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A Confederação dos Tamoyos

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A Confederação dos Tamoyos

Capítulo 8 · A Confederação dos Tamoyos

Canto VII

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Em quanto os Tamoyos esperam que Jagoanharo volte com a resposta de Tibiriçá, parte Aimbire, só acompanhado de Parabuçú, para ir buscar os ossos de seu pai.— Seus presentimentos.— Chegam ao logar, desenterram a igaçaba, e vão lançar fogo á casa de Braz Cubas.— Salta este pela janella; Aimbire o aferra, e o leva de rastos ao pé da igaçaba.— Lança-lhe Aimbire em rosto todas as suas crueldades; e no momento de matal-o apparece-lhe Maria, filha de Braz Cubas.— Enternecido pelos seus rogos, parte Aimbire sem vingar-se.— Motivo porque assim praticou.— Enterram a igaçaba no Cairuçú, e voltam para o campo.— Soffrimentos de Iguassú.— Tenta Anchieta tiral-a do poder de Francisco Dias, e este lhe responde descortezmente.— Divulga-se em São-Vicente a noticia que os Tamoyos se preparam a ir atacar a villa.— Susto dos seus habitantes e prégações dos padres. Além do Cairuçú surge de um lago, Na serra da Bocaina, o Parahyba, Que antes de receber o rico feudo, Que de Ubatuba traz-lhe o Parahybuna, Piratinga inda pobre se nomeia. Corre o rio, que após caudal se torna, Seguindo a direcção da serrania Paraná-piacaba, ao mar vizinha, Que pela costa alonga-se alterosa, Coroada de espessas, verdes mattas, Como o Parnazo e o Olympo jamais viram Nos tempos em que os vates fabulando De altos Numes seus bosques povoaram. Nestas virgens devezas, entre as grimpas De successivos montes, donde emanam Centenares de arroios crystallinos, Á sombra dessas selvas gigantescas, Os fogosos Tamoyos esperavam, Por conselho dos velhos mais prudentes, A resposta devída a Jagoanharo. O valente Araray, honrar cuidando O irmão Tibiriçá, dizia a todos Que elle, cedendo aos rogos do sobrinho, Do Tamandatahy deixando as margens, Prompto viria co’a guerreira tribo, Que de Piratininga os campos enche. « Impossível eu creio, assim dizia O pai de Jagoanharo, que um Cacique, Um Guayaná tão vil mostrar-se queira, Que esquecido do irmão e do sobrinho Se arme p’ra defender estranhas gentes, Ou se deixe ficar em ocio indigno. » Araray! tu não sabes quanto imperio Tem uma ideia nova, grande e santa, Que a alma penetra, o coração subjuga, E doma, e vence os naturaes affectos! Uns pela gloria as vidas barateam, Outros a morte pela patria affrontam, Dão-se alguns á verdade em holocausto, E outros em sacrificio a Deos se votam: E cada qual da ideia que o domina Ao mago impulso, tudo o mais desdenha! Tibiriçá por Christo a patria olvida, Sacrifica o irmão, deixa os amigos, E por Anchieta e Nobrega contente Contra os seus se apparelha, tendo em gloria A causa defender dos Portuguezes, Que elle crê ser de Christo a santa causa! E si elle errasse, a crença o desculpára. Mal transmontava o sol puro e radiante, E entre os seus arrebóes auri-purpureos Como um sublime adeos dizia á terra, Que elle deixava com amor saudoso. E aonde vai tão pensativo Aimbire Pelos andurriaes dessas alturas, Só do irmão de Iguassú acompanhado? Onde vão elles sós, quando da noite Já placido susurra o vago sopro Por entre as invias, solitarias mattas, Onde recem-surgidas dos casulos Esvoaçam esphinges e phalenas? Ao ver um após outro esses dous vultos De agigantado porte e tez queimada, Caminhando ao luar silenciosos, Por dous genios da noite os tomarias: E no incerto clarão, entre mil sombras, Em azas ponteagudas convertêras Esses feixes de settas emplumadas, Que das costas lhes pendem tremulantes. Tinham já muito