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Capítulo 1 · 345

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345-- És o rei dos caiporas, e, além disso, não tens a menor parcela de bom senso! Não fosse eu tua mulher, e não sei o que seria de ti, porque decididamente não te sabes governar!

-- Exageras, nhanhã!

-- Não! não sabes! Tens deixado estupidamente um rol de vezes passar a fortuna perto de ti, sem a agarrar pelos cabelos! Dizem que ela é cega: cego és tu!

-- Já vês que a culpa não é minha...

-- Quando houve o Encilhamento, só tu não te arranjaste!

-- Mas também não me desarranjei...

-- Para seres promovido a 1o oficial da tua Repartição, foi preciso que eu saísse dos meus cuidados e procurasse o ministro.

-- Fizeste mal.

-- Se o não fizesse, não passarias da cepa torta!

-- Não quero obscurecer o mérito da tua diligência, mas olha que estás enganada, nhanhã.

-- Deveras?

-- Redondamente enganada. A nomeação era minha. Quando fui agradecê-la ao ministro, este disse-me: "Não era preciso que sua senhora se incomodasse: o decreto estava lavrado."

-- Pois sim! isso disse ele... E quando o decreto estivesse, efetivamente, lavrado? Á última hora seriam capazes de substitui-lo por outro! Pois se és tão caipora!

-- Perdoa, nhanhã, mas não sou tão caipora assim... Pelo menos tive uma grande felicidade na vida!

-- Qual foi, não me dirás?

-- A de ter casado contigo...

Nhanhã mordeu os lábios, porque não achou o que responder, e naquele dia as suas impertinências habituais não foram mais longe.

O pobre Reginaldo -- assim se chamava o marido -- habituara-se de muito àquelas recriminações insensatas, e era um quase fenômeno de resignação e paciência.

Ela bem sabia que a coisa seria outra, se realmente a fortuna se deixasse agarrar pelos cabelos: o que nhanhã não lhe perdoava era a sua pobreza, -- não era o seu caiporismo. Ela não podia ter em casa do marido o mesmo luxo que tinha em casa do pai; não podia rivalizar com alguma amiga em ostentação: era isto, só isto que a afligia, ou antes, que os afligia a ambos, marido e mulher.

Reginaldo tinha aversão ao jogo; nem mesmo a loteria o tentava.

Entretanto, uma tarde meteu-se num bonde do Catete, para recolher-se à casa, e no Largo do Machado, onde se apeou, pois morava naquelas imediações, foi perseguido por um garoto que à viva força lhe queria impingir um bilhete de loteria, -- uma grande loteria de cem contos de réis, cuja extração estava anunciada para o dia seguinte.

Reginaldo resistiu, caminhando apressado sem dar resposta ao garoto, que o acompanhava insistindo; mas de repente lhe acudiu a idéia de que aquele maltrapilho poderia ser a fortuna disfarçada. Era preciso agarrá-la pelos cabelos! Comprou o bilhete, e foi para casa, onde o esperavam os tristes feijões quotidianos.

Ele bem sabia que, se dissesse a nhanhã que havia feito essa despesa extra-orçamentária, não teria a sua aprovação; mas que querem, -- o pobre rapaz era um desses maridos submissos, que não ficam em paz com a consciência quando não contam por miúdo às caras-metades tudo quanto lhes sucede.

Ao saber da compra do bilhete, nhanhã pôs as mãos na cabeça:

-- Quando eu digo que tu não tens a menor parcela de bom senso...! Aí está! Dez mil-réis deitados fora, e tanta coisa falta nesta casa!...

E seguiu-se, durante meia hora, a relação dos objetos que poderiam ser comprados com aqueles dez mil-réis perdidos.

Depois disso, nhanhã pediu para ver o bilhete.

Reginaldo, sem proferir uma palavra, tirou-o do bolso e entregou-lho.

-- Número 345! exclamou ela. Um número tão baixo numa loteria de cinqüenta mil números! Isto é o que se chama vontade de gastar dinheiro à toa! Algum dia viste, nessas grandes loterias, ser premiado um número de três algarismos?

Reginaldo confessou que nem sequer olhara para o número. Como o garoto se lhe afigurou a fortuna disfarçada, ele aceitou o bilhete que lhe fora oferecido, entendendo que não devia argumentar com a fortuna.

-- 345! Pois isto é lá número que se compre!

-- Agora não há remédio.

-- Como não há remédio? Põe o chapéu e volta imediatamente ao Largo do Machado: o garoto ainda lá deve estar. Dá-lhe o bilhete e ele que te dê o dinheiro.

-- Perdoa, nhanhã, mas isso não faço eu: comprei! Nem o garoto desfazia a compra!

-- Ao menos vai trocar o bilhete por outro, que tenha, pelo menos, quatro algarismos! Se tiver cinco, melhor!

-- Faço-te a vontade: mas olha que sempre ouvi dizer que bilhetes de loteria não se trocam...

-- Faze o que eu disse e não resmungues! Tu és o rei dos caiporas e eu tenho muita sorte!

Reginaldo não disse mais nada: pôs o chapéu, saiu de casa, foi ao Largo do Machado, e voltou com outro bilhete.

Desta vez o número tinha cinco algarismos: 38788; nhanhã devia ficar satisfeita.

Não ficou:

-- Devias escolher um número mais variado: o 8 fica aqui três vezes.. -- Mas, enfim, 38788 sempre inspira mais confiança que 345...

Pois, senhores, no dia seguinte o n.0 38788 saiu branco, e o n.0 345 foi premiado com a sorte grande.

Imagine-se o desespero de nhanhã:

-- Então, eu não digo que és o rei dos caiporas?

-- Perdoa, nhanhã, mas desta vez não fui o rei: tu é que foste a rainha...

-- Cala-te! Se não fosses um songamonga, não me terias feito a vontade! Ter-me-ias roncado grosso!

-- Ora essa!

-- Um marido não se deve deixar dominar assim pela mulher!

-- Olha que eu pego na palavra...

-- Trocar um bilhete de loteria! Que absurdo!...

-- Absurdo aconselhado por ti...

-- Mas tu já não estás em idade de receber conselhos!

-- Bom; de hoje em diante baterei com o pé e roncarei grosso todas as vezes que me contrariares! Esta casa vai cheirar a homem!...

A boas horas vêm esses protestos de energia!

E exclamando com os punhos cerrados e os olhos voltados para o teto: "Cem contos de réis"!, nhanhã deixou-se cair sentada numa cadeira, e desatou a chorar.

Mal que a viu naquele estado aflitivo, Reginaldo correu para junto dela, e disse-lhe com muito carinho:

-- Sossega. Eu fiz uma coisa... mas vê lá! não ralhes comigo...

-- Que foi?

-- Não troquei o bilhete!

Não trocaste o bilhete? gritou nhanhã erguendo-se de um salto, com os olhos muito abertos.

-- Não! pois eu fazia lá essa asneira! Seria deixar fugir a fortuna, depois de a ter agarrado pelos cabelos!

-- Compraste então o outro bilhete?

-- Comprei...

-- Nesse caso... estamos ricos?

-- Temos cem contos.

-- Ora, graças que um dia fizeste alguma coisa com jeito!

-- Qual! eu continuo a ser o rei dos caiporas.

-- Não digas isso!

-- Digo, porque se o não fosse, o número 38788 teria apanhado a sorte imediata...

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Sinopse

Leia 345, de Artur Azevedo, grátis no Literunico. Texto clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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