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Capítulo 3 · Americanas

Niani

3 de 14 ≈ 10 min de leitura

(HISTORIA GUAYCURU)

Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia,

sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram trez

mezes, quando um dia, estando deitada na sua rustica cama,

lhe deram a noticia que seu desleal marido se tinha casado com

uma rapariga de menor esphera. Senta-se então Nanine na

rama, como arrebatada, chama para junto de si um pequeno

indio que era seu captivo, e diz-lhe na presença de varios antecris: «És meu captivo; dou-te a liberdade, com a condição

de que te chamarás todo a vida Panenioxe.» Então seus olhos

deixaram correr dilúvios de lagrymas pelas suas tristes faces,

que ella de envergonhada quiz occultar, mas o amor offendido

não o permittia. Parece que esta violenta contenda de duas

poderosas paixões lhe motivou uma febre ardente, com a qual

ao outro dia perdeu a vida.

F. Rodrigues Prado

,

Hist. dos Indios Cavalleiros

.

.......que piagne

Vedova, sola.

Dant.

Purgat.

vi

I

Contam-se historias antigas

Pelas terras de além-mar,

De moças e de princezas,

Que amor fazia matar.

Mas amor que entranha n′alma

E a vida soe acabar,

Amor é de todo o clima,

Bem como a luz, como o ar.

Morrem delle nas florestas

Aonde habita o jaguar,

Nas margens dos grandes rios

Que levam troncos ao mar.

Agora direi um caso

De muito penalisar,

Tão triste como os que contam

Pelas terras de além-mar.

II

Cabana que esteira cobre

De junco trançado a mão,

Que agitação vae por ella!

Que ledas horas lhe vão!

Panenioxe é guerreiro

Da velha, dura nação,

Cayavabá ha ja sentido

A sua lança e facão.

Vem de longe, chega á porta

Do afamado capitão;

Deixa a lança e o cavallo,

Entra com seu coração.

A noiva que elle lhe guarda

Moça é de nobre feição,

Airosa como agil corça

Que corre pelo sertão.

Amores eram nascidos

Naquella tenra estação,

Em que a flor que hade ser flor

Inda se fecha em botão.

Muitos agora lhe querem,

E muitos que fortes são;

Niani ao melhor delles

Não dera o seu coração.

Casal-os agora, é tempo;

Casal-os, nobre ancião!

Limpo sangue tem o noivo,

Que é filho de capitão.

III

« — Traze a minha lança, escravo,

Que tanto peito abateu;

Traze aqui o meu cavallo

Que largos campos correu.»

« — Lança tens e tens cavallo

Que meu velho pae te deu;

Mas aonde te vas agora,

Onde vas, espôso meu?

« — Vou-me á caça, junto á cova

Onde a onça se metteu...»

« — Montada no meu cavallo,

Vou comtigo, espôso meu.v»

« — Vou-me ás ribas do Escopil,

Que a minha lança varreu...:

« — Irei pelejar na guerra,

A teu lado, espôso meu.»

« — Fica-te ahi na cabana

Onde o meu amor nasceu.»

« — Melhor não haver nascido

Se ja de todo morreu.»

E uma lagryma, — a primeira

De muitas que ella verteu, —

Pela face cobreada

Lenta, lenta lhe correu.

Enxugai a, não a enxuga

O espôso que ja perdeu,

Que elle no chão fita os olhos,

Como que a voz lhe morreu.

Traz o escravo o seu cavallo

Que o velho sogro lhe deu;

Traz-lhe mais a sua lança

Que tanto peito abateu.

Então, recobrando a alma,

Que o remorso esmoreceu,

Com esta dura palavra

Á espôsa lhe respondeu:

« — A bocayuva trez vezes

No tronco amadureceu,

Desde o dia em que o guerreiro

Sua espôsa recebeu.

«Trez vezes! Amor sobejo

Nossa vida toda encheu.

Fastio me entrou no seio,

Fastio que me perdeu.»

E pulando no cavallo,

Sumiu-se.....despareceu..,

Pobre moça sem marido,

Chora o amor que lhe morreu

IV

Leva o Paraguay as aguas,

Leva-as no mesmo correr,

E as aves descem ao campo

Como usavam de descer.

Tenras flores, que outro tempo

Costumavam de nascer,

Nascem; vivem de egual vida;

Morrem do mesmo morrer.

Niani, pobre vima,

Viuva sem bem o ser,

Tanta lagryma chorada

Ja te não póde valer.

Olhos que amor desmaiára

De um desmaiar que é viver,

O chôro empana-os agora,

Como que vão fenecer.

Corpo que fôra robusto

No seu cavallo a correr,

De contínua dor quebrado

Mal se póde ja suster.

Collar de prata não usa,

Como usava de trazer;

Pulseiras de finas contas

Todas as veiu a romper.

Que ella, se nada ha mudado

Daquelle eterno viver,

Com que a natureza sabe

Renascer, permanecer,

Toda é outra; a alma lhe morre,

Mas de um contínuo morrer,

E não ha magua mais triste

De quantas podem doer.

Os que out′rora a desejavam,

Antes delia mal haver,

Vendo que chora e padece,

Rindo, se põem a dizer:

«— Remador vae na canoa,

Canoa vae a descer...

Piranha espiou do fundo

Piranha, que o vae comer.

«Ninguem se fie da braza

Que os olhos veem arder

Sereno que cae de noite

Ha de fazel-a morrer.

Panenioxe, Panenioxe,

Não lhe sabias querer.

Quem te pagara esse golpe

Que lhe vieste fazer!»

V

Um dia, — era sôbre larde,

Ia-se o sol a afundar;

Calumby cerrava as folhas

Para melhor as guardar.

Vem cavalleiro de longe

E á porta vae apear.

Traz o rosto carregado,

Como noite sem luar.

Chega-se á pobre da moça

E assim começa a fallar:

«— Guaycurú doe-lhe no peito

Tristeza de envergonhar.

«Espôso que te ha fugido

Hoje se vae a casar;

Noiva não é de alto sangue,

Porém de sangue vulgar.»

Ergue-se a moça de um pulo,

Arrebatada, e no olhar

Rebenta-lhe uma faisca

Como de luz a expirar.

Menino escravo que tinha

Acerta de ali passar;

Niani attentando nelle

Chama-o para o seu logar.

«— Captivo es tu: seras livre,

Mas vaes o nome trocar;

Nome avesso te pozeram...

Panenioxe has de ficar.»

Pela face cobreada

Desce, desce com vagar

Uma lagryma: era a última

Que lhe restava chorar.

Longo tempo alli ficara,

Sem se mover nem fallar;

Os que a veem naquella magua

Nem ousam de a consolar.

Depois um longo suspiro,

E ia a moça a expirar...

O sol de todo morria

E ennegrecia-se o ar.

Pintam-n′a de vivas cores,

E lhe lançam um collar;

Em fina esteira de junco

Logo a vão amortalhar.

O triste pae suspirando

Nos braços a vae tomar,

Deita-a sôbre o seu cavallo

E a leva para enterrar.

Na terra em que dorme agora

Justo lhe era descançar,

Que pagou foro da vida

Com muito e muito penar.

Que assim se morre de amores

Aonde habita o jaguar,

Como as princezas morriam

Pelas terras de além-mar.

Tratando de descobrira significação de

Panenioxe

, conforme

escreve Rodrigues Prado, apenas achei no escasso vocabulario

guaycurú, que vem em Ayres do Casal, a palavra nioxe traduzida

por jacaré. Não pude accertar com a significação do primeiro

membro da palavra,

pane; ha talvez relação entre elle e o nome

do rio Yppané.

«Estas duas armas (lança e facão) tem sido tomadas aos

portuguezes e hespanhóes, e algumas compradas a estes eme

inadvertidamente lh'as tem vendido» (

Rodr. Prado

,

Hist. dos Ind. Cav

).

Nanine é o nome transcripto na

Hist. dos Ind. Cav.

Na

lingua geral temos

niaani

, que Martius traduz por

infans

. Ésta

fórma pareceu mais graciosa; e não duvidei adoptal-a,

desde que o meu distincto amigo, Dr. Escragnolle Taunay, me

asseverou que, no dialecto guaycurú, de que elle ha feito

estudos, niani exprime a ideia de moça frantina, delicada,

não lhe parecendo que exista a forma empregada na monographia

de Rodrigues Prado.

Os Guaycurús dividem-se em nobres, plebeus ou soldados,

e captivos. Do proprio texto que me serviu para ésta composição

se ve até que ponto repugna, aos nobres toda a alliança com

pessoas de condição inferior.

A este propósito direi a anedocta que me foi referida por

um distincto official da nossa armada", o capitão de fragata Sr.

Henrique Baptista, que em 1857 esteve no Paraguay commandando

o Japorá, entre o forte Coimbra e o estabelecimento

Sebastopol. Ia muita vez a bordo do Japorá um chefe guaycurú,

Capitãosinho, muito amigo da nossa officialidáde. Tinha

elle uma irmã, que outro chefe guaycurú, Lapagata, cortejava

e desejava receber por espôsa. Lapagata recebera o titulo de

capitão das mãos do presidente de Matto-Grosso. Oppunha-se

com .todas as fôrças ao. enlace o Capitãosinho. Um dia, perguntando-lhe

o Sr. H. Baptista porque niotivo não consentia no

casamento da irmã com Lapagata, respondeu o altivo Guaycurú:

— Opponho-me, porque eu sou capitão por herança de meu

pae, que ja o era por herança do pae delle. Lapagata é capitão

de papel.

As bocayuvas servem de alimento aos Guaycurús; nas proximidades

de sazonarem os cocos fazem elles grandes festas.

(Veja

Casal

e

Prado

).

Taes eram os adornos das mulheres guaycurús. (Veja

Prado

,

Casal

e

D′Azara

).

«As moças ricas vão enfeitadas, como se ornariam para o

proprio noivado.» (

Ayres do Casal

,

Corog.

, 280).

Americanas

Sinopse

Coletânea poética de Machado de Assis em domínio público, publicada no Aurora a partir da edição consolidada da Wikisource.

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LITEBN
LITEBN-AMERICANAS-20260702135919
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