andado os dous amigos Sem que palavras entre si trocassem, Seguindo sempre a direcção de um rio, Dos muitos que sem nome humildes correm, Quando Parabuçú a voz erguendo: « No que pensas, Aimbire? Estamos longe? » Aimbire para o céo erguendo os olhos, E ao Cruzeiro do Sul depois volvendo-os, Lento responde: – Não… Mais alguns passos. « E chegaremos nós co’o sol nascente? » – Muito, muito antes que madrugue a aurora. Quando a lua chegar do céo ao meio, Devemos nós lá estar… Já perto estamos. « Não ouves um rumor? »     – Sim; é o rio, Que alli mais adiante se despenha, E depois mais abaixo á esquerda volta, E vai surgir na varzea. Pouco falta. « E não te enganarás chegando ao sitio? » – Presente o tenho; e como que estou vendo Meu velho pai ao tronco recostado Do grande ipê, que está do rio á margem, Perto de alguns patís e araçazeiros. « Existirá o ipê? ou já queimado Terá servido ao fogo do Emboaba? » Aimbire suspirou, e nada disse. Assim com grande pausa ambos fallavam, Como si em outra cousa ambos pensassem. Dados mais alguns passos, novamente O irmão de Comorim frio pergunta: « No que pensas, Aimbire? »       – Eu?        « Sim. »         – Pois dize Tu primeiro.     « Vinha eu pensando agora… E ambos – em Iguassú – dizem a um tempo! Por um momento os passos suspenderam, O folego, o fallar, como si attentos Seus corações presagos consultassem, Ou como si dos genios das florestas Quizessem escutar algum annuncio. « Pensava em Iguassú, prosegue Aimbire: Como que a ouvia, que por mim chamava, Com voz tão suffocada e tão sentida Que de susto e de dôr me enchia o peito. » – E eu como que a via, diz-lhe o amigo, Cahir nas mãos dos feros Emboabas. « Não mais, Parabuçú! Que ousas dizer-me? Não mais; que essa lembrança me horrorisa! Ah quando terão fim nossas desgraças? Muito temos soffrido; e muito ainda, O coração m’o diz, soffrer devemos. Que alluvião de males nos trouxeram Esses homens crueis, que horrida guerra, Ou dura escravidão nos dão á escolha! Irmão de Comorim, ah tu não sabes; Não, tu não sabes o que é ser escravo! Não ser senhor de si, viver sem honra, Acordar e dormir sem ter vontade; Calado obedecer com rosto alegre, Soffrer sem murmurar, comer chorando; Trabalhar, trabalhar ao sol e á chuva, E isto p’ra que um senhor tranquillo viva!… Ah! tu não sabes o que é ser escravo; E eu sei o qu’isso é… Quando em tal penso Abrasa-me o furor… Meu pai, coitado! Na escravidão morreo: e si inda eu vivo É só para vingar tão grande infamia. Elles m’o pagaráõ co’um mar de sangue! Podesse o mar rolar os seus cadav’res Até ás praias que embarcar os viram, Que eu ás ondas seus corpos arrojára, P’ra que fossem de nós levar noticia Aos amigos e irmãos que lá ficaram. » Dest’arte discorrendo os dous chegaram A um valle, onde por terra se estendiam Ingentes troncos de arvores annosas, Que os machados a custo derrubaram, E o fogo a cinzas reduzira os ramos, P’ra dar campo ao mesquinho pasto do homem. Enorme jatahy, que mal cortado Junto á raiz, co’o peso desabára, Atravessado estava sobre o rio Como uma ponte enraizada á terra. Passam por elle os dous; e além saltando, Perlustra Aimbire o sitio e o reconhece, Máo-grado tantas arvores soberbas Prostradas pelo chão… Vão-se-lhe os olhos Por esses negros troncos gigantescos, Como esqueletos de Titanea raça, Que o tempo conservára… Um calafrio Como o sopro da morte ao peito anciado O sangue lhe reflue… Receia, teme Não achar o que busca… Avança os passos Pela margem do rio; e avante enxerga Negrejar ao luar o immenso vulto Do grandissimo ipê tão desejado. Como afanoso o coração lhe bate! – Eil-o! – brada: e correndo abraça e beija. E rega com seu pranto aquelle