Universo da obra
Universo da obra
I A Leopoldo Amaral A villa de Poços, concava e mais funda do que uma cratéra, entre bordos de outeiros e montes, sob a doçura limpida d'um ceu desannuviado e azul, com a sua paz de campo quasi entrado ao sertão, é um fervedouro d'aguas maravilhosas . Remotamente, em dias de quasi extincta memoria, quando as terras interiores eram apenas desbravadas pelos aventureiros , que revolviam as areias micantes dos corregos, escavavam o sólo, brocavam as rochas procurando avidamente diamante e ouro, os borbotões que escachoavam, em repuxo, á flôr da terra, só eram conhecidos dos animaes que desciam as encostas e vinham lamber os saes crystallizados nos barreiros ou enxurdavam
se no lodo tépido, como se conhecessem a virtude d'aquelles jorros que golfavam em olheirões ferventes , fumegando . Data de 15 de junho de 1786 a primeira noticia escripta d'essas aguas , accusando a descoberta e preconisando os beneficios n'ellas colhidos por numerosos enfermos , muitos d'elles leprosos . Desde então começou a romagem para o valle feliz . Os primeiros que alli chegaram, em lentos carros de bois, colmados de esteiras, atupidos de mantimentos-uns entrevados, outros cobertos de ulceras, lazaros deformados, roxos, vultuosos, corroidos,- achando-se em tão deserta paragem , entre crespas florestas, n'um campo virgem que as codornas percorriam , esvoaçando, e as cascaveis cruzavam morosamente , transidas, armavam barracas de lona ou levantavam palhoças e, ligando-se estreitamente n'uma solidariedade de reciproca defeza e consolo reciproco, passavam mezes em cura, arranchados em torno do aguaçal que alastrava . De madrugada, em plena bruma, levantavam-se os enfermos - uns, apoiados a escravos , vagarosos, gemendo e seguiam, rompendo as nevoas que rolavam á flor da terra, em flocos ; outros , eram levados em braços . Este, como um amortalhado que se reco
lhesse precipitadamente ao tumulo antes do esplendor da manhan, corria, embrulhado em comprido lençol, tiritando; esse, aos pulinhos, arrimado a muletas toscas, lá ia para o atascadeiro ; aquelle, com uma creança ao collo, animando-a carinhosamente, seguia, descalço , pela herva molhada; e todos, á beira do paúl vital, pendurando as roupas nos ramos das arvores , sem vexame, naturalmente, desciam ao lodo, chafurdavam , banhavam as feridas, esfregavam as ulceras esborcinadas, raspavam as escaras da lepra , friccionavam as articulações ankylosadas e ficavam no atascal até que a luz aclarava, atoalhando d'ouro os lombos das collinas , o campo em flôr e, de um a outro, no marnel, eram felicitações por melhoras que se iam accentuando . O sol irradiava, fugiam lentas, dissolvendo-se, as ultimas neblinas e, de todos os pontos, rompiam vozes d'animaes : mugidos dos bois de carro, que engordavam, soltos , afogados na herva ; balados d'ovelhas , latidos dos cães , que farejavam rastos de caça. Tiros estrondavam, com grandes écos reboantes que rolavam pelas quebradas ; campeiros bradavam- e eram galopes desabridos de potros, montados em pêllo, algazarra de creanças , gritos assustados de mulheres , que bracejavam , acenando aos filhos, chaman
AGUA DE JUVENTΑ do-os, reprehendendo-os, com receio de que fossem cuspidos pelos animaes, n'aquellas correrias loucas . Alli mesmo , n'uma aberta do matto, perto da povoação agreste, eram as rezes abatidas e escorchadas . As bandounas, apodrecendo em acervos , attrahiam os urubús , e, enquanto, acolhidas aos ranchos, á volta dos caldeirões fumegantes , as familias comiam , fallando das terras longinquas que habitavam na orla branca do mar ou nos ricos convalles de mineração, os abutres disputavam o deventre das rezes , brigando, esvoaçando rasteiros ou fugindo aos cães, em vôo alto, com um tassalho de carniça pendente do bico. Os mais favorecidos acudiam aos pobres, mandavam-lhes presentes- eram gordas postas de carne, gallinhas, cestinhos d'ovos, fructas, remedios e, quando partiam, faziam uma larga distribuição de generos, de roupas ; deixavam esmolas em dinheiro para auxiliar a construcção da capella e, com as muletas debaixo do braço, subiam ao outeiro e lá as deixavam, fincadas entre pedras , attestando o milagre . A' noite , flammejavam fogueiras - as violas soavam languidas, trovas cruzavam-se e o sólo estrupidava ao sapatear frenetico do samba, até á hora da réza. Era, então , o terço,
cantado de tenda em tenda, ou, nas noutes de luar , todos juntos, em circulo. E na floresta as onças urravam olhando espantadas os fogaréos vigilantes e o pantano milagroso começava a fumegar, velava-se de nevoa densa e affirmava-se supersticiosamente que, em certas noites aziágas, a horas altas , chammas subiam tremulas, em linguas lividas, desprendiam-se e, soltas , ficavam pairando e ardendo no ar ; depois empallideciam , minguavam e subitamente extinguiam -se . Os mais timidos, preferindo o soffrimento ephemero do corpo á eterna tortura d'alma , porque attribuiam o calor d'aquellas aguas a virem ellas directamente do inferno , deixavam-se ficar nas choças repassando as contas dos rosarios e, como o clima benefico bastava para lhes abrandar os males , sentindo-se alliviados davam-se por attendidos pelo Senhor e regressavam aos lares contentes , espalhando lendas tragicas sobre demonios e pallidas apparições e ensinando pelos povoados humildes as sympathias e as rezas a cuja efficacia attribuiam o restabelecimento . Com as noticias das curas milagrosas logo cresceu a ambição e com ella foram acudindo ao ermo logarejo os primeiros habitantes . Fincaram-se esteios solidos , atravessaram-se, cruzaram -se robustas vigas, as collinas foram es
cavacadas, o adobe foi espalhado em estendal, ao sol. Correram-se muros de taipa, abriram-se caminhos faceis, bem alhanados, estenderam-se pontes sobre os ribeirões, roçouse o matto e, pouco a pouco, foi surgindo o povoado que hoje alegra o lindo valle enfeitando a vertente da montanha, as fraldas das collinas, coroando os outeirinhos, dando ao antigo deserto, desfavorecido e tristonho, o aspecto gracioso de uma cidadesinha acolhedora, de paz e de saude, onde tudo é puro, desde o ar que circula, fino e leve, cheirando a silvas , até á agua que se despenha d'alto, por entre as hervas viçosas, branca e gelada . Se a maioria das construcções é rusticacasas acaçapadas, chatas na planicie ou trepando desgraciosamente pelos cerros pedregosos , por entre a verdura dos pomares ou no centro de jardins cuidados erguem-se airosos edificios modernos, uns ao gosto suisso , com os seus telhados agudos cobertos de escamas de ardosia, com varandas entrelaçadas de ipoméas. Ao fundo, n'um planalto liso, d'um verde vellutineo, avultam dois grandes predios que, nas horas pallidas e suggestivas da tarde, quando começam a estender-se as sombras , isolados na distancia vaporosa do campo, lembram castellos solitarios com os seus torreões ameiados, guardando o burgo.
AGUA DE JUVENTΑ Era em março. A estação começára alegre . A terra , ainda encharcada dos abundantes aguaceiros que, sem estiada, durante os ultimos dias nublados da semana anterior, haviam alagado os campos e jorrado, em grosso enxurro barrento, pelas vertentes dos montes cavando profundos sulcos, fundamente vincada nos lameiros , molle, espapada, cedia ao andar. Pela relva a agua espirrava sob os pés como se se fosse pisando uma esponjosa planura ; não raro luziam charcos . Nos caminhos recalcados espelhavam poças e o ribeirão das Caldas, soberbo e escuro, carreando detrictos, aves mortas , gravetos, rolava rumoroso . Na baixada que se inclina para o ribeirão da Serra branqueavam, como borlas de neve, os pendões floridos do alça-peixe e, por toda a vasta e rasa extensão da planicie, bailando á aragem fria, n'uma traquinice de borboletas, sacudiam-se as flores mimosas da herva de S. João . Andorinhas , em vôo rasteiro, pareciam afflorar a relva - vinham d'esfusiada , trissando, volviam aligeras ; alçavam o vôo, baixavam de novo, quasi raspando a terra com os peitos brancos .
Cavalleiros , montados á maneira derreada dos caipiras , atravessavam os caminhos ao trote lerdo dos animaes ossudos. Por vezes uma tropa rompia- o guia á frente, abrindo a marcha e logo a récova, n'uma comprida fila sacolejando a carga e, na códa, silenciosos tropeiros , escarranchados em rocins , o olhar perdido, banzando, com o cabo do relho fincado na côxa. Succediam-se os carros de bois tirados vagarosamente por seis e oito juntas, chiando : uns vasios, com pequenitos de pé agarrados aos fueiros , outros carregados, rangendo, guinchando estridulamente. Cavallos soltos pastavam e cruzando o ar finissimo e picante da radiosa e serena manhan, urubús circulavam atravessando o campo, pousavam nos telhados e, d'azas abertas, immoveis, ficavam gozando o sol . A villa parecia despertar d'um somno de inverno . Um ar de festa dominical espalhavase e sentia-se em tudo . As collinas aridas tinham uma cor mais viçosa nos capins esturricados , as pedras adustas do cerro das cruzes encimado pela capellinha que uma cerca de ripas protegia, lampejavam e, fronteira, a montanha, aqui, alli copada em bosques , como restos d'um velo antigo, tosado, em parte, pelos homens, sangrando ao flanco a agua de
prata que se despenhava do alcantil, alta, monstruosa, parecia um molosso desconforme, deitado, com o focinho entre as patas , a olhar na direcção do occidente, guardando attento, immovel , silencioso, a villa dos milagres . Grupos de banhistas animavam o immenso largo, raso e lodoso, cortado de valles, cavado em caldeirões traiçoeiros, que o Dr. Lino, medico das aguas, pensava em alindar com o auxilio patriotico do governo de Minas , transformando-o em parque, á ingleza, com extensas e aparadas relvas, arvores de sombra, pontes rusticas lançadas sobre os ribeirões, kiosques e, ao centro, o Cassino : um palacio de architectura moderna, com salões de concerto , de baile, de jogo, restaurante, bibliotheca e um recinto severo, com mappas e ceroplastia, para conferencias scientificas . Nas suas correspondencias para os jornaes de S. Paulo, sempre discorria, com argumentos fortes, sobre a necessidade do embellezamento da villa, cujas aguas reputava superiores ás das mais celebradas estações thermaes da Europa . Quando os banhistas que, de manhan, gosavam o sol á porta do hotel da Empreza, o
viam vir pelo largo, encapotado, cabisbaixo , no seu passinho miudo e sereno, alludindo ao seu perfil, que lembrava o do grande imperador, diziam , com malicia : «Ahi vem Napoleão estudando o seu campo de batalha» . A's sete horas já elle estava no consultorio a examinar doentes , desnudando braços flacidos , magras espaduas, nadegas, sempre preconisando o tratamento pelas injecções hypodermicas, unico efficaz na syphilis . -Olhe, meu amigo, dizia, apertando os olhinhos maliciosos, com a seringa entre os dedos- o baptismo devia ser uma boa injecção de mercurio. Para a mancha original sempre seria de mais effeito do que a agua das pias . Deixe lá fallar e, estendendo o braço, mostrava os armarios atochados de livros, citava auctores , capitulos celebres e emittia conceitos occultistas sobre e Homem e a sua misera condição . Nós estamos no planeta para o soffrimento, e só- os gosos são raros , não contam . Fallava de cabeça baixa, sorrindo mysteriosamente, e lá ia desinfectar a agulha, voltava á sala a chamar outro cliente, e desapparecia no gabinete . Um gemido surdo accusava a agulhada, mas o doutor animava, heroico e consolador : - Que vale isso, comparado ás grandes dôres que o senhor tem soffrido ?
Prompto. Vá. Está melhor . E reapparecia, de mangas arregaçadas ; acenava a outro , sempre fallando , explicando, dissertando . Era quasi um prazer aquella hora de consulta. A's vezes detinha-se, contava uma anecdota , um caso clinico, rindo, e todos os enfermos riam com elle, tristemente . Em certos dias apparecia mais cedo, trancava-se : era para os casos discretos- segredo profissional, o sacerdocio, affirmava arregalando os olhos . Finda a consulta, sahia á porta, a espiar, para dar escapúla ao cliente quando não houvesse curiosos no passadiço , nem soassem passos nos corredores. E vultos esgueiravam-se ligeiramente, emjupons, em saias de seda, com mantilhas espessas, sumindo-se nos quartos . O dr. Lino era a chronica de Poços-conhecia a historia da terra e dos homens. A terra : um encanto ! primeiro clima do mundo, aguas incomparaveis . Os homens ... puuh ! arrazava-os : politiqueiros da peior especie , sem a mais breve noção dos direitos humanos e passiveis até ao servilismo . -Carneiros , meu amigo , carneiros . Depois, emperrados na rotina : gostando do lodo em que vivem atolados, oppõem-se a todo o progresso . Quando aqui se fallou em esgottos, houve um levante geral, foi necessario
requisitar força, e veio um sargento com oito homens garantir o trabalho. E frenetico : No dia da inauguração da luz electrica, meu amigo, houve quem se lembrasse de fazer sahir uma procissão de desaggravo. Politica e fanatismo . A egreja é aquillo que vê : um antro . Nem ha sentimento religioso- os desgraçados não vão alli por Deus, vão pelo padre, um machacaz hespanhol, expulso das Philippinas , especie de cura Santa Cruz, que vae para o altar com uma garrucha á cinta e préga aos berros, mostrando os pulsos guedelhudos e esmurrando o pulpito. Tudo perdido, meu amigo- o que ha por ahi é borra de Humanidade . Finda a consulta, suspirando sobre a ignominia dos homens e a falta de tino des governos, sahia a correr a clientela por aquelles valles fóra, de casa em casa, fallando a todos os caipiras, festejando todas as creanças, detendo-se em palestra á porta das lojas, risonho ou resmungando contra a immundicie, o relaxamento . N'essa manhan, fechando o escriptorio , o dr. Lino , de pé , á porta do hotel, lançando um largo olhar pelo campo, todo em sol, não poude calar uma exclamação : Que belleza ! e, murmurando contra os governos que esqueciam aquella maravilha, seguiu, com o guar
AGUA DE JUVENTΑ da-sol ao hombro, em direcção á egreja, cujo sino bimbalhava festivamente . Bandos de senhoras sahiam dos hoteis, espalhavam-se em direcções diversas , cruzando-se com turmas alegres de rapazes , ranchos gárrulos de creanças . Casaes vagarosos preferiam os caminhos desertos, e lá iam, muito juntos , sorrindo, discreteando, felizes na doçura acariciante d'aquelle ar, na alegria azul d'aquella manhan saudavel . Solitarios desviavam-se para os trilhos mais ermos, evitando o bulicio, os encontros importunos ; alguns , com as cabeças embrulhadas em lans, as mãos enluvadas, encapotados, e, por entre as côres alegres dos vestidos que as brisas enfunavam e das sombrinhas claras , abertas como grandes flores , appareciam os andrajos dos mendigos , que esmolavam choramigando . Os passeios eram sempre os mesmos. No tempo secco inventavam-se pic-nics, e eram festivas abaladas para a Cascata das Antas : as senhoras em carros enfeitados de folhagens , os rapazes em matungos frouxos ; eram ascenções á montanha, almoços na Cascatinha. No tempo das perdizes partiam caçadores a caminho da cidade de Caldas, com farneis e cães . Mas os gyros communs não iam alem do perimetro da villa. Os que iam ao mercado, a pretexto de compras, chegando á immensa possilga, desde o alpendre arrependiam-se, vendo os tassalhos de carne, as fressuras das rezes, as grandes mantas de toucinho, os jacás de queijos, as capoeiras d'aves, os taboleiros de doces, junto aos quaes velhas italianas acaipiradas ganiam apregoando rapaduras e bolos, tudo sob nuvens fervilhantes de moscas zumbidoras . Outros subiam ao Cerro das Cruzes, como em penitencia, por sobre as pedras soltas, que rolavam debaixo dos pés, a contar as muletas deixadas pelos que se haviam restabelecido n'aquellas aguas. A's vezes, junto á biquinha que jorra no campo, reuniam-se curiosos - os mais ousados bebiam, mas, arrevessando, provocavam a gargalhada dos companheiros, e a agua salobra lá ficava com a sua virtude, escorrendo para o ribeirão violento . E, até á hora do almoço, nos dias luminosos , era a mesma alegria ao ar livre, a mesma festa ao sol . Ao meio-dia começavam a funccionar as roletas . Os hoteis aquietavam-se, como em somno de sésta : as senhoras recolhiam- se aos quartos ou reuniam-se no salão, cavaqueando preguiçosamente ; algumas tocavam, cantavam romances tristes ou corriam monotonas escalas . Os homens juntavam-se á volta do panno
verde da roleta ou'ao bilhar, ou mesmo no hotel, na sala chamada dos jornaes. Jogavam a manilha, o pocker, cercados pelos paralyticos, que se faziam conduzir em cadeirinhas rolantes para aquella distracção, e alli cochilavam, ás moscas, acordando, sobresaltados , ao estrugir d'um protesto contra a sorte teimosa, ou á gargalhada estrepitosa que celebrava uma anecdota picante. E o dia passava aborrecido, vasio, por entre cavos bocejos . A' tarde, era o passeio á estação, á espera do trem , a ver quem chegava ; depois o jantar no mesmo salão, a correspondencia distribuida por um empregado. As cartas eram abertas com ancia, os jornaes farfalhavam e começavam os commentarios em altas vozes, de mesa para mesa, sobre os telegrammas, as noticias , certos artigos sensacionaes , ás vezes mortes . Depois era o espectaculo maravilhoso do crepusculo , a riqueza do ceu admiravel, broslado de ouro , com grandes viezes de sangue -as ultimas radiações flabellares do sol, os redentes da serra accentuando-se, cravando-se em negro no fundo pallido do horizonte ; as siluetas das arvores , como pintadas no violete assetinado do ceu . E as primeiras estrellas luziam , cantavam os primeiros grillos e as ultimas cigarras .
Os grupos que atravessavam o campo, de vagar, em contemplativo silencio, eram negros como sombras errantes . O sino da egreja dobrava espaçadamente a Trindades , e instantanea, a luz electrica brilhava em todos os pontos e uma claridade, alva e meiga, estendia-se na terra, calada e triste . Começavam , então, os divertimentos nos salões dos hoteis : danças, jogos de prendas , proverbios e, não raro, poesias , recitadas com muita emphase, cançonetas, coplas de revistas . Lembravam-se festas : bailes á fantasia, representação de comedias, um grande cotilon, e todos intimos , como se se conhecessem de muito, trocavam confidencias e havia risinhos pelos cantos, parabens sussurados, ditos maliciosos «que aquellas aguas eram de grande virtude para as moças solteiras» , emquanto lá fóra o luar nevava campos e montes e os ribeirões roncavam no silencio . A's vezes o doutor apparecia , á noite, para um dedo de prosa e o assumpto, ou era escolhido na sciencia e no occultismo, ou na inercia dos nossos homens , e os nomes de Charcot, Hallopeau, Babinsky, Burnouf, Fabre d'Olivet , Eliphas Levy baralhavam-se com os dos cabalistas locaes , os espiritos ramerrameiros que procuravam acalcanhar cada vez mais aquella joia de Deus, e, ás dez horas, quando o
caridoso clinico se despedia ficavam duas verdades na assistencia, fundamente cravadas nos espiritos, como alicerces na terra sobre a qual se edifica- que os antigos iniciados chegaram ao conhecimento de todos os mysterios superiores e que o Severino Lopes era uma zebra acabada. E dormia-se . A' hora do almoço, no vasto salão do hotel da Empreza, o assumpto da palestra era o mesmo em todas as mesas : a chegada de um joven casal, na vespera. Um luxo de principes : dois creados brancos- um rapaz e uma moça- e seis malas bojudas , encapadas, além de maletas e bolsas . Muita empafia, nem se dignaram olhar as pessoas que enchiam a estação ; muito fechados no orgulho -ella, com um costume tailleur, luvas escuras ; elle, de flanella branca, chapeu de palha, bolsa ao tiracollo . Um dos emprezarios do hotel, o Fonseca, fôra á estação recebel-os, muito zumbrido, risonho, offerecendo serviços , pedindo desculpa dos aposentos- muita gente ... um atropello . Elle murmurava com indifferença, relanceando a paizagem; ella fallava á creada, ao creado, baixinho, dando ordens .
