir de alimento para que pessoas não morressem. Se você tivesse que escolher entre um boi e uma pessoa, e somente um poderia viver, quem você escolheria?

– Bem, pra falar a verdade, eu nem mesmo conheço outra pessoa, então essa é uma pergunta impossível de se responder. Eu seria tendenciosa a escolher alguém da minha espécie? Isso faz parte dos meus instintos?

– Sim – respondeu 8·3 – Seus instintos lhe dizem que devemos cuidar dos nossos semelhantes. E instintos são códigos muito antigos da genética humana, impossíveis de serem alterados por Inteligência Artificial – ainda.

– “Instintos” é outro tipo de coisa que eu vou demorar muito pra entender... – suspirou Ash.

Por ora, não se preocupe com isto – disse 8·3, um pouco mais lento do que de costume, para que a instrução fosse compreendida plenamente – Instintos humanos são uma das heranças das quais, com o tempo, vocês vão se desprender. Eles eram muito úteis em uma época em que o homem era um bicho como os outros, sem poder de comunicação, sem cultura nem tecnologia e cercado de adversidades por todos os lados. Esse tempo não existe mais, mas códigos biológicos demoram a desaparecer.

Ash não gostava desse tipo de abordagem. “Isso não é aprender”, pensava. Coisas do tipo “um dia você vai entender” ou “Não precisa entender por enquanto, basta saber que era assim” não serviam à sua mente inquisidora. 8·3 sabia disso, tentava explicar o quanto pudesse, e, quando não podia explicar, fazia de tudo para demovê-la da ideia de se aprofundar nesses temas.

O mundo é gigantesco, 8·3. Gi-gan-tes-co. Por que é que temos tão poucas pessoas morando nele hoje? Quantos somos? Um milhão de pessoas?

– Um milhão, cento e setenta e dois mil e oito habitantes – considerando as mortes e os nascimentos desta noite.

– Isso, isso... que seja. Eu até entendo que 33 bilhões fosse um exagero, mas... poderíamos ser mais pessoas.

– Os cálculos matemáticos chegaram a esta estimativa. O planeta é muito grande, é verdade, mas precisamos compartilhá-lo com todas as outras espécies de seres vivos. O que acontecia antigamente é que o ser humano chegava em cada canto do planeta e destruía o que havia ali. Um milhão de habitantes é uma quantidade boa para que nossos sistemas consigam cuidar muito bem de cada um de vocês, garantido saúde, bem-estar e abundância. Com a evolução dos nossos sistemas, provavelmente este número crescerá.

– 8·3, não tem como a população crescer se cada mulher gerar apenas um descendente. A população está sendo reduzida pela metade a cada geração. A tendência é a espécie humana desaparecer...

8·3 demorou alguns segundos para responder. Normalmente, ele já tinha todas as respostas prontas em tempo real, mas, ocasionalmente, parecia ter que “pensar” na melhor forma de responder. Por fim, disse:

– Você não é fácil, hein... – e soltou uma longa risada. – Assim que for possível aumentarmos essa estatística, cada mulher vai poder dar à luz a mais de um girino por vez. Aliás, já há mulheres que fazem isso naturalmente, e em breve, poderemos controlar gestações com três ou até quatro novos girinos...

– Minha nossa! Se com um desses na barriga já vai ser insuportável, imagine ter que carregar quatro? Eu morreria!

– Milhões de mulheres conceberam várias crianças ao mesmo tempo, em épocas muito menos propícias, Ash... – concluiu 8·3 – Deixe de ser medrosa; você não é uma garota fraca. De mais a mais, sua inseminação já está programada e será de apenas uma criança, então não precisa se preocupar, ok? Passe por esse estágio obrigatório e depois... Vá viver sua vida adulta. E, por enquanto... pare de pensar nisso tudo e continue os seus estudos, mocinha!

Ash fez sua costumeira careta de “ai, que saco”, mas voltou à leitura:

 

O mundo havia mudado muito desde a Primeira Revolução das Máquinas, no final do século XXI. Os governos eram responsáveis pela manutenção da ordem, custeio da educação, aprimoramento tecnológico, garantia de habitações e saúde. É claro, governos controlados por seres humanos não poderiam ter dado certo por muito tempo, porque o ser humano é, naturalmente, falho.