tronco Junto ao qual enterrára a igaçaba, Que de seu velho pai guardava o corpo. Trabalhando á porfia os dous amigos Cavam o chão, e a urna desenterram; Ao vêl-a, o pio Aimbire enternecido Exclama: « Oh Cairuçú! guerreiro illustre, Que depois de uma vida gloriosa Tão malfadada foi tua velhice, E acabaste de dôr no captiveiro. Oh Cairuçú, meu pai! Desde essa noite Em qu’eu neste torrão guardei teus ossos, A sós, sem testemunha além da lua, Que hoje o caminho alumiar me veio; Desde essa noite, em qu’eu jurei vingar-te, Um dia só não tive de repouso. Assás luctado tenho, e inda não basta. Desta terra banhada com teu pranto, Terra de escravidão, que a um senhor nutre; Tirar venho teu corpo… Outro jazigo Te darei nesse monte ao mar fronteiro, Que o teu nome terá para memoria, E onde os passos do barbaro estrangeiro Não mais farão estremecer teus ossos. Mas antes qu’eu te leve, atroz castigo Devo dar ao cruel que incauto dorme. Inda um momento espera; um bom amigo Aqui está p’ra ajudar-me. »     E tendo dito, Vão os dous pelo campo recolhendo Galhos sêccos e folhas de coqueiros; E dous feixes formando, enormes feixes Atados com cipós, os põem ás costas, E seguem por um trilho, entre canteiros De milho e mandioca, até que avistam N’um pequeno terreiro uma fogueira, Que ou por prazer accendem cada noite, Ou para afugentar nocivas feras; E ao lado da fogueira uma choupana De mesquinhas senzalas rodeada. E mostrando-as Aimbire ao companheiro: « Nesta o cruel senhor, diz elle, habita; E naquellas os miseros escravos. » E á choupana central se approximaudo, Junto aos esteios põem os combustiveis, E contra a porta em calculados montes: E do vizinho fogo accesas brazas, E inflammados tições em palha envoltos, Vão aos feixes lançando. Asinha o fogo, Pelo vento assoprado, arde e crepita; E o incendio chispando avulta e cresce, E em torno a casa lavra e a cerca toda. Denso fumo nos ares se ennovela, E as labaredas tremulas se elevam Lambendo as beiras do sapê do tecto: Já sobre elle voando á cumieira, De um lado e d’outro as chammas se confundem Com vermelho clarão ao céo subindo. Entretanto defronte da janella Vai Aimbire postar-se, e attento espera, Tal como o caçador espera a caça Que o cão foi levantar dentro da monta. Eis abre-se a janella; e um vulto de homem Espavorido se ergue, mal envolto, Hirsuta a coma, os olhos desvairados, Pallido todo, e ao chão se atira e corre, Como um phantasma que abre a campa e foge, Ou alma que do ardente inferno escapa. Aimbire o reconhece, e prompto o aferra, Como um demonio aferra a alma damnada Que por pacto infernal lhe está sujeita. E arrojando-o por terra enfurecido, O leva de empurrões, quasi de rastos, Té ao tronco do ipê, junto á igaçaba. « Olha p’ra mim, Braz Cubas! brada o Indio Com rouca, horrenda voz e um riso hediondo: Olha-me bem, e vê si me conheces? Não quero que tu morras sem que saibas Quem se vinga de ti, dando-te a morte. » Á tal ameaça a victima tremendo Mal pôde articular: – Piedade, Aimbire! Tem compaixão de um pai.     « De um pai, tu dizes? Eu tambem tive um pai; e tu, malvado, Delle e de mim piedade não tiveste. Dentro desta igaçaba jaz seu corpo Pedindo o sangue teu. »     – Porque? A vida, Não a morte, lhe eu dera, si podesse. « Sim, porque elle vivendo te servira, E eu inda hoje seria teu escravo. Escuta: quando tu p’ra aqui vieste, Ha muito tempo já, mulher eu tinha Tão bella como a lua que estás vendo, Tão joven, delicada, e tão mimosa Que outra esposa qual ella não havia; E um filho me devia dar bem cedo, Do nosso terno amor primeiro fructo. Tu a viste, e não sei si a cubiçaste. E um dia, que eu caçando longe andava, A vejo vir correndo, tropeçando Pela montanha acima, já sem forças, Quasi a vida exhalando. Corro á ella, Nos braços a recebo; e ella cahindo, Apenas dizer pôde: – os Emboabas! E alli do susto e da fadiga exhausta, E das dores talvez tendo a criança, N’um tremor expirou a malfadada, A tão cara Potira, esposa minha. » – E será minha a culpa?     « Sim: e que outros Senão tu junto aos teus a perseguiram? Escuta ainda mais: passados tempos, Tu em paz com meu pai viver fingias. Um dia acompanhado o acommetteste, E como minha mãi te ia fugindo, E gritando por mim que a soccorresse, Tu apressado após lhe déste um tiro, E a mataste, cruel, dentro do matto. Preso meu pai trouxeste, e uma criança; E entregar-me vim eu ao captiveiro Para estar com meu pai e minha filha, E sobre elles velar. Si não matei-te Foi só porque esse velho e essa criança Não podiam pa fuga acompanhar-me, E aqui ficando os teus os matariam. Lembras-te tu do pobre Guaratiba? Tu a um tronco o amarraste, em cuja base Havia um formigueiro, e o açoutaste Até fazer saltar co’o sangue a pelle Das costas, que uma chaga lhe ficaram; E as formigas, em chusmas negrejando Sobre o convulso corpo, o remordiam! E eu, á casa voltando do trabalho, E vendo-o assim, por elle intercedendo, Tu furibundo me disseste: – O mesmo Tambem a ti farei, se ousado fores! – Guaratiba morreo martyrisado! Assim a esposa, a mãi, o pai, o amigo, Tudo quanto eu amava me roubaste. Sabes em fim quem sou… Agora… morre! » « Perdão para meu pai! perdão, Aimbire! Ah não mates meu pai! » Assim bradando Uma gentil menina, mal envolta N’uma alva de dormir, se arroja ao collo Da victima, que jaz de susto immovel. « Ah não o mates, não. » Seu debil corpo Cobre o corpo do pai; e um braço alçado Como que apara o golpe, ou que o conjura. Anjo da guarda alli do céo baixado Para salvar o peccador da morte, Tanto assombro ao Tamoyo não causára, Como essa apparição tão repentina, Que da lua ao palor, em tal soidade, Mais inspira terror mysterioso. O braço herculeo, que vibrava a maça Prestes a desfechar o mortal golpe, Por instantaneo encanto no ar estaca. Recúa Aimbire o corpo, e apavorado Olha, e como que a si dubio pergunta: Si é verdade o que vê, ou si é um sonho. Em seu rosto feroz vagando o pasmo, Desfaz-lhe o senho, e lhe descerra os labios, E a piedade em seu peito o arquejo expande. Elle emfim reconhece essa menina, Esse anjo tutelar. – Maria! exclama: Pobre Maria, és tu?! – E involuntario Um movimento faz para abraçal-a; Mas vendo alli o pai, o rosto volta, Dizendo: – Não tens sangue que me farte. Vamos, Parabuçú! vamos, partamos. – E tomando a igaçaba asinha fogem. Outros heroes mimosos da fortuna, Por altilocos vates celebrados, Nunca, brandindo da vingança o ferro, De tão grande piedade exemplos deram. Pai e filha alli ficam quebrantados, Do susto o pai, e do heroismo a filha. Já longe iam os dous; nem mais os olhos Voltaram para traz. Surgia a aurora, E Aimbire ao companheiro assim dizia: « Fraco talvez me julgues e cobarde, Que commovido á voz de uma menina, Deixei com vida o barbaro assassino, Mallogrando a fadiga de apanhal-o, Quando eu para fartar minha vingança Tinha a filha e o pai sob um só golpe. Porém essa menina que alli viste, Maria, aqui nasceo nos nossos bosques De uma boa mulher da nossa terra. Mil vezes em meus braços carreguei-a, E mil vezes chorando a mim corria, Quando seu duro pai a castigava. Ella com minha filha sempre unidas, Como duas irmãas da mesma idade, Me adoçaram o horror do captiveiro. Quando eu voltava á casa e lhe levava Alguns ovos de anuns, ella contente Se lançava a meu collo, e me beijava. Pobre Maria! tudo quanto tinha Comigo e minha filha repartia! Ah! eu a vi chorar junto ao cadaver De meu infeliz pai, que tanto a amava. Ella o cobrio de flores; e eu guardei-as Co’os restos de meu pai nesta igaçaba. Eis porque suas lagrimas, seus rogos, Todas essas lembranças reavivando, Ante seu pai meu braço desarmaram. » – Mas porque do cruel não te vingaste? E comtigo Maria não trouxeste? – « Nem de tal me lembrei nesse momento. Tu não és pai; si o fôras me imitáras. Meu coração de pai, posto que irado, De uma criança ao pranto se enternece, Como na guerra de furor acceso Nem com rios de sangue se contenta. Sou eu da raça dos tyrannos nossos P’ra matar ou roubar pobres crianças? » Ao descahir do sol d’aquelle dia Anhelantes os dous emfim chegaram Ao cimo do elevado promontorio, Que inda hoje Cairuçú se denomina. Alli em frente ao mar, n’um sitio agreste, Onde talvez ninguem antes pisára, Dêo Aimbire á igaçaba novo asylo, E ao corpo de seu pai descanço eterno. Depois os dous Tamoyos murmurando Um cantico funereo, p’ra o jazigo Grossa pedra arrastando o sigillaram. Então o terno filho alçando a fronte, E os braços para o céo: « Oh tu (impreca), Oh tu a quem os raios obedecem, E que pelo trovão aos homens fallas, Ou te chames Tupan, ou Deos te chamem, Escuta minha voz, cumpre meus votos: Si jamais algum perfido estrangeiro Nesta pedra tocar, fulmina o impio Co’um prompto raio teu, e a pó reduze-o. » O dever filial assim cumprido, Ao campo seu regressam satisfeitos. Entretanto Iguassú, fiel amante, Quasi esposa de Aimbire, amargurada Soffria esse viver do captiveiro Longe do que era seu, do qu’ella amava. Mas Jagoanharo a vira; e doce esp’rança Fagueira como o zephyro da tarde Após calmoso dia, embebecendo-a, Lhe antepunha correndo o pai, o amante, O irmão, a taba toda p’ra salval-a. Nos devaneios seus de dar-se a morte, Constante aspiração do peito afflicto, Essa doce esperança a vigorava P’ra viver e luctar, nobre esquivando Do seu torpe raptor a impudicicia. A força do brutal Francisco Dias 1 Ella oppunha essa força sobre-humana, Que ao feminil recato o céo inspira. Com ella muitas outras jovens Indias Raptadas tinham sido pelo bando Que Dias caudilhára; e na partilha P’ra si este a tomára por mais bella, Que por isso á excursão movêra os outros, Companheiros no crime, máos como elle. Oh misera Iguassú, deixa que eu cale As repetidas luctas que tiveste, Teu egregio valor, tua constancia: Sim, tudo calarei, para furtar-me Ao pejo de narrar os crueis tratos, E os lascivos ataques desse infame, Que para escrava impura te queria, Sem respeitar a tua tenra idade. Não se deleita a Musa que me inspira Com scenas que ao pudor as faces coram. Grande rumor causára em São-Vicente O caso de Iguassú e Jagoanharo, E a noticia fatal que dera a Anchieta O chefe Guayaná, de que os Tamoyos, Pelo impavido Aimbire commandados, A villa em copia ingente ameaçavam. Foi ter Anchieta co’o soberbo Dias, E com brandas palavras descreveo-lhe O castigo a que a villa estava exposta Por causa do viver licencioso Dos que andavam os Indios provocando Com rapinas e mortes; e rogou-lhe Que para remover maiores damnos Lhe entregasse Iguassú; que elle queria Os Indios desarmar restituindo-a Aos seus, que irados vinham libertal-a. Que elle désse esse exemplo de virtude, A fim que os mais colonos o imitassem, Libertando os selvagens captivados, E de uma vez cessando de ir caçal-os. Porém o Dias, qu’entre os seus consocios Das prégações dos padres murmurava, E contra elles movia surda intriga, Aproveitando o ensejo, respondeo-lhe: « Padre, és tu Portuguez, ou és selvagem? Que andas tu contra nós sempre bradando, Sempre a favor de uns animaes sem alma? Desconfio de tanta