Universo da obra
Universo da obra
Não ha mais d’aquelle tempo,
Em que era tudo lhaneza!
Acções e vida e costumes
Desta gente portugueza,
Por tal geito se trocárão,
Que he hoje tudo impureza.
Não trato d’este ou d’aquelle,
Pois ha em tudo exeições;
Mas trato da grande lépra
Que vejo hy nos corações:
Desprêso do amor da gloria
E apêgo ás ruins tenções.
Outrora, sabeis vós como
Garboso Donzel se havia
Por captar nobres extremos
Da moça que requeria,
Sempre grave, honesto e brando,
Sempre uzando cortezia?
Não trescalava pivetes,
Fitas, nem laços comprava,
Nem toda a manhã divina
Seos enfeites concertava,
Nem nos chapins se revia,
Nem nos cabellos primava.
Não corria seca e meca
Traz de mimosa donzella,
Que nas ruas lobrigava;
E por ver mais perto a bella
Não hia ao templo sagrado,
Somente por amor della.
Nem as noites janeirinhas
Mais compridas e mais frias,
Levava mono amante,
Por baixo das gelozias,
Desenfiando hum rosairo
De trovas e ninharias.
Jamais não foy esse o estilo
Do moço em armas novel,
Em que experto dedilhasse
Na lyra do menestrel,
No tempo em que, não domada,
Lutava a gente infiel.
Por mais que amores amasse,
Por mais que fosse gentil,
Ninguem n’o vira a deshoras,
Como homem de tenção vil,
Como hum ladrão que de medo
Vai passo e manso e subtil.
Não pedia manto ás sombras,
Nem ao silencio mercê,
Nem do sol se arreceiava,
Como homem que pouco vê,
Nem da lua appellidada
A casta, não sei porquê.
Mas antes no amphitheatro,
Coberto de espectadores,
Onde mais povo corria,
Mais bellas e justadores,
Na arena se apresentava
Com letra e tenções d’amores.
No meio d’aquella chusma
D’arautos e passavantes,
Mantenedores do campo
Reys d’armas e circunstantes,
Feixes d’armas resplendentes,
Ondas de plumas brilhantes:
Entrava o novel guerreiro
No cerco dos justadores!
De alguma dona sizuda
Na charpa trazia as cores,
Tinhão amores ás claras,
Por que erão nobres amores.
Silencio! que sôa a trompa,
A justa vai começar!
Entre si ferem mil lutas
Guerreiros a par e par:
Da lança feita pedaços
Voão estilhas ao ar.
Levão logo mão da espada;
Que feios golpes se dão!
Abolão-se capacetes,
Talhão-se arnezes; e a mão
Certeira ao travez da malha,
Vai direita ao coração.
La sôa de novo a trompa,
Proclama-se o vencedor,
Que aos pés da bella entre as bellas
O seo trophéo vem depor:
Ao mais valente a mais bella,
Ao mais gentil mais amor.
Era a ley,-e até parece
De acordo co’a natureza,
Que se compraz no consorcio
Da força co’a gentileza;
Mais alma com mais coragem,
Mais brio com mais nobreza.
A abelha construe seos favos
Em troncos alevantados;
E eis a hera graciosa,
Que em abraços apertados
Não cinge mesquinho junco,
Mas carvalhos alentados.
Boa era a ley!-mas eu creio
Que lhe descubro hum senão;
Quem nos diz que o mais valente
Deva de ter mais razão,
Porque seja a sua dona
Como hum vaso d’eleição?
Seria coiza de ver-se,
E coiza de mui folgar,
Ver um dragão de mulher,
Chamada a bella sem par,
Á pura força de espada,
Sem mais pôr, nem mais tirar!
He bella: e al não digais,
Sob pena d’hum fendente,
Que vem do céo, como hum raio,
Provar ao villão que mente,
Co’os dentes que tem na bocca,
Como hum perro maldizente!
Fosse o caso como fosse,
He certo que d’ahy vem
Ás nossas donas de agora,
Aquelle sestro que têm
De amarem a militança
Melhor do que a nenhum bem.
Qual não gosta de ser bella,
Ao menos de o parecer?
Em quanto muitas ... Deos meo,
Eu me sei compadecer,
Soffro o mal que os outros passão,
Mais talvez que o meo soffrer.
Muitas ha hy, que eu conheço,
Que aqui na terra não são,
Senão porque as vós mandastes,
Meo Deos, por occasião
De tedio e nojo ao peccado,
E morte da tentação.
Té os moços, que as namorão,
Dirão no confessional,
Jurando por Deos eterno
E pola vida eternal,
Que se fallão delle e della,
He puro aleive e não al.
Vede pois qual não seria
O pasmo dessa donzella,
Proclamada ao meio dia
Fermosa como huma estrella,
Sem que houvesse ahy no mundo
Coiza melhor, nem mais bella!
Logo no fraco bestunto
Julgára, sem mais razão,
Que n’este mundo mesquinho
He tudo engano e buzão,
E té que a propria belleza
He coiza de convenção!
Era assi que n’outras eras
Garboso donzel se havia
Por captar nobres extremos
Da moça que requeria,
A ponta de fina espada
E arrojos de valentia.
No tempo de Alphonso Henriques,
Que foy nosso rey primeiro,
Havia na sua côrte,
Côrte de rey mui fragueiro,
Hum tal Gonçalo Hermiguez,
Destemido cavalleiro.
Era moço e mui donoso,
De mui boa nomeada:
Fiava el-rey muito delle,
E a raynha Mafalda
Folgava de ouvir-lhe os cantos
Aos sons da lyra afinada.
Portas a dentro do Paço
Não tinha nenhum rival
Em compor trovas mimosas;
E no campo e no arrayal
Não n’o havia mais valente,
Mais forte, nem mais leal.
Quanta sanha que elle tinha,
Votára a gente infiel,
Porque o pay lhe havião morto,
Era elle ainda novel;
Vel-os porêm não podia,
Nem pintados no papel.
Era o mesmo ver a hum destes
E entrar logo em sanha tal,
Que era força ter mão d’elle,
Ou saltava-lhe ao gorjal
Pera torcer-lhe o gasnate,
Como se fôra hum pardal.
Mas se tinhão tento n’elle,
Era outro conto ruim!
Cabia logo em desmaios,
Que era hum desmaio sem fim!
Dó era ver tal sugeito
Prostrado e defuncto assi.
Andava sempre occupado
Em perpetua correria
Polas terras do mourisco,
E muito mal lhes fazia;
Dava porêm mór realce
Ao nome que já trazia.
Como fosse e os companheiros
Em hum saráo folgazão,
Lembrou-se que perto vinha
A noite de Sam João,
Azado ensejo de aos Mouros
Fazer-se affronta e lezão.
Cheia de bello hardimento,
Aquella nobre nobreza
Por amor de seos amores
Commette tam grande empreza,
Qual a de hir terras de Mouros
Com feros, ronco e braveza.
Qual apresta o seo ginete,
Qual a fita dependura
No collo nunca domado;
Qual a pesada armadura
Inverga, e ahy se recolhe,
Como em arce mui segura!
Qual a Deos por testemunha
Toma da sua tenção,
Qual aos pés da sua dona
Requer-lhe extremo condão,
Extremo volver dos olhos,
Extremo apertar da mão!
Qual desly toma algum nome
Por grito de accommetter,
Que nas lidas e pelejas
Saberá fazer valer!
Qual sente o nojo futuro,
Em mal, que lá vai morrer!
Mas nunca será que o rosto
Mostre o que n’alma lhe mora:
Quem vio a morte passar-lhe
De perto, já não descora
Por hum presagio funesto,
Sendo ella coiza d’huma hora.
Aquelles bons cavalleiros
Azinha promptos estão;
Lá se partem de Coimbra,
Montes alem já lá vão!
Ninguem vio mais escolhido,
Nem mais luzido esquadrão.
Entre elles por mais robusto
Gonçalo Hermiguez campeia;
Diz seo porte sublimado,
Que de nada se arreceia,
Mas antes que a todos repta,
De tanto que o collo alteia!
Caminho vão de Lisboa
Com todo apercebimento!
Não convem que se aprecatem
D’aquelle accommettimento
Mouros que vivem na regra
Do seo alkorão nojento!
Sabeis a regra qual seja?
He viver dentro do harem,
Dizendo mal do toicinho
E mais do vinho tambem,
Sem que lhe pêze este mundo,
Sem que lhe pêze ninguem!
He vegetar entre flores,
He viver vida folgada,
Aspirando incenso e odores
Em molleza effeminada,
Nem que fosse huma odalisca,
Ou mulher alambicada.
Pozerão todos a mira
Em Alcacere do Sal,
Covil de feras humanas,
Não de cordeiros curral;
Nó gordio do vil mourisco,
O ferro o corta, não al!
Os que por terra a demandão
Vão em procura d’Almada,
Alcáçova dura e forte,
Em rija pedra assentada,
Como pedra preciosa
Em ferrea c’roa engastada.
Outros lá vão Tejo arriba!
Ó Tejo, quanto me he grata
Essa placida corrente,
Quando a lua se retrata,
Chovendo chuva de raios,
No teo chão de lisa prata!
Que doce que he teo remanso,
Quando manso o vento gyra,
Que nas folhas rumoreja,
E como que ally suspira
Melindres d’amor suave,
Que nem tangidos na lyra!
Que arroubos que infiltras n’alma,
Quando vai ao som das agoas
Navegando o passageiro;
Já, se as tem, não sente as fragoas,
Que no peito a dôr derrama,
Como huma enchente de magoas!
Mas talvez dos cavos olhos
Polas faces a correr
Sinta o pranto represado
Polo seo muito soffrer:
Corra embora, qu’esse pranto
Dôr não he, senão prazer!
Que neste val’ de amarguras,
Onde viemos penar,
Por cada dia hum marteyro
Por cada instante hum pezar,
He bem feliz quem só passa
Dores que fazem chorar!
Não sei ledice o que seja,
Nem o que seja prazer;
Nunca os senti n’esta vida,
Nem n’os posso conhecer;
Que não sou dos bemfadados,
E nunca o não hei de ser!
Mas o pranto extravasado
Não he quem nos dá morrer,
Nem quem o viço dos annos
Faz seccar e emmurchecer;
He antes aquelle pranto
Que não sabemos verter.
Lá vão hindo Tejo acima,
Olhos longos polo mar,
Lá onde enchergão Lisboa
Com fogueiras de espantar;
Fogo accendido na terra
Sóbe em centelhas ao ar!
D’aquelles fogos accesos
Em roda os velhos estão,
E as donzellas feiticeiras
Com sorriso folgazão,
Cantando coytas de amores,
Quites de coytas então.
He a noite milagrosa
Do Bautista milagroso,
Té dos mouros da mourama
Havido por glorioso:
Folgão nobres e senhores,
Folga o villão descuidoso.
Horas de noite folgada
Não tardão, não têm vagar:
A noite assi do Bautista
Vai serena a escorregar,
Como areia da ampulheta,
Hum grão e outro a tombar!
Vai assi como o perfume
Respirado d’uma frol,
Que não vemos, mas sentimos;
Que sentimos no arrebol
Da manhã, que pola terra
Se espalha em antes do sol!
Vai assi como o rocio
De serena madrugada,
Rorejado gota a gota
De branca nuvem prenhada
Sobre o calice musgoso
De huma flor avelludada.
Vai assi, qual sóe prender-se,
Em quem de amores não cura,
Doce peçonha de amores:
Donzella de vida pura,
Quando ha temores de havel-o,
He qu’elle já não tem cura.
Do Alcacer as lindas filhas,
Já era nascida a aurora,
Pera ver uma corrida
Sahirão portas a fóra,
E mais pera colher flores,
Persuadidas da hora.
Logo sahidas no prado
Forão, qual sohem de ser
Mansas agoas d’hum regato
Em chão sem leito a correr,
Cada qual por seo caminho,
Cada qual a seo prazer!
Desly pulando e cantando
Vão nas matas de alecrim,
Colhem a rosa corada
E a branca flor do jasmim;
Brincão brinquedos contentes,
Folgão folguedos sem fim!
Oh! que festas! que alegrias!
Que arruido vai no prado!
Que bem cantado rimance,
Que soláo tãobem cantado!
Não têm as aves atito,
Nem gorgeio mais brincado!
Oh! que vozes melindrosas,
Que accentos encantadores
N’aquelle prazer d’huma hora!
As moças vão colher flores,
E os moços que vão com ellas
Vão lá por colher amores.
Eis nisto ... estranho arruido!
Rouca trompa abala o ar;
Logo assomão cavalleiros
Com figuras de espantar:
Allah nos valha, mofinas!
Dizem moiras a chorar.
Allah! repetem n’os Mouros,
Vendo o pendão portuguez;
E do alfange recurvado
Levão mão sem pavidez!
Feios golpes se preparão,
Outra folgança outra vez!
Retine o ferro no ferro,
Talhão-se cotas e arnezes;
O fino alfange mourisco
Abre o elmo aos portuguezes;
E a espada que bem degola,
Bem multiplica os revezes.
Lá chega o alarma á Cidade!
Lá vem mouros descançados
Em descançados ginetes:
Cavalleiros esforçados,
Que por Christo Deos pelejão,
Não têm de que ter cuidados.
Gonçalo Hermiguez, o cabo,
Avante! brada, e não al:
Brilha o valente nas lides,
Que ally não acha rival,
Aquelle cabo entre todos
Sanhudo e forte e fatal.
Maneja tam facilmente
O seo pesado montante,
Que Alcides com sua clava,
E nem o Titan gigante,
Serra a serra sobrepondo
Não tinha aquelle semblante.
Eilo vai per entre os mouros,
Abre entre elles larga estrada;
Quem fica em prisão de guerra,
Quem lá foge em debandada!
Ficão moiras prisioneiras,
Mulheres-gente coitada!
Gonçalo Hermiguez em tanto
Vio que longe lhe fugia
Linda moira desmaiada,
Que hum moço mouro cingia,
Dando d’esporas ao bruto,
Que mais que o vento corria!
Vai sobre elles sem tardança:
Com quanto de arremeção
Matal-o tambem podera,
Certo o fizera, senão
Temesse que a moira bella
Morresse de sua mão.
Mais logo que foy com elle,
D’hum golpe que despedio,
Cerce o cortou pelo meio:
Golpe assi nunca se vio!
E a moira tomando em braços,
Azinha daly fugio.
Passou terrivel com ella
Por meio da gente fera;
Quem n’o vira tam sanhudo,
Leão raivoso dissera,
Passando a travez dos homens
Com a preza que fizera.
Eis nasce novo combate,
Nova peleja maior!
Muitos homens contra hum homem,
Contra hum forte lutador;
Mas hum só que a todos vence
Em força, esforço, e valor!
Mal podia a mão sinistra
Vibrar a sangrenta espada,
Co’o pejo d’aquella moira
Disputada e desmaiada,
Cujo corpo em dois pendia,
Como huma frexa quebrada.
Mas inda assi despedia
Hum golpe e outro cruel:
E de encontro á este, á aquelle
Mandava o seo bom corsel,
Que a turba multa alastrava
Aos pés do nobre donzel.
Quando a ventura he incerta,
Acerta em aventurar
Quem a empreza disputada
Tem desejos de acabar:
Só elle demora em terra,
Que os seos já são sobre o mar!
Torce as redeas ao ginete,
Larga carreira arrepia,
Larga estrada co’o montante
Por entre os mouros se abria,
Despedia muitos golpes,
Muitos estragos fazia.
Chega a praia, os seos avista
Mas os mouros perto vêm!
Como isto vio, torce o rosto,
Medonho como ninguem;
Temem-se mouros de o verem;
Párão, como elle, tambem!
Vão assi feros monteiros
Traz d’hum urso mal sangrado,
Que de repente a carreira
Revira, e vólta agastado:
Parão monteiros ao vel-o
Raivoso e mal assombrada.
E a fera d’aquelle pasmo,
Sabendo, em seo bem, valer-se,
Vai a passos descançados
Em densa mata esconder-se,
Sem temor da montaria,
Sem dos monteiros temer-se.
Tal o forte Traga-mouros
Salta dentro do baixel;
Na praia ficão pasmados
Mouros, do feito novel,
Tamanho, que nem sonhado
Foy jamais por menestrel.
E os companheiros aos ventos
Desfraldão velas e panos,
Deixando as praias tingidas
Em sangue por muitos annos;
Quantos bastem, porque chorem
Seo dezar os musulmanos.
Aos alegres companheiros
Disse o guerreiro feliz:
«Das prezas, que nos fizemos,
Quero tam só a que eu fiz,
A moira que por seo nome
Fatima em Turco se diz!»
Então aquelle seo canto
Principiou a compor:
Cant’eu, por vergonha minha,
Em bem que o saiba de cór,
Digo que sal lhe não acho,
Nem sei de coiza pior.
Mas era o soláo por certo
Aos tempos accommodado,
Que de outro cantar não acho
Que fosse mais decantado,
Nem Figueiral Figueredo,
Nem o Ficade coitado.
E a moira já bautisada
Pertenceo ao lidador,
Duas vezes conquistada
Polo donzel, seo senhor,
Primeiro á força de espada,
Depois á força de amor.
Era assi n’aquelle tempo
Coiza sabida e seguida,
Remanso depois da gloria,
Descanço depois da lida,
E a fé que espera e milita
Nos actos todos da vida!
Vede vós quamanho he o lucro,
Que lucra a moira pagã,
Desposando o cavalleiro,
Tomada e feita christã;
He vida e sangue de hum homem,
Não de infieis barregã!
He como tropheo ganhado
Em guerras de religião
Por algum peito devoto,
Que por sua devação
Prometteo dependural-o
Dentro de templo christão.
O canto aqui finaliso!
Não devo d’hir por diante,
Narrando casos da vida
Per natureza inconstante,
Trabalhos que sempre durão,
Prazer que dura hum instante!
Foy o cabo dos amores
A moça moira acabar
E sobre hum covão aberto
Hum homem posto a chorar,
Hum homem de dó coberto,
A carpir-se, a prantear!
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