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Cantos da Solidão

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Cantos da Solidão

Capítulo 3 · Cantos da Solidão

Canto II

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Canto II

Olha : - qual vasto manto que flutua

Sobre os ombros da terra, ondeia a selva,

E ora surdo murmúrio ao céu levanta,

Qual prece humilde, que no ar se perde,

Ora açoutada dos tufões revoltos,

Ruge, sibila, sacudindo a grenha

Qual hórrida bacante : - ali despenha-se

Pelo dorso do monte alva cascata,

Que, de alcantis enormes debruçada,

Em argentea espadana ao longe brilha,

Qual longo véu de neve, que esvoaça,

Pendente aos ombros de formosa virgem,

E já, descendo a colear nos vales,

As plagas fertiliza, e as sombras peja

D'almo frescor, e plácidos murmúrios...

Ali campinas, róseos horizontes,

Límpidas veias, onde o sol tremula,

Como em dourada escama refletindo

Flóreas balsas, colinas vicejantes,

Toucadas de palmeiras graciosas,

Que em céu límpido e claro balanceiam

A coma verde-escura. - Além montanhas,

Eternos cofres d'ouro e pedraria,

Coroados de píncaros rugosos,

Que se embebem no azul do firmamento!

Ou se te apraz, desçamos nesse vale,

Manso asilo de sombras e mistério,

Cuja mudez talvez jamais quebrara

Humano passo revolvendo as folhas,

E que nunca escutou mais que os arrulhos

Da casta pomba, e o soluçar da fonte...

Onde se cuida ouvir, entre os suspiros

Da folha que estremece, os ais carpidos

Dos manes do Indiano, que inda chora

O doce Éden que os brancos lhe roubaram!...

Que é feito pois dessas guerreiras tribos,

Que outrora estes desertos animavam?

Onde foi esse povo inquieto e rude,

De bronzea cor, de torva catadura,

Com seus cantos selváticos de guerra

Restrugindo no fundo dos desertos,

A cujos sons medonhos a pantera

Em seu covil de susto estremecia?

Oh! floresta - que é feito de teus filhos?

Dorme em silêncio o eco das montanhas,

Sem que o acorde mais o rude acento

Das guerreiras inúbias : - nem nas sombras

Seminua, do bosque a ingênua filha

Na preguiçosa rede se embalança.

Calaram-se para sempre nessas grutas

Os proféticos cantos do piaga;

Nem mais o vale vê esses caudilhos,

Seus cocar na fronte balançando,

Por entre o fumo espesso das fogueiras,

Com sombrio lentor tecer, cantando,

Essas solenes e sinistras danças,

Que o festim da vingança precediam.....

Por esses ermos não vereis pirâmides

Nem mármores, nem bronzes, que assinalem

Nas eras do porvir feitos de glória;

Da natureza os filhos não sabiam

Aos céus erguer soberbos monumentos,

E nem perpetuar do bardo os cantos,

Que celebram façanhas do guerreiro,

- Esses fanais, que acende a mão do gênio,

E vão no mar infindo das idades

Alumiando as trevas do passado.

Seus insepultos ossos alvejando

Aqui e além nos solitários campos,

Rotos tacapes, ressequidos crânios,

Que estalam sob os pés de errante gado,

As tabas em ruína, e os mal extintos

Vestígios das ocaras, onde o sangue

Do vencido corria em largo jorro

Entre as pocemas de feroz vingança,

Eis as relíquias que recordam feitos

Do forte lidador da rude selva.

De virgem mata a sussurrante cúpula,

Ou gruta escura, disputada às feras,

Ou frágil taba, num momento erguida,

Desfeita no outro dia, eram bastantes

Para abrigar o filho do deserto;

No carcás bem provido repousavam

De todo o seu porvir as esperanças,

Que suas eram da floresta as aves,

E nem lhes nega o córrego do vale,

Límpido jorro que lhe estanque a sede.

No sol, fonte de luz e de beleza,

Viam seu Deus, prostrados o adoravam,

Na terra a mãe, que os nutre com seus frutos,

Sua única lei - na liberdade.

Oh! floresta, que é feito de teus filhos?

Esta mudez profunda dos desertos

Um crime - bem atroz! - nos denuncia.

O extermínio, o cativeiro, a morte

Para sempre varreu de sobre a terra

Essa mísera raça, - nem ficou-lhes

Um canto ao menos, onde em paz morressem!

Como cinza, que os euros arrebatam,

Se esvaeceram, - e do tempo a destra

Seus nomes mergulho no esquecimento.

Mas tu, ó musa, que piedosa choras,

Curvada sobre a urna do passado,

Tu, que jamais negaste ao infortúnio

Um canto expiatório, eia, consola

Do pobre Indiano os erradios manes,

E sobre a inglória cinza dos proscritos

Com teus cantos ao menos uma lágrima

Faze correr de compaixão tardia.

Cantos da Solidão

Sinopse

Leia Cantos da Solidão, de Bernardo Guimarães, grátis no Literunico. Coleção poética clássica brasileira em domínio público, publicada para leitura online em capítulos HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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