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Capítulo 19 · Novos Cantos

Gulnare E Mustaphá

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Gulnare E Mustaphá

Deos Senhor foy quem nos céos

Pendurou milhões de estrellas,

Foy quem matisou a terra

De froles varias e bellas,

Quem ao mar por ser pujante

Areias deo por cancellas.

Mandou mais qu’arvoles fortes

Das sementes germinassem,

Que déssem froles mimosas,

Que perfumes trescalassem,

E mais fez que em tempo azado

As froles fructificassem.

Pois aquelle anjo das trevas,

Imigo da humanidade,

Nas arvoles poz carcoma,

Poz na frol muita ruindade,

Poz nos céos a nuvem negra,

Poz no mar a tempestade.

Nem só nas coisas terrenas

Damna, e faz mal o tredor,

A alma tambem por mil modos

Tenta com geito e sabor,

Que troca o prazer celeste

Em penas d’eterna dôr!

Mas não foy jamais que Deos

Em tal feito consentisse,

Senão porque suas posses

O homem bem claro visse;

Que sem elle fôra o mundo

Maldade só e sandice.

Mas que mal ha hy na terra

Que não venha pera bem?

Os d’aqui desta amargura

Dão coyta, e gloria porêm;

Dos outros que traz o demo

Deos o remedio lá tem.

Do mal que me foy commigo

Acontecido, al não sei,

Senão que por amor delle

Muito má vida levei,

Que me dá coyta mui grave

Do mal que me comportei.

Como já fiz penitencia,

Ora farei confissão;

Tal será, qual foy o escand’lo

De que fui occasião:

Não me tomem por modelo,

Mas tomem de mi licção.

Não he pera honra minha,

Mas pera honra dos céos,

Que eu direi publicamente

Os feios peccados meos;

Toda a vergonha foy minha,

Toda a honra cabe a Deos.

He uso assi na milicia

Celeste, e mais na d’aqui:

Dá batalha o cabo experto,

Desses muitos que ha per hy;

Toda a preza aos seos concede,

Só lôa quer pera si.

A Princeza Dona Joanna

Já vive dentro d’Aveiro;

Comsigo trouxe os escravos,

Que lhe trouxe o rey fragueiro;

O que ás terras africanas

Passou, e voltou primeiro.

Vierão aquelles feios

Netos d’Agar, inda mal!

Traçando vastas roupagens

Á maneira oriental;

Larga faxa na cintura,

Na faxa largo punhal.

Era pasmo vel-os juntos

Polas ruas passear,

Passo á passo-graves, mudos,

Com doairos d’espantar,

Profundas rugas na fronte

Rugas de máo meditar.

Levar traz si tanta gente

Nunca a ninguem vi assi;

Nem folias, nem cantares

Vi com tal cauda apoz si,

Bôdo, nem festa d’orago,

Bufão, e nem bolati’.

Mas quem vio acaso as turbas

Correrem traz algum bem?

Vão todas apoz engodos,

Apoz maldades tambem;

Mas seguir a Deos por gosto

Nem as vi, nem vio ninguem.

Com estes mouros descridos

Vierão tambem aquellas

Moiras, filhas da Mourama,

Donas, creio, muito bellas;

No trato e no galanteio

Outras que tais Magdanellas.

Vinha tambem a menina,

Aquella moira fatal,

Que nas ruas de Lisboa

Vi no cortejo real:

Cortejo del-rey Affonso

Vi-o eu, só por meo mal!

Quantas coisas que trazia,

Nulla rem lhe estava mal;

Dizião que tudo nella

Tinha graça natural,

Era coisa preciosa,

Como coisa oriental.

Aquella abelha sem dardo,

Aquella pomba sem fel

Passava noites inteiras

Tangendo n’hum arrabel,

Coando vivas saudades

Dos labios, em leite e mel.

E, alta noite, nas trevas

Ouvindo na solidão

Aquelle triste instrumento,

Al não disseras, senão

Que o mesmo demo voltado

Era n’aquella feição.

Zagales porêm da serra

Mil vezes, no fim do dia,

Polos montes não buscava

A sua ovelha erradia;

Mas no bordão apoiado,

De si mesmo se esquecia.

Cant’eu vendido e prasmado

De todos e mais de mi,

Mil vezes fugi da cella,

Té das matinas fugi,

Mil vezes, durante a noite,

Aquelle instrumento ouvi.

Mil vezes!... e não sei como

Isto foy, que o não sentia,

Quando mal me precatava,

Dava commigo que ouvia

Dilatar-se polos valles

Aquella doce harmonia.

Assi todo embevecido

Bons sonhos que então sonhei,

Boas venturas que tive,

Bons scismares que scismei!

Esqueci-me de ser frade!

Como isto foy, já não sei.

E se ás vezes me lembrava

Do juramento que dei,

Do encargo que me tomára,

E das vestes que eu tomei,

Chorava; e não sei bem como

Em pranto não me afundei.

Derramei n’aquellas brenhas,

Cheio d’extranha afoiteza,

Palavras dadas ao vento

Com muito feia crimeza,

Contra mi e contra todos,

Contra toda a natureza.

Polas serras, polos matos,

Polas voltas dos caminhos

Rojei nas sarças mordentes

E nos cardos montesinhos,

Rasgando os brancos vestidos

N’aquellas matas d’espinhos.

E não sei, oh! não sei como

Todo eu não fiquei aly,

Como eu que por tantas vezes

Rosto nas rochas feri,

Não perdi o ser de todo,

Nem siquer ensandeci.

Então ao Senhor clamava:

«Cegueira, Senhor, me dás!

Cinge-me os rins larga zona

De ferro, e bem me não traz;

Trago cilicios mordentes,

Usando burel mordaz.

«Abro e vejo o livro sancto,

E vejo que não sei ler!

Aquelles sanctos dictames

Já n’os não sei compr’hender;

Enojo occupa minha alma,

Hei pavor de me perder!»

Donde pois me vinha a mi

No proprio bem ver o mal?

Conheci no meo exemplo,

Que m’era do ser fatal:

Senhor, teo sancto remedio

He triaga cordial.

Bem como o ferro na fragoa,

No soffrer a alma se apura,

Assi que disse eu commigo

Que a triaga tambem cura,

Quanto mais amarga e punge,

Poder de sua amargura.

Aquella negra peçonha

Lavrando foy pouco e pouco;

Rohia coyta d’amores

Miôlo cavado e ôco,

Já era o mal dentro d’alma,

E eu delle rendido e louco.

Dizião meos bentos Padres:

«Que he feito de Frei Antão?

Negra dôr o tem por certo,

Negra dôr de coração:

O demo o fez, porque visse

Turbada tal perfeição.

«Parece já de esquecido

Que nem de si tem lembrança!

A taboa se achega apenas,

Não toma a sua pitança;

Té nos officios divinos

Perdeo a sua trigança.

«Sahe á noite muitas vezes,

Diz o bom do Guardião:

Sahir á noite, á deshoras,

Certo não he devação:

Que faz de noite nas ruas

Hum padre, ou frade ou christão?»

Com tudo alguns dos mais velhos

Dizião: «Que ha hy de mal?»

O quer que he que o pertuba,

Coisa não he natural:

Deve ser condão divino

Ou graça celestial!

«Pois hum sancto como aquelle!

Quem he que o ha de tentar?»

Eis senão quando começa

Voz, não sei donde, a zoar

Que Frei Antão ja não sabe

No seo rosairo rezar!

E o caso foy que hum noviço

Tirou-mo só de matreiro,

Tendo-o fechado comsigo

Por novena ou mez inteiro;

E eu d’outro me não provêra,

Sendo que tinha dinheiro!

Todolos meos defensores

Voltarão-se contra mi;

Dizião que era mal feito

Hum sancto mentir assi:

Seja-me Deos testemunha,

Nem sancto sou, nem menti.

Logo em Communidade

Propoz-me o Provincial:

«Dizei peccavi , meo Padre,

Que voz havedes tão mal,

Que não rezades as rosas

Da virgem celestial!»

Ouvido que foy por mi

Tão solemne mandamento,

Ámi, que primara sempre

Adentro do meo convento,

Não sei que pejo maldicto

Acorreo-me ao pensamento.

Não era feio o peccado,

Mas confessal-o; e assi

Fiquei de pavor tranzido,

Mal que tal preceito ouvi:

Homem não era de carne,

Montanha de pedra-si.

Torvado, calado e mudo

Nada não soube dizer;

Nem confessar meo peccado,

Nem ao menos responder:

Ficárão como suspensos

Os que erão aly a ver.

O grave Provincial

Rompe o silencio, e «Azinha

Trazei, disse elle, o hyssope,

Mais a benta caldeirinha;

Ver demo em corpo de frade

Coisa não he comezinha!»

Corre afanado o Sacrista

Pera a sua sacristia,

Traz prestes a caldeirinha

Banhada inteira na pia;

Rezava mil rezas suas,

Mil esconjuros dizia.

Do Sacrista amedrontado

Recebe o Provincial

O hyssope todo molhado,

Dizendo sacerdotal:

«Fugide, partes adversas,

Demonio, esprito do mal.

«E mais deixa a criatura

Por amor de quem Jezus

Soffreo marteyro affrontoso,

E morte vil n’huma cruz;

Em nome do Padre e Filho

E Esprito, que sempre luz!»

Ouvido aquelle exorcismo,

Cego de toda a razão,

Larguei-me do refeitorio,

Fugindo como hum ladrão:

Clamárão todos em grita:

«Chantou-se nelle o Legião!»

Enfiei os claustros todos,

Passei pola portaria,

Achei-me em logar, de noite,

Que eu mesmo não conhecia:

Os sons do arrabel mourisco

Somente daly se ouvia.

No entanto os Padres prudentes

Discursavão entre si,

Dizião dos esconjuros

Que mal cabião em mi,

Que era grande sacrilegio

Usarem commigo assi.

Ai! sacrilegio era o homem

Que ao inferno se vendia,

Era o christão que adorava

As filhas da idolatria,

Que dentro em si tinha o Demo,

E o Demo em si não sentia;

Era o Padre que trocára

O amor de seo Senhor

Por amor d’huma Donzella,

Filha d’aquelle impostor,

Mafoma, falso propheta,

Mafoma, judêo tredor!

A princeza Dona Joanna

Mandou ao nosso Convento:

Qu’eu prestes vá ter com ella

Manda por seo mandamento;

Não quer demora, nem falta,

Negocio diz de momento.

Qual seja o negocio urgente

Não m’o diz a mensageira;

Não sabe coiza de certo,

Não dirá coisa certeira:

O habito á pressa enfio,

Tomando-lhe a dianteira.

E logo, chamada á grade,

Veio a Princeza real:

«Meo Padre, disse-me entonces,

He fóra do natural

Qu’eu tenha escravos, e mouros,

Rainha de Portugal.

«Ide vós porêm chamal-os

Pera o rebanho christão;

Cazade-os vós muito embora,

Que bem dahy haverão:

Eu lhes darei corpo livre,

Deos Senhor a salvação.»

Siquer huma só palavra

Não tive n’aquelle ensejo,

Sustou-m’a já na garganta

Não sei que mesquinho pejo;

Por confessar meo peccado

Em vão trabalho e forcejo.

Vergonha foy o que eu tive,

Vergonha que todos têm;

Ultimo fructo colhido

N’aquelles jardins do Eden;

O Demo o tocou primeiro:

Todo o seo mal dahy vem!

Como está no fundo lago

O verde limo acamado,

Assi deitado e mimoso

Brilha lustre avelludado;

Tal é aquella vergonha,

Que vem apoz o peccado.

Mas remechei nas raizes

Do limo que he tão viçoso,

E vereis como se prendem

No fundo impuro e lodoso:

Aly com ellas se abraça

O feio verme asqueroso!

Aly mil serpes occultas

Vivem, cruzando laçadas,

Muitos sapos bufadores,

Muitas rãs esverdinhadas;

Humas coizas de má sina,

Outras coizas mal fadadas.

He força fallar a moira!

Disse commigo, e assi

Andava curtas passadas

Por não chegar; ai de mi!

Tem termo toda a jornada,

Cheguei! porque não morri?

Já d’aquelles outros mouros,

Tão feros, não se me dava;

Mas de suor de maleitas

O corpo se me banhava,

Quando d’aquella menina

Moirisca, me recordava.

Lançado em covil de feras

Foy o sancto Daniel,

Fui eu no covil lançado

D’aquella gente infiel;

Era elle experto em tais lutas,

Eu em tais lutas novel.

Entrei no quarto da moira

Leixando a mais gente vil,

Ardia doce perfume

Em transparente viril;

Sobre um bofete lavrado

Vi hum lavrado gomil.

Tinha o quarto huma só porta

Que hum reposteiro cobria,

E hum pano de seda verde

Sobre a estreita gelosia,

E mais hum denso tapete,

Que o som dos passos comia.

Trazia a moira mimosa

Vestes de branco setim

Entreteladas parece

De coiza de bocachim,

E humas largas pantalonas,

Respirando benjoim.

Trazia hum jubão mui justo

De seda azul anilado,

Com longas mangas perdidas,

De carmim todo ferrado,

Como se fôra hum alfange,

Na cintura recurvado.

Coifa branca auri-bordada

A negra coma apertava;

Que doces anneis brincados

A negra coma formava,

Quando por vezes no collo

De neve-se debruçava!

Sob as largas pantalonas

Hum pesinho delicado

Sahia nusinho e bello,

Mimoso e branco e nevado;

Em chapins dos mais pequenos

Parecia andar folgado.

Em cada hum dos seos dedinhos

Trazia a moira hum annel;

Meio deitada, á desleixo,

Tangia no arrabel;

Tangia-o com tanta graça,

Nem que fôra hum menestrel.

A lettra que ella cantava

Era de lingoa algemia;

Era qual trinar das aves

As notas em que gemia

Saudades de longes terras

Em peregrina harmonia!

Era menina e formosa,

Nunca lhe vi sua igual!

Coiza assim tam primorosa

E tanto celestial,

Ou era filha dos anjos,

Ou filha do pay do mal.

Deos Senhor, entre luzeiros,

E o demo em sua cegueira,

Fazem quasi as mesmas coizas

Mas por diversa maneira;

O demo como quem he,

Deos como luz verdadeira.

Pois este pôz a virtude

Entre afflicções dolorosas,

Qual frol de rosa entre espinhos;

Em ledices enganosas

Poz o demo o seo peccado,

Qual feia serpe entre rosas.

Quanto o sol mais se abaixava,

Tanto mais alto gemia

Aquella moira mimosa,

Que as suas magoas carpia:

He hora que espalha enlevos

A hora do fim do dia!

O passaro então das ramas,

Louvor a nosso Senhor!

Ultimo vôo desprega

E hum doce grito de amor;

Nas pennas esconde o bico,

Nem teme o visgo tredor.

As froles do sol viuvas

Definhão, só de tristura:

O mar soluçando geme,

Mais alto a fonte murmura,

Reina o silencio que falla,

Bafeja a doce frescura.

«Vistes vós meo bem amado,

(Dizia a filha d’Allah)

«Vistes vós meo bem amado,

«O meo senhor Mustaphá!

«Se o vistes, dizei-me onde!

«Por alma vossa, onde está?

«A noite o deixou fechado

«Portas a dentro do harem:

«Sorvia aquelles perfumes,

«Que lá d’Arabia nos vem;

«Trajava os reais vestidos,

«Que lhe cahião tão bem.

«Já era sobre-manhã

«Quando de mi se apartou;

«Seo negro corsel d’Arabia

«D’um pulo só cavalgou,

«E o sol que vinha raiando

«Lá na montanha o topou.

«Vio daly seos bons guerreiros,

«Em alas promptos estão;

«De fronte mal enxergava

«O troço do rey christão;

«Disse o crente musulmano:

«Allah m’os trouxe, meos são!

«Allah! lhes grita o guerreiro,

«Respondem-lhe os seos: Allah!

«Gritão Christãos: Sam Tiago!

«E o meo senhor Mustaphá

«Desceo então da montanha,

«Que nunca mais subirá.

«Desceo elle da montanha

«Qual rocha descommunal,

«D’agudo cimo tombando,

«Arrazando o pinheiral;

«Mas a rocha em fundo valle

«Faz-se pedaços, em mal!

“Desceo elle ao fundo valle,

“Como o tufão queimador;

“Polos christãos inimigos

“Cortou sem pena e sem dôr;

“Raio d’esforço na guerra

“Foy Mustaphá, meo Senhor!

“Mas o vento do deserto

“Depois de médas formar

“Das areias que agglomera,

“Onde he que vai acabar?

“Mafoma e Allah que mo digão,

“Que eu não sei senão chorar!

“Allah quebrou teo orgulho,

“Meo bom senhor Mustaphá!

“Allah quebrou teo orgulho,

“Mas quando se acabará

“Vida que Vives de escravo,

“Vida que levas tam má?

“Doces Huris do Propheta,

“Lá do palacio de Allah,

“Olhavão cá pera baixo

“Só pera ver Mustaphá!

“Guerreiro não foi como elle,

“Como elle ninguem será.

«De ser elle o meo amado,

«Ai que já fui bem feliz!

«De ser elle o meo amado

«Tinhão-me inveja as huris:

«Ora não ha quem m’inveje!

«Foy Allah que assim o quiz.

«Ora não ha quem m’inveje!

«Tenho no peito afflicção;

«Escrava sou d’hum escravo,

«Escravo d’hum vil christão!

«Mesquinha, que ainda o amo;

«Trago-o aqui no coração!»

Então pera junto della

Cheguei-me sem ser sentido;

Fallei-lhe em som cavernoso,

Medonho e baixo no ouvido:

¿Por que assi amas o escravo?

Disse eu, do meo mal vencido.

Foy certo o esprito malvado

Quem pera ally me arrastou,

Quem nos meos castos ouvidos

Palavras tais derramou,

Quem aos pés da moça moira

O velho padre acurvou.

Era elle quem nos meos hombros

Pezava co’o pezo seo,

Quando a moita espavorida

Do vasto leito se ergueo:

Vendo-me ally de giolhos,

Baixou de medrosa o véo.

O véo baixou de corrida,

Mas antes seos olhos vi;

Aquelles olhos fermosos

Lavar-me o rosto senti,

Tocar-me no fundo d’alma,

Tirar-me todo de mi.

Luz que vi d’aquelles olhos!

Ora bem se me afigura

A lua rasgando as trevas

Em meio de noite escura:

Vi Diana, a caçadora,

N’aquella hardida postura.

Mas a moira de repente

Hum grito franzino dá!

De mi se parte voando,

¿Senhor Deos, o que será?

Volto prestes a cabeça...

Vejo o mouro Mustaphá!

Em roda do seo pescoço

A moita os braços prendeo;

Arfa-lhe o peito açodado;

Pera traz roja o seo véo,

Off’rece o rosto mimoso

Aos beijos d’aquelle incréo!

Era assi qual amorosa

Hera que hum robre vingou;

Ligou-se estreita com elle,

Do tope se debruçou,

Folha metteo pelas folhas,

Vida com vida cazou.

«Gulnare, disse-lhe o mouro,

Gulnare, meo doce amor,

Melhor que a rosa da Persia,

Que arabio incenso melhor,

Frol dos jardins do propheta,

Que dás mate a minha dôr!»

Responde a moira mimosa:

«Dizes bem, meo Mustaphá;

O fogo chegou-se ao incenso,

O incenso effluvios dará;

O sol scintilla na rosa,

A rosa resurgirá.»

Abelha, tornou-lhe o mouro,

Que susurras de agastada;

Herva, que as folhas constringes,

De estranho corpo tocada;

Quem tocou na minha abelha,

Quem na herva delicada?

Ella entonces de malquista

Deo-lhe d’olhos pera mi;

Sancto Jezus! em que apertos

N’aquelle ensejo me vi,

Prendera-me força occulta,

Foy porêm que não fugi!

Trazia o moiro atrevido

Adaga no boldrié;

Deixar a moiros com armas,

Gente de baixa ralé,

Em que escravos de Princeza,

He certo extranha mercê!

A mão no punho da adaga,

A passo, vem sobre mi;

Trinca as pontas do bigode,

Quais cerdas de javali;

A barba toda se erriça,

Que feio rosto lhe vi!

Os olhos que me lançou,

Jamais não vi seos iguais;

Devião ser puro fogo,

Senão faiscas fatais

D’aquelle sol do deserto,

Que abraza e funde areais.

Negros olhos de panthera,

Luzindo em feia spelunca;

Olhos, que o gyro do sangue

Nas veias demora e trunca;

Olhos cheios de carniça

E della não fartos nunca.

A mi chegou-se, inquirindo,

“Que vieste aqui fazer?”

Fiquei deslogo tremendo,

Sem lhe poder responder:

“Senhor,... em nome do céo!...”

Disse eu; que havia dizer?

“Em nome das tres pessoas

“Da trindade, em huma só,

“Eu vos rógo, senhor mouro,

“Que siquer tenhades dó

“Da alma vossa arriscada,

“Já não do corpo, que he pó.”

N’aquelle ensejo apertado

De sancto ardil me vali;

Lembrou-mo o exemplo sagrado

Da forte hebréa Judith!

Ser isso influxo divino

Sabendo fiquei daly.

Tornou-me o mouro descrido:

“E a mi que m’importa mais

“Que viver entre valentes,

“Em gozes celestiais,

“Entre jardins prazenteiros,

“Entre fagueiros rosais?

“Tu me fallas dos teos Deoses!

“Ha outros sem ser Allah?

“Allah, que o vôo dirige

“Do bemfazejo Kathá!

“Christão, dos teos falsos Deoses

“Bem pouco a mi se me dá.

“Digo-te eu, que elles não podem,

“Mais que digas que são trinos,

“Suster no ar do propheta

“Os sanctos restos divinos,

“Que a Meca chamão por anno

“Milhares de peregrinos.”

Ouvindo aquellas blasfemias,

Senti arrojo dos céos;

Hia fallar, mas o mouro

Tornou-me: “Só Deos he Deos,

“E Mafoma o seo Propheta,

“Em que pêze isto aos increos!

“O que penso, sem resguardo

“Dirt’o-hei, christão, alfim;

“Não uza como vós outros,

“Mahometano Muezzin,

“Não vai á caza dos crentes,

“Não leva tenção ruim.

“Não rója, não, de giolhos

“Aos pés de christã donzella;

“Mas lá dentro da Mesquita

“Vive sempre e sempre vela,

“Ou do alto minarete

“Á prece os crentes appella.

“Portas á dentro do templo,

“Imagem da crença pura:

“De alto do minarete,

“A imagem d’Allah figura,

“Bradando incessante e sempre

“Aos homens, daquella altura.”

“He assi entre vós outros,”

Tornei-lhe, que entre nós não.

“Queremos em cada caza

“Hum templo de devação,

“Em cada peito hum sacrario,

“Hum padre em cada christão.”

Sobresteve mudo e quedo,

E como que reflectia

O moiro, que me parece

A graça já presentia;

A graça que o céo nos manda,

Como orvalho em noite fria.

Mas não era inda chegado

Aquelle ensejo feliz,

Que passado curto prazo,

Severo o moiro me diz:

“O que Deos faz he bem feito:

“Mouro nasci, não me fiz!

