Universo da obra
Universo da obra
Ora pois direi hum feito
Do senhor rey Dom João,
Segundo que foy do nome,
Primeiro na devação,
Primeiro mais que o primeiro,
Mais que nenhum rey christão.
Nem sempre rezar no côro,
Nem sempre velar convem;
He mister algum descanço,
Alguma folga tambem,
Entre o labor já passado
E o novo, que perto vem.
Ao duro mal que passamos
Algum remedio he mister:
E se a nenhum conhecemos,
Que mais nos ha de valer
Que recordar o passado
E contos delle fazer?
He assi que no mar alto
O cançado mareante
Luta em vão contra a tormenta
E contra o vento inconstante;
Negras vagas se encapellão,
Negra morte tem diante.
Quando n’aquelle deserto
Languidos olhos estende,
Vê mar que ferve revolto
E chuva que do céo pende:
Como deixou seu alvergue,
O triste não comprehende!
Sembrão-lhe então formidaveis
Os p’rigos que elle affrontou;
Figura risonhos quadros
Dos gozos que já gozou,
Do que na terra o convida,
Dos que na terra deixou.
Do que outrora foy passado
E mais do que vai passando,
Medonho e máo parallelo
Vai o mesquinho traçando;
Dôr de espinhos penetrantes
O peito lhe está varando.
Dias lembrar já passados
E já passada ventura,
Quando o viver he tormento,
Tormento que sempre dura,
He certo desdita grande
E muito grande amargura.
Mas vede o que val a vida!
He aquella aventurada,
Se dizemos verdadeiros:
Houve hum dia, huma hora, hum nada,
Não do pezar combatida,
Mas do prazer bafejada.
Simelha quem pola calma
O dia inteiro vagou,
Depois no marco da estrada
Cançado e triste quedou;
Ally thesouro sem dono,
Ventura sua, encontrou.
Era na sancta semana,
Semana de devação!
Com jejuns e penitencias
Apresta-se o bom christão
Pera os mysterios mais altos
Da mais alta religião.
Quantas coizas que nos fallão
N’aquelle passo sagrado
D’aquelle homem divino,
D’aquelle Deos humanado,
Que por amor de seos filhos,
Ingratos, foy maltratado!
Não foy por odio ou vingança,
Mas por dinheiro trahido!
Por hum homem refalsado,
Por hum discip’lo querido;
Trahido por meio infame!...
Hum falso beijo vendido!
Foy mister por mór tormento,
Que morresse polos seos!
Entregue por hum eleito
Nas garras dos Fariseos,
Homem morreo polos homens,
Morreo judeo por judeos.
C’roou a fronte sagrada
C’roa d’espinhos tecida,
Correrão dados infames
Em taboa vil, denegrida;
Em hastea foy rematada
Tunica em sangue tingida.
Tormentos, baldões e mófa
Quem mais do qu’elle soffreo?
Quem mais comprido marteyro,
Quem mais affronta e labéo?
Tal foy que o homem divino
O rosto ao calix torceo.
Tal foy que o Deos humanado
Disse ao Deos, que era seu pay:
«Senhor Deos, s’inda he possivel,
Do vosso intento tornai;
Este calix de amargura
Dos labios meos affastai!»
Carpindo males alheios,
Quantos não vemos per hy,
Que nem siquer se recordão
De quanto soffreo por si,
Hum Deos na cruz affixado,
Mil dores soffrendo ally!
Ante esta victima augusta
Da mais feroz crueldade,
Cala quanto o homem soffre,
Quanto soffre a humanidade:
Tormento não foy como elle,
Não foy como ella impiedade.
E comtudo alguns increos
E refalsados atheos,
Guardão n’as extasis todas
E mais os transportes seos,
Pera Socrates que morre,
Que não pola dôr de hum Deos!
E não vê a cega gente,
Imiga de toda luz,
Que longe que vai do Grego
Ao Nazareno Jezus,
E da masmorra ao calvario,
E da cicuta a huma cruz!
E aos effeitos da morte
Não attenderão tambem:
Se emparelhamos idéas
Ás coizas que corpo tem;
Entre elles vai mór distancia,
Que vai da Grecia á Belem.
Morre o Grego, e não dá fruitos;
Morre Jezus por nos dar
A ley do céo pera a terra;
Ley que só pôde lavrar
O sangue do bom cordeiro
Dos falsos Deoses no altar.
Vivem algozes d’aquelle,
E huns homens apenas são;
Em quanto os algozes deste,
Em que povo de eleição,
Sumirão-se, como argueiro
Nas azas d’hum furacão.
Era na sancta semana,
Semana de devação:
Comsigo mesmo propunha
O senhor rey Dom João:
«Confessarei minhas culpas,
Que alem de rey, sou christão.
«Ao Senhor, pay de nós todos,
Meos erros confessarei;
Que me dê força indomavel
Pera guardar minha ley,
Pera punir os culpados;
Que alem de christão, sou rey.»
Azinha chamando hum pagem
Lhe diz, e lhe ordena assi:
«Hide aos Padres Dominicos
(Melhor lhes quero que a mi)
Dir-lhes-heis que sou lá prestes,
Que vou commungar ally.»
Veio logo o mensageiro
Com a mensagem real;
Recado qu’el-rey lhe dera,
Dá elle ao Provincial.
«He certo mercê mui grande,
Responde,-tenho-a por tal.»
Ao padre Thomaz da Costa
Chama n’huma Ave-Maria;
Sabia o bom do Prelado
O muito qu’el-rey lhe qu’ria:
De tam lisongeiro acerto
Comsigo mesmo sorria.
Demais que o bom do Prelado
Dizia com bem justeza:
«Prazer aos Reis cá da terra
Não he nenhuma vileza;
Praz a Deos que lhes prazamos,
Pois vem delle a realeza.»
Apresta-se com trigança
Tudo quanto era mister:
Sabia o Padre Thomaz
Encargos do seo dever;
«Vergar colossos, dizia,
Quem tem posses de o poder?
«Sob as mãos do jardineiro
Torto arbusto lá se ageita;
Mas onde existe essa força
Que hum rudo tronco sugeita,
Se a força he balda no tronco,
Se o tronco a força regeita?
«Em bem do pastor sagrado,
Que por mercê divinal
Vive no ermo escondido,
Como hum singelo zagal;
Cúra pastor de pastores,
Não de pessoa real.
«He facil o seo encargo,
Pejo, nem dôr lhe não traz;
Não he assi nos palacios,
Onde só vejo disfraz:
Vêm logo as razões de estado,
Inventos de Satanaz.
«Vêm logo as leys cá da terra
Contrapor-se ás leys dos céos:
Sêde christãos, reys senhores,
Ou então de todo incréos!
Leys dos homens não se cazão,
Não seguem ás leys de Deos.
«Não ligueis n’hum só consorcio
Terra feia e céo luzente:
Leys da terra a terra buscão,
Como a raiz da semente;
Leys do céo os céos procurão,
Como flor que o sol presente.»
Era aly na pedra raza
O senhor rey Dom João;
Ante o velho sacerdote
Fazia a sua oração,
As mãos em cruz sobre o peito,
Giolhos postos no chão.
Armas que sempre cingia,
Todalas tinha despido;
Não tinha sedas, nem joias,
Mas peito d’aço batido:
Era qual homem vivente
Em ferrea prizão mettido.
Curva-se hum rey poderoso
Perante hum homem de pé;
Perante hum Padre coitado,
Que nada tem, nada he:
Licção profunda e subida,
Preceitos da nossa fé!
Portas á dentro do templo,
Onde Deos eterno habita,
Onde aquelle amor sem zelos
Somente os peitos agita,
Nas differenças do mundo
Fiel christão não cogita.
Foy assi na antiga Roma
Polas festas saturnais,
Folgavão, senhor e servo,
Como se forão iguais;
Mas o que lá foy licença,
Aqui são leys divinais:
Aqui são todos curvados,
Todos-o servo, o senhor;
Aquelles que a vida fruem,
E aquelles que só tem dôr;
Pobres, que almejão a morte,
Ricos, que á morte hão pavor.
Nem he por vil comezaina,
Que ally reunidos estão;
Mas sim, por que a Deos importa
Que não haja distincção
Entre irmãos, no patrio abrigo,
Rezando a mesma oração.
Sóbe assi aquella prece
Da multidão apinhada,
Qual lisongeiro perfume
Das flores d’huma grinalda;
Tem huma odor, outra espinhos,
Outras tem côr, outras nada.
Era aly na pedra raza
O senhor rey Dom João;
Já disse as culpas que tinha,
Já fez a sua oração:
O Padre vai ministrar-lhe
A hostia da communhão.
Tem no rosto grave e serio
Expressão nobre e subida;
Maneiras cheias de brio
Em postura comedida,
Parece que vão mostrando
Quanto val o pão da vida.
Parece que mostra, quanto
Por vil e baixo se tem,
Merecendo honra tamanha,
Que a não merece ninguem;
Dahy lhe vem ser humilde,
Nobreza dahy lhe vem.
Perfez-se o rito sagrado,
Vai ser dado o sacramento;
Principia el-rey-confiteor,-
Quando n’aquelle momento
Surge ao pé delle um guerreiro
De marcial hardimento.
Tinha feroz catadura,
Só aço e ferro vestia,
Polas grades da vizeira
Raios de luz despedia:
Medonho e fero apparato
Nas sombras da sacristia.
Era o rey brioso e forte,
Homem de muito valor,
Mas olhos lançou á espada
A furto!... seja o que for,
Não creio que homens d’aquelles
Possão jamais ter pavor.
Em voz carregada e forte
Assi começa o guerreiro:
«Em nome do Senhor Deos,
Meo Padre, aqui vos requeiro;
O senhor rey não commungue,
Pois que não he justiceiro.»
A hostia das mãos do Padre
Cahio do calix no fundo;
El rey carrega os sobr’olhos...
Certo não era jocundo
Affrontar de rosto a rosto
As sanhas de João segundo.
Era então fresca a memoria
De hum caso máo, miserando:
De noite se ergueo a forca;
Mas quando o sol foy raiando,
Não vio ninguem mais a forca,
Nem mais ao duque Fernando!
Comtudo o bravo guerreiro
Sanhas do rey não quiz ver;
Não ha que lhe ponha embargos,
Nem que lhe possa empecer:
«Senhor, sou Padre Tavares!»
Fita-o el-rey sem querer.
Depois lhe diz (que tal nome
Quebrára a furia real):
«Em bem, meo bravo guerreiro!
Mas esse trem, de que val?
Somos em terras d’Hespanha,
Ou somos em Portugal?»
-«Senhor, não uzo brocados
Vedes-me assi, e he razão,
Que havedes os meos haveres
Sem me deixardes, senão
Armas comidas no peito,
Armas gastadas na mão.
-«Fui ter ao vosso palacio,
Ninguem me não conheceo;
Quantos ally são comvosco,
Eu vos direi, senhor meo:
Nunca os eu vi nos combates,
Nunca na guerra os vi eu!
-«Voltei d’ally, protestando
Jamais não voltar ally;
Conheceis as minhas armas,
Se não conheceis a mi;
Vesti-me á modo de guerra,
Vim ter comvosco,-eis-me aqui!
-«As minhas alcaydarias
De Portal’gre e Assumar,
Senhor rey, vós m’as tirastes,
O que se chama tirar;
Ficavão perto da raya,
Máo azo de guerrear.
-«Das minhas alcaydarias
Eu tinha as rendas reais;
As guerras já são passadas,
Porque ora m’as não tornais?
Mal cabe em reys a cubiça,
Senhor, se m’as cubiçais.
-«Nem porque o velho guerreiro
Já nada vos presta e val,
Vos deveis portar com elle,
Qual dono pouco leal,
Que o seo corsel de batalla
Despreza no almargeal.
-«Assi que, Senhor, vos digo
Que vos não peço mercê;
Aquillo que me he devido,
Só peço que se me dê!-»
Prouve ao rey aquelles ditos
E mais o geito que vê.
Depois a mão estendendo
Ao seo leal lidador:
«Nós vos faremos justiça,
Assi como justo for;
Tendes a nossa palavra,
Seja-vos ella penhor!»
Alegre o Padre Thomaz
O seo mister rematou;
Hostia tomada do calix
Aos labios do rey chegou,
El-rey d’hum copo doirado
Hum gole d’agoa tomou.
Mimoso tempo d’outrora
Qual nunca mais o verei,
Nem tam inteiros sugeitos,
Hum ao outro dando a ley:
No Paço o rey ao vassallo,
Na Igreja o vassallo ao rey!
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