Universo da obra
Universo da obra
Quadro primeiro A MISSA
Praça pública. Ao fundo a Matriz e a casa de residência do Padre Cascais. É dia
de festa.
Povo, depois Cascais e Filomeno
(Ao erguer do pano homens e mulheres, defronte da porta de Cascais, apresentam flores, frutas, velas de cera e frango. Flores em mais abundância.)
Coro
Aceite, ó senhor padre, os mimos que lhe dão
de coração
os que aqui ‘stão
com devoção!
E lhe pedimos já cheíssimos de fé,
que rogue a Deus por nós, se nosso amigo é.
Aceite, ó senhor padre, etc.
UMA RAPARIGA (Oferecendo um ramalhete a Cascais.)
-- Aceite estas cravinas
aceite por favor
Não são tão purpurinas?
Não têm tão linda cor?
OUTRAS RAPARIGAS -- Se o seu padre não aceita
este raminho já,
tomamos por desfeita
e não voltamos cá...
Coro
Aceite estes presentes,
se nos quer ver contentes.
Aceite ó senhor padre, etc.
(Acabado o coro, continua a música na orquestra, enquanto o povo depõe os seus presentes nas mãos de Filomeno, e vai se retirando.)
Cascais e Filomeno
CASCAIS - Guarde tudo isso, seu sacristão.
FILOMENO - Sim, senhor vigário. (Vai aos poucos levando as oferendas para a casa de Cascais.)
CASCAIS - Ora, valha-me Deus! Que presentes! Que presentes! Duas velas de cera, apenas um frango, e flores, flores, e mais flores! (Com desgosto.) Pra que flores? -- Ah! Já vai o tempo dos perus e das galinhas gordas... O tempora, o mores! E viva um pobre vigário da modesta côngrua! Já não há fé nos vigários! Já não há fé nos vigários!
FILOMENO - Não é tanto assim, senhor vigário; o seu colega de Itapiri...
CASCAIS - É exato. É o homem mais feliz que conheço. Até o sermão de hoje mo tiraram para dar-lho, a ele! E levam-lhe bois, porcos, sacos de farinha e de feijão...
FILOMENO - Deve fazer bom negócio...
CASCAIS - Ora se faz! Mas por cá é o que você está vendo: flores, flores e mais flores! (Como quem se resigna.) Enfim! você há de levar este ramalhete à comadre... (Dá-lhe um ramalhete que tem conservado na mão.)
FILOMENO - Sim, senhor vigário.
CASCAIS - E o sino?! Trouxeram o sino, que tinha ido ao mestre ferreiro, para segurar o badalo?
FILOMENO - Ainda não.
CASCAIS - Como ainda não?!
FILOMENO - Estou à espera...
CASCAIS - Olhe que hoje não podemos passar sem sino! Um dia de tanto júbilo! Festa literária depois da missa das dez...
FILOMENO - Vossa Reverendíssima não me explicará o que vem a ser essa festa literária?
CASCAIS - Coisas do Senhor Pantaleão de los Rios, que não tem mais o que fazer! Dá um prêmio a quem decifrar uma charada, responder a uma pergunta enigmática e glosar um mote! Ah! Senhor Pantaleão, Senhor Pantaleão! Ne sutor ultra crepidam.
FILOMENO - Ora o Seu Pantaleão!
CASCAIS - Já vê você que não podemos passar sem o sino! Preciso do sino!
FILOMENO - Falai no mau. Aí vem o Mestre Eustáquio com ele. (Eustáquio entra pela direita carregando um pequeno sino.)
Os mesmos e Eustáquio
CASCAIS - Então, Mestre Eustáquio, que demora foi essa?
EUSTÁQUIO - Vossa Reverendíssima desculpe; mas estive ocupado a arranjar umas ferraduras para o senhor juiz de paz, e... Mas cá está o sino, e desta vez, bem seguro o badalo.
CASCAIS - Veja lá se o arranca de novo, seu sacristão!
EUSTÁQUIO - Olhe! (Agita o sino.)
CASCAIS (Precipitando-se para sufocar o som.) - Pare, pare, homem de Deus! vai o povo persuadir-se de que o estou chamando à missa...
EUSTÁQUIO - Desculpe...
CASCAIS - Também já são horas. Ali vêm algumas devotas e entre elas a juíza da festa. Vamos, seu sacristão, leve o sino para a torre, pregue-o no lugar, e chame à missa. (Filomeno entra na igreja com o sino. A Eustáquio.) Este sacristão acumula, hein? Ele é sacristão, sineiro, oficial de justiça, vende cera e faz a escrita da loja do Polidoro. (Outro tom.) Mestre Eustáquio, venha amanhã receber as duas patacas do ajuste.
EUSTÁQUIO - Não há novidade... (Vai-se.)
Cascais e a juíza da festa, devotas de mantilha, Helena e Marcolina
CASCAIS (À juíza da festa.) Viva a juíza! Entre, Dona Bárbara! (Acompanha-a até a porta da igreja. Nisto entra Helena acompanhada por Marcolina. Helena, durante o coro, cumprimenta o vigário.)
CORO DE DEVOTAS MOÇAS -- Eis de sinhá, falange honesta
que também vem gozar a festa,
pois jovem ser não é razão
que justifique a reclusão
HELENA -- Ah! que satisfação ser moça
como eu sou!
O coração se me alvoroça!
Quem foi que amores inventou?
(Filomeno tem aparecido na torre da igreja, e prega o sino a uma pequena trave.)
I
HELENA -- Meu coração palpita, pulsa
por quem chegar vai hoje aqui!
Sinto-me, ó céus, toda convulsa,
como jamais me senti.
Mas, ah! não sei se meu padrinho
me deixará ou não casar com meu benzinho.
II
Ele não tem ...(Faz sinal de dinheiro.)
A ver navios
eu ficarei talvez, até,
só porque dois sacos vazios
não se poderão ter em pé.
Mas, ah! não sei se meu padrinho
me deixará ou não casar com meu benzinho
(Continua a música. O coro entra na igreja. O vigário vai a entrar também, mas Helena o agarra e obriga-o a descer com ela à cena. Marcolina conserva-se no fundo.)
Helena, Cascais e Marcolina
HELENA - Dá-me uma palavrinha?
CASCAIS - Duas e três, se quiser, mas a missa...
HELENA - Tem tempo. (Cessa a música.)
CASCAIS - Estou às suas ordens...
HELENA (Dando com Marcolina.) - Vá para a matriz, Marcolina.
MARCOLINA - Iaiá, sinhô velho me disse que não deixasse vossemecê sozinha.
HELENA - Faze o que te digo!
MARCOLINA - Tá bom, eu vou mas depois não quero cumo-chama comigo. (Entra na igreja.)
Helena e Cascais
HELENA - Padre, vim reclamar sua proteção.
CASCAIS - Minha proteção, Dona Heleninha? Explique-se.
HELENA - Padre, eu já estou em idade de casar-me: vinte e quatro anos não são vinte e quatro horas.
CASCAIS - Ciente.
HELENA - À última vez que estive na corte, quis o destino que me encontrasse com ele.
CASCAIS - Ele quem?
HELENA - Abel.
CASCAIS - Que Abel?
HELENA - Um moço que se apaixonou por mim e por quem tive a fraqueza de me apaixonar.
CASCAIS (Sorvendo uma pitada.) - Ciente.
HELENA - Desde que voltei para a roça, a sua imagem não me saiu mais do coração. Ai! o padre não sabe o que é o amor!
CASCAIS - Tolitur questio
HELENA - Amo-o como só se ama uma vez.
CASCAIS - Deveras?
HELENA - E Abel não tarda aí!
CASCAIS - Aí onde?
HELENA - Aqui.
CASCAIS - Aí aqui?
HELENA - Por um desses meios difíceis que só lembram os namorados, Abel conseguiu que uma cartinha me chegasse às mãos.
CASCAIS - Por meio de alguma pomba?
HELENA - Agora apresentou-se candidato à cadeira de primeiras letras cá da freguesia, fez o exame e apanhou o lugar.
CASCAIS - Mas, enfim, o que deseja de mim, Dona Heleninha?
HELENA - Sua proteção, repito. Abel é muito pobre e meu padrinho e tutor, como Vossa Reverendíssima sabe, só quer casar-me com sujeito rico. Como Vossa Reverendíssima exerce influência em dindinho, escrevi a Abel, dizendo-lhe que o procurasse.
CASCAIS - A quem? ao dindinho?
HELENA - Nada! Ao padre. Peço-lhe que seja seu amigo e o apresente a dindinho, já sabe: com alguma recomendação. Ah! ele! sempre ele!.
CASCAIS - Ele quem?
HELENA - O caiporismo. Já estou ficando tia, e nada de novo!
CASCAIS - Tia, Dona Heleninha! A senhora, tia! Distingo!
HELENA - Se dindinho não consente em meu casamento com Abel, mato-me! (Ouve-se rumor fora.)
CASCAIS (Depois de olhar à direita.) - Ai, ai! Quem vem ali! Está na terra aquele vadio?!
HELENA - Quem?
CASCAIS - O Pedrinho! vem deitar a freguesia de pernas para o ar! e com que súcia! Entre, Senhora Heleninha, entre...
HELENA - Não se esqueça de mim, padre...
CASCAIS - Hei de fazer o possível. (Helena entra na igreja.) Com toda a certeza o Nicolau abana as orelhas, mas tudo se há de arranjar.
Cascais, Pedrinho, Benjamim, Juca Sá e rapazes vadios da freguesia, dos quais um toca flauta e o outro violão
OS RAPAZES (Entrando ruidosamente e envolvendo Cascais.) - Ora viva o senhor vigário! Viva!
I
PEDRINHO (A Cascais.) --Na cidade me aborrecia:
as férias cá passar, pois vim,
e trouxe em minha companhia
o Juca Sá e o Benjamim
(Apresentando Juca Sá e Benjamim a Cascais.)
O Benjamim e o Juca Sá!
que lhos apresente consinta.
CASCAIS --Grande prazer é o que me dá!
Senhores eu tenho a distinta ...
PEDRINHO -- O Benjamim e o Juca Sá!
Todos -- O Benjamim e o Juca Sá!
(Dançam em volta de Cascais.)
Tsing lá lá, tsing lá lá!
Lá rá lá rá, lá rá lá rá!
II
PEDRINHO -- Sem mais extensos palanfrórios:
estudantes ambos e dois:
não passam dos preparatórios...
Hão de os fazer lá pra depois...
O Benjamim e o Juca Sá!
que lhos apresente consinta.
CASCAIS --Grande prazer é o que me dá!
Senhores eu tenho a distinta...
PEDRINHO -- O Benjamim e o Juca Sá!
Todos -- O Benjamim e o Juca Sá!
(Repetem com mais vivacidade as danças.)
Tsing lá lá, tsing lá lá!
Lá rá lá rá, lá rá lá rá!
(No fim das coplas, acha-se de novo Cascais envolvido no grupo.)
PEDRINHO - Ora ouça o que aqui nos traz, senhor vigário: saltei do trem, há pouco, com os meus dois colegas. Conhece-os? Apresento-lhe os senhores...
CASCAIS - Basta! basta! Você já mos apresentou por música.
PEDRINHO - Havíamo-nos reunido a esta rapaziada, quando vimos de longe negrejar a túnica de Vossa Reverendíssima. -- O que é aquilo? -- O quê? -- Aquele ponto negro? -- Aquilo é o vigário! -- Ah! é o vigário aqui da freguesia? perguntou o Benjamim. -- Como se chama? acrescentou o Juca Sá. -- Cascais, respondi eu. -- Cascais? o ilustre Cascais?! -- É o próprio. -- Quero vê-lo de perto! -- Queremos vê-lo! -- E aqui estamos. (A Benjamim e Juca Sá.) Rapazes, aqui têm o vigário! Que tal o acham?
BENJAMIM - Bom
JUCA SÁ - Muito bom.
CASCAIS - Meus bons amigos, a companhia é muito agradável, mas... Com licença... Os deveres do meu cargo estão a reclamar-me.
PEDRINHO - Nada de cerimônias, senhor padre, nada de cerimônias; faça de conta que está em sua casa... (Cascais entra na igreja.)
Pedrinho, Benjamim, Juca Sá e rapazes.
BENJAMIM - Então, não vamos à missa?
PEDRINHO - Qual! Vocês ainda não viram a vila. Quero mostrar-lhes todas as curiosidades.
JUCA SÁ - Ora! Na matriz é que está o madamismo!
PEDRINHO - O madamismo é uma das curiosidades, lá isso é!...
BENJAMIM - Nada conheço mais curioso do que a mulher.
PEDRINHO - ... Mas teremos tempo de sobra para apreciá-lo, e com Todos os ff e rr, em casa do Senhor Pantaleão de los Rios.
BENJAMIM - Quem é esse Senhor Pantaleão de los Rios?
PEDRINHO - É o delegado literário da freguesia: um espanhol que aqui reside há muito tempo; está naturalizado brasileiro, e tem a mania de ser literato.
BENJAMIM - Nesse caso, é também uma das curiosidades?
PEDRINHO - É. Acaba de promover nada menos que uma festa literária!
BENJAMIM - Uma festa literária? Conta-nos lá isso!
PEDRINHO - Vocês hão de ver. (Ao da flauta.) Ó Frederico, para que horas está marcada a festa em casa do los Rios?
O DA FLAUTA - Para o meio dia.
PEDRINHO - Já vêem vocês que temos tempo de percorrer a vila.
BENJAMIM - Siga a passeata!
JUCA SÁ - Viva a pândega!
PEDRINHO - Olha essa música! (Os rapazes tocam. Saída ruidosa. Repetição do último coro: Tsing lá lá, etc.)
Abel, com uma mala na mão, acompanhado de um negro que traz um baú na cabeça, depois Cascais
ABEL - Então, é esta a casa do vigário? (O negro afirma.) Vejamos. (Vai bater à porta do vigário.)
UMA VOZ DE MULHER - Quem é?
ABEL - Sou eu. Está em casa o vigário?
A VOZ - Não, senhor: está aí apegado na matriz.
ABEL - Obrigado. (Dirigindo-se para a igreja.) Pelo que vejo há festa hoje por cá... (Cascais sai da igreja, sem reparar em Abel.)
CASCAIS (Consigo.) - Está lá dentro um calor... Engrolei uma missa em três tempos! Já tenho habituado este povo a ouvir missas instantâneas, como as fábulas do Mosquito. Agora está pregado o colega de Itapiri.
ABEL - Vossa Reverendíssima não é o vigário cá da freguesia?
CASCAIS (Modestamente.) À falta de homens...
ABEL - Pode dar-me uma palavrinha?
CASCAIS - Estou às suas ordens, mas.. se se trata de ir confessar alguém muito longe da freguesia... Em dia de festa...
ABEL - Não se trata disso. Primeiro que tudo, consinta que este preto vá a deixar em sua casa aquele baú e esta mala...
CASCAIS - Mas...
ABEL - Descanse. (Dando a mala ao negro.) É por uma hora, se tanto. (Ao negro.) Leva isso lá para dentro. (O negro entra com a carga em casa de Cascais.) Vossa Reverendíssima não recebeu uma cartinha de seu irmão, o Senhor Doutor Cascais?
CASCAIS - Uma carta de meu irmão? Há dois meses que não escreve! (O negro sai de casa de Cascais; Abel vai ter com ele e dá-lhe dinheiro. Sai o negro.)
Abel e Cascais
ABEL - Veja como são as coisas! Eu queria trazer a carta para trazer em mão própria... É uma carta de recomendação...
CASCAIS - Ciente.
ABEL - Mas o Doutor Cascais me disse que seria melhor viesse a carta adiante, porque, assim, Vossa Reverendíssima preparar-se-ia para receber-me. Mas não importa!
CASCAIS (Apontando para a direita.) - Olhe, ali vem o caixeiro do agente do correio; talvez traga a carta.
ABEL - Queira Deus que assim seja.
Os mesmos e um empregado do correio
O EMPREGADO DO CORREIO (Entrando. A Cascais.) - Seu padre-mestre, a benção! O patrão manda pedir-lhe muitas desculpas, por não lhe ter mandado entregar logo esta carta. Estava metida em outros papéis e ninguém deu por ela.
CASCAIS - Está bom, dê cá. (A Abel.) É a história eterna dos nossos correios.
O EMPREGADO DO CORREIO - Passar bem, seu padre-mestre.
CASCAIS - Viva! (O empregado do correio sai.) É, na verdade, letra de meu irmão. Como está ele? Bem? Gordo?
ABEL - Bem gordo; (Vendo que Cascais arranca o selo da carta e guarda-o.) Para que guarda isso?
CASCAIS - Eu faço coleção de selos...
ABEL - Ah!
CASCAIS (Abrindo a carta.) - Dá licença?
ABEL - Essa é boa...
CASCAIS (Lendo, com acompanhamento na orquestra.)
“Com a saúde que se quer
vá te achar esta cartinha,
pois vai menos mal a minha,
como a de minha mulher.
Para essa freguesia
nomeado professor,
para lá segue o Senhor
Abel de Souza Faria (Abel cumprimenta.)
A amizade que me tem
a apresentar-to me impele:
o que fizeste por ele
a mim me farás também.
Um verdadeiro romance
hás de ouvir de meu rapaz,
e, nesse ponto, far-lhe-ás
o que for a teu alcance.
Sem assunto para mais
-- sou teu irmão obrigado,
venerador e criado,
Ambrósio Teles Cascais.” (Cessa a música.)
Quanto ao romance de que fala meu irmão, ciente. A Senhora Dona Heleninha contou-me tudo. Antes desta (Mostra a carta.) já tinha recebido a sua recomendação.
ABEL - E então? O que acha Vossa Reverendíssima de tudo isto? Venço ou não venço?
CASCAIS - Não vence. Asseguro-lhe que o senhor não vence. A vitória estará sempre do lado do Nicolau, o padrinho e tutor de Dona Heleninha.
ABEL - Mas Reverendo, esse homem não me conhece! Nunca lhe pedi, nem ele me recusou coisa alguma!
CASCAIS - Senhor Abel, eu não sou homem de paliativos. Gosto das coisas -- anda mão, enfia dedo. Se o senhor for pedir ao Nicolau a mão da afilhada, não ganha terreno; perde, ao contrário: escabreia o homem! O Nicolau de vez em quando retira-se de casa e vai passar um, dois, três dias na fazenda. Deixa a casa entregue à afilhada e a afilhada aos fâmulos.
ABEL - Deveras?
CASCAIS - Deveras. Na primeira ocasião que se oferecer, tire a menina de casa e traga-a cá, que os caso.
ABEL - Mas o Nicolau é capaz de zangar-se com Vossa Reverendíssima.
CASCAIS - Deixe estar, eu cá me arranjo... Todo o meu desejo é uni-los e para isso, envidarei bons esforços. Agora, diga-me cá: é certo que faz mestre-escola só para estar perto de sua pretendida?
ABEL - Assim foi... Olhe que sempre fui muito atrevido.
CASCAIS - Como assim?
ABEL - Não entendo patavina da matéria em que fui examinado.
CASCAIS - Está brincando. Isso pode lá ser!
ABEL - Duvida, Reverendíssimo? Não sabe o que é empenho?
CASCAIS - Não sei, não sei! Pois se não fosse ele, o empenho, teria eu esta modesta côngrua?
ABEL - Pois o empenho e o amor fizeram responder a perguntas de gramática àquele que nem por fora a conhecia!
CASCAIS -Horresco referens!
ABEL - Sabe quem foi um de meus examinadores? Adivinhe.
CASCAIS - Quem foi?
ABEL (A rir.) - Seu irmão.
CASCAIS - O Ambrósio! Ah! Ah! Ah!... (Dando uma pancadinha no ventre de Abel, e arrependendo-se, gravemente.) Oh! Perdão.
ABEL - Ouça e pasme.
Rondó
Quando fiz o meu exame,
veio ter comigo o doutor
e disse: -- Nada de vexame!
Sou seu examinador...
Olaré! que os professores
assim são feitos é que são!
Com tais examinadores
fazem sempre um figurão!
-- Este nome, ele me disse,
que valor é que aqui tem?
Respondi-lhe uma tolice,
mas valeu-me um -- Muito bem!
A mais de um adjetivo
eu chamei de conjunção;
o verbo era substantivo,
e o advérbio interjeição!...
Olaré! tantas sandices
de mim próprio nunca ouvi!
Olaré! mil parvoíces
disse, disse e repeti...
Repeti, e repeti...
O auditório, de espantado,
muita vez fazia assim: (Abre a boca.)
mas eu, muito sossegado,
estava bem senhor de mim!
Oh! que exame esbodegado!
Oh! que exame malandrim!
O doutor estava calmo,
mas assim como quem diz:
-- Ele não enxerga um palmo
adiante do nariz...
Olaré! que vale o estudo,
se o patau consegue tudo
o que quer em meu país?
Aprovado plenamente,
minha carta, enfim tirei,
e venho escandalosamente,
ensinar o que não sei.
Olaré! minha pequena
bem contente vai ficar!
Olaré! Abel e Helena
afinal vão se juntar !
CASCAIS (Apertando-lhe a mão.) - Muito bem! Fez uma belíssima figura! Os meninos cá da freguesia sabem, felizmente para o senhor, distinguir o adjetivo do substantivo. É o que lhe vale. Aprenderá com eles... (Aparece o Filomeno de novo na torre, e põe-se a repicar.) Hein? Está acabado o sermão? Depressa! (A Abel.) Vai ter o prazer de ver Dona Heleninha.
(Música na orquestra; saem os que tinham entrado na igreja, dispersam-se e desaparecem. Helena sai por último, acompanhada sempre por Marcolina.)
Cascais, Abel, Helena, Marcolina e povo
CASCAIS (Baixinho a Abel, apontando para Helena) - Audaces fortuna juvats! (Entra em sua casa. O povo tem desaparecido completamente.)
Abel, Helena, Marcolina depois Cascais
ABEL (Correndo para Helena.) - Helena!
HELENA (Tomando-lhe as mãos.) - Abel! (Permanecem embevecidos, a olhar um para o outro.)
MARCOLINA (Depois de alguma pausa.) - Iaiá! (Aparece Cascais à janela de sua casa.)
HELENA - Abel!
ABEL - Helena!
CASCAIS (Consigo.) - A bela Helena... há uma tragédia com este título.
MARCOLINA - Iaiá, vamo prá casa.
HELENA - Vai esperar ali na esquina.
MARCOLINA - Depois sinhô velho me ralha...
HELENA - Vais ou não vais?
MARCOLINA - Tá bom! depois não quero cumo-chama. (Sai.)
Abel, Helena e Cascais, à janela
ABEL - Finalmente estamos sós.
HELENA - Não imaginas como estou satisfeita!
ABEL - Mas a minha presença não basta, minha boa Helena... Teu padrinho, segundo me informou nosso reverendo protetor, é o homem mais inexorável desta vida... Em vez de buscar ardis que podem falhar, o melhor seria darmos logo... o golpe de estado!
HELENA - Como o golpe de estado?
ABEL - A fuga!
HELENA - A fuga!
ABEL - Fujamos, sim! Fujamos para bem longe, onde não nos possa chegar aos ouvidos a maldição importuna que ele te há de lançar! gozemos de nosso amor no meio das florestas, ao ciciar da brisa, ao arrular da rola, ao murmurar da cascata...
CASCAIS (Consigo) - Tytire, tu patulae recubans...
ABEL - Fujamos, sim! Oh! não me digas que não! Não tragas o desespero a este coração que é teu, e que despedaçarias, se o contrariasses, Helena!
HELENA - Mas o que dirá dindinho, a quem devo tantos favores?... a única pessoa que me tem valido neste mundo, e que, apesar da vontade que quer exercer em meu destino, ama-me como sem fosse meu pai?
ABEL - E o que dirá teu amante? O que dirá aquele que, por teu respeito, deixou os prazeres ruidosos da corte, para sepultar-se na roça?... Que, por teu respeito, expõe-se a apanhar uma carga de chumbo, ou pelo menos, uma dita de pau, de algum malfeitor, peitado por teu dindinho?... Que, por teu respeito, confundiu advérbios com substantivos diante de um auditório, que sabia distinguir substantivos de advérbios?...
HELENA - Meu Abel!
ABEL - Oh! mas o que importa? Eu, nesse momento, só pensava em ti. Quem pode saber gramática, quando sente o coração invadido pelo amor? Quem pode amar quando tem a cabeça sublocada pela gramática?
CASCAIS (À parte.) - Coitadinho...
HELENA - Como és bonito, Abel!
ABEL (Com faceirice.) - Helena!
CASCAIS (Arremedando-o.) - Ai, gentes!
HELENA - Deixa ver-te de perfil... Vira-te um poucochito!... De três quartos agora... Como és lindo, meu bem! Agora do outro lado... Este sinalzinho dá-te uma graça... Levanta a cabeça... Não abras a boca... Admirável!
ABEL - Mas, afinal de contas, em que ficamos?
HELENA - Ficamos em que estou por tudo que quiseres.
ABEL - Bem, faremos por afastar teu padrinho, e, vendo-o pelas costas...
HELENA - O golpe de estado!
Os mesmos e Marcolina
MARCOLINA - Iaiá, iaiá, vamos embora!
HELENA - Tens razão, Marcolien. (Dá a mão a Abel.)
ABEL - Até sempre, Helena... (Pausa.) Adeus!
HELENA (Vai saindo e volta.) - Olha: se a desgraça...
MARCOLINA - Iaiá!
HELENA (De mau humor, a Marcolina) - Espera, diabo! (A Abel.) Olha: se a desgraça for persistente...
ABEL - Morramos juntos! (Helena retira-se, acompanhada de Marcolina. Abel entra em casa de Cascais, que fica só, à janela.)
CASCAIS (Levantando as mãos para o céu.) - Improbus amor, quod, mortalia pectora cogis!
Mutação
Leia Abel e Helena, de Artur Azevedo, grátis no Literunico. Peça teatral clássica brasileira em domínio público, publicada para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
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