“Deixemos pois tal assumpto,

“Delle não quero tratar;

“Ou antes dizei, bom Padre,

“Qu’hides carreira tomar,

“Adoptando novo ensino,

“Novo modo de pregar.

“Andai por essas estradas

“E dizei á vossa gente:

“A vós que mal vos hão feito

“Os homens lá do oriente,

“Que vos livrárão dos godos,

“E do servir inclemente?

“As vossas artes que tendes

“Cujo as havedes?-de quem?

“Donde vêm ás vossas terras

“Campos de lavra que têm,

“E as torres acastelladas,

“E as mesquitas, donde vêm?

“Quem nos vossos negros montes

“As alcáçovas plantou,

“Como candido turbante,

“Que na fronte se enrolou

“De hum homem da côr da noite,

“Que a Nubia ardente engendrou?

“Ou s’isto melhor te praz:

“São obras de reys pujantes,

“Tendas ricas e pomposas

“No dorso dos elefantes;

“Cr’oas de pedra lavrada

“Na fronte d’altos gigantes.”

Estes mouros na verdade

Qu’esprito e graça que têm?

Quando vos dizem mentiras,

Sabem dize-las taõbem,

Que havemos de perdoar-lhes,

E em cima querer-lhes bem.

Mas andão tanto enfrascados

No seo maldicto alkorão,

Que era de ser o primeiro

A soffrer condemnação

N’aquelle sancto concilio,

Honra do nome christão.

Se d’algo me peza a mi,

Hé só polos não ver mais;

Fazião prompta justiça

Destes e d’outros que tais:

Ardião com seos authores

Em bons applausos gerais.

Se delles houvesse agora,

De que pró nos não seria?

Vive tal livro entre gabos,

Que ally no fogo arderia,

Com pasmo de seos authores,

Que os têm por coiza mui pia.

E d’outros que só por artes

Fruem da voga que têm,

Que não sei onde he seu preço,

Nem donde apreço lhe vem,

Senão por vias occultas,

Que as não descobre ninguem!

Mas deixemos estas coisas,

Que não são de boa avença!

O livro que eu reprovára

Por muito justa sentença

Trouxera-me coyta grave,

Com mais grave malquerença.

Deixemos pois estas coisas;

Bem qu’eu não saiba fallar,

Senão com longos rodeios:

(Vem-me o séstro de pregar)

Quando me julgo no cabo,

Mais longe estou de acabar.

“Mouro, n’aquella batalha,”

Disse eu, “ouvidos me dá,

“Quando o reyno teo perdeste,

“Não chamaste por Allah?

“Não te ouvio!-chama por Christo,

“E Christo, Deos, te ouvirá.

“Vás as terras da Moirama,

“Ou fiques em Portugal,

“Senhor serás do teo corpo,

“Vida terás natural:

“Vê, se Gulnare formosa

“O teo propheta não val!

“A moira que não foy feita

“Pera servir a senhor,

“Que de bella e de mimosa,

“Parece que o mesmo amor

“O corpo tem de quebrar-lhe,

“E de apagar-lhe o candor.

“A moira doce nascida,

“Doce creada; perol

“Que só sabe apavonar-se

“Da manhã polo arrebol,

“Não nos jardins destas partes,

“Mas onde mais queima o sol.

“A moira bella e mimosa!

“Avezinha pipitante,

“Qu’ama ar puro, espaço livre,

“E céo de cor deslumbrante,

“Que o vôo fugaz desprega,

“Quando o sol he mais brilhante!

“Ai! não guardes a avezinha

“Dentro de estreita prisão,

“Não mudes a frol mimosa,

“Que bem está no seo torrão:

“Vai ás terras da Moirama;

“Se queres hir, sê christão.”

Huma lagrima brilhante,

Como que a furto luzia

Nos olhos da moça moira,

Que o moço moiro cingia;

Em que nada lhe dicesse,

Muitas coisas lhe pedia.

Em que algo não lhe escutasse,

O mouro bem compr’endia

Que mudas fallas fallava

O pranto que ella vertia:

Saudades erão da Patria,

Que o mouro em sonhos só via.

Como havia resistir-lhe,

Se ella pedia chorando;

Se o mal por que ella passava,

Tambem ’stava elle passando;

Se o bem, que lh’ella pedia,

Lhe estava dentro fallando?

Mas quando os vi abraçados

E aquelle amor entendi,

Do effeito das minhas vozes

Eu mesmo me arrependi;

Cravei as unhas no peito,

Pezar de morte senti.

Té cheguei a ter desejos

De ouvir-lhes hum não revel,

E que então a moça moira,

E mais o mouro donzel

Parassem no fundo inferno,

Provassem, como eu, seo fel.

Mas n’hum coração sincero

Que poder que o pranto tem,

Quando no peito o sentimos,

Quando de huns olhos nos vem,

Que fôra morrer por elles

Prazer e mui grande bem!

Pedido tam gracioso

O mouro agreste rendeo;

De leixar o seo Mafoma

Logo desly prometteo,

Deixando a avença do demo,

E os ritos do culto seo!

Já me não sinto enleiado

Se o padre Adão manducou

Aquelle fructo do Eden;

Foy Eva quem lh’o offertou,

Eva, mulher e sozinha,

A qu’elle primeiro amou.

Mas quem tem visto mulheres,

E tem a sua mulher,

Ceder-lhe do seo proposto

Por mero condescender!

Se não he coisa do demo,

Não sinto o que possa ser.

Mas fez mais a linda moira!

Que sem me fazer pedido,

Entendi que por amores

Não devia andar perdido;

Quando por outro era amada,

Por outro della querido.

Hum pobre frade coitado

Bem sabe que nada tem

Nesta vida mal passada,

Onde quitou todo o bem;

Ninguem que vele por elle,

Sobre quem vele-ninguem!

Curar da may infermada

Bem pode o homem segral;

Ha sempre casta donzella,

Que se dôa do seo mal:

O frade só, despojado

Vive do fôro humanal.

Viverão aquelles mouros

Depois desta occasião,

Muitos annos bem logrados,

Em amor e devação;

Louvor ao sancto baptismo!

Louvor ao nome christão!

Mas quando foy que nos veio

Aquella peste primeira,

Seta que o alvo attingia

De bem talhada e certeira,

Chegou ao christão novato

Hora vital derradeira.

E a moira por este evento,

Cheia de muita afflicção,

Recolheo-se irmã noviça

No convento d’Azeitão,

Onde viveo muitos annos

Em aturada oração.

Madres d’aquelle convento

Dizem que a virão rezar,

Em extasis jubilosas,

Suspensa, erguida no ar;

Favor do esposo divino,

Milagres do muito amar!

Ouvindo aquelles extremos,

Commigo logo assentei

Que eu fôra hum pastor perdido,

Que nas sombras divaguei,

Té qu’huma ovelha esgarrada,

Mercê de Deos, encontrei!

E a moira que eu tanto amára,

Desly se me figurou

Candida lã d’ovelhinha,

Que a sarça agreste cardou;

Ficou na sarça prendida,

Ao vento se meneou.

E alguem que ally divagava,

Felpas da lã recolheo,

Bateo-as na fonte pura,

E em branca tela as teceo;

Depois no altar consagrado

Ao Senhor Deos off’receo.

A mão de Deos poderoso

Bem claro se vê então,

Quando o torpe ismaelita

Faz-se devoto christão:

Só elle hum bom diamante

Póde fazer do carvão.

Mudar o vicio em virtude,

E a fraqueza em valor,

E o calor em frescura,

E a frescura em calor,

E tudo assi por davante,

Só elle, que é Deos Senhor.

Louvor a Deos nas alturas!

E aos homens de bom talante

Na terra paz e ventura;

Paz e ventura constante,

Senão na vida que passa,

Na vida que sempre dura.

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