Leia agora
Inocência

Universo da obra

Inocência

Capítulo 20 · Inocência

Inocência: Capítulo XX: Novas histórias de Meyer

20 de 31 ≈ 7 min de leitura

Disse-lhe Sancho:Cada qual abra

bem o olho e fique alerta,

porque o diabo entrou na

dança e se lhe deram

ensejo, ver-se-ão maravilhas.

Virai-vos em mel, e as moscas

vos comerão

Cervantes, D. Quixote, Cap. XLIX

Uma ocasião, de volta do trabalho diário, atingiu a habitual irritação Pereira contra Meyer grande intensidade. Entrara cabisbaixo, sorumbático e fez gesto a Cirino de que precisava falar-lhe a sós. Dali a pouco, saindo ambos, caminharam silenciosos pela estrada até a um regato que ficava a meio quarto de légua da casa.

--Que terá este homem hoje? dizia Cirino consigo mesmo. Talvez vá chegando o momento de tratar do assunto.

Voltou-se de repente Pereira e, com voz alterada, prorrompeu em exclamações:

--Sabe, doutor, que não posso mais aturar esse alamão?... Aquilo é um mandingueiro, uma suçuarana, vinda do inferno para me botar a perder!... Meu irmão... meu irmão, que presente me fez você! ...

--Mas, que houve? perguntou Cirino.

--Olhe... se não fosse aquela carta, e a palavra que dei ao maldito... mil raios o partam, surucucu do diabo! potro melado!... já um bom balázio lhe teria varado os miolos.

--Que novidades há então, sr. Pereira? tornou a inquirir Cirino.

--Vim mesmo ate aqui para tirar este peso do coração...

--Mas...

--Sabe o senhor que aquele Mochu é pior que um tigre preto?... Parece homem à-toa, um punga, incapaz de matar uma pulga, não é?... Pois aquilo é uma alma danada... um sedutor...

--Sempre as suas desconfianças! observou Cirino.

--Desconfianças, não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem todo o dia... estar a lembrar-se da menina..- Procurar trazê-la a conversa?-Como está sua filha? pergunta-me ele sempre. -Esta boa, de uma vez para todas. E ele, toda a vida a insistir... Isto me põe o sangue a ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o cujo de seus cuidados e disse-me como quem toma leite com farinha de milho: -Sua filha vai casar?-Vai, respondi-lhe todo trombudo. - Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da tua com seu bisbilhoteiro, seu biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como é meu hóspede, secundei-lhe enfarruscadota, s: com um homem do sertão que há de amolar a faca na pele da barriga do mariola que vier mexer com a mulher dele. O alamão não se deu por achado e, com todo o sem-vergonhismo, me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito mimosa e deveria casar com alguém da cidade.-Então, perdi a paciência: Mochu, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende: eu na minha, não quero ser anarquizado; ele, quando me viu fulo de raiva, pediu-me mil desculpas, contou-me muitas histórias, isto, aquilo, aquilo outro, et coetera e tal, que era para bem de minha filha e não sei mais o que, numa língua que pouco entendi...

-- Não fez bem, atalhou Cirino.

--Boa dúvida! Aquilo é uma alma danada... boa para as caldeiras de Pedro Botelho, um judeu... enfim, um caçador de anicetos: está dito tudo! ... Mas ainda não lhe contei o mais... Parece que hoje estava mesmo com o diabo no corpo... Meteu-se no mato perto da minha roca, onde eu trabalhava com os meus cativos, e lá fazia um barulhão a quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi uma gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José Pinho a berrar como dois minhocões. Corri a ver o que era e os achei muito contentes a olhar para uma barboleta grande já fincada num pau de pita. 0 alamão pôs-se a pular como um cabrito.

--É novo, me disse ele, é novo! -Novo o que, Mochu?-Este bicho, ninguém o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou botar-lhe o nome de sua filha!...