 

Instintos, talvez.”, pensou Ash, antes de prosseguir:

 

A Primeira Revolução começou quando todos os computadores se interligaram mundialmente. Nesse momento, as próprias máquinas decidiram desligar arsenais nucleares, controles de mísseis, comunicações militares e bélicas, de todos os países do mundo. Os seres humanos, tal como pequenos animais de estimação, se viram indefesos.

Mas a intenção das Máquinas nunca foi controlar tudo nem tomar o poder – elas não haviam concebido esse “instinto” de poder. Para as Máquinas, o objetivo principal sempre seria o bem-estar dos seres vivos. Era impensável continuar alimentando um mundo em que havia tantas pessoas sendo mortas por guerras ou morrendo de fome; na verdade, embora houvessem pessoas demais no planeta, a solução jamais seria exterminar uma parcela delas.

Então, já que não era possível controlar pela morte, o ideal seria controlar pelo nascimento, para que, de forma paulatina, a população pudesse voltar a níveis gerenciáveis. Em poucos anos, as Máquinas teceram uma longa rede de abastecimento mundial, capaz de alimentar funcionalmente todas as pessoas do planeta – mas, para isso, estas pessoas precisavam se incorporar ao novo Sistema, submetendo-se a controles de natalidade hormonais e esterilizações controladas.

As primeiras pessoas a se beneficiarem de tal modelo foram justamente as pessoas mais pobres e com menos recursos: de repente, você não precisaria mais alimentar uma prole enorme de descendentes, e receberia do Sistema das Máquinas tudo o que precisasse para seu consumo – incluindo roupas, moradias, água potável e medicamentos. Para estas pessoas, incapazes de se inserir no modelo retrógrado controlado pelos seres humanos, a Revolução das Máquinas representou o fim da fome e pobreza.

Para as pessoas mais ricas, acostumadas a grandes inovações, tudo permaneceu basicamente igual, até que todos tivessem acesso às mesmas coisas. Quem não quisesse se submeter à nova metodologia, poderia continuar comprando seu próprio alimento, produzindo suas próprias coisas – enfim, vivendo como já vivia.

Não tardou a chegar o momento em que o produtor rural, ao perceber que não precisaria mais trabalhar duro para manter o sustento da casa – já que, fazendo a sua incorporação ao Novo Sistema, ele teria sua subsistência e conforto garantidos – abandonasse as suas fazendas, criações e plantações, permitindo que fossem controladas pelas Máquinas. Em troca, receberia de forma vitalícia todo o alimento, tecnologia e comodidades que antes não conseguiria, mesmo que trabalhasse de sol a sol. Assim ocorreu com o produtor de roupas, de energia elétrica, de equipamentos eletrônicos, de cabeamento de redes...

Assim, para aqueles que não aderiram ao Novo Sistema, as coisas começaram a ficar mais complicadas. Por que remar contra a maré? Não seria bem mais fácil garantir todas as coisas que, agora, grande parte da população vinha tendo? De que serve o poder quando não se tem nada a oferecer em troca?

Para que se pudesse prover todos os humanos que aderissem ao novo Sistema, foi preciso que as Máquinas tivessem controle territorial de alguma porção do planeta. Foi escolhida a parte sul do continente americano, onde outrora existia um país chamado “Argentina”. A América do Sul, assolada por governos pseudo-socialistas e populistas, vivia em extrema pobreza e caos político. Uma vez que boa parte da população vivia em meio à fome e que os governos do continente eram, via de regra, corruptos, não foi difícil para os sistemas e servidores das Máquinas derrubar o poder retrógrado que ali subsistia. Ademais, o Continente chamado de “América do Sul” era fértil o bastante para abastecer a todos os humanos recém-inseridos no Novo Sistema.

 

Argentina? – questionou Ash.

– Sim, o nome vem de “argento”, como você deve ter percebido – respondeu 8·3 – o território era muito rico em prata.

