Leia agora
Vida Urbana

Universo da obra

Vida Urbana

Capítulo 64 · Vida Urbana

A casa única

64 de 90 ≈ 7 min de leitura

A casa única

-- Como foi então, a história?

-- Ouve.

-- Estou ouvindo.

-- Eu me formei muito cedo, antes dos vinte e dois anos, como tu sabes. Logo que me formei, graças ao meu Lugar de praticante dos Correios e o rendimento de algumas apólices, pude alugar um escritório, comprar um anel simbólico, um guarda-chuva de castão de ouro, uma pasta de couro, enfim todo o arreamento de um grande advogado. Tive a imagem disso, antes da sensação... Passei a trabalhar nos Correios à noite; e, durante o dia, logo pelas primeiras horas vinha para a cidade, ia ao escritório, onde tinha um empre­gado de sociedade com o vizinho. Sentava-me então solenemente à secretária e esperava os clientes. Não vinham. Eu ficava uma, ou duas horas a folhear uns manuais, aborrecia-me e saía, tendo antes o cuidado de dizer ao pequeno, com muita ênfase: "Se vier alguém procurar-me, diga que fui al­moçar e já volto."

-- Ias almoçar mesmo?

-- Ia mesmo. Ainda havia dinheiro, não tinha torrado as apólices. Saía com pasta, fraque, guarda-chuva, etc., e ia ao Pascoal tomar um aperitivo e...

-- Foi pena eu não te conhecer nesse tempo!

-- Porque?

-- Todos os dias te esperava, para pagares-me um tam­bém.

-- Não fizeste falta.

-- Como!

--

-- Pois eu mesmo me encarreguei de travar relações com poetas, jornalistas e literatos e não havia dia em que não levasse um de reboque. Precisava da imprensa, para os meus planos...

-- Que não soubeste executar.

-- Vou te dizer porque.

-- Estou ansioso pelo desfecho.

-- Ia ao Pascoal com o Guedes, por exemplo, que hoje tem ou vai ter, cem mil-réis por mês que o Alves lhe dá, lá da sepultura. Começávamos a conversar eu, pasta, anel e guarda-chuva de cabo de ouro e outros apetrechos forenses e desandávamos a discorrer sobre negócios de versos, jornais e outras histórias correlativas.

-- Foste sempre dado a estas coisas?

-- Como todo mundo... Escrevi nas revistas de estudantes, fiz o discurso da turma; mas sempre tive medo dessas coisas de literatura.

-- Porque?

-- Porque? Por causa dos gramáticos que nunca se en­tendem.

-- Mas os advogados?

-- A coisa é mais escondida; não é tão...

-- E quando vão para os apedidos?

-- A crítica literária não intervém... Deixa-me contar a história com os diabos!

-- Conta.

-- Onde eu estava mesmo?

-- Ias almoçar e encontravas o Guedes

--Bem. Muitas vezes, o Guedes seguia-me até o hotel e almoçávamos juntos. Em geral, porém, eu ia só. Almoçava, vinha tomar café fora, adquiria um charuto e lá ia eu, pasta, guarda-chuva de ouro, fraque, anel, etc., pela Rua do Ouvidor abaixo até a Rua do Carmo, onde tinha o escritório. Antes de entrar, perguntava precavidamente ao rapazote: José, veio alguém? Ao que ele respondia desconsoladamente: Ninguém, seu doutor. Entrava, descansava a pasta, etc., e esperava, mas...

-- Como é que querias que viesse alguém, se não anun­ciavas?

-- Não. Anunciei nos grandes jornais, durante muito tempo; e foi mesmo essa história de anúncios uma das causas de eu deixar a advocacia, porque...

-- Como?

-- Eu te conto. Tinha um camarada do colégio que fora sempre dado a esse negócio de revistas e jornais ... Era o Fontes... Um belo dia, apareceu-me ele no escritório e dis­se-me! - Castro, estou publicando uma revista - Os Suces­sos... - ; Não sei se tu conheces? "Não", disse-lhe eu. Ele, o Fontes, abriu uma pasta igual à minha, e tirou de lá três números da tal revista. Folheei-os, achei-os bonitos, bem impressos, e enquanto isso o Fontes gabava os méritos de sua publicação. Perguntei-lhe com franqueza o que queria. "Pri­meiro, disse-me ele, a tua colaboração"...

-- Colaboraste?

-- Ouve. "Primeiro, disse-me Fontes, a tua colaboração; e, em seguida, que tu me dês um anúncio aqui, para esta seção - Momentos dos Advogados". Pensei um instante e per­guntei-lhe quanto era. "Pouco; cinco mil-réis por numero" , res­pondeu-me ele. Autorizei e logo que o tal anúncio no Mo­mento do Fontes, apareceu, nunca mais o meu escritório ficou às moscas. A toda hora e a todo instante, lá aparecia um diretor, um secretário, ou um gerente de revista a pedir o meu anúncio. Fui autorizando, na persuasão de que atraís­sem clientes; mas não me surgiu nenhum.

-- Não devias ter sido tão pródigo ... Quanto te custou essa maluquice?

-- Em um ano, cerca de dois contos de réis. A minha pequena fortuna ia-se e eu não conseguia obter nem uma causa; entretanto, teimava em ser um grande advogado. Todos os dias eu, pasta, guarda-chuva de ouro, anel, fraque, etc. íamos ao fórum e nada obtínhamos. Travei no fórum conhecimento com um escrevente juramentado, o Carvalhais. Era um rapaz adamado, abrilhantado, com uns ares importantes, uma pasta igual à minha, variando de roupas todos os dias e fazendo a noce com a maior distinção. Quase sempre be­bíamos juntos e ele me dizia sempre: "Doutor, hei de lhe arranjar uma coisa boa". "Pois bem, Carvalhais", respondia-lhe eu. Um dia, ao chegar ao fórum,logo topei com o Carva­lhais, acompanhado de um sujeito rústico, branco, musculoso, curto, a quem me apresentou, como precisando dos meus serviços. "Pois não", fiz eu muito contente. "Então", respondeu o Carvalhais, "vamos todos ao tabelião". Fomos. Lá, Carvalhais falou a um colega, que abriu um grande livro, e eu mais o cliente ficamos sentados à espera. Daí a pouco, fui chamado por Carvalhais. Assinei o tal livro, o cliente também, Carvalhais também. "Agora", disse-me Carvalhais, "vamos até ao escritório do doutor, pois temos ainda o que fazer". Assim fizemos. Em lá chegando, ele me deu três ou quatro papéis a assinar - o que fiz sem os ler.

-- Homessa!

-- Paciência filho; espera! Acabado o que, ele, o Carvalhais, me disse: "Doutor, não há serviço que não mereça paga". Tirou do bolso seis notas de quinhentos mil-réis e me deu. Despediu-se amavelmente e foi-se com o meu cliente.

-- Qual era a causa?

-- Tu sabes?

-- Não.

-- Nem eu... No dia seguinte, fechei o escritório.

O Malho , Rio, 28-6-1919.

Vida Urbana

Sinopse

Leia Vida Urbana, de Lima Barreto, grátis no Literunico. Livro de crônicas brasileiras em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978653459820148790068086
Vida Urbana

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Vida Urbana

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Vida Urbana Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 64 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Vida Urbana

Todos os capítulos 90 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir