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A Cachoeira de Paulo Afonso

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A Cachoeira de Paulo Afonso

Capítulo 9 · A Cachoeira de Paulo Afonso

Diálogo dos ecos

9 de 31 ≈ 3 min de leitura

E chegou-se p'ra a vivenda

Risonho, calmo, feliz...

Escutou... mas só ao longe

Cantavam as juritis...

Murmurou: "Vou surpr'endê-la!"

E a porta ao toque cedeu...

"Talvez agora sonhando

Diz meu nome o lábio seu,

Que a dormir nada prevê..."

E o eco responde: — Vê!...

"Como a casa está tão triste

Que aperto no coração!...

Maria!... Ninguém responde!

Maria, não ouves, não?...

Aqui vejo uma saudade

Nos braços de sua cruz...

Que querem dizer tais prantos,

Que rolam tantos, tantos,

Sobre as faces da saudade

Sobre os braços de Jesus?...

Oh! quem me empresta uma luz?...

Quem me arranca a ansiedade,

Que no meu peito nasceu?

Quem deste negro mistério

Me rasga o sombrio véu?..."

E o eco responde: — Eu!...

E chegou-se para o leito

Da casta flor do sertão...

Apertou co'a mão convulsa

O punhal e o coração!...

‘Stava inda tépido o ninho

Cheio de aromas suaves...

E — como a pena, que as aves

Deixam no musgo ao voar, —

Um anel de seus cabelos

Jazia cortado a esmo

Como relíquia no altar!...

Talvez prendendo nos elos

Mil suspiros, mil anelos,

Mil soluços, mil desvelos,

Que ela deu-lhes p'ra guardar!...

E o pranto em baga a rolar...

"Onde a pomba foi perder-se?

Que céu minha estrela encerra?

Maria, pobre criança,

Que fazes tu sobre a terra?"

E o eco responde: — Erra!

"Partiste! Nem te lembraste

Deste martírio sem fim!...

Não! perdoa... tu choraste

E os prantos, que derramaste

Foram vertidos por mim...

Houve pois um braço estranho

Robusto, feroz, tamanho,

Que pôde esmagar-te assim?..."

E o eco responde: — Sim!

E rugiu: "Vingança! guerra!

Pela flor, que me deixaste,

Pela cruz em que rezaste,

E que teus prantos encerra!

Eu juro guerra de morte

A quem feriu desta sorte

O anjo puro da terra...

Vê como este braço é forte!

Vê como é rijo este ferro!

Meu golpe é certo... não erro.

Onde há sangue, sangue escorre!...

Vilão! Deste ferro e braço,

Nem a terra, nem o espaço,

Nem mesmo Deus te socorre!!..."

E o eco responde: — Corre !

Como o cão ele em torno o ar aspira,

Depois se orientou.

Fareja as ervas... descobriu a pista

E rápido marchou.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No entanto sobre as águas, que cintilam,

Como o dorso de enorme crocodilo,

Já manso e manso escoa-se a canoa;

Parecia assim vista — ao sol poente —

Esses ninhos, que o vento lança às águas,

E que na enchente vão boiando à toa!...

A Cachoeira de Paulo Afonso

Sinopse

A Cachoeira de Paulo Afonso, de Castro Alves, é uma obra poética clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 31 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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A Cachoeira de Paulo Afonso

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