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A Confederação dos Tamoyos

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A Confederação dos Tamoyos

Capítulo 2 · A Confederação dos Tamoyos

Canto I

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Invocação ao sol e aos Genios dos bosques do Brasil.— Primazia desta parte d’America.— O Amazonas e o Paraná.— Nada é comparavel ás bellezas desta natureza virgem.— Seus indigenas.— Perseguição contra elles.— Aimbire, o mais audaz dos chefes Tamoyos, confedera todas aquellas tribus contra os Portuguezes.— Para esse fim vai elle procurar Pindobuçú, e o acha dando sepultura a um filho.— Lança Aimbire uma pedra sobre essa sepultura, que encerra talvez o cadaver de um amigo; e recordando-se do tempo da sua infancia, saúda a terra em que nasceo, e a que volta depois de longa ausencia.— Pindobuçú o reconhece, e lhe diz que o morto é Comorim seu filho.— Lamenta Aimbire a perda do companheiro da sua infancia.— Conta-lhe Pindobuçú como fôra o filho mortalmente ferido defendendo sua irmã Iguassú, atacada por alguns Portuguezes, dos quaes tres ou quatro foram mortos na lucta.— Jura Aimbire vingar a morte do amigo; e aproveita a occasião para ligar aquella tribu contra os Portuguezes. Oh sol, astro propicio que abrilhantas Do creado universo altos prodigios; Que aos bosques dás verdor, doçura aos fructos, E os petalos das flores vario esmaltas! Oh sol, vital principio, que na terra O tenro germe da semente aqueces, E o fecundas co’os teus benignos raios: Luzeiro perennal, nume adorado Dos innocentes filhos da Natura, Que mal seu Creador, seu Deos conhecem! Oh sol, hoje m’inflamma a mente ousada, Que azas desprende p’ra mais altos vôos. Vós, solitarios Genios dos desertos Do meu patrio Brasil, nunca invocados Té-qui por nenhum vale, a cujas vozes Doçura deram do Carioca as aguas; 1 Genios, que outr’ora com choroso accento Suspiros repetistes lamentosos De tantas malfadadas tribus de Indios, Que viram do Europêo n’ávida espada O sangue gotejar dos caros filhos, Das esposas, dos pais, e dos parentes; Doces inspirações prestai-me, oh Genios! Dos Tamoyos o intrepido ardimento, Tão fatal á colonia portugueza, Do olvido sorvedor hoje exhumemos: Na mente bafejai-me imagens que ornem Dos filhos dos sertões a sorte adversa. Das Americas plagas venturosas, Que ás mais plagas do mundo nada invejam, Ufana-se o Brasil como a primeira. Formosa é sempre ahi a Natureza, Eterna a primavera, o outono eterno. Em leitos diamantinos pura lympha Rega seus campos em caudaes correntes. Innumeras, pujantes catadupas, Voz dando á solidão, em crystaes curvos De rochedos alpestres precipitam-se; E de horrendo estridor pejando os ermos, De valle em valle, entre asperas fraguras, Onde atroam tambem gritos das feras, Das serpes os sibillos, e os trinados Dos passaros, e a voz dos roucos ventos, Viva orchestra parece a Natureza, Que a grandeza de Deos, sublime, exalta. Balisa natural ao Norte avulta O das aguas gigante caudaloso, Que pela terra alarga-se vastissimo; Do Oceano rival, ou rei dos rios, Si é que o nome de rei o não abate; Pois mais que o rei supera em pompa e brilho No solio á multidão em torno curva, Supera o Amazonas na grandeza A quantos rios ha grandes no mundo! O Kiang, o Nilo, o Volga, o Mississípe, Inda que as aguas suas reunissem, Com elle competir não poderiam. Ao lado seu direito, e ao esquerdo lado Mil feudatarios rios vem pagar-lhe Tributo perennal de suas aguas. Resupino gigante se afigura, Qual outro Briarêo, mas verdadeiro, Que estende os braços p’ra abarcar a terra! Pujante assim no Atlantico se entranha, Ante sí repellindo o argenteo salso, Como si elle na terra não coubera, Ou como de inundal-a receioso Si mais longo e mais lento a discorresse! O Amazonas co’o Oceano furioso Lucta renhida trava interminavel Para roubar-lhe o leito; e ronca e espuma, Qual no lago, enlaçada a cauda a um tronco, Feroz sucuriúba horrida ronca 2 Quando sente mover-se á flôr das aguas Lontra ligeira, ou anta descuidada, E inchando as fauces, a cabeça eleva, Os queixos escancára, a lingua sólta, Para de uma só vez tragar o amphibio. Tal no pleito co’o Oceano o Amazonas Para sorvel-o a larga foz medonha Legoas abre setenta! A ingente lingua Estende de tres vezes trinta milhas, Como uma longa espada, que se embebe Ao travez do Atlantico iracundo, Que gemendo recúa no arremesso, E em montes alquebrado o dorso enruga. Armas que joga ao mar são grossos troncos Arrancados na furia, são pedaços De esbroadas montanhas que elle mina: Seus gritos são trovões tão horrorosos, Que alli parece submergir-se o mundo Quando se incha seu corpo desmedido: Equorea, espessa nuvem se levanta Como uma chuva contra o céo erguida, Reflectindo do sol os sete raios. Tal o conquistador, que co’os despojos Dos reis desthronisados se opulenta, Ou co’os tributos dos vencidos povos, Em pé firme no carro do combate, Envolto n’uma nuvem de poeira, Na frente vai levando debandada Ingente alluvião de imigas hostes, E ante as portas de bronze do castello Nova victoria alterca porfiosa. Da opposta parte, não tão magestoso, Mas grande em sí, o Paraná se alonga Da serra Mantiqueira, e cava, e afunda Largo sulco nas terras que devassa; Como escorregadiça, argentea estrada, Obra sem par das mãos da Natureza, Em prol dos filhos seus circumvisinhos, No trajecto veloz se assenhoreia De pingues, numerosos affluentes, Té no Prata perder-se, ou dar-lhe origem. Nesta vasta extensão do Eden terrestre Se ostenta o céo tão lindo e tão sereno Como os olhos da virgem, cuja mente Erma está de amorosos pensamentos: Tão crystallino e azul como um zimborio De inteiriça turqueza, ou de saphira. O ar é tão nectareo como o aroma Que no dia nupcial o ardente esposo Nos puros labios frûe da virgem noiva Co’as primicias de amor, beijo suave! E tão leda e garbosa a Natureza Como as faces de riso salpicadas De uma mãi que se expande entre os filhinhos, Que innocentes meiguices lhe tributam. Oh vós da Grecia deleitosos campos, Onde o Alphêo e o Eurotas serpenteam, E em cujas margens Dryades habitam! Montes, que dais abrigo em vossos topes, De loureiros á sombra, ás castas Musas, Vós não assoberbais a magestade Destes montes brasilios, destes bosques! Desdenha este sumptuoso Paraiso As sonhadas ficções da mente humana; Malignos Faunos, pudibundas Nymphas Nestas virgens florestas não vagueam: Grande como sahio das mãos do Eterno, A Natureza é tudo, e excede ao homem, Que hade bem cedo emparelhar com ella! Oh placido remanso!.. Aqui a mente Repousa, e se deleita em contemplal-o; E no intimo d’alma, que se espraia, Resôa de seu Deos a voz cadente, Como resôa em bosques de palmeiras Vago sopro das auras matutinas. Raças mil de homens livres sem cultura, Cuja origem té hoje ignora o mundo, Estes sertões outr’ora povoaram, Antes que a industria e as artes, transplantadas Pelas mãos do Europêo, aqui mudassem Brutas pedras e troncos em cidades. Mas quanto, oh Parahyba, quanto sangue De innocentes indigenas primeiro Tuas aguas tingio, regou teus campos! Tu só, Religião sublime e santa Do Deos por nosso amor martyrisado, Tu só consolador oleo verteste Nos ulcerados corações dos Indios. Tu só com mão piedosa as almas cordas D’harpa mysteriosa revolvendo Milagrosos accentos extrahiste, Que os filhos dos desertos encantaram, E á tua grei os foram attrahindo. Si as maravilhas tuas cantar posso, Meu estro fortifica, aquece-o, anima-o Co’uma brasa do teu sacro thurib’lo. Oh! e porque tão frio, tão amargo Pranto verteis, meus olhos magoados? Tanto dos Indios vos contrista a sorte, Ou dos nossos maiores a dureza Com que á escravidão os reduziram? A escravidão!… oh céos! Quando do mundo Tão grande crime fugirá p’ra sempre? Máos, sim, nossos pais foram p’ra com elles. Torpe ambição, infame crueldade Os esforços mil vezes deslustraram Dos primeiros colonos Lusitanos, Que o amor do aureo metal e feios crimes A estas virgens plagas conduziram. Não, dos canhões não foi o echo estrondoso Que ao Indio impoz terror; nem mesmo a morte; Que mortes e trovões terror não causam Aos filhos dos sertões á guerra affeitos, Que livres deslisavam vida errante; Foi sim o captiveiro, algemas foram, Que alguns, ora colonos, de seus pulsos Aos pulsos dos indígenas passaram; Alguns, ora colonos, mas que outr’ora Em Lisia réos infames se opprimiam De empestadas prisões nos subterraneos. Como preza a andorinha a liberdade, E por instincto soe cantar errante, Errante fabricar ligeiros ninhos; E si no aereo carcere encerrada Triste pende a cabeça, encolhe as azas, Cala o trinado que soltava livre, Rejeita tenue grão, suspira e morre: Não menos estes filhos das florestas Errante vida e liberdade estimam. Ora aqui, ora alli erguem choupanas, E onde frondosas arvores estendem Pejados ramos de gostosos fructos, Ahi é seu paiz, ahi se abrigam. «Toda esta terra é nossa, e nunca falta Terra para os mortaes. O passarinho Que nos ares nasceo, nos ares vôa, E nem n’um tronco só seu ninho tece; Embora o tronco firme sobre a terra, Supporte a chuva, e o sol, e o vento, e o raio; Não tem membros o tronco que o transportem. Mas nós homens, a quem Tupan deo tudo, Nós, que livres nascemos nestes bosques, Porque escravos agora nos faremos? » Deste geito discorrem os selvagens. Depois que as praias e os sertões brasilios, Ribombando o trovão da artilharia Repetiram taes sons — Tudo isto é nosso — Viram-se os Indios sob o peso curvos De asperrimos trabalhos, como brutos, Que os Portuguezes brutos os julgavam, Cantando ao som do látego incessante, Mas cantico de dôr com voz de escravo. Não mais, grotas, não mais em vós soára O canto do homem livre! — A liberdade Trocado havia em lucto as brancas vestes, E só tristes gemidos exhalava; Como o guará, que perde as alvas pennas 3 E novas porém negras só lhe crescem, E de tão lindo que era e tão garboso, Adejando ligeiro á flôr do lago, Co’o rostro ora ferindo-o, e contemplando Sua imagem no meio de mil orbes, Que iam delineando as moveis aguas; Ora curvando a aquatica vergontea Co’o peso de seu corpo, qual esbelta Virgem que em bamba corda se embalança; Ora emfim alongando o airoso collo Como uma flauta eburnea, a voz soltava; De tão lindo qu’elle era, se transforma Em passaro funéreo, e fugitivo Geme, como carpindo a perda sua, E nem ousa mostrar-se envergonhado, Até que o lucto em purpura se muda Co’as plumas novas, que lhe crescem rubras. Assim fugiste, oh cara liberdade, De lucto envolta; e só com sangue agora Te é dado o triumphar! – Ai, pobres Indios ! Uns faziam gemer a virgem terra Co’os repetidos golpes das enxadas; Outros nos densos mattos mutilavam Arabutans, jacarandás, graúnas E os bosques rebramavam co’as pancadas Resoantes dos machados: – parecia Que de dôr se carpiam, por se verem Roçados pelas mãos de homens escravos Pela primeira vez; homens que outr’ora Livres á sombra sua se acoutavam. Outros emfim das abas das montanhas, Sobre os despidos hombros já callosos, Os lavrados esteios carregavam, Que deviam erguer nascentes villas, Para commodo só dos seus senhores. Inda tudo não é; mesmo no centro De incognitos sertões o Luso armado, Como da destruição o infrene genio, Levava o captiveiro, o horror, o estrago, O incendio e a morte ás tabas indianas. 4 Homens justos, apostolos de Christo, Anchieta e seus irmãos em vão bradavam Contra tão fera usança e ruim costume: Conselhos de dever, de honra, que valem P’ra as almas encharcadas na cobiça? Aimbire, o mais audaz entre os Tamoyos, Meditava projectos de vingança Contra a Lusa colonia Vicentina, Donde p’ra seus irmãos o mal saía. De sertão em sertão, de taba em taba Andava elle incansavel incitando As tribus dos Tamoyos á revolta. Já tinha percorrido as ferteis plagas Que banha o Pirahy, e o Parahybuna; Tinha já costeado a dextra margem Do longo, caudaloso Parahyba; E atravessado os campos e as montanhas Que entre o Guandú e o Macahé se estendem: Por toda a parte amigos encontrára, Promptos como elle, para a grande empreza, E todos de vingança sequiosos; Que o presente cruel se lhes mostrava, E o futuro peior; terrivel tudo. O Indio verboso, e de subtil engenho, Por afanosos trances amestrado, Inda mais inflammando-lhes o odio, P’ra vingança commum os colligava. Só faltava-lhe o braço e a experiencia Do ancião Pindobuçú; a elle corre, Sóbe ao alto da Gavia, onde elle habita, E o acha, oh dôr, em funebre apparato Dando o eterno repouso a um caro filho. Já o cadaver dentro da igaçaba, 5 Com as guerreiras armas de que usára, Tinha sido enterrado em funda cova. De Comorim o irmão e os companheiros Com lentos passos, e as cabeças curvas, E os olhos para o chão, em pranto envoltos, Já para a sepultura vão levando Toscas pedras p’ra o tosco monumento. O Cacique, sentado junto á cova, Pousa a sinistra mão sobre a cabeça Da filha, que soluça em seus joelhos, E co’a dextra apertando a propria fronte, P’ra o funereo moimento absorto attenta, E como que sua alma além vagueia. Aimbire chega, e pára; olha, examina; Bate-lhe o coração; fallar não ousa. Ao ver o velho assim, e ao lado a filha, Parece adivinhar… Toma uma pedra E a leva á sepultura: « Em paz descança, (Diz) oh guerreiro, cujo nome ignoro; Mas és Tamoyo, e amigos meus te choram. Aqui teus ossos jazerão p’ra sempre Sobre este monte, que me vio pequeno, Após meu pai, andar sahís caçando, Tão lindos qu’eu co’as pennas me enfeitava. Lá diviso a Tijuca tão saudosa, Cujas aguas bebi; nellas banhei-me. Alli n’aquelle morro, onde se eleva O Corcovado pincaro ventoso, Doce e manso deslisa-se o Carioca, A cujas margens minha mãi cantava Tão mestos cantos, qu’eu chorando ouvia, E ainda choro co’a lembrança delles. Quantas vezes naquella escura varzea, Onde o Catête saltitante corre, Ouvindo o sabiá e o gaturamo, Dormí, sonhei, aromas respirando Co’aquelles ares puros que dão vida! Aqui a baixo o Comorim se alarga, 6 Onde eu pescava tantas vezes, tantas. Terras em qu’eu nascí, como sois bellas! Como és formoso, oh céo do Guanabara! Mais azul do que as pennas d'ararúna! E a vós eu volto e vos saudo em frente De uma recente, pranteada campa, De quem, não sei; talvez de algum amigo! » Mal a voz – Comorim – soou ao velho, Subito elle estremece; olha, procura Reconhecer o incognito guerreiro Que tal nome soltou. A voz lhe escuta, Mede-o todo; e depois qu’elle se cala: – Aimbire! não és tu?     – Sim sou Aimbire! E o Cacique, lançando-se em seus braços, O aperta contra o peito; encara-o e chora, E de novo o aperta uma e mais vezes. – Aimbire! tu aqui… Ah, quem te disse, Como soubeste qu’eu perdi meu filho, Teu amigo da infancia, o meu querido, O meu bom Comorim?…     « Que! pois é elle? Elle?… o meu Comorim?… é elle o morto Que alli jaz?… Comorim: como morreste? Tu tão moço, tão bravo, e tão robusto? Quem um putumujú te não julgára, 7 Em força, em duração, como em belleza? Que raio te ferio antes de tempo? Eu não sabia, ah, não… Quando cuidava Poder hoje apertar-te nestes braços, Contar-te minha vida, meus trabalhos, Meus longos soffrimentos e desgraças, Venho pôr um pedra em teu moimento! Oh companheiro meu nos tenros jogos Dessa idade feliz, que brilha e acaba, Como a flôr da urumbeba, após deixando Feio tronco, escabroso, e todo espinhos! Quantas vezes amigos apostámos Quem mais certeiro mandaria a flecha O passaro ferir, alto pairando! Quem mais veloz nadando, ou já correndo, Primeiro chegaria ao dado termo. Ou quem mais agil pendurado a um galho Para o galho fronteiro se arrojára. Como eu gostava de brincar comtigo ! E perdi-te! e não mais ver-te-hão meus olhos! Como subindo alegre esta montanha, Tão cheio de prazer e de esperanças, Pensando tanto em ti, que vivo eu cria, Não palpitou-me o coração presago; Nem ouvi murmurar por entre o bosque O echo de nenhum Maraguigana, 8 Que este golpe fatal me annunciasse! Ai! quanto custa a perda de um amigo, De um bravo como tu!… E eu inda vivo! » O pai, o irmão, a irmã, os Indios todos Enternecidos choram, vendo Aimbire, E ouvindo-o deplorar do amigo a morte. Queixas, lamentações longas soaram. « Mas emfim, disse o velho, é tempo, oh filhos, De deixar em repouso a quem não vive. Pois que Aimbire aqui chega afadigado De bem longe talvez, que se passaram Tantos sóes sem noticias termos delle, Vamos dar-lhe agasalho e algum repouso. » « Não, disse Aimbire, não: quero primeiro Que em torno destas pedras assentados Me contes si em combate, ou de que modo O bravo Comorim perdeo a vida. » – Ai, exclama o Cacique, nenhum homem Morreu ainda por mais nobre causa! Era meu filho! E como morreria Senão luctando tão audaz guerreiro! « Apenas ha tres sóes que uns Emboabas, 9 Dos que talvez na Bertióga habitam, N’aquella praia em baixo appareceram. Comorim e Iguassú tambem andavam Nesse dia fatal por lá caçando: Quem podia prever um mal tão grande? Em quanto n'um momento, não cuidoso, Meu filho pelo bosque se entranhára Após um caitutú que lhe fugia, Sua irmã, que aqui vês, linda e garbosa, Que vence o sahixé na gentileza, E excede o sabiá no meigo canto, Cantando andava só, toda entretida A colher uns ingás pela restinga; P’ra mim ella os colhia; é seu costume Sempre que sahe trazer-me alguma cousa. Aquelles máos a viram tão sósinha, E assim que a viram, cobiçando-a logo, Quizeram agarral-a: ella, gritando, Coitada! como a rôla perseguida, Para o matto correo. Correram elles Após como as igáras esfaimadas; Mas ella, pelo irmão chamando sempre, Mais ligeira do qu’elles lhes fugia. Um mais audaz já quasi a segurava, Quando o meu Comorim apparecendo, Já co’o arco esticado e a flecha no alvo, Com prompta morte atravessou-lhe o peito. Outro, que vinha após, co’o braço alçado Para lhe disparar troante bala, Varado o braço, alli cahio bramando. Era a ultima flecha, e já meu filho Daquelle inutil braço ía arrancal-a, P’ra mandal-a de novo a outro ousado, Que vira mais além por entre os ramos, Quando dous por detraz o aferraram, E seus punhaes nas costas lhe embeberam. Comorim, mesmo assim preso e ferido, Curva-se um pouco, e subito se erguendo, O corpo sacudio e os fortes braços, E por terra atirou os dous contrarios: Como ligeiro e forte era meu filho! E agarrando-os depois pelos cabellos, Dêo co’a cabeça de um contra a do outro, Que batendo quebraram-se