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A Orgia dos Duendes

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A Orgia dos Duendes

Capítulo 3 · A Orgia dos Duendes

Parte III

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Dos prazeres de amor as primicias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delicias
Deu-me um filho, que d’elle gerei.

Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejão lá, que tal foi esta peça.

Por conselhos de um conego abbade
Dous maridos na cova soquei;

E depois por amores de um frade
Ao supplicio o abbade arrastei.

Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cumulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me cahírão do ventre no tumulo.

Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço creei;
E de lindas donzellas um cento
No altar da luxuria immolei.

Mas na vida beata de assetico
Mui contricto rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apopletico
Nos abysmos do inferno estourei.

Por fazer aos mortaes crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;

Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contal-os não sei.

Das severas virtudes monasticas
Dei no emtanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantasticas
Inda me erguem altares e templos.

Por um bispo eu morria de amores,
Que a final meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciumes, o bispo matou.

Do consorcio enjoei-me dos laços,
E anciosa quiz vêl-os quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.

Entre galas, velludo e damasco
Eu vivi, bella e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.

Eu fui papa; e aos meus inimigos
Para o inferno mandei c’um aceno;
E tambem por servir aos amigos
Ténas hóstias botava veneno.

De princezas crueis e devassas
Fui na terra constante patrono;
Por gozar de seus mimos e graças
Opiei aos maridos sem somno.

Eu na terra vigario de Christo,
Que nas mãos tinha a chave do céo,
Eis que um dia de um golpe imprevisto
Nos infernos cahi de boléo.

Eu fui rei, e aos vassallos fieis
Por chalaça mandava enforcar;
E sabia por modos crueis
As esposas e filhas roubar.

Do meu reino e de minhas cidades
O talento e a virtude enxotei;
De michélas, carrascos e frades,
De meu throno os degráos rodeei.

Com o sangue e suor de meus povos
Diverti-me e criei esta pança,
Para emfim, urros dando e corcovos,
Vir ao demo servir de pitança.

Já no ventre materno fui boa;
Minha mãi, ao nascer, eu matei;
E a meu pai por herdar-lhe a coroa
Em seu leito co’as mãos esganei.

Um irmão mais idoso que eu,
C’uma pedra amarrada ao pescoço,
Atirado ás occultas morreu
Afogado no fundo de um poço.

Em marido nenhum achei geito;
Ao primeiro, o qual tinha ciumes,

Uma noite co’as colchas do leito
Abafei para sempre os queixumes.

Ao segundo, da torre do paço
Despenhei por me ser desleal;
Ao terceiro por fim n’um abraço
Pelas costas cravei-lhe um punhal.

Entre a turba de meus servidores
Recrutei meus amantes de um dia;
Quem gozava meus regios favores
Nos abysmos do mar se sumia.

No banquete infernal da luxuria
Quantos vasos aos labios chegava,
Satisfeita aos desejos a furia,
Sem piedade depois os quebrava.

Quem pratica proesas tamanhas
Cá não veio por fraca e mesquinha,
E merece por suas façanhas
Inda mesmo entre vós ser rainha.

A Orgia dos Duendes

Sinopse

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