Quando ouvi aquilo, fiquei tão passado, que não pude engolir o cuspo da boca... Vejam só... o nome de Nocência numa bicharada!. Até parece mangação... Agora, quero saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos desabafar... Não posso meter uma bala naquele patife como bem merecia... mas também é demais tê-lo em casa... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente, sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do contrário como mulher que é, havéra de me dar que fazer... Também não sei por que é que o Manecão não chega... só ele é quem havia de me livrar destes apuros... Uma vez que o tal alamão visse a rapariga com o noivo, deixava-a sossegada... Não acha? Olhe, palavra de honra, isto ansim não é viver! Fui feito para dizer o que penso, tratar bem a todos. .. mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe quanto me custam... Até o meu serviço vai sofrendo, porque muitas vezes largo a roça e ponho-me a correr atrás dos bichinhos, só para não deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos negros... O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu irmão, que carga você me pôs em cima das costas! Eu então, que não nasci para esconder o que sinto cá dentro!...

E Pereira, de tão atribulado que trazia o espírito deixou-se cair num cômoro de terra.

Cirino, defronte dele, ficara de pé e pensativo.

Afinal, depois de breve dúvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave questão que lhe importava a felicidade.

--Sr. Pereira, disse bastante comovido, acho que o alemão faz mal em andar batendo língua em pessoa da sua família e dou razão às suas inquietações...

--Ah! vosmecê é homem de confiança.

--Mas, continuou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que num ponto tem ele alguma razão... É quando... lhe deu... conselho... que o senhor não casasse sua filha... assim... sem perguntar a ela... se... enfim não sei... mas talvez o Manecão lhe não agrade...

Ergueu-se Pereira de um pulo e, aproximando a face, repentinamente incendida de cólera, junto ao rosto de Cirino:

--O quê? exclamou com voz de trovão, eu... consultar minha filha? Pedir-lhe licença... para casá-la?... O senhor está doido?... Ou está mangando comigo... Ai... que também...

E vago lampejo de desconfiança lhe iluminou a chamejante pupila.

Compreendeu logo Cirino a perigosa situação e, sem demora, tratou de desfazer a má impressão que produzira.

--Ah! disse com fingido riso, é verdade... Isto são costumes da cidade... aqui, no sertão, há outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr. Pereira, este Meyer é que está a contundir-me todas as idéias. Pois eu julgo... já que pede a minha opinião, que o senhor deve continuar a ter olho no estrangeiro... e eu hei de ajudá-lo, quanto estiver nas minhas forças.

--Também agora, disse o mineiro depois de ligeira pausa, não há de ser por muito tempo... Há mais de um mês que ele aqui pára e já me... contou que breve segue viagem para Camapuã....Desenganou-se afinal... O tal meco não chegará ate lá... mas é o mesmo. Um destes dias, leva por ai algum tiro para lhe botar juízo na cachola, ou alguma facada que lhe ponha as tripas a mostra... Nem sempre há de ter cartas de irmão para sair-se bem da rascada... O diabo o leve para longe!... Voltemos, Sr. Cirino... Já demais temos deixado o bicharoco sozinho,

E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de Cirino. Ia este desalentado; na realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as esperanças que o haviam animado na tentativa de oposição ao projetado casamento da amada com o terrível e fatal Manecão.

Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disse-lhe peremptoriamente:

--Deveras, Sr. Cirino, aquelas suas palavras me buliram com o sangue todo... Ainda o sinto galopar nas veias... Que idéias estúrdias!... Que lembrança! Ah... a tal vida das cidades... cruzes!

Inocência

Sinopse

Leia Inocência, de Visconde de Taunay, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em capítulos HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978656318422786497867896
Inocência

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Inocência

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Inocência

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Inocência Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 20 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Inocência

Capa de Inocência
Continue a leitura Inocência: Capítulo XX: Novas histórias de Meyer Capítulo 20 · 20 de 31 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 31 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir