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Americanas

Capítulo 12 · Americanas

Sabina

12 de 14 ≈ 11 min de leitura

Sabina era mucama da fazenda;

Vinte annos tinha; e na provincia toda

Não havia mestiça mais á moda,

Com suas roupas de cambraia e renda.

Captiva, não entrava na senzala,

Nem tinha màos para trabalho rude;

Desbrochava-lhe a sua juventude

Entre carinhose affeições de sala.

Era cria da casa. A sinhá moça,

Que com ella brincou sendo menina,

Sôbre todas amava ésta Sabina,

Com

esse ingenuo e puro amor da roça.

Dizem que á noite, a suspirar na cama,

Pensa n’ella o feitor; dizem que um dia,

Um hóspede que alli passado havia,

Poz um cordão no collo da mucama.

Mas que vale uma joia no pescoço?

Não pôde haver o coração da bella.

Se alguem lhe accende os olhos de gazella,

É pessoa maior: é o senhor moço.

Ora, Octavio cursava a Academia.

Era um lindo rapaz; a mesma edade

Co’as passageiras flores o adornava

De cujo extincto aroma inda a memoria

Vive na tarde pallida do outomno.

Oh! vinte annos! Ó pombas fugitivas

Da primeira estação, porque tão cedo

Voaes de nós? Pudesse ao menos a alma

Guardar comsigo as illusões primeiras,

Virgindade sem preço, que não paga

Essa descolorida, arida e sêcca

Experiencia do homem!

Vinte annos

Tinha Octavio, e a belleza e um ar de corte

E o gesto nobre, e seductor o aspecto;

Um vero Adónis, como aqui diria

Algum poeta clássico, d′aquella

Poesia que foi nobre, airosa e grande

Em tempos idos, que ainda bem se foram...

Também eu a adorei, uma hora ao menos,

E suspirei d′estes remotos climas

Pelas formosas ribas do Scamandro,

Onde descia, entre soldados gregos,

A moça Venus; frivolo suspiro

Que não pode accordar dos seus sepulchros

Esses numes brincões da velha edade,

Mortos por seus peccados, — que os tiveram,

E por socego nosso. Eram amaveis

E bellos no seu tempo; hoje fariam

Egual papel ao do tardio máscara

Que, ao desdobrar a aurora os pannos de ouro,

Entre madrugadores se aventura.

Cursava a Academia o moço Octavio;

Ia no anno tereeiro: não remoto

Via desenrolar-se o pergaminho,

Premio de seus labores e fadigas;

E uma vez bacharel, via mais longe

Os curvos braços da feliz cadeira

D′onde o legislador a redea empunha

Dos leidos frisões do Estado. Emtanto,

Sôbre os livros de estudo, gota a gota

As horas despendia, e trabalhava

Por metter na cabeça o jus romano

E o patrio jus. Nas suspiradas ferias

Volvia ao lar paterno; ali no dorso

De brioso corsel corria os campos,

Ou, arma ao hombro, polvorinho ao lado,

Á caça dos veados e cotias,

Ia matando o tempo. Algumas vezes

Com o padre vigario se entretinha

Em desfiar um ponto de intrincada

Philosophia, que o senhor de engenho,

Feliz pae, escutava glorioso,

Como a rever-se no brilhante aspecto

Do suas ricas esperanças.

Era

Manhã de estio; erguera-se do leito

Octavio; em quatro sorvos toda esgota

A taça de cafe. Chapeo de palha,

E arma ao hombro, la foi terreiro fóra,

Passarinhar no matto. Ia costeando

O arvoredo que além beirava o rio,

A passo curto, e o pensamento à larga,

Como leve andorinha que sahisse

Do ninho, a respirar o hausto primeiro

Da manhã. Pela aberta da folhagem,

Que inda não doura o sol, uma figura

Deliciosa, um busto sôbre as ondas

Suspende o caçador. Mãe d′agua fôra,

Talvez, se a côr de seus quebrados olhos

Imitasse a do ceu: se a tez morena,

Morena como a espôsa dos Cantares,

Alva tivesse; e raios de ouro fossem

Os cabellos da côr da noite escura,

Que ali soltos e humidos lhe caem,

Como um veu sôbre o collo. Trigueirinha,

Cabello negro, os largos olhos brandos

Cor de jabuticaba, quem seria,

Quem, senão a mucama da fazenda,

Sabina, emfim? Logo a conhece Octavio,

E n′ella os olhos espantados fita

Que desejos accendem. — Mal cuidando

D′aquelle extranho curioso, a virgem

Com os ligeiros braços rompe as aguas,

E ora toda se esconde, ora ergue o busto,

Talhado péla mão da natureza

Sôbre modelo classico. Na opposta

Riba suspira um passarinho; e o canto,

E a meia luz, e o sussurrar das aguas,

E aquella fada ali, tão doce vida

Davam ao quadro, que o ardente alumno

Trocara por aquillo, uma hora ao menos,

A Faculdade, o pergaminho e o resto.

Subito erige o corpo a ingênua virgem;

Com as mãos, os cabellos sôbre a espadua

Deita, e rasgando lentamente as ondas,

Para a margem caminha, tão serena,

Tão livre como quem de extranhos olhos

Não suspeita a cubica... Veu da noute,

Se lh′os cubrira, dissipara acaso

Uma historia de lagrymas. Não póde

Furtar-se Octavio á commoção que o toma;

A clavina que a esquerda mal sustenta

No chão lhe cae; e o baque surdo ae corda

A descuidada nadadora. As ondas

A virgem torna. Rompe Octavio o espaço

Que os divide; e de pe, na fina area,

Que o molle rio lambe, erecto e firme,

Todo se lhe descobre. Um grito apenas

Um so grito, mas unico, lhe rompe

Do coração; terror, vergonha... e acaso

Prazer, prazer mysterioso e vivo

De captiva que amou silenciosa,

E que ama e ve o objecto de seus sonhos,

Ali com ella, a suspirar por ella.

«Flor da roça nascida ao pe do rio,

Octavio começou — talvez mais bella

Que essas bellezas cultas da cidade,

Tão cobertas de joias e de sedas,

Oh! não me negues teu suave aroma!

Fez-te captiva o berço; a lei somente

Os grilhões te lançou; no livre peito

De teus senhores tens a liberdade,

A melhor liberdade, o puro affecto

Que te elegeu entre as demais captivas,

E de affagos te cobre! Flor do matto,

Mais viçosa do que essas outras flores

Nas estufas criadas e nas salas,

Rosa agreste nascida ao pe do rio

Oh! não me negues teu suave aroma!»

Disse, e da riba os cubiçosos olhos

Pelas aguas estende, emquanto os d′ella,

Cobertos pelas palpebras medrosas

Choram, — de gosto e de vergonha a um tempo, -

Duas unicas lagrymas. O rio

No seio as recebeu; comsigo as leva,

Como gottas de chuva, indifferente

Ao mal ou bem que lhe povoa a margem;

Que assim a natureza, ingenua e docil

As leis do Creador, perpétua segue

Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem

Padecer e saber que sente e morre.

Quem ao tempo cortar pudera as azas

Se deleitoso voa? Quem pudera

Suster a hora abençoada e curta

Da ventura que foge, e sôbre a terra

O gozo transportar da eternidade?

Sabina viu correr tecidos de ouro

Aquelles dias unicos na vida

Pela azulada esphera inda tres vezes

A aurora as flores derramou, e a noite

Vezes tres a mantilha escura e larga

Mysteriosa cingiu. Na quarta aurora,

Anjo das virgens, anjo de azas brancas,

Pudor, onde te foste? A alva capella

Murcha e desfeita pelo chão lançada,

Coberta a face do rubor do pêjo,

Os olhos com as mãos velando, alçaste

Para a Eterna Pureza o eterno voo.

Toda enlevo e paixão, sincera e ardente

N′esse primeiro amor d′alma que nasce

E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,

Consciencia; razão, tu lhe fechavas

A vista interior; e ella seguia

Ao sabor dessas horas mal furtadas

Ao captiveiro e á solidão, sem vel-o

O fundo abysmo tenebroso e largo

Que a separa do eleito de seus sonhos,

Nem presentir a brevidade e a morte!

E com que olhos de pena e de saudade

Viu ir-se um dia pela estrada fora

Octavio! Aos livros torna o moço alumno,

Não cabisbaixo e triste, mas sereno

E lépido. Com ella a alma não fica

De seu joven senhor. Lagryma pura,

Muito embora de escrava, pela face

Lentamente lhe rola, e lentamente

Toda se esvae num palíido sorriso

De mãe.

Sabina é mãe; o sangue livre

Gyra e palpita no captivo seio

E lhe paga de sobra as dores cruas

Da longa ausencia. Uma por uma, as horas

Na solidão do campo hade contal-as,

E suspirar pelo remoto dia

Em que o veja de novo... Pouco importa,

Se o materno sentir compensa os males.

Riem-se d’ella as outras; é seu nome

O assumpto do terreiro. Uma invejosa

Acha-lhe uns certos modos singulares

De senhora de engenho; um pagem moço,

De cubica e ciume devorado,

Desfaz nas graças que em silêncio adora

E comsigo medita uma vingança.

Entre os parceiros, desfiando a palha

Com que entrança um chapeu, solemnemente

Um Cassange ancião refere aos outros

Alguns casos que viu na mocidade

De captivas amadas e orgulhosas,

Castigadas do ceu por seus peccados,

Mortas entre os grilhões do captiveiro.

Assim fallavam elles; tal o aresto

Da opinião. Quem evital-o póde

Entre os seus, por mais baixo que a fortuna

Haja tecido o berço? Assim fallavam

Os captivos do engenho; e porventura

Sabina o soube e o perdoou.

Volveram

Apos os dias da saudade os dias

Da esperança. Ora, quiz fortuna adversa

Que o coração do moço, tão voluvel

Como a brisa que passa ou como as ondas,

Nos cabellos castanhos se prendesse

De donzella gentil, com quem atara

O laço conjugal: uma belleza

Pura, como o primeiro olhar da vida,

Uma flor desbrochada em seus quinze annos,

Que o moço viu n′um dos serões da côrte

E captivo adorou. Que ha de fazer-lhes

Agora o pae? Abençoar os noivos

E ao regaço trazel-os da familia.

Oh longa foi, longa e ruidosa a festa

Da fazenda, por onde alegre entrara

Ó moço Octavio conduzindo a espôsa.

Viu-os chegar Sabina, os olhos seccos

Attonita e pasmada. Breve o instante

Da vista foi. Rapido foge. A noite

A seu trémulo pe não tolhe a marcha;

Voa, não corre ao malfadado rio,

Onde a voz escutou do amado moço.

Ali chegando: «Morrerá commigo

O fructo de meu seio; a luz da terra

Seus olhos não verão; nem ar da vida

Hade aspirar...»

Ia a cair nas aguas,

Quando subito horror lhe toma o corpo;

Gelado o sangue e trémula recua,

Vacilla e tomba sôbre a relva. A morte

Em vão a chama e lhe fascina a vista;

Vence o instincto de mãe. Erma e calada

Ali ficou. Viu-a jazer a lua

Largo espaço da noite ao pe das aguas,

E ouviu-lhe o vento os tremulos suspiros;

Nenhum d′elles, comtudo, o disse á aurora.

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Sinopse

Coletânea poética de Machado de Assis em domínio público, publicada no Aurora a partir da edição consolidada da Wikisource.

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