estalando, Como estalam batendo as sapucaias! Nenhum mais se mostrou: os mais fugiram. Entretanto Iguassú vinha gritando, Até que ao longe vio alguns Tamoyos, Que a seus gritos pungentes acudiram, E sabendo do caso logo foram O irmão soccorrer. Porém, oh magoa! Já longe do logar da feroz lucta O acharam quasi exangue e semimorto. Assim o filho aos hombros me trouxeram: Assim nos braços o tomei chorando. Ah meu filho! parece que o estou vendo! Que não fiz eu para estancar-lhe o sangue, Que das largas feridas se escoava! Elle sem exhalar um só suspiro, A dôr vencendo, desdenhando a morte, Com voz segura, posto que difficil, Pôde contar-me o que narrado tenho. Ninguem o vio gemer; senão que o digam? Calou-se um pouco, e respirou com força; Era a ultima vez que respirava, E todo contrahindo-se: – Vingança! – Disse, e morreo… E alli cahi sobre elle! · · · · · · · · · · · · Creio que muitos os malvados eram, Porque os mortos no bosque não se acharam; E no mar vio-se ao longe uma canôa Grande, cheia e veloz, que ía fugindo. Em vão alguns dos nossos a acossaram; Tarde foram, e a noite protegeo-a. » Mal que o velho acabou, Aimbire exclama: « E p’ra quando guardais essa vingança Que Comorim pedio no extremo arranco? Não ouvís sua voz surgir da cova, E de novo bradar – Vingança – amigos?! » « Sabes (Parabuçú pergunta irado), Sabes tu onde estão os companheiros Dos vis que meu irmão assassinaram? Dize onde elles estão, onde se escondem, Que a vingança pedida tirar quero. » « Onde estão? Tu perguntas? Pois não sabes Onde estão os feroces Portuguezes, Que nos roubam os filhos e as mulheres, E matam nossos pais, irmãos e amigos? Não sabes onde estão esses ingratos, Que tomam nossa terra e nos perseguem, E nos caçam e a escravos nos reduzem? Stão em Piratininga, em Bertióga, Onde Tibiriçá, opprobrio nosso, Os Carijós e os Guayanás os servem. Lá stão elles tranquillos, meditando Em roubos, guerras, mortes e exterminio; Lá stão elles pensando de que modo Hão de aqui vir bem cedo p’ra vingar-se, E roubar Iguassú, que lhes fugira. Pois bem, eu tambem penso em extinguil-os. Serás vingado, Comorim, eu juro Por teu sangue innocente derramado; Por minha mãi, que os vís assassinaram; Por meu pai, que morreo no captiveiro; Pela linda Iguassú, que defendeste, E qu’eu defenderei de hoje em diante Como irmão si quizer, ou como esposo, Si ella e Pindobuçú me não desprezam! Juro por este céo, por estes ares, Por tudo quanto vejo, e pela lua Que tomo em testemunha, e que me escuta; Juro qu’heide vingar a tua morte, Até que a tua voz me grite: – basta! « Tamoyos, que me ouvís, tudo está prompto; Todos estes sertões estão armados, E por vós só esperam. Eia, armai-vos Para a grande vingança, de nós digna: Não ha prazer que ao da vingança iguale. Comorim não quer lagrimas, quer sangue! Não quer tristeza, quer furor e guerra! Preparai-vos p’ra a guerra sanguinosa, Qu’eu aviso vou dar ás tabas todas Que vós sereis comnosco. Prometteis-me? Quereis ser livres de uma vez p’ra sempre? » — Sim, promettemos. — N’uma voz bradaram: « Vingança e liberdade só queremos. » « Pois bem: que agora os mortos sós descancem Nas suas igaçabas; qu’eu repouso Não quero até o dia da vingança. »
A Confederação dos Tamoyos

Sinopse

Leia gratuitamente A Confederação dos Tamoyos, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, poema épico brasileiro em domínio público. Texto integral da edição de 1856 preparado em HTML para leitura online no Literunico, com dedicatória, dez cantos, notas, fonte Wikisource validada, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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