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Capítulo 14 · Americanas

Os Orizes

14 de 14 ≈ 7 min de leitura

OS ORISES

(FRAGMENTO)

I

Nunca as armas christans, nem do Evangelho

O lume creador, nem frecha extranha

O valle penetraram dos guerreiros

Que, entre serros altissimos sentado,

Orgulhoso descança. Unico o vento,

Quando as azas desprega impetuoso,

Os campos varre e as selvas estremece,

Um pouco leva, ao recatado asylo,

Da poeira da terra. Acaso o raio

Alguma vez nos asperos penedos,

Com fogo escreve a assolação e o susto.

Mas olhos de homem, não; mas braço affeito

A pleitear na guerra, a abrir ousado

Caminho entre a espessura da floresta,

Não affrontára nunca os atrevidos

Muros que a natureza a pino erguêra

Como eterna atalaia.

II

Um povo indocil

Nessas brenhas achou ditosa patria,

Livre, como o rebelde pensamento

Que ímpia fôrça não doma, e airoso volve

Inteiro á eternidade. Guerra longa

E porfiosa os adestrou nas armas;

Rudes são nos costumes mais que quantos

Ha criado este sol, quantos na guerra

O tacape meneiam vigoroso.

So nas festas de plumas se ataviam

Ou na pelle do tigre o corpo envolvem,

Que o sol queimou, que a rispidez do inverno

Endureceu como os robustos troncos

Que so verga tufão. Tecer não usam

A preguiçosa rede em que se embale

O corpo fatigado do guerreiro,

Nem as tabas erguer como outros povos;

Mas á sombra das árvores antigas,

Ou nas medonhas cavas dos rochedos,

No duro chão, sôbre mofinas hervas,

Acham somno de paz, jamais tolhido

De ambições, de remorsos. Indomavel

Essa terra não é; prompto lhes volve

O semeado pão; vecejam flores

Com que a rudez tempera a extensa inatta,

E o fructo pende dos curvados ramos

Do arvoredo. Harta messe do homem rude,

Que tem na ponta da farpada setta

O pesado tapir, que lhes não foge,

Nhandu, que à flor de terra inquieta voa,

Sobejo pasto, e deleitoso e puro

Da selvagem nação. Nunca vaidade

De seu nome souberam, mas a fôrça,

Mas a destreza do provado braço

Os foros são do imperio a que hão sugeito

Todo aquelle sertão. Murmuram longe,

Contra elles, as gentes debelladas

Vingança e odio. Os echos repetiram

Muita vez a pocema de combate;

Nuvens e nuvens de afiadas settas

Todo o ar cobriram; mas o extremo grito

Da victoria final so delles fôra.

III

Despem armas de guerra; a paz os chama

E o seu barbaro rito. Alveja perto

O dia em que primeiro a voz levante

A ave sagrada, o nume de seus bosques,

Que de agouro chamamos, Cupuaba

Melancholica e feia, mas ditosa

E benefica entre elles.

Não se curvam

Ao nome de Tupan, que a noite e o dia

No ceu reparte, e ao rispido guerreiro

Guarda os sonhos do Ybake e eternas dansas.

Seu deus unico é ella, a bemfaseja

Ave amada, que os campos despovoá

Das venenosas serpes,— viva imagem

Do tempo vingador, lento e seguro,

Que as calumnias, a inveja e o odio apagam,

E ao conspurcado nome o alvor primeiro

Restitue. Uso é deites celebrar-lhe

Com festas o primeiro e o extremo canto.

IV

Terminára o cruento sacrificio.

Ensopa o chão da dilatada selva

Sangue de caitetus, que o pio intento

Largos mezes cevou; barbara usança

Tambem de alheios climas. As donzellas,

Mal sahidas da infancia, inda embebidas

Nos ledos jogos de primeira edade,

Ao brutal sacrificio... Oh! cala, esconde,

Labio christão, mais barbaro costume.

V

Agora a dansa, agora alegres vinhos,

Trez dias ha que de inimigos povos

Esquecidos os trazem. Sôbre um tronco

Sentado o chefe, carregado o rosto,

Inquieto o olhar, o gesto pensativo,

Como alheio ao praser, de quando em quando

Á multidão dos seus a vista alonga,

E um rugido no peito lhe murmura.

Quem a fronte enrugara do guerreiro?

Inimigo não foi, que o medo nunca

O sangue lhe esfriou, nem vão receio

Da batalha futura o desenlace

Lhe fez incerto. Intrépidos como elle

Poucos vira este ceu. Seu forte braço,

Quando vibra o tacape nas pelejas,

De rasgados cadaveres o campo

Inteiro alastra, e ao peito» do inimigo,

Como um grito de morte a voz lhe soa.

Nem so nas gentes o terror infunde;

É fama que em seus olhos còr da noite,

Inda creança, um genio lhe deixara

Mysteriosa luz, que as fôrças quebra

Da onça e do jaguar. Certo é que um dia

(A tribu o conta, e seus pagés o juram)

Um dia em que, do filho acompanhado,

Ia costeando a orla da floresta,

Um possante jaguar, escancarando

A bocca, em frente do famoso chefe

Estacara. De longe um grito surdo

Solta o joven guerreiro; logo a setta

Embebe no arco, e o tiro sibilante

Ia ja disparar, quando de assombro

A mão lhe afrouxa a distendida corda.

A fera o collo timida abatêra,

Sem ousar despregar os fulvos olhos

Dos olhos do inimigo. Ureth ousado

Arco e frechas atira para longe,

A massa empunha, e lento, e lento avança;

Tres vezes volteando a arma terrivel,

Enfim despede o golpe; um grito apenas.

Unico atroa o solitario campo

E a fera jaz, e o vencedor sôbre ella.

Tinha planeado uma composição de dimensões maiores, e

não a levei a cabo, por intervirem outros trabalhos, que de

todo me divertiram a attenção. Foi o nosso eminente poeta e

litterato Parto Alegre, hoje barão de Santo Angelo, quem, ha

cerca de 4 annos, me chamou a attenção para a relação de

Menterroyo Mascarenhas,

Os Orizes conquistados

, que vem na

Rev. do Inst. Hist.

, t. VIII.

A asperesa dos costumes daquelle povo, habitante do sertão

da Bahia, cerca de duzentas legoas da capital, sua rara energia,

as circuiastancias singulares da conquista e conversão

da tribu, eram certamente um quadro excellente para uma

composição poetica. Ficou em fragmento, que ainda assim não

quiz excluir do livro.

«Lastimosamente cegos de discurso, reconhecem e adoram

por deus a coruja, chamada na sua linguagem

Oitipô-cupuaaba

;

e o motivo de sua adoração consiste no beneficio que recebem

desta ave, que, naturalmente inimiga das cobras, numerosissimas

naquelle paiz, as espia nos mattos, e lhes tira a vida.»

(

J. F. Monterroyo Mascarenhas

,

Os Orizes conquistados

).

Americanas

Sinopse

Coletânea poética de Machado de Assis em domínio público, publicada no Aurora a partir da edição consolidada da Wikisource.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-AMERICANAS-20260702135919
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