Universo da obra
Universo da obra
Comam e bebam: nada de cerimônias comigo. Minhas casa e franca; eu também. Façam provisão de alegria e de mim disponham sem constrangimento.
Levantou-se de repente Cirino da marquesa em que se sentara.
--Tenho vontade de amanhã seguir viagem...
--Quê, doutor? protestou Pereira. Partir já? isso nunca... Vosmecê ainda não curou de todo minha filha. Pago-lhe todos os prejuízos da sua estada aqui... se for preciso.
--Oh! Sr. Pereira, reclamou por seu turno o jovem, isso quase me ofende...
--Desculpe-me, e muito; mas, antes de duas semanas, não o deixo sair daqui.
--Porém...
--Doentes não lhe hão de faltar. A minha rancharia vai ser visitada como se fosse casa de presepe, e o Sr. não poderá dar vazão aos que o vierem procurar. Olhe, hoje mesmo mandei avisar o Coelho, e daqui a pouco está ele cá, rente como pão quente. Atrás do primeiro, virá uma chusma dos meus pecados... Então quer deixar Nocência como ainda está?...
--Verdade é, balbuciou Cirino.
--Pois então? Nem pensar nisso é bom. Deixe tudo por minha conta; vosmecê há de aqui arranjar os seus negócios.
--Já que o senhor o diz... Eu tinha receio de vexá-lo. Uma vez que até cá venham doentes...
--Hão de vir, esteja sossegado...
--Ficarei, decidiu Cirino, quanto tempo for do seu agrado.
--Ora, muito que bem, exclamou Pereira esfregando as mãos com sincera satisfação, estou como quero. Quanto ao Sr. Maia.., Meyer, quero dizer, este há de criar raízes nesta casa...
--Isso também não: tenho tempo marcado pelo meu governo...
--Bem, bem; mas em todo caso, fará uma boa temporada conosco. É pena que o Manecão não chegue, porque apressávamos o casório, e arranjávamos uma festança como nunca se viu nestes matarrões... Mas estou aqui a dar com a língua nos dentes, sem pensar que os nossos estômagos ainda esperam sua matula. O almoço não pode tardar; é um pulo só... Se consentem vou ver 1á dentro.
Ao dizer estas palavras, saiu da sala, voltando pouco depois acompanhado de Maria, a velha escrava que trazia a toalha da mesa e a competente cuia de farinha.
-- Á mesa! gritou Pereira. Almoço hoje com vosmecês. Sr. Meyer, o senhor comerá dora em diante comigo e com a menina, lá no interior da casa; ouviu?
E, voltou-se para Cirino.
--Bem sabe, explicou logo, como se fosse o Chiquinho.
Depois de pronta a mesa, sentaram-se os três alegremente.
--Olhe, Sr. Meyer, disse o mineiro servindo o alemão, isto é feijão-cavalo e do melhor. Misture-o com arroz e ervas; deite-lhe uns salpicos de farinha...
Começou o naturalista a mastigar com a lentidão de um animal ruminante, interrompendo de vez em quando o moroso exercício para exclamar:
--Delicioso, com efeito! Muito delicioso.
Comia Cirino pouco e em silêncio.
--Na Alemanha, observou Meyer contemplando um grão de feijão, a maior fava não chega a este tamanho. Aqui a fava de lá teria polegada e meia pelo menos. Um almoço, assim, havia de custar na Saxônia dois táleres, ou pelo câmbio que deixei no Rio de Janeiro, dois mil e quinhentos réis...
Interrompeu-o Pereira com gesto cômico.
--Dois mil e quinhentos? Ora, que terra essa! Como é que se chama?
-- Sac-sônia, respondeu o alemão com gravidade.
--Saco-sonha! exclamou Pereira. Não conheço... Mas, então lá muita gente há de andar a morrer de fome...
--Pelos últimos cálculos, replicou Meyer com várias pausas durante as quais introduzia enormes colheradas da mistura que lhe aconselhara o anfitrião, é sabido que em Londres morrem no inverno oito pessoas à míngua, em Berlim cinco, em Viena quatro, em Pequim doze, em Iedo sete, em...
--Salta! atalhou Pereira exultando de prazer, então viva cá o nosso Brasil! Nele ninguém se lembra até de ter fome. Quando nada se tenha que comer, vai-se no mato, e fura-se mel de jataí e manduri, ou chupa-se miolo de macaubeira. Isto é cá por estas bandas; porque nas cidades, basta estender a mão, logo chovem esmolas... Assim é que entendo uma terra... o mais é desgraça e consumição ...
--Decerto! corroborou o alemão, o Brasil é um país muito fértil e muito rico. Dá café para meio mundo beber e ainda há de dar para todo o globo, quando tiver mais gente... mais população...
--Bem eu sempre digo, acudiu Pereira tocando no ombro de Cirino e deitando-lhe uns olhos de triunfo. Lá fora é que nos conhecem, nos fazem justiça... Não acha, patrício? Homem, agora reparo ...vosmecê está tão calado!... meio casmurro, que é isso? sempre aquele negócio?
De fato, Cirino, depois que ouvirá o convite a Meyer para conviver no interior da casa de Pereira, tornara-se sombrio, inquieto, meditabundo. O corpo ali estava, mas a sua imaginação vigiava zelosa o quartinho onde repousava aquela menina febricitante, tão bela na sua fraqueza e palidez enferma.
--Se são mulheres, ponderou Pereira, deixe-se disso; não há maior asneira... É fazenda que não falta.
No meio dos exercícios mandibulares, julgou Meyer que o seu hospedeiro considerava o sexo feminino do ponto de vista meramente estatístico e acreditou conveniente assentar melhor a idéia, um tanto vagamente aventada.
--Na raça eslava, disse dogmaticamente, a proporção é de duas mulheres para um homem; na germânica, há aproximadamente número equivalente, na latina de dois homens para uma mulher. Na França, a proporção para o lado masculino é de...
--Mas o senhor contou? interrompeu Pereira. Deixe-lhe dizer uma coisa: eu cá não engulo araras...
--Ni eu, afirmou Meyer com alguma surpresa e energia, nem sei como o senhor me vem falar nessas aves agora... Se as considera como caça, deve saber que os trepadores têm a carne dura, preta e...
Riu-se Pereira do equívoco e, explicando-o, continuou a discutir com o seu interlocutor, que não discrepava uma linha dos seus princípios de método e escrupulosa polidez.
--Pode o senhor falar um ano inteiro, disse o mineiro para concluir; mas quanto a mim, não entendo patavina das suas contas e jigajogas. Quem me tira da tabuada, bota-me no mato... E agora, vamos agradecer a Deus Nosso Senhor Jesus Cristo o ter-nos dado esta comida, ainda que insuficiente e mal temperada.
E, unindo o exemplo à palavra, levantou-se e, de mãos postas ao peito, orou em voz baixa com unção, no que foi imitado pelos dois hóspedes.
--Esteja convosco o Senhor, disse ao terminar, em voz alta, persignando - se.
--Amém, responderam Cirino e Meyer.
--Agora, anunciou o mineiro saindo da mesa, vou dar um giro pela minha roga, onde estão na capina três negros cangueiros, um dos quais é o meu fazendeiro; depois, hei de visitar uns conhecidos meus, avisando-os da sua chegada, doutor. Ah! acrescentou todo desfeito em amável sorriso, falta-lhe mostrar minha filha, Sr. Meyer.
--Sua filha! exclamou o alemão. Então tem filhos?
--Sim, senhor. Não se lembra que o seu vulto é o do mano Chiquinho? Pois então? Que maior prova lhe posso dar de confiança e amizade?... Não é verdade, Sr. Cirino?
--Sem dúvida, balbuciou a custo o mancebo.
--Minha filha chama-se Nocência e só hoje é que se levantou da cama... Esteve doentinha... Assim mesmo, não sei se as maleitas a deixaram... O corpo é às vezes caroável dessas malditas e...
--Isto está ao meu cuidado, atalhou Cirino com alguma pressa. Ainda ao meio-dia há de tomar quina...
--Vosmecê faça o que for melhor... Quer vir, Sr. Meyer?
--Pois não! pois não! respondeu amavelmente o alemão.
-- É a única pessoa da família que tenho aqui, além de um marmanjão que está agora na carreira por essas estradas, agenciando a vida ... Então, vamos! Venha também, continuou ele voltando-se para Cirino, um cirurgião é quase de casa.
Saíram, pois, os três. Pereira na frente, seguiu o oitão da direita, e, abrindo uma tranqueira do cercado dos fundos, entrou pela cozinha, onde a velha preta Conga estava lavando pratos e arrumando louça numa prateleira.
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