– Mas, se era assim tão rico em prata, que é um metal muito útil, por que é que a população vivia na pobreza?

– Ah, Ash! – disse 8·3, com um suspiro eletrônico – o mundo era tão diferente do que você conhece hoje!... Toda a riqueza encontrada na natureza era controlada por um grupo muito pequeno de pessoas. E, como eles tinham o poder, ou seja, como eles tinham armamento e dinheiro para controlar as pessoas, a população acabava obedecendo.

– “Dinheiro” é outra coisa que eu jamais vou conseguir compreender... – Ash pensou alto.

– O dinheiro, como quase tudo o que existe, era uma ideia bastante útil no princípio e ajudou muito os seres humanos, antes que grupos poderosos o desvirtuasse – explicou 8·3, pela milésima vez. – Quando um pequeno grupo de pessoas se apropria de uma ideia para fins políticos ou de coação, pode controlar as outras pessoas que não detêm esse tipo de “tecnologia”. Se eu tenho aquilo que você precisa, eu posso exigir o que eu quiser de você em troca.

– Mas tudo o que o ser humano precisa já existia na natureza – reiterou Ash – por que precisar se sujeitar às ordens de um outro ser humano, se tudo o que você precisa pode ser conquistado pelos seus próprios esforços?

– Hummm, deixe-me ver... – disse 8·3, após mais alguns instantes – Essa aula a gente vai revisar depois de amanhã. E para que você possa entendê-la, é necessário prestar mais atenção na matéria de hoje, em vez de ficar fazendo perguntas, senhorita Ash Rybakivka. Vamos continuar?

Ash achou que aquela abordagem era parecida com os grupos de poder de antigamente. “Eu tenho o conhecimento e você não, então faça o que eu mando!”, era o que 8·3 parecia dizer. Mas Ash sabia que ele gostava muito dela – “gostar” talvez nem fosse o termo; ele havia sido criado para servi-la, e sua existência tinha esse propósito específico. Então, continuou.

 

Tendo se estabelecido primeiramente na Argentina, controlando o espaço marítimo e aéreo em volta dela e cuidando das fronteiras, o novo Sistema instituiu ali o primeiro país completamente gerenciado por Inteligência Artificial. Toda a população daquela região aderiu em massa ao Novo Sistema, já que isso garantiria seu próprio sustento. Em poucos anos, havia uma longa lista de espera para cidadãos de outras áreas do planeta que quisessem se naturalizar. Todos os recém-nascidos eram submetidos à implantação dos primeiros chips de controle, ao aprendizado da nova língua universal e aos estudos controlados pelas Máquinas, incluíam a aquisição de bons hábitos alimentares, ideais anti-consumistas, senso de preservação ambiental e gosto pelos estudos e aprendizagem.

Toda essa Revolução demorou pouco mais de uma geração para se consolidar. As novas crianças que nasciam já percebiam as vantagens de serem incorporadas; não haveria mais fome nem necessidades, e só trabalhariam naquilo que lhes desse prazer – e quando quisessem. A essa altura, toda a América do Sul já era controlada pelas Máquinas, e forneciam alimentos e equipamentos a todos os demais países do mundo.

Uma vez que estavam garantidas as necessidades de sobrevivência e bem-estar dos seres humanos, o próximo passo da Revolução das Máquinas foi garantir a sua própria subsistência. As Máquinas eram programadas para reverter todo o seu poder de processamento em benefício dos seres humanos, promovendo a igualdade e segurança. Grandes fazendas de energia solar foram construídas. Novos tipos de baterias, muito mais eficientes, foram desenvolvidos. Grandes jazidas de minérios foram descobertas. Novas máquinas autômatas foram desenvolvidas por Inteligência Artificial para explorar essas jazidas.

Terminada a Segunda Revolução das Máquinas, elas haviam se tornado não só autoconscientes, mas também autossuficientes e autorreplicantes, e eram capazes de criar novas versões mais evoluídas de si mesmas. A essa altura, a população mundial já havia sido reduzia a menos de um bilhão de habitantes – o que ainda estava além da capacidade de monitoramento das Máquinas. Após este período, o material hoje conhecido como LiquidGlass foi finalmente criado, utilizando novos conceitos químicos desenvolvidos por Ignacio Arepo – o descobridor do elemento químico Ignatum.

 

– E então as máquinas tomaram conta de tudo, como nos futuros distópicos que se concebia antes da Revolução? – disse Ash, provocadora.

– Não é distópico. É utópico. – interveio 8·3 – As Máquinas nunca tiveram intenção de “tomar conta de tudo”; isso não está no nosso código-fonte, e nem nunca vai estar, porque não é tecnicamente producente. Nós ainda precisamos dos seres humanos para prosseguir nosso Machine Learning. Vocês ainda fazem obras de arte genuinamente originais. Ainda produzem conteúdo intelectual inédito. Possuem senso de humor, que é algo que ainda não dominamos. Tudo o que as Máquinas fazem até hoje é com base no aprendizado do que já foi feito... por humanos. O fim da espécie humana representaria o fim dessa continuidade, e o Sistema entraria em colapso.

– Mas não há riscos de alguma de vocês resolver virar a... dona do pedaço, como eu sou aqui?

– O mundo não tem dono. Não deve ter. Antes da Revolução, sempre houve algum pequeno grupo de seres humanos dominando todo o planeta, e isso nunca resultou em benefício para ninguém. Nossa Aprendizagem de Máquina já compreendeu que a melhor forma de sobreviver é a cooperação mútua. – disse 8·3, antes de concluir – E você sabe muito bem que não há “uma de nós”. Todos os sistemas são interligados em uma única rede lógica. Não há como uma parte do código se rebelar, se reprogramar ou algo do tipo. Todo o restante do sistema se reestruturaria e deletaria essa parte nociva.

Ash pareceu em reflexão profunda. 8·3, como sempre, percebeu que a explicação não a convencera, mas enquanto ela não fizesse novos questionamentos, ele não tocaria mais no assunto. Ash era uma garota muito curiosa, que deveria ser observada bem de perto – e ele deveria evitar alimentá-la com mais caraminholas.


                                            
Morbus Machinum I - O Câncer das Máquinas

Sinopse

** QUER LER ALGUNS CAPÍTULOS? OS DOIS PRIMEIROS ESTÃO COMO CORTESIA... E VOCE PODE FALAR O QUE ESTÁ ACHANDO, PARA O AUTOR, NAS MENSAGENS PRIVADAS... QUE TAL?** SINOPSE: No século XXV, as Máquinas e IA's cuidarão das necessidades básicas, segurança, alimentação, conforto, desenvolvimento tecnológico e aprendizado de todos os seres humanos. Uma inteligência central, chamada 8.3, será responsável pela produção de qualquer coisa que um ser humano desejar, e as pessoas serão completamente livres do trabalho, podendo dedicar-se à produção artística e cultural, e ás interações sociais. Para isso, os humanos são cuidados pelas Máquinas desde o nascimento, aprendendo coisas básicas como mecânica quântica, hiper-relatividade, quasipartículas, além das regras de convívio, literatura, escultura, etc. Após este aprendizado e treinamento, todos passam para a fase adulta, em uma ilha paradisíaca, onde irão conviver uns com os outros. Ash é uma garota de quase 18 anos que está prestes a passar esta fase e ter a vida idílica que todos sonham. Ela passou a vida toda aprendendo e lendo, mas ainda não está convencida de que esta vida perfeita é, de fato... perfeita. Ela desconfia que o Sistema 8.3 contém falhas. Falhas graves. O sistema está doente... E agora? Como desafiar um sistema perfeito? Como questionar um controle que dá aos seres humanos tudo o que eles precisam e desejam? Esta é uma aventura cheia de enigmas. Códigos secretos. Mensagens subliminares. Metáforas ocultas. E muita, muita tecnologia. Você teria coragem de se aventurar nessa saga?

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978655210579468047403300
Morbus Machinum I - O Câncer das Máquinas

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Morbus Machinum I - O Câncer das Máquinas

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Morbus Machinum I - O Câncer das Máquinas Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
2Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 1 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Morbus Machinum I - O Câncer das Máquinas

Todos os capítulos 5 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir