Universo da obra
Universo da obra
Todo o empenho de Filomena Borges, todo o seu sonho dourado, era ver o marido no poder, à frente de um ministério; ordenanças atrás do carro, casaca resplandescente de galões amarelos, chapéu armado, espada à cinta e comenda ao peito.
Queria vê-lo ministro! Ministro, ainda que fosse por pouco tempo! -- por uma semana, por um dia ao menos!
-- Mas meu amor, dizia-lhe o esposo com a voz suplicante -- teu marido já não pode com semelhante vida! Hei de fatalmente arriar a carga; estou exausto, estou seco, sem uma pitada de miolo! -- mais uma semana -- estouro! levo o diabo!
-- Oh! Por amor de Deus não desanimes! exclamava a viscondessa, lançando-se-lhe nos braços. -- Concentra todas as tuas forças e luta mais um instante! Juro-te, meu amigo, que, mal te vejas ministro, eu te acompanharei para onde quiseres e farei tudo o que me ordenares! Não penses em abandonar covardemente o posto de honra, agora que à custa de sacrifícios, conseguimos vencer a parte mais difícil da ladeira! Ânimo, visconde de Itassu! Não cedas o terreno aos teus adversários, que nos cobrem de ultrajes e calúnias! Não queiras realizar o que eles nos profetizaram! Se me tens amor, se me adoras, visconde, se te merece alguma coisa o muito que te quero e a forma imaculada pela qual tenho até hoje conduzido o teu nome, não faças uma fugida vergonhosa! Não queiras ser o meu algoz, porque eu não saberia resistir a tanta humilhação!
-- É o diabo! ... respondeu o Borges, coçando a cabeça. É o diabo! Se tudo isso dependesse só de minha vontade, já cá não estaria quem falou! Mas a questão é que eu já não sei a quantas ando! Já não tenho cara para mostrar a todos esses homens, que confiam no meu valor e que esperam de mim o que nunca esperei! -- É o diabo! Não calculas o quanto me pesa esta responsabilidade; não imaginas com que impaciência desejo atirar para longe as cangalhas que me puseram nas costas, e fugir, fugir contigo para um canto obscuro, onde não haja preocupações políticas, compromissos, artigos a responder, e onde não tenhamos que amargar as descomposturas da imprensa e as cuspalhadas dos inimigos! Ah meu Paquetá! meu belo e tranqüilo Paquetá, como te desejo, como te ambiciono! ...
-- Não! Nós não nos enterraremos em Paquetá, não nos condenaremos ao ostracismo, sem que tenhamos triunfado dos nossos esforços! Hás de governar! Juro-te eu! Hás de ser grande; e poderoso!
Mas, ai! a linda ambiciosa contava dispor ainda do único elemento com que lhe era dado realizar tudo isso -- a proteção do padrinho. Não desconfiava ainda, a visionária! que já não tinha às suas ordens essa vontade maravilhosa, que tudo determina no Brasil. E, ao reconhecer os primeiros sintomas de sua impotência, teve ímpetos de estrangular-se.
Todavia procurou iludir-se. Não desanimou logo e, a despeito dos protestos do marido, que parecia cada vez mais aflito, reuniu todo o seu empenho em um último esforço, a ver se conseguia reatar o sonho, sem ter de poluir o seu contrato de fidelidade conjugal.
-- Lutaremos! Lutaremos! bradava ela, a sacudir o marido violentamente. -- As principais influências conservadoras estão conosco! Havemos de vencer ou morreremos juntos, esmagados pelo mesmo destino!
O Borges tomou fôlego, depois de uma reviravolta que lhe deu a mulher, e declarou que entendia muito mais acertado irem eles acabar os seus dias tranqüilamente em um canto obscuro e feliz.
-- Pensa em quanto é tempo, meu amor! dizia o pobre homem. Resolve-te quanto antes, porque, para falar com franqueza, desconfio que as coisas não vão boas; creio que teremos novidade lá por cima! E, assim por assim, é muito melhor que a bomba rebente quando já estivermos longe! Que te parece? ...
