Universo da obra
Universo da obra
(TRADUCÇÃO.)
A morte é vária e multiforme, e múda
De trajes e de mascaras mais vezes
Qu’uma cançada actriz;
Nem sempre é, qual se pinta, o negro espectro
D’ironico sorriso e brancos dentes,
E d’horrido cariz.
Nem todos seus vasallos são poeira
No resalto de pedra adormecidos
Por sob as arcarias;
A pallida libré nem todos vestem,
Nem sobre todos jaz murada a porta
Nas cryptas sombrias!
Diversa a natureza é d’outros mortos:
Nestes que a sanie e podridão consomem,
Vê-se o nada palpavel;
Vê se o enojo, o horror, a sombra espessa
E o esfaimado esquife, abrindo as fauces,
Qual monstro insaciavel!
Cabe a outros porêm que sem dôr vemos
Passar, gyrar no turbilhão dos vivos,
De carne inda vestidos,
O nada inda encuberto; cabe a interna
Morte, que ninguem sabe, nem chóra,
Nem mesmo os mais queridos!
Pois, se vamos a ver nos cymiterios
As campas, ou illustres ou sem nome,
De marmore ou torrão;
Ou tenhamos alli amiga palpebra,
Ou não,-do teixo á sombra descançada,
Quer choremos, quer não!
«Jazem» dizemos. Os nomes desparecem
Sob a relva; o verme nesses olhos
Enréda a teia crúa!
Por entre as pranchas do caixão despontão
Hirtos cabellos, e em pó funereo envolta
Branqueja a ossada núa.
Os herdeiros não temem que mais vólte;
Esquecerão-n’o já: seos cães se lembrão,
Soltando uivos de dôr!
Acama-se a poeira em seos retractos:
Já não tem mais rivaes, não tem amigos,
Nem odios, nem amor!
Da morte o anjo, em lagrimas de pedra
Vemos sosinho e mudo a pranteal-o,
Estatua da afflicção:
A cova toma o corpo, o olvido o nome,
Tem por lençóes seis pés d’humida terra....
Mortos, bem mortos são!
E dos olhos talvez se vos deslise
O pranto sobre a relva, pelo orvalho
E chuva humedecida;
Que na triste mansão os regozije,
E por essa oblação enternecidos
Um resto achem de vida.
Mortos do coração ninguem os chóra,
Ninguem, se a um destes vê, lhe diz piedoso:
«Seja o Senhor comtigo.»
Curão do morto, lavão-lhe as feridas;
Mas a alma estala sem que alguem se dôa,
Nem mesmo o mais amigo!
Ha comtudo pungentes agonias
Nunca sabidas, dores horrorosas
Mais do que se não crê;
Almas ha que tem cruz e passamento,
Sem aureola d’oiro e a mulher pallida
E desgrenhada-ao pé.
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