santidade. Queres á custa nossa, e em nosso damno, Conquistar o amor desses selvagens, Só para ás vossas leis tel-os sujeitos?! Não tendes vós tambem Indios escravos? Dai-lhes embora o nome que quizerdes, Que escravos são os que p’ra vós trabalham. Padre, vai-te com Deos prégar aos bosques. Não dou-te a India; si eu a quiz, cacei-a. Deixa-me em paz. » E assim dizendo, foi-se. A tão ímpia resposta o brando Anchieta, A quem só forças dava a caridade, Levando as mãos aos olhos, e enxugando As lagrimas que a flux lhe borbulhavam, N’um suspiro exclamou: « Ah pobres homens! Sempre a Deos e á razão cegos e avessos! E a quem sempre a verdade escandalisa! » Livre fez Deos o homem; razão deo-lhe Que o bem do mal distingue; leis sagradas, Innatas e protótypas gravou-lhe No coração, porque guias lhe sejam Na pratica do bem, do justo e santo, Porque lhe aplaquem das paixões a furia: E si contra essas leis o homem pecca, Aos olhos da razão elle é culpado, Responsavel a Deos: e o crime é do homem, Porque Deos o fez livre. Oh liberdade! Comtigo o mal e o bem, a essencia humana! Sem ti do bruto a essencia, o fatalismo! Era grande o temor em São-Vicente, E em seu capitão-mór Pedro Collaço, Que essas guerreiras tribos colligadas Como a enchente a colonia aniquilassem. E os dous servos de Deos, mais corajosos Que os escravos do inferno e do egoismo, Pelas praças prégando se esforçavam Para inspirar ideias de justiça Aos colonos, affeitos ao vil trato De caçar e matar os pobres Indios. Apostolos de Christo, austero Anchieta, E tu, Nobrega, em vão, em vão bradavas: « Iguaes os homens são; e christãos devem Abraçar seus irmãos, do erro salval-os, Guial-os ao Senhor, morrer por elles, E não matal-os como fazem lobos. Vós aos Indios chamais brutos sem alma, E assim credes poder escravisal-os. Mas o que desses brutos vos distingue? Que exemplos vós lhes dais que os edifiquem? Quando alguns dentre vós té mesmo, oh crime! A comer carne humana os aconselham!… 2 Tremei, oh Lusos, da justiça eterna. Deos não nos enviou do antigo mundo, Estrada abrindo em não trilhados mares Á esta ignota plaga, p’ra flagello Destes míseros homens. Não, oh Lusos! Nossa missão é outra. A luz da Europa, Não seus erros, aqui mostrar devemos. Esta é a terra santa e hospitaleira, Onde á sombra da Cruz a liberdade Deve co’os homens repartir justiça. A Cruz ergamos, sim, a Cruz de Christo, Signal de redempção; a Cruz que outr’ora No Capitolio alçada salvou Roma, Como a arca santa, que salvou das aguas A antiga geração. Da Cruz em torno Estas gentes de Deos a luz recebam, Como em outra éra os barbaros do Norte A seus pés cahir viram do erro a venda. Amor, fé, esperança e caridade, Eis do Cordeiro as armas invenciveis! Christo com ellas conquistou o mundo; Nós com ellas os Indios venceremos, E não com ferro e fogo. Ouvi, oh Lusos, As palavras do céo, não as do inferno. » Assim bradavam, mas em balde, os padres, Santificando as maximas sublimes Co’o firme exemplo de uma vida pura; E a caridade e a fé os roboravam. Não só desertos da Thebaida viram Milagres de constancia; o justo Anchieta E o venerando Nobrega aqui deram De virtudes christãas exemplo novo. Eram d’aquelles que paixões terrenas Co’o manto de Jesus não encobriam.
A Confederação dos Tamoyos

Sinopse

Leia gratuitamente A Confederação dos Tamoyos, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, poema épico brasileiro em domínio público. Texto integral da edição de 1856 preparado em HTML para leitura online no Literunico, com dedicatória, dez cantos, notas, fonte Wikisource validada, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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