Leia agora
Girândola de Amores

Universo da obra

Girândola de Amores

Capítulo 3 · Girândola de Amores

Girândola de Amores: Capítulo III

3 de 30 ≈ 13 min de leitura

Justamente no dia do malogrado casamento de Gregório, o Dr. Ludgero, então chefe de polícia da Corte, acabava de entrar na casa de sua residência à rua da Ajuda, quando o ordenança lhe entregou, por mandado do ativo delegado Benevides, a parte de um grande crime, que nessa mesma tarde se havia cometido nos armazéns de rapé do popular fabricante Paulo Cordeiro.

Ludgero levantou-se incontinenti da mesa, tomou apressado o chapéu e a bengala, meteu-se no carro e disse ao cocheiro que tocasse para a ladeira da Conceição.

O carro parou à entrada de uma espécie de corredor, que conduzia sinistramente a um lugar apertado, sujo e abafado pelo teto. Era aí que a polícia detinha os cadáveres complicados em qualquer crime. Ainda não existia o Necrotério.

Fazia péssima impressão entrar naquela pocilga da morte, cujo aspecto repulsivo dizia todos os mistérios da miséria humana. Constava de um pequeno quarto, estreito e úmido, com duas mesas de pau. Havia também, na parede do fundo, uma cruz negra, que abria na sombra os braços, muito triste, como se estivesse em vão à espera do seu crucificado.

Sobre uma das mesas, jazia, glacial e rígido, o corpo ensangüentado de um homem branco. Ao lado, dentro de um caixão de forma especial e com as tábuas ensebadas pelo hábito de carregar os despojos das autópsias, viam-se matérias informes, de uma cor estranha e repugnante, dentre as quais sobressaíam vísceras humanas, gordas e brancas como carne de porco, e um crânio, cerrado ao meio, deixando transbordar a massa compacta dos miolos. Em torno de tudo isto zumbiam moscas.

Veio à porta receber o chefe de polícia um homenzinho magro e amarelo, tão feio e tão morto de fisionomia, que lembrava os próprios defuntos que lhe cabia vigiar.

O ofício comera-lhe o pavor natural que todo o homem sente à vista da morte, e familiarizara-o com as degradações pavorosas da carne sem vida. Dava-se perfeitamente bem no meio de tudo aquilo: ali comia, ali dormia e ali amava. Quando pilhava algum dinheiro para comprar luz, corria à venda a bebê-lo de aguardente, e à noite deixava-se ficar no escuro com os inalteráveis companheiros de casa, que seguro não o incomodariam durante o sono.

O Ludgero disse-lhe alguma coisa; e o guarda, sem nada responder, conduziu-o para defronte da mesa em que estava o cadáver.

Então o chefe de polícia armou as suas lunetas de vidro graduado, e ficou a observar o morto por algum tempo.

Era um defunto comprido, magro, com barbas empastadas de sangue pelo lado inferior. Estava descalço e tinha o corpo nu, ligeiramente esverdeado. O assassino rasgara-lhe a garganta à faca e puxara o golpe até às regiões dérmicas do tórax.

O chefe mandou chamar o escrivão e o médico, procedeu ao corpo de delito, e, depois de apoderar-se de um farrapo de casimira cinzenta, encontrado na mão direita do morto, meteu-se de novo no carro, e tomou o caminho da Secretaria de Polícia, que nesse tempo era ainda na rua do Sabão.

Aí procurou logo o delegado, com quem conversou algum tempo, terminando por entregar-lhe o farrapo de casimira e recomendar-lhe que procedesse às preliminares do inquérito no local do crime, e desse as providências para as competentes pesquisas.

Nessa ocasião acabava de chegar o Caixa da Casa Paulo Cordeiro, sobre quem recaía o prejuízo causado pelo roubo que dera lugar ao crime. O delegado tomou-o de parte, e os dois ficaram a falar a meia voz.

O chefe entretanto passara à sala de audiência, onde, entre outras pessoas, foi introduzida uma senhora ainda moça, de boa aparência, que dizia querer soltar um escravo seu, preso na véspera.

O chefe ouviu-a com toda a atenção, chamou um empregado e mandou lavrar o alvará de soltura. A senhora levantou-se, e agradeceu, mas, na ocasião em que transpunha a porta para sair, foi detida por uma frase que ouvira destacada da conversa do delegado.

Parou, e protegida por um reposteiro, prestou toda a atenção.

-- É o que lhe digo, Sr. delegado, repisava o queixoso. Nada podemos fazer sem primeiro ouvirmos o rapaz.

-- Mas onde mora esse Gregório?

-- Mora nas Laranjeiras.

-- Em que se ocupa?

-- É zangão da praça.

-- O senhor viu-o hoje?

-- Nem hoje, nem ontem.

-- E ele então sabia que o senhor recebeu ontem à tarde os vinte contos de réis?

-- Foi a única pessoa estranha ao negócio, que soube disso.

-- Bem, disse o delegado; escreva o nome e a moradia desse rapaz, e deixe tudo mais por minha conta.

A mulher que os escutava, aproveitou o momento em que os dois se afastaram, para sair do seu esconderijo e descer precipitadamente a escada.

À rua tomou um carro e seguiu para a casa de Clorinda. Pelo sobressalto em que ia e pelo ar de dolorosa ansiedade espalhado em todo o seu rosto, pálido e simpático, conhecia-se facilmente que a pobre mulher estava sob a influência de uma grande emoção.

Antes porém de voltarmos com ela à casa da noiva, que em tão triste situação deixamos no primeiro capítulo, cumpre dizermos alguma coisa a respeito deste novo personagem.

Imagine o leitor uma mulher cheia de corpo, um tanto baixa, porém esbelta e garrida; dê-lhe um par de olhos castanhos, vivos e graciosos, uma boca risonha, um narizinho arrebitado, uns cabelos da cor dos olhos, um pescoço carnudo e bom torneado; e terá o leitor, pouco mais ou menos, a figura simpática que se dirigia para a casa de Clorinda.

Chamava-se Júlia Guterres; fora atriz por muito tempo e afinal, a instâncias do homem com quem casara, teve de abandonar por sua vez o palco.

O marido faleceu cinco anos depois do casamento, deixando à viúva um legado que lhe assegurava o resto da vida.

Júlia Guterres reuniu o que possuía, vendeu alguns bens que lhe não convinham, alugou o prédio em que morara com o marido, dispôs de alguns escravos, comprou um belo chalezinho na Tijuca, e meteu-se aí, com a intenção de envelhecer tranqüilamente.

Foi nessa casa que ela travou relações de amizade com Gregório. Viram-se os dois à primeira vez por ocasião do batizado da filha de uma amiga. Gregório teria então vinte anos, gozava de alguma fama de estróina e figurava na vida romântica de uma tal Olímpia, a quem o leitor mais tarde virá a conhecer perfeitamente.

Um dia, sentia-se ela aborrecida e nervosa, sem saber o que tinha, nem o que queria; tudo nessa ocasião parecia enfastiá-la profundamente. Vestiu-se, mas não teve a coragem de sair; abriu um livro e não leu uma página sequer; acendeu um cigarro e arremessou-o logo pela janela.

Nisto entrou o criado no seu quarto e disse-lhe que o Sr. Gregório a procurava.

-- Não estou em casa! respondeu a senhora, de mau humor.

Mas, quando o criado ia a sair, acrescentou consigo:

-- Que idéia!...

E mandou que se abrisse a porta ao rapaz. O chalezinho da viúva compunha-se de poucas peças. Havia a sala de visitas, uma alcova, a sala de jantar, um gabinete de trabalho e mais dois ou três pequenitos cômodos de utilidade secundária.

Mas tudo isto estava disposto e mobiliado com muito apuro e muita preocupação de gosto. Desde o jardim, à entrada, que se mostrava logo sentimento artístico na escolha e colocação dos jarros e das estátuas; sentia-se a mão caprichosa que encaminhara as hastes das trepadeiras para as grades da janela, e confrangera as parasitas a se encaracolarem pitorescamente pelos troncos colunares das palmeiras e pelos seixos grotescos do repuxo.

O aspecto rico das plantas, os canteiros moldurados de grama e desenhando pequeninas ruas de cascalho, diziam muito bem com o chalezinho alegre, a rir por entre a exuberância da verdura, e todo ele enfeitado de cores e arabescos, ao sabor particular das chácaras fluminenses; sabor que resulta naturalmente da fisionomia característica das paisagens da Corte.

Quem, com efeito, atravessa as províncias do norte do Brasil e procura compreender o caráter quente das suas múltiplas paisagens, onde predominam os rios e as planícies, chegando ao Rio de Janeiro não se pode furtar à estranha mas agradável impressão que produz ao espírito esta bela cidade, com a sua opulência de palmeiras, a sua variedade pompadouriana de folhagens, a sua pedra original, que aparece por toda a parte, e as suas montanhas, tristes e silenciosas, que se vão perder no céu por entre nuvens.

Gregório penetrou na sala de Júlia, tomado já de certo desânimo: ele há tanto fazia por agradar àquela mulher, e ela sempre a desdenhar dos seus protestos, a chamar-lhe criança e a rir dos seus desgostos, dos seus suspiros, das suas atitudes apaixonadas.

-- Meu amigo! disse-lhe uma vez a viúva; o senhor perde o seu tempo! já não vivo de ilusões! passou a época dos sonhos! hoje, toda a minha felicidade consiste na certeza de que não tenho absolutamente a quem dar satisfação de meus atos!

-- Mas quem deseja escravizá-la? perguntou em resposta, Gregório, procurando pôr uma intenção sutil nas suas palavras. Quem é?

-- Quem? interrogou ela, abrindo para o moço apaixonado seus belos olhos de cor híbrida. Quem?! O senhor, meu querido sonso. Ande lá! Tenho muito medo destes inocentes!... parece que não são capazes de quebrar um prato, entretanto...

E fazendo um gesto de graciosa impaciência:

-- Homem, menino! mudemos de conversa! Falemos antes de D. Olímpia...

Gregório fez que não ouviu este nome e insistiu em que a viúva acabasse a sua frase.

-- Já nem me lembra o que queria dizer...

-- E até onde pode chegar o espírito da tirania! Bem! não a importunarei mais! Adeus.

-- Vai suicidar-se ou vai para a casa de Olímpia?! perguntou a viúva, com um espanto exagerado. Se vai suicidar-se, previna, que preciso preparar o sentimento!

-- Não me fale desse modo! Para que há de fingir aquilo que não é?! Sei que a senhora tem muito e muito coração! Não se queira fazer indiferente e cínica, quando possui aliás tesouros de amor e de ternura...

-- Mau!... replicou ela; o senhor vai por mau terreno...

-- Por quê?...

-- Porque já se tinha despedido e deixa-se ficar.

-- Nesse caso...

-- Adeus.

-- Até quando, ingrata?...

-- Até à primeira ausência da lua.

E a viúva fechou a porta com uma risada.

Depois deste significativo tiroteio, Gregório fez ainda duas ou três tentativas de assédio, mas de todas elas saiu derrotado. É por conseguinte de supor que ele não contasse já absolutamente com o triunfo, quando a criada lhe foi dizer à porta do chalé que a senhora consentia em ser vista.

Entrou vacilante e um pouco entalado na dúvida de mais algum desbaratamento. Júlia recebeu-o sem perturbação. Estava prostrada sobre uma otomana de cetim e aí se deixou ficar, com os olhos meio cerrados de preguiça ou de tédio, as pernas cruzadas indolentemente, e a cabeça esquecida sobre duas almofadas.

-- Vim importuná-la mais uma vez...

-- Não. Assente-se e converse. Traz-me alguma novidade? Que há por esse mundo do espírito?

-- Trago-lhe um novo poeta, Teófilo Dias, conhece?

-- Dê cá.

E a viúva abriu o livro e leu algumas estrofes.

-- Que tal o acha?...

Ela não respondeu e ficou com os olhos cravados no teto; depois pousou-os de novo sobre o livro e continuou a leitura.

Gregório foi a pouco e pouco se aproximando e tomou-lhe uma das mãos. Ela consentiu ou não deu por isso, muito empenhada na leitura.

Gregório recolheu a mãozinha que tinha entre as suas e levou-a aos lábios com a sofreguidão de um faminto.

Ela continuou a ler.

Gregório aproximou-se mais e, todo vergado para a frente, chegou os lábios à cabeça da viúva e beijou-lhe a polpa macia do pescoço.

-- Então? Que é isso! Deixe-me! disse ela, erguendo-se melindrada e deixando escapar o livro das mãos.

Gregório levantou-se também, mas prendeu a viúva nos braços.

-- Não seja assim! Perdoe! disse ele com a voz cheia de súplica. Tenha pena de mim! Repare que sofro deveras por sua causa...

A viúva abaixou a cabeça e ficou a pensar.

Esta transição desconcertou um tanto o pobre namorado.

-- Então?! disse ele afinal; em que pensa?...

-- É o diabo... resmungou a bonita viúva, como se falasse só consigo. É o diabo!...

-- O diabo o quê?... perguntou Gregório com o ar muito infeliz.

-- Você tem vinte anos e eu tenho mais de trinta!

-- Oh! exclamou ele.

-- Oh! não! protestou ela; você no fim de contas é uma criança e eu sou mais que uma mulher!...

-- Lá vem a mania de chamar-me criança!

-- Mas se é!

-- E quer responsabilizar-me por uma falta de que não sou culpado?!

-- Culpada seria eu se não pensasse um pouco!

-- Júlia!

-- Não! Não!

-- Meu amor!

-- Então?!

-- Eu te adoro!

-- Tenha juízo!

-- Tu me pões louco!

-- Mas contenha-se, ou chamo a criada!

-- Julinha!

-- Solte-me o braço! Pior! Não faça cócegas!

Mas Gregório não respeitou a ordem; e Júlia, sem poder sustentar a sério, abriu a rir, a rir muito, a torcer-se toda nas mãos do rapaz, e afinal caiu prostrada na otomana, sem forças para nada, a chorar de riso, nervosamente, sem poder falar.

E tudo felizmente acabou em pura galhofa.

Girândola de Amores

Sinopse

Leia Girândola de Amores, de Aluísio Azevedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e espelhos de conteúdo preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978657743394199721531014
Girândola de Amores

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Girândola de Amores

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Girândola de Amores Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 3 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Girândola de Amores

Capa de Girândola de Amores
Continue a leitura Girândola de Amores: Capítulo III Capítulo 3 · 3 de 30 · ≈ 13 min
Todos os capítulos 30 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir