Universo da obra
Universo da obra
Melina
Dando-se por vencida, Melina dá as costas para Micael e caminha em direção ao local que está sentada. Ao passarem por entre uma mesa e outra, o rapaz é constantemente parado para ser elogiado por cada cliente. A cada parada, Melina nota as maçãs do rosto dele ficarem levemente avermelhadas. Enquanto o rosto de Micael parece mais brilhante a cada instante. Uma risada fraca escapa dos lábios de Melina.
— O que foi? — perguntou Micael, ao se aproximar dela estreitando os olhos.
— Nada, preciosa estrela cadente — rebateu ela, com uma entonação alegre enquanto se espreme para passar entre duas cadeiras. — É impressão minha ou sua confiança está sendo eliminada junto ao álcool?
Micael gargalha tanto que sente suas bochechas doerem. Quando torna a olhar para Melina, encontra nela um semblante carrancudo. Isso aumenta ainda mais sua alegria. A resposta desliza pela língua, porém antes que diga a primeira palavra chamam seu nome.
— Um minuto querida, já lhe dou atenção — provocou Micael, dando uma piscadela para Melina ao terminar de falar.
Ao ver Micael se virar para duas mulheres próximo a uma mesa, esbanjando simpatia deixa Melina possessa. Embora o cinismo dele, a pegue de surpresa. Melina fica observando Micael por um tempo considerável, ruminando seu ódio por ele. Enquanto em sua mente, ela faz juras de vingança. Mas somente quando vê as mulheres quase se jogando em cima do Micael, é que uma ideia lhe brota na mente.
— Meninas, desculpem-me, mas preciso ir.
Quando escuta as palavras de Micael, Melina volta a caminha em direção a sua mesa. Ao se aproximar da mesa em que estava, ela encontra somente seu irmão nela com a atenção voltada para o celular e um sorriso sacana nos lábios.
— Sávio, onde está a Miranda? — questionou Melina, puxando a cadeira para se sentar.
Sávio toma um susto inicialmente, mas relaxa ao ver que é Melina.
— A justiça achou provas contra ela de seu amor — respondeu Sávio, entre risos.
Melina dá uma risadinha, se jogando na cadeira.
— Boa noite — cumprimentou Micael encarando Sávio, ao passo que se aproximava da mesa. — Posso me sentar com vocês?
Melina abre a boca pra lhe dar uma resposta atrevida, porém seu irmão é mais ligeiro.
— Claro, Micael! Senta aí, irmão.
Melina revira os olhos, enquanto Micael toma o assento perto de Melina.
— Vocês se conhecem? — Melina questiona Sávio espantada.
— Eu conheço a banda desse cara — Sávio conta a irmã com o tom de voz elevado. — Vocês são irados, tocam muito.
Micael pigarreia de leve, apenas para chamar a atenção de Melina. Quando consegue o que quer, ele passa a língua nos lábios rapidamente e dá de ombros.
— Obrigado… Como se chama mano? — perguntou Micael saboreando cada palavra.
— Sávio, cara.
Melina observa a cena sentindo um misto de incredulidade e fúria. Por um segundo ou dois, Melina se recusa a acreditar que as coisas estejam fluindo tão bem para o Micael. Ao mesmo tempo, em que sente raiva de Sávio por ficar do lado de um desconhecido e não do dela. Mas para não sair por baixo, ela foca em externalizar uma tranquilidade que está longe de sentir. Em meio ao caos que está em sua cabeça, Melina começa a arquitetar seu plano para pôr ele em prática. Enquanto as comadres conversam e riem ignorando sua existência, ela começa a procurar um motivo para retirar seu irmão da mesa. Porém, quando o seu copo vazio entra no seu campo de visão, a desculpa perfeita surge.
— Sávio, o que houve com a minha bebida? — intervém Melina com o olhar fixo no copo e a entonação elevada.
— Eu bebi — respondeu Sávio quase cuspindo as palavras.
— Sério? Bebeu a minha e a sua bebida? — Melina questiona o irmão arqueando uma sobrancelha e inclinando-se sobre a mesa na direção dele.
— É só pegar outra — rebateu Sávio com uma entonação mais enérgica.
— Ah, claro! Então você não se importa de ficar numa fila gigantesca pra busca um pra mim, né? — contrapõe Melina tamborilando os dedos na mesa.
Sávio e Melina se encaram por um muito inteiro, antes por fim ele deixar ela vencer. Micael ao lado de Melina, solta uma risadinha quando o rapaz se levanta e se afasta deles bufando.
— Então quer dizer que você gostou do drinque que mandei? — Micael questiona levemente surpreso.
Melina fita Micael por um período curto, antes de uma risada fraca lhe escapar.
— Você falou bem. Eu curti a bebida — Melina fala enfatizando a última palavra e se inclinando na direção do músico.
Micael passa a mão na barba e baixa a vista por um milissegundo. Pois, ter Melina assim tão perto, mexe com seus instintos mais primitivos. E ele precisa usar de todo seu autocontrole para não ceder a estes impulsos. Ao erguer a cabeça, Micael vagarosamente aproxima seu rosto do dela e inspira profundamente. E o cheiro de Melina invade as narinas dele como um aroma doce e suave inicialmente. Mas ao inalar por muito tempo ele percebe um fundo picante que nubla seus sentidos.
— Foi sobre a bebida que perguntei, certo? — Micael retruca após conseguir sair de seu transe.
Melina se afasta, balançando a cabeça em concordância.
— Mas tenho uma teoria. Se você gostou da bebida, logo escolhi certo. Se fiz uma boa escolha, é porque sou um excelente observador — Micael fala cada palavra pausadamente e com os olhos fixos nos delas.
— E o que isso tem a ver comigo? — fala Melina tornando a se aproximar dele, com a diversão dançando em seus olhos.
Os dois se encaram pelo que parece ser uma eternidade. Ninguém diz uma palavra sequer, limitam-se a sorrir um para o outro. Os olhos de Micael descem ligeiramente para a boca de Melina, que umedece os lábios para provocá-lo. Vendo a reação que desperta nele, Melina morde o lábio inferior para conter o riso. Porém, Micael encara a atitude dela como um convite. Ele movimenta a cabeça alguns milímetros para mais perto da dela. Quando a jovem não recua, Micael não hesita e encosta os lábios nos dela.
Quando a boca de Micael toca a dela, Melina é surpreendida com a doçura que o rapaz a beija. Ele suga e mordisca o seu lábio inferior um par de vezes enquanto enrosca os dedos nos fios de seu cabelo. Como ele não faz, ela começa a provocá-lo com a língua, lhe pedindo passagem e ele concede com rapidez. Foi questão de segundos para que as línguas encontrarem um ritmo prazeroso e sensual.
Quando começou a sentir seu corpo inteiro ficar em chamas, Micael ainda reluta com o fogo e beija Melina por mais alguns minutos. Mas quando o calor chamas se tornaram insuportáveis, ele se afasta dela a contragosto. Sorridente, feliz e levemente ofegante é assim que o músico se encontra agora.
— Eu preciso de uma bebida urgente — Melina fala aos risos, olhando ao seu entorno para achar um garçom.
O desgraçado beija bem. Puta merda!,pensou ela oscilando entre o arrependimento e o desejo de mais.
Micael observa a jovem ainda anestesiado pelo último acontecimento, pois ainda sente o gosto e macies dos de Melina. Mas ao seguir o olhar dela, o rapaz avista Anderson se aproximando de uma mesa para servi-los. O músico ligeiramente assovia e quando o garçom olha, Micael faz um gesto o chamando.
— O que quer beber? Mais caipirinha? — perguntou Micael, repousando a mão sobre o braço de Melina.
— Não, eu quero uma cerveja bem gelada — respondeu a jovem com bastante entusiasmo, fazendo Micael rir.
— Você está com tanto calor assim? — ele provoca comprimindo os lábios para não ri enquanto ela fica corada.
Melina apenas olha para Micael e revira os olhos, a fim de aparentar indiferença. Quando, na verdade, ela para dissipar a vergonha, foca na irritação que sente e usa isso como lembrete do universo de que deve voltar para o seu plano.
Primeira parte dele foi realizada com sucesso,pensou ela animada.
—Com licença… — disse o mesmo garçom que trouxe a bebida enviada por Micael.
—Traz duas cervejas bem geladinhas, Anderson — pediu o músico radiante.
Anderson olha para os dois, dando uma risadinha e em seguida se afasta.
Quando o garçom já não podia ser mais visto, a jovem ardilosa começa a maquinar uma forma de envolver Micael ainda mais em sua teia. Melina começa a vasculhar em sua mente assuntos que poderia usar para demostrar interesse no rapaz. Em meio as memórias, a que mais se destaca para Melina é a do Sávio falando da banda do músico. E é nesta carta que ela decide apostar todas as suas fichas.
—Então, você tem uma banda? — pergunta a jovem apoiando seu cotovelo sobre a mesa e fitando Micael com uma sobrancelha arqueada. — Como se chama?
Micael inclina a cabeça e solta uma risadinha baixa.
—Nação Errática. — O orgulho queimou no peito de Micael ao responder. — Consegue imaginar o gênero das músicas? — Ele indagou, pressionando os lábios um contra o outro para conter o riso.
Diversos gêneros chegam a mente de Melina de uma vez, ter tantas opções a deixa perdida e a sua competitividade só piora as coisas. Na mente dela reverbera a única pista que tem, o nome da banda. E quando mais pensa nisso, mas gêneros descarta e no fim ela fica indecisa entre três. Ela associa o significado do nome Nação Errática com cada respectivo gênero. E isso logo a faz descartar opop, restando apenasindieourockpara escolher.Ao ouvir a risadinha do rapaz ao seu lado, ela foca sua atenção nele.
—Dá pra ver a fumaça saindo da sua cabeça. — O rapaz fala rindo discretamente enquanto descia o zíper da jaqueta.
Melina assiste a Micael tirar aquela peça de roupa escura sentindo a temperatura do ambiente aumentar alguns graus. Não querendo ser pega no flagra secando o músico, ela se força a desviar o olhar dele. E para amenizar seu embaraço, a moça volta a refletir sobre seu desafio. Impaciente e com a cabeça doendo de leve, Melina resolve apelar para a sorte para resolver a questão.
—Rock! — falou a jovem suspirando exausta.
—Bom palpite! — Micael comenta com o tom de voz enérgico e de olhos arregalados. — Você errou, mas bateu na trave.
—Droga! E qual é? — intervém ela com uma entonação arrastada.
A reação desanimada da moça, faz Micael não conseguir conter uma risada sonora e ritmada que ilumina seu rosto.
—Pop rock, gata — respondeu ele, limpando os cantos dos olhos. — Não achei que você fosse tão competitiva.
Melina mordisca o lábio inferior para conter o riso.
—Eu amo esportes, docinho. Competitividade faz parte da minha composição genética. —O coração de Melina transbordava de orgulho enquanto ela falava.
—Com licença, pessoal — disse o garçom com o tom elevado ao se aproximar. — Aqui estão as cervejas. Desculpem por não perguntar antes, mas querem pedir algo para comer? —O rapaz indagou enquanto organizava as latinhas sobre a mesa.
Melina estende o braço para pegar uma latinha, porém Micael é mais rápido e agarra a que ela queria. A moça volta sua atenção para o músico com os olhos semicerrados e com os lábios comprimidos. As palavras escorregam pela sua língua depressa, mas antes dela abrir a boca, ele lhe oferece a latinha que acabou de abrir. A jovem fica surpresa com a atitude do rapaz, mas com esforço engole o que ia dizer e pega a cerveja da mão dele. Ao olhar para o braço de Micael, ela nota uma tatuagem de uma bússola no antebraço dele.
—Quer comer algo? — perguntou Micael com uma entonação divertida.
—Não, valeu — resmunga Melina, levando a bebida aos lábios fingindo indiferença.
—Ok! — falou o garçom com um tom de voz alegre. — Se precisarem de algo, é só chamar.
Micael e Melina apenas assentem com a cabeça e em seguida o garçom se afasta deles.
—Então, quais esportes você pratica? — Micael pergunta após a moça pôr a cerveja sobre a mesa.
Melina dá um risinho de canto assim que as lembranças começam a vir a mente. Mas antes que consiga responder à pergunta, o telefone de Micael começa a tocar. Ele hesita por um segundo em tocar no telefone, a ideia de apenas silenciar a chamada lhe soa tentadora. Porém, o fato de não de quem é, lhe deixa inseguro por não ter noção do assunto.
