Universo da obra
Universo da obra
doismurilo
Seu Arnaldo disse o nome dela antes de ela descer do ônibus.
— Raquel Fontes. Vi o nome na lista da imobiliária, meu filho. Minha sobrinha trabalha lá.
Murilo não respondeu. Ficou olhando o jornal que não estava lendo enquanto Seu Arnaldo falava sobre a casa de Dona Neusa, sobre o preço do metro quadrado em Caraíbas, sobre como a cidade estava mudando. Ele não estava ouvindo nada disso.
Estava esperando o ônibus das 14h30.
Quando ele vira e ela está lá — mochila no ombro, cabelo preso de qualquer jeito, a expressão de quem calculou uma rota alternativa e chegou tarde demais — alguma coisa no peito desaperta.
Não é alívio. Não é bem isso.
É aquela sensação de quando você fica muito tempo segurando o ar.
Ela vem em direção a ele com aquela caminhada que ele reconhece de olhos fechados — levemente inclinada pra frente, como se estivesse sempre indo contra o vento.
— Oi — ela diz quando chega perto.
— Oi.
— Você mora ainda aqui na praça ou foi só coincidência?
— Fui buscar jornal.
Ela olha pra banca. Ele não comprou jornal nenhum.
— Ah — ela diz.
— Você veio pra casa da sua mãe.
— Sim. Três dias.
— Eu sei.
Ela franze o cenho — aquela linha pequena entre as sobrancelhas que aparecia quando ela estava tentando entender alguma coisa. Ele conhece essa linha há vinte anos.
— Cidade pequena — ele explica.
— É.
O silêncio entre eles é a coisa mais barulhenta que Murilo já ouviu. Tem camadas. Dez anos de camadas.
— Eu posso ajudar com a casa — ele fala antes de decidir falar. — Tem umas coisas que precisam de conserto. A calha dos fundos, acho. Dona Neusa me pediu pra olhar faz uns meses, mas ela foi embora antes.
É verdade. Também é uma desculpa. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Raquel demora três segundos. Ele conta.
— Tá bom — ela diz. — Amanhã cedo?
— Amanhã cedo.
Ela acena com a cabeça, ajusta a mochila, vai embora na direção da casa. Murilo fica parado na praça com o sol de dezembro nas costas e aquela sensação de que o ar ainda não voltou completamente.
Seu Arnaldo tosse ao lado dele.
— Bonita que só, hein.
Murilo não responde.
Dez anos. Uma cidade pequena que não esquece ninguém. E ele ainda lá, com as mesmas mãos e o mesmo jeito de esperar que sempre desestabilizou tudo. Raquel não voltou pra ficar. Veio assinar uns papéis, pegar o que a mãe deixou, ir embora. Simples. Só que cidade pequena não deixa ninguém se esconder. E Murilo nunca precisou de muito pra bagunçar qualquer plano que ela tivesse.
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