Filomena não respondeu às considerações do marido e jurou que estava "disposta a lutar até o último momento".
Mas um fato inevitável, e talvez precipitado justamente pelo soberano, veio tolher-lhe as asas logo no coração do vôo, e decidir a derrota de Filomena: -- declarou-se no ministério conservador a memorável crise que produziu a situação de 5 de janeiro de 78.
O velho partido estalou nas raízes, estremeceu todo, rangeu e afinal caiu por terra, como um carvalho secular, esmagando de uma só vez a caterva de políticos que dormiam à sombra dele.
Foi um charivari furioso.
O Rio de Janeiro despertou sobressaltado com o baque formidável do poder. Mil existências desarticularam-se de seus eixos, mil interesses feneceram; mil esperanças espocaram, para dar lugar a outras tantas, que surgiram... Os liberais atiraram-se a campo, assanhados, famintos, depois de um jejum de dez anos. E um redemoinho vertiginoso formou-se em volta do trono, arrancando pela raiz todas as plantas mal seguras ao fundo limoso daquele oceano de egoísmos.
E tudo veio à superfície dágua; velhas misérias abafadas ressurgiam. E os corpos que boiavam depois do cataclismo, chocaram-se uns contra os outros, a lutarem, a morderem-se, a engalfinharem-se, num supremo desespero de náufragos.
O Borges nunca experimentara um dia tão levado dos diabos; viu-se tonto, perdido, naquele labirinto de paixões políticas e conveniências particulares; labirinto de que ele não conhecia o norte, nem o sul, nem o lugar de entrada, nem o lugar da saída. O imperador virou-lhe as costas à primeira pergunta; o Guterres desapareceu, sem lhe deixar ao menos duas palavras que o animassem.
Todavia exigiam dele a explicação de fatos cuja existência o pobre homem até ignorava; responsabilizavam-no por outros completamente alheios à sua competência; fizeram dele um bode expiatório; envolveram-no em uma rede de intrigas; reduziram-no a peteca e atiraram-no de mão em mão, crivado de pilhérias, de dichotes, de rabos de palha, inutilizado, cheio de ridículo, cuspido por todas as bocas da publicidade.
-- Safa! safa! bufava o desgraçado, quando afinal se viu em caminho de casa.
-- Vão todos para o diabo que os carregue, súcia de bandidos! Agora, haja o que houver, não os aturo nem mais um instante! Minha mulher que tenha paciência, mas em coisas que cheirem a política nunca mais meterei o bedelho! Nada! Hei de ver-me livre daquele inferno e ainda me parecerá um sonho!
Só à noite conseguiu chegar ao lado de Filomena, já tarde e caindo de fome, porque nesse dia nem lhe deram tempo para comer.
Encontrou-a toda vergada sobre a secretária, a cabeça entre as mãos, os cabelos despenteados e soltos ao ombro.
-- Então, hein?! ... Que me dizes tu à brincadeira?.., exclamou ele, indo ter com a mulher.
-- Peço-te que não me dês uma palavra a respeito da situação política! respondeu Filomena erguendo-se muito triste.
E a partir daí deixou-se tomar de uma grande melancolia.
Foi preciso chamar um médico logo ao amanhecer do dia seguinte. Filomena sentia-se mal, vieram-lhe irritações nervosas, derramamento de bílis, e depois febre, acompanhada de delírios.
Assim levou três dias, sem obter melhoras de espécie alguma.
Durante esse tempo, Borges penou e labutou mais do que em toda a sua trabalhosa existência. Andava num torniquete incessante das secretarias para S. Cristóvão, de S. Cristóvão para casa, arranjando a sua demissão e ao mesmo tempo servindo de enfermeiro à esposa.
Uma dobadoura infernal! Faltava-lhe cabeça para tanta coisa. Já não podia suportar as perguntas que lhe faziam sobre os trabalhos do paço, fugia-lhe a paciência, dava respostas atravessadas, queria brigar, esbordoar os que lhe exigiam explicações, praguejava, insultava e pedia por amor de Deus que o despachassem quanto antes, que o pusessem na rua.
Afinal, convencidos de que o pobre diabo sofria de demência e talvez também porque já estivessem fartos de rir e de o aturar, deram-lhe com a demissão, e ele, sem perda de tempo, correu para junto da enferma, disposto a não pensar noutra coisa que não fosse restituir-lhe a saúde, a força, a alegria, que eram igualmente a sua alegria e a sua força.
Chegou à casa caindo de fadiga. A mulher estava tão fraca, tão abatida, que não parecia a mesma.
Ele ajoelhou-se a seus pés, tomou-lhe uma das mãos entre as suas e cobriu-a de beijos.
A doente agradeceu-lhe com um sorriso triste.
-- Como te sentes?... perguntou ele. Estás melhorzinha, não é verdade?
Filomena respondeu que sim com a cabeça.
-- Isso nada vale! Diz o médico que ficarás boa, logo que mudes de ar. Agora mesmo venho de estar com ele; amanhã tratarei da viagem.
E, chegando-se mais para a esposa, principiou com muita ternura a dizer os seus projetos:
-- Seguiriam juntos e mais o Urso para um ar que escolhessem no campo. -- Paquetá, por exemplo, "Paquetá, que ele não via há quanto tempo, e da qual sentia tamanhas saudades!..."
-- Ah! que bom! uma existência calma e desocupada nessa querida ilha, onde ele nascera e passara os primeiros anos! Teriam a sua casinha, muito bem arranjada, sempre muito limpa, muito bem ventilada; teriam o seu pomar, o seu jardim, de que eles próprios se encarregariam para matar o tempo; teriam uma vaca de leite, algumas cabras, carneiro, porcos, um pequeno tanque, onde os marrecos e patos tomassem banho, muita criação de galinhas e pombos, pombos a perder de vista. A casa seria à beira-mar, teriam o seu botezinho para a pesca e para os passeios à tarde pela costa ou até a ilhota da Brocoió! ...
-- Que gosto em ter a gente à mesa as frutas que viu crescer no seu quintal..., dizia o Borges comovido. Que prazer em passar os dias a cuidar do que é seu, consertando, endireitando, plantando, regando, colhendo. Demais, ali não tens que fazer etiquetas; podes andar por toda a ilha com o teu vestidinho de chita, o teu chapéu de palha, o cabelo à vontade, que ninguém repara nisso!
E entusiasmando-se progressivamente com aquela expectativa de felicidade tranqüila:
-- Isso que sentes agora nada vale... Hás de ver como ficas esperta logo que estivermos em nossa casinha de Paquetá! ... E que passeios não havemos de fazer ao ar livre, pela praia, nas manhãs de sol ou nas noites de luar! ... Havemos de ter pequenas reuniões de amigos; tu tocarás o teu piano, cantarás, enquanto eu estiver cuidando da chácara!
-- Oh! como havemos de ser felizes! como havemos de ser felizes! exclamava o bom homem, já transportado mentalmente à sua terra, e sentindo-se em pleno gozo daquela doce existência que ele tanto ambicionava.
Filomena ouvia-o em silêncio, o olhar imóvel, a boca levemente arqueada pelo esforço que ela fazia para sorrir às palavras carinhosas do marido.
-- Mas não fiques triste desse modo, que me matas... suplicava ele, com a voz trêmula e os olhos embaciados. -- Espalha essas mágoas, que são a causa única de tua moléstia, minha querida Filomena! Se não quiseres vir para a roça, como aconselhou o médico, se Paquetá não te agrada, dize então o que te apetece, o que te serve... bem sabes que todo o meu empenho é só fazer-te a vontade, é ver-te feliz e satisfeita, minha santa, minha querida mulherzinha!
-- Não, meu amigo, não! Eu irei para onde quiseres; tenho obrigação de acompanhar-te... respondeu Filomena em voz baixa, fazendo esforços para conter as lágrimas.
Leia Filomena Borges, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.