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Capítulo 62 · Vida Urbana

O chefe político e o seu eleitor

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O chefe político e o seu eleitor

Seu doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha consciência.

-- Que há?

-- Eu não voto no doutor Rui.

-- Como você vai votar no Epitácio ?

-- Nem num nem noutro.

-- Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de antigamente. Que diabo foi isso?

-- Eu não tenho sido companheiro para você?

-- Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor me ajudou muito...

-- Isso tudo não vem ao caso. Falemos...

-- Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido. Se estou empregado, devo ao dou­tor e...

-- Se você continuasse no partido, podia subir ou nós ar­ranjávamos uma equiparação ou mesmo um aumento de venci­mentos; mas...

-- Continuo no partido, doutor...

-- Como? Você não vota conosco...

-- Mas não voto no outro.

-- É o mesmo.

-- Não é doutor.

--É sim Felício! Em política, quem não é por mim é contra mim. Você sabe disso não é?

-- É e não é. Não estou contra o senhor não senhor! É que me deu uma coisa cá dentro e eu...

-- Que foi que deu em você?

-- Eu me explico, tanto mais que tenho pensado muito no caso. O senhor quer me ouvir?

-- Ouço, mas você não demora muito.

-- Não demoro não senhor.

-- Conte lá a história.

-- Vou contar. Trata-se - não é verdade? - de escolher o homem que vai governar isto tudo. Quero dizer que ele vai governar todos os brasileiros, inclusive eu.

-- Daí?

-- Espere doutor! Pensei, então, eu cá com os meus botões: vou escolher uma pessoa que deve mandar em mim, na minha mulher, nos meus filhos, na minha casa até - pre­ciso cuidado. Não é doutor?

-- Mais ou menos, é, pois há a lei que ...

-- Isto de lei é história. Quem governa é ele mesmo...

-- Vamos adiante.

-- Um homem que vai ter tanto poder sobre mim, sobre os meus e sobre as minhas coisas para ser escolhido por mim mesmo, deve ser meu conhecido velho. Voluntariamente pela minha própria vontade, vou escolher um dono para mim, e sendo assim o meu dever é estar inteirado do sujeito que é - não acha?

-- Sim, não há dúvida. Mas você sabe bem quem é o Rui, penso eu.

-- Conheço. É um homem muito inteligente...

-- A maior glória do Brasil.

-- É um grande talento.

-- É um gênio.

-- Sei de tudo isto doutor. Mas daí não posso concluir que ele possa mandar-me.

-- Porque?

-- Pode ser caprichoso, implicante ...

-- Ora!

-- Quer dizer que ele nunca me enxergará, não é?

-- Não é bem isso...

-- Ele pode não me enxergar, mas um dia enxerga outro por ele, e lá estou eu a braços com um homem de veneta.

-- Não digo que ele seja...

-- E o Epitácio?

-- Esse ouço dizer que também é inteligente, doutor, tem sido muita coisa...

-- Mas não é o Rui.

-- Sei, doutor. Rui Barbosa não tem igual.

-- Mas porque você não vota nele?

-- Não voto porque não o conheço intimamente, de perto, como já disse ao senhor. Antigamente...

-- Você não pensava assim - não é?

-- É verdade; mas, de uns tempos a esta parte, dei em pensar.

-- Faz mal. O partido...

-- Não falo mal do partido. Estou sempre com ele, mas não posso por meu próprio gosto dar sobre mim tanta força a um homem, de que eu não conheço o gênio muito bem.

-- Mas, se é assim, você terá pouco que escolher a não ser, nós colegas e nós amigos de você.

-- Entre esses eu não escolho, porque não vejo nenhum que tenha as luzes suficientes; mas tenho outros conhecidos, entre os quais posso procurar a pessoa para me governar, guiar e aconselhar.

-- Quem é?

-- É o doutor.

-- Eu?

-- Sim, é o senhor.

-- Mas, eu mesmo? Ora...

-- É a única pessoa de hoje que vejo nas condições e que conheço. O senhor é do partido, e votando no senhor, não vou contra ele.

-- De forma que você...

-- Voto no senhor, para presidente da república.

-- É voto perdido...

-- Não tem nada; mas voto de acordo com o que penso. Parece que sigo o que está no manifesto assinado pelo senhor e outros. "Guiados pela nossa consciência e obedecendo o dever de todo republicano de consultá-la"...

-- Chega Felício.

-- Não é isso?

-- É mas você deve concordar que um eleitor arregimentado tem de obedecer ao chefe.

-- Sei, mas isto é quando se trata de um deputado ou senador, mas para presidente, que tem todos os trunfos na mão, a coisa é outra. É o que penso. Demais...

-- Você está com teorias estranhas, subversivas...

-- Não tenho teoria alguma, doutor. Consultei a minha consciência e a minha gratidão, e voto no senhor.

-- Mas... já sou deputado.

-- Que tem? Sobe mais um posto, ganha mais...

-- Não preciso, já ganho na clínica muito.

-- Com o lugar de deputado? Então pra que quis ir para a Câmara?

-- Para nada.

-- Doutor, eu decididamente não compreendo nada disto. Essa política é mesmo igual aos mistérios dos padres... Passe bem.

O Malho , Rio, 1-4-1919.

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Sinopse

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