Universo da obra
Universo da obra
Olha : - qual vasto manto que flutua
Sobre os ombros da terra, ondeia a selva,
E ora surdo murmúrio ao céu levanta,
Qual prece humilde, que no ar se perde,
Ora açoutada dos tufões revoltos,
Ruge, sibila, sacudindo a grenha
Qual hórrida bacante : - ali despenha-se
Pelo dorso do monte alva cascata,
Que, de alcantis enormes debruçada,
Em argentea espadana ao longe brilha,
Qual longo véu de neve, que esvoaça,
Pendente aos ombros de formosa virgem,
E já, descendo a colear nos vales,
As plagas fertiliza, e as sombras peja
D'almo frescor, e plácidos murmúrios...
Ali campinas, róseos horizontes,
Límpidas veias, onde o sol tremula,
Como em dourada escama refletindo
Flóreas balsas, colinas vicejantes,
Toucadas de palmeiras graciosas,
Que em céu límpido e claro balanceiam
A coma verde-escura. - Além montanhas,
Eternos cofres d'ouro e pedraria,
Coroados de píncaros rugosos,
Que se embebem no azul do firmamento!
Ou se te apraz, desçamos nesse vale,
Manso asilo de sombras e mistério,
Cuja mudez talvez jamais quebrara
Humano passo revolvendo as folhas,
E que nunca escutou mais que os arrulhos
Da casta pomba, e o soluçar da fonte...
Onde se cuida ouvir, entre os suspiros
Da folha que estremece, os ais carpidos
Dos manes do Indiano, que inda chora
O doce Éden que os brancos lhe roubaram!...
Que é feito pois dessas guerreiras tribos,
Que outrora estes desertos animavam?
Onde foi esse povo inquieto e rude,
De bronzea cor, de torva catadura,
Com seus cantos selváticos de guerra
Restrugindo no fundo dos desertos,
A cujos sons medonhos a pantera
Em seu covil de susto estremecia?
Oh! floresta - que é feito de teus filhos?
Dorme em silêncio o eco das montanhas,
Sem que o acorde mais o rude acento
Das guerreiras inúbias : - nem nas sombras
Seminua, do bosque a ingênua filha
Na preguiçosa rede se embalança.
Calaram-se para sempre nessas grutas
Os proféticos cantos do piaga;
Nem mais o vale vê esses caudilhos,
Seus cocar na fronte balançando,
Por entre o fumo espesso das fogueiras,
Com sombrio lentor tecer, cantando,
Essas solenes e sinistras danças,
Que o festim da vingança precediam.....
Por esses ermos não vereis pirâmides
Nem mármores, nem bronzes, que assinalem
Nas eras do porvir feitos de glória;
Da natureza os filhos não sabiam
Aos céus erguer soberbos monumentos,
E nem perpetuar do bardo os cantos,
Que celebram façanhas do guerreiro,
- Esses fanais, que acende a mão do gênio,
E vão no mar infindo das idades
Alumiando as trevas do passado.
Seus insepultos ossos alvejando
Aqui e além nos solitários campos,
Rotos tacapes, ressequidos crânios,
Que estalam sob os pés de errante gado,
As tabas em ruína, e os mal extintos
Vestígios das ocaras, onde o sangue
Do vencido corria em largo jorro
Entre as pocemas de feroz vingança,
Eis as relíquias que recordam feitos
Do forte lidador da rude selva.
De virgem mata a sussurrante cúpula,
Ou gruta escura, disputada às feras,
Ou frágil taba, num momento erguida,
Desfeita no outro dia, eram bastantes
Para abrigar o filho do deserto;
No carcás bem provido repousavam
De todo o seu porvir as esperanças,
Que suas eram da floresta as aves,
E nem lhes nega o córrego do vale,
Límpido jorro que lhe estanque a sede.
No sol, fonte de luz e de beleza,
Viam seu Deus, prostrados o adoravam,
Na terra a mãe, que os nutre com seus frutos,
Sua única lei - na liberdade.
Oh! floresta, que é feito de teus filhos?
Esta mudez profunda dos desertos
Um crime - bem atroz! - nos denuncia.
O extermínio, o cativeiro, a morte
Para sempre varreu de sobre a terra
Essa mísera raça, - nem ficou-lhes
Um canto ao menos, onde em paz morressem!
Como cinza, que os euros arrebatam,
Se esvaeceram, - e do tempo a destra
Seus nomes mergulho no esquecimento.
Mas tu, ó musa, que piedosa choras,
Curvada sobre a urna do passado,
Tu, que jamais negaste ao infortúnio
Um canto expiatório, eia, consola
Do pobre Indiano os erradios manes,
E sobre a inglória cinza dos proscritos
Com teus cantos ao menos uma lágrima
Faze correr de compaixão tardia.
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