—Desculpa, deixa só eu verificar quem é — disse Micael com um sorriso forçado no rosto e voltando o olhar para o aparelho sobre sua perna.
—Claro, tranquilo — murmurou a jovem, dando de ombros e inclinando-se sobre a mesa.
Melina pega sua cerveja e mexe a lata de um lado para o outro na mesa enquanto observa Micael atender a ligação com o canto do olho.
—Oi — ele fala sem qualquer traço de bom humor na voz. — Não, eu dei uma saída.
Ao ouvir Micael dando satisfação, o bichinho da curiosidade morde Melina. Então, como quem não que nada, ela ergue a cabeça e finge apreciar o ambiente. Quando sua atenção recai no rapaz ao seu lado, ela vê um semblante fechado no rosto dele.
—Já conversou com o Alexandre ou a Sofia — Micael fala com rapidez após um longo suspiro.
Quando Micael sentiu o olhar de Melina, ele a encara e lhe sorriso que não ilumina os olhos. Ela retribui o gesto e desvia a atenção para a mesa novamente. Melina pega sua cerveja e toma um gole. Mas ao pôr a lata sobre a mesa, escuta seu celular vibrar. A jovem não hesita em conferir do que se trata. Logo que a tela acende, Melina descobre que tem várias mensagens de Sávio.
Droga, Melina! O Sávio deve tá puto comigo., pensou Melina.
Com dedos ágeis e velozes, Melina desbloqueia o telefone e pressiona na tela a notificação do irmão. Quando a conversa abre, a jovem quem uma surpresa, a primeira mensagem é uma foto dela beijando o Micael. Ao ler o que mais ele enviou, ela descobre que boa parte das mensagens seguintes são do Sávio zoando. Melina começa rapidamente a escrever uma resposta, mas antes que consiga terminar de digitar Sávio lhe manda outra.
“Eu sei que a pegação tá boa e o fogo da paixão tá ardente, mas precisamos ir pra casa.”
Ao terminar de ler Melina não consegue segura o riso. Quando a risada sai alta, ela cobre a boca com a mão.
—Preciso desligar agora — Melina escuta Micael falar sentindo o peso do olhar dele. — Nos falamos mais tarde.
Melina se apressa em responder seu irmão.
“Me espera lá na frente!”
—Tá tudo bem aí? — Micael questiona sentindo uma curiosidade voraz.
—Sim! — ela respondeu bloqueando o celular e fitando ele. — É só o Sávio, sendo bem… o Sávio. Ele tava falando que já está ficando tarde e é melhor irmos embora.
—Eu entendo perfeitamente. Mas será que posso ficar com o seu número? — Micael perguntou inclinando-se na direção de Melina.
A indagação do músico faz a jovem saltar fogos dentro de si, pois finalizar seu plano com chave de ouro.
—Claro! — respondeu Melina prontamente.
Assim que Melina responde, Micael já está aposto para anotar o número. Melina fala cada número pausadamente, como se degustasse o vinho mais caro. Contudo, ao chegar nos últimos dois dígitos do telefone ela inverte a ordem deles.
—Anotado! — falou Micael com a alegria iluminando seu rosto.
Melina se levanta da cadeira e pega sua bolsa, quando torna a olhar para Micael, constata que ele também está de pé. Ela se despede dele com um breve aceno, antes de se afastar.
Melina Magalhães é uma jovem de 20 anos que agarrou a oportunidade de mudar de bairro, de rotina — e de vida. Novos ares trazem novas amizades, amores inesperados… e problemas indesejados. Em uma noite, Melina conhece Micael, um músico talentoso que desperta tudo aquilo que Melina não desejava: sentimentos reais. Mas como nem tudo fica onde deveria, fantasmas do passado batem à porta, fazendo Melina tropeçar entre o presente e o passado. Entre beijos escondidos, guerras silenciosas e acordos perigosos, em quem se pode confiar? Um Tour Quase Perfeito é cheio de intrigas e paixões que gritam mais alto que a razão. Porque às vezes, o tour dos sonhos torna-se um verdadeiro campo de batalha — e é aí que o coração mostra pra onde quer ir.
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