Não appareceram ao jantar, não appareceram á noite e na sala, com a decepção, accendeu-se uma revolta : as senhoras murmurando contra os pedantes, os homens cochichando maliciosamente . Um hospede do Globo, que os conhecia, foi logo cercado, assaltaram-n'o com perguntas e, ao chá, toda a gente sabia que eram casados de fresco, dois mezes, talvez... e riquissimos ! Elle vivera sempre na Europa, dissipando a mãos largas com mulheres e ao jogo . Ella, filha unica de um allemão , chefe d'uma grande casa importadora de ferragens e machinas, muito prendada, pianista de mão cheia e formosissima - uma das bellezas do Rio . Concordavam-que sim, era bonita, era elegante mas muito antipathica : um arsinho implicante . As luvas , sobretudo, tornaram-se a nota principal do escandalo, e os creados e aquelle mundo de malas ... nem que aquillo fôsse Petropolis . Era viva a curiosidade na sala- ao mais leve rumor de passos suspendiam-se os talheres e toda a gente cravava os olhos na porta do corredor, á espera dos «pombinhos » . A's decepções succediam-se risos, já se troçava, dizia- se alto, roncantemente : « Ainda não ! » Outros explicavam : «Estão calçando as luvas » .
A mesa que lhes fora destinada, junto a uma janella, alvejava e tinha um vaso de flôres frescas . As senhoras indignavam-se com a demora, tomando-a como uma desconsideração , falta de cortezia . «Se tinham muito dinheiro , comessem mais , ninguem o pedia . Por que não alugaram uma casa? era o que não faltava... Alli eram todos eguaes , pagavam o mesmo . Desaforo ! » Os homens trocavam signaes, piscavam bregeiramente o olho, riam . Mas o creado appareceu , rigido, de preto, cerimonioso, com o cabello côr de mel , muito escorrido e luzente, e sério, sem levantar os olhos , poz-se a alisar a toalha da mesa, ainda esfregou com o guardanapo os talheres , os copos e ficou de pé, imperturbavel, sisudo como uma sentinella . De repente, na mesa fronteira ao corredor , occupada por uma familia nedia, uma moça muito tufada em cassas frouxas , com fitas que esvoaçavam e escorriam aos lados da cadeira, agitou-se, d'olhos arregalados, sacudindo no ar as mãos papudas, como se as houvesse queimado. Toda a sala quedou em attitude de expectativa, e lentamente, alta e esbelta, muito branca, com os louros cabellos enrolados em torre, vestida simplesmente de fustão, a senhora appareceu , logo em seguida o marido, de flanella riscada, gravata solta,
AGUA DE JUVENTΑ de seda clara, cinta de fustão sobre a camisa de baptiste . Inclinaram-se e toda a sala transfigurou-se com aquella deferencia ; e logo appareceram sorrisos , desannuviaram-se as carrancas e a paz restabeleceu-se . Os dois sentaram-se frente a frente, muito direitos , conversando baixinho, emquanto o creado ia e vinha a fazer o serviço da mesa . Ella examinou as rosas com interesse, inclinou-se para lhes sentir o arema, depois , alteando o busto, lançou o olhar ao jardim abandonado , onde uma siry-ema corria, depois relanceou a sala com sobranceria ; elle, d'olhos baixos pensativo, retorcia o bigode lustroso . Eram ambos formosos e contrastavam1- - ella loura, d'uma pelle marmorea, olhos grandes, de longos cilios, azues e cheios d'uma luz de alegria ; elle moreno, os cabellos negros , luzidios, os olhos immensos mas tristes, d'uma tristeza de luto. Começaram a servir- se em silencio e, se fallavam, era como em segredo, os mesmos sorrisos pareciam velados . Pouco a pouco, a sala foi-se esvasiando : sahiam familias, a um de fundo, homens fumando, palitando os dentes até que os dois ficaram sós . Ella, então , voltou-se toda para olhar o salão, fez um momo e sorriu . Era
triste, lugubre, apezar do sol que rebrilhava nos vidros e alastrava o soalho . Ao fundo, entre os immensos armarios envidraçados, em que se perfilavam garrafas , o balcão . O creado, sempre teso, só descruzava os braços para retirar os pratos . Ao fim do almoço elle accendeu um charuto e propoz uma volta. Ella encolheu os hombros : -Vêr o que? - A villa, o que houver . -Com este sol ? -E' que isto aqui dentro é melancolico ... Depois, quem sabe?! póde ser que encontremos alguma curiosidade. Ha sempre uma curiosidade n'estas villotas . -Pois vamos . Levantaram-se e foram vagarosamente pelo corredor deserto, buscar os chapéos ao quarto . A' porta de sahida, no vestibulo, alguns homens digeriam pacatamente, sentados em velhas cadeiras poidas . O largo parecia arder, ao sol . Elle deteve-se hesitante : - Então , Elsa ? Fitaram-se um momento e foi ella quem desceu primeiro : -Já agora ... Sahiram. O nome ouvido não ficou no grupo, passou logo ás senhoras, que houve quem o levasse. Umas acharam-n'o bonito, a gordalhufa das fitas chirriou, rinchavelhou com as bochechas balofas a tremerem .
«Que aquillo não era nome de gente ... » e re petia-o, bufava-o, soprava-o por entre os dentes podres, rindo desbragadamente, a reluzir de suor. E o moço ? indagaram . O moço era Eduardo, isso já se sabia desde a vespera, pelo telegramma que elle passára de S. Paulo pedindo commodos . Correram ás janellas para vêl-os- lá iam elles claros, através da luz que ardia, muito juntos, seguindo ao acaso . Andam em viagem de nupcias , disseram e alguem logo insinuou com perversidade : - Homem , isto de vir a Caldas um mez depois do casamento ... uhm ! Uma senhora magra e sardenta, investiu : - Isso não ! Nem todos que vêm a Caldas soffrem de molestias do sangue. Eu, que aqui estou, posso dizer, com orgulho, que nunca tive uma espinha, com a graça de Deus . Um magricella, promotor n'um vão de serras , em Minas, pilheriou n'um grupo onde se empertigava o «philosopho » , assim alcunhado por um «cometa » , sujeito abaçanado, envernizado, de pince-nez, testa immensa, bigodes retorcidos , citando Augusto Comte a proposito de tudo, das estrellas do ceu e do mau bife, sempre axiomatico, despejando regras com uma pronuncia muito explicada, grave, austero, mesmo quando se dignava sorrir. Aprumando a cabeça sentenciou superiormente :
AGUA DE JUVENΤΑ E' a prophylaxia do thalamo. Ninguem entendeu, todos riram ; o promotor dobrou-se e a gordalhufa, que andava com elle aos boléos , rebentou a rir, com estrondo. E os dois lá iam longe, caminho do ribeirão da Serra, animando a adormecida paizagem. Mais um instante e desappareceram.. Em todo o resto do dia, ás mesas de jogo, nos salões dos hoteis, pelas lojas, não houve outro assumpto senão o «casal» , uns que defendiam, outros que atacavam ; houve mesmo quem se referisse com indignação aos creados - uns patifes ! Mas á tarde, depois do jantar, duas mocinhas mais ousadas , de braço e sorrindo, foram convidar a senhora para brincar , á noite . Ella accedeu , delicada, e as emissarias estenderam o convite a Eduardo : «O senhor tambem» . Elle agradeceu gentilmente e, a noite, láforam . Não faltou ninguem- as mesas de jogo ficaram desertas, mesmo do Globo acudiu gente curiosa de ver a «linda moça porque , cessada a hostilidade, não houve quem não proclamasse a sua belleza e louvasse a sua simplicidade . O mesmo «philosopho » , com um volume de Comte debaixo do braço, lá appareceu prestigiando o «Mia, gato » е а «Barquinhas com a sua presença e commentando as sortes com palavras de bom quilate ,
ás vezes em latim, para a gorda, que ficava maravilhada. E o dr. Altino, o promotor, mestre-sala obrigado, sahiu a propor os jogos . Formou - se a roda e começou a lenga-lenga . Eduardo não se quiz sentar, respondia de pé, sempre attento á mulher em torno da qual havia um sussurro constante de admiração ; só a gorda , sempre a espoucar em riso, «não a achava essas cousas » e irrequieta, rebolindo o corpo anafado , ia e vinha, aos cochichos , deixando um cheiro de herva secca por onde passava, com um tinir de pulseiras e um sarrido d'asthma . Foi ainda o dr. Altino, sempre inventivo, quem lembrou uma quadrilha, antes do chá e, do meio da sala, espichando-se nas pontas dos pés , com as mangas muito largas a escorrerem-lhe pelo braço, bradou : «Tirem pares ! » e , antes que outro se adiantasse , curvou - se deante de Elsa offerecendo-lhe o braço secco . A gorda amuou e ás rabanadas , abalou , a tresandar, e uma senhora, muito instada, foi para o piano , em triumpho, e, ao signal da quadrilha , estrugiu uma salva de palmas . Eduardo , encostado ao umbral da porta, fumando , acompanhava a evolução dos pares e estava assim distrahido quando o emprezario do hotel o chamou á parte para apresen
tar-lhe o dr. Lino . O moço adiantou-se e estendeu a mão ao medico, que quasi desapparecia n'um immenso e pesado capote, desculpando-se de só chegar áquella hora por ter ido a um chamado, na visinha cidade de Caldas- viagem infame, caminhos intransitaveis , nem um rancho. Andurriaes ! E dizer-se que isto podia ser melhor que Petropolis ... Eduardo afastou -se attrahindo o medico para o corredor ; convidou-o a entrar no seu quarto . A hora não era muito propria para consulta, mas tivesse paciencia- estava ancioso por ouvir a sua opinião. O doutor adiantou -se solicito : - Estou inteiramente ás suas ordens . Além de ser do meu dever, o senhor vem recommendado por um dos homens que mais aprecio e respeito. E sacudiu a cabeça : Um homem raro ! Homem para salvar o paiz . Foram caminhando . Entrando no quarto, Eduardo fez sahir a creada e trancou-se com o medico e, por todo o hotel, retumbava a voz esganiçada do bacharel, berrando marcas complicadas , ao som fanho de atropelladas notas, que saltitavam assanhadas sob os dedos magros da pianista. A' hora do chá, não vendo o marido , Elsa perguntou por elle, sobresaltada, e ainda arfando de cançaço . «Sahira com o doutor»,
disseram , e as senhoras envolveram-n'a, foram-n'a levando para a sala de jantar. Passando pelo quarto não se conteve- bateu, chamou o marido- elle entreabriu a porta, tranquillisou-a e trancou- se de novo. O creado lá estava hirto , deante da mesa , á espera . Elsa sentou-se só e triste , com o olhar perdido, tomando o chá machinalmente , aos pequeninos goles . De repente voltou-se, deu uma ordem, e o creado partiu apressado . Quando reappareceu , curvou-se, sussurrou um recado e ficou d'olhos na porta do corredor, como á espera d'alguem . Effectivamente, Eduardo entrou na sala com o medico é , apresentando-o á mulher, offereceu -lhe a cadeira que o creado approximára , logo inclinando-se para receber uma ordem. O doutor, sabendo que haviam percorrido uma boa parte da villa, pediu a opinião de Elsa ; ella sorriu, deu d'hombros, receiando comprometter-se . -Um horror!-minha senhora- peior que Nauplusa . Eu sou o primeiro a dizer : Peior que Nauplusa. Isto seria um paraiso, disse, com as duas mãos abertas, adejando no ar, se o governo me attendesse. Vivo a gastar palavras . Não temos homens. Isto é um paiz sem almas . O creado serviu cerveja eomedico, entrando a fundo no seu assumpto, re
feriu-se ás aguas, ao clima, ás florestas que cercavam aquella estancia admiravel , a tudo que a natureza prodiga offerecia, e atacou o povo : gente sordida, cochinos , verdadeiros cochinos . Ha aqui, em terra d'aguas , muita gente que nunca lavou o rosto, garanto. Conheço-os a todos. Temos uns tantos banhos, gratis , a que nos obrigámos pelo contracto de arrendamento ; pois, minha senhora, nunca houve quem os pedisse . Se fossem de lodo, no charco , seriam disputados á faca, como eleições , mas, como são em banheiras, ninguem os quer. Expoz o seu plano de embellezamento, e, fallando, enchia o copo de cerveja, levantando a garrafa para fazer espuma, sorvia-a com delicia, e, de novo, referia episodios da vida calaceira d'aquella gente, sempre chafurdada em politiquice- os homens amorrinhando ao sol, as mulheres pela sacristia, babando maledicencias venenosas , intrigando . Povo salaz ! Ha gente boa, ha, mas ... é uma minoria, e fraca, que succumbe sob a avalanche lorpa. Eram onze horas . O hotel ficára em silencio. Um empregado cochilava ao balcão . O doutor levantou-se apressado, a pedir desculpa da imprudencia- não déra pelo tempo ; e emprazou Eduardo, para as sete da manhan, no consultorio .
Seguiram juntos pelo corredor até a porta do quarto , onde a creada esperava pacientemente . O doutor despediu-se ; os dois entraram . Elsa , depois de respirar, alliviada, sorriu ao marido que a contemplava. - Não imaginas como me diverti na sala... Riram . Ella passou ao quarto em que installára o toilette , onde a creada ia abrindo malas, tirando roupas claras, que estendia no respaldar das cadeiras. Eduardo abriu a janella e debruçou-se. A noite ia clara e fria , com uma lua enorme e reluzente no meio do ceu. As lampadas electricas irradiavam na escuridão erma das ruas e dos campos e a voz das aguas, unica no silencio, rolava, profunda, como o resomnar da paizagem . Fumando , com o olhar mergulhado na melancolia d'aquelle ceu , relembrava, uma a uma, as palavras do medico, que não pudera dissimular o espanto ao ouvil-o. Animára-o por fim ... mas haveria sinceridade nas suas affirmativas ? Um, em Petropolis , aconselháralhe o mar, o mar vivo de Copacabana, mar livre da costa, arrojando-se alteroso, estrondosamente, no areial. Outro, do Rio, impuzera um regimen de actividade no campo : exercicios , passeios a cavallo, tonicos naturaes - bom ar, bom leite, boa fructa, carne san,
nada de livros, ó cerebro em absoluto repouso , nenhuma preoccupação . Ainda outro suggerira a electricidade e aquelle , apoiado em opiniões de peso, citando grandes nomes , compromettia-se a cural-o só com a hydrotherapia e os exercicios normaes , gradativos . Só agua e passeios , agua aos jorros, duchas que despertassem a energia nervosa, e garantia o triumpho, com a certeza de um Deus que dispuzesse da vida e realizasse milagres só com o seu querer omnipotente . Mas a que devia elle attribuir aquelle horrendo mal ? Chegava a suspeitar de sortilegios , philtros poderosos ... Amantes ... tivera tantas ! Um mez antes do casamento embarcára a ultima para a Europa, bem dotada e com uma palavra enganadora de esperança, e as outras ? Molestia ... mas que molestia ? Sentia-se forte, bem disposto ... Se passava as noites em claro era pela agonia d'aquella vida de ancia, pelo horror d'aquella situação insupportavel que o humilhava e torturava a ambos . Uma voz cantava ao longe e perdia-se aos poucos, distanciava-se, como se a levasse o vento, e o luar, á maneira de uma flor nocturna que se vae abrindo e trescalando , accendia-se mais, clareando os outeiros e fazendo realçar muros alvadios no fundo escuro e silencioso dos campos .
Era tarde : um relogio bateu as horas vagaroso . Elsa , prompta, mandou a creada avisal-o -elle fechou a janella. A creada sahiu em surdos passos e um aroma suave espalhou-se no quarto, onde o leito alvejava, e Elsa, com a camisola branca levemente franzida á cinta por uma fita, as mangas de finas rendas, largas, fugindo , desnudando os roliços braços niveos quando ella os levantava, a golla com um breve decote em frocos de rendas, o cabello alto, o pescoço branco e liso como um fuste de columna, entrou vagarosamente, e, estendendo-lhe as mãos ambas, fitou-o com os seus grandes olhos azues, meigos, languidos, amortecidos d'amor . Elle sentia-lhe as mãos que esfriavam, fremiam como arripiadas, sentia-lhe o halito e o aroma que ella toda esparzia, via-lhe o collo arfante que levantava as rendas leves . Ella murmurou, mimosa e languida : -Estou com somno ... Elle, com os dedos crispados , torturava-a; ella inclinou a cabeça sem uma queixa, submissa , vencida, apertando o labio com os dentinhos, e elle, allucinado, beijou-a, beijou-a, e ella entregou-selhe, pesando sobre o seu hombro n'uma abatida inercia, a sorrir .
Delicadamente, afastando-a, passou ao quarto contiguo . Entrou afogueado, tonto e, diante do espelho, livido, com os olhos chammejantes, as temporas latejando, ficou um momento parado , inerte, sem tomar folego . A cama estrallejou , uma sandalia cahiu , depois outra ; houve um roçagar de cobertas puxadas, um fofo abater de corpo que se deita maciamente, depois um suspiro abafado. Elle ouvia, attento, d'olhos muito abertos, os braços cruzados . De repente, sem conter- se, com as lagrimas correndo, deixou-se cahir em uma das malas, abafando os soluços com as mãos ambas .
/ II E DUARDO , que passára toda a noite em claro, rondando desesperadamente o somno tranquillo de Elsa que, na morna penumbra do quarto, onde mal chegava um livor tremulo da lamparina, que velava no aposento contiguo, toda branca e immovel, alvejava como um pouco de luar na sombra, sahiu cedo, com ancia de vêr o medico, de ouvil-o, de experimentar o seu tratamento. Uma claridade fusca de manhan de inverno entristecia os longos corredores desertos, por onde um vento frio enfiava. No salão de jantar iam e vinham creados em mangas de camisa . Abriu a grande porta envidraçada e sahiu para o vestibulo, a olhar o campo ainda em
AGUA DE JUVENTΑ brumas, sem sol. Um velho, roto e descalço, estendeu-lhe a mão magra, murmurando um pedido . «Logo . Não tinha» . Aquella miseria irritou-o, como um presagio funesto, e o velho, humilde, cobrindo a cabeça, d'um amarello sujo, com o chapeu esburacado , cujas abas molles cahiam desbeiçadas , deixou-se ficar encostado á parede, muito encolhido, raspando a pedra do limiar com a ponta do cajado . Eduardo alli esteve n'um verdadeiro abandono, sem sentir o tempo, sem dar pelo desannuviamento do ceu, toldado de nuvens á sua chegada e então todo azul, liso e luminoso, com um brilho fino de esmalte. A porta abria-se rinchando á passagem d'homens que vinham do banho e sahiam para o ar livre contentes , galrando e rindo, n'um bem-estar de saude, amas com pequenitos alegres e barulhentos ; e o velho a todos estendia a mão , com a mesma lamuria, com a mesma humildade, sem levantar os olhos, beijando devotamente as moedas que recebia, com um suspiro quando as guardava no bolso fundo do casacão remendado . O medico tardava- eram sete e um quarto e Eduardo, impaciente, nervoso, bateu com o pé e levantou-se de mãos nos bolsos, mascando irritadamente o charuto . Descia o priAGUA DE JUVENTΑ meiro degráo da escada, disposto a dar uma volta pelo campo, quando Alfredo, muito açodado, abriu , de chofre, a porta, correndo a prevenil-o : « Que o doutor estava á sua espera ...>>> Eduardo voltou-se vivamente, com um affluxo de sangue para o coração e subiu, foi-se, corredor a fóra , preoccupado . O medico, sempre encapotado, passeava no passadiço que levava aos banheiros, esfregando as mãos. Ao vêl-o, sorriu . Eduardo desculpou- se : «Estava sentado á porta. Não o vira entrar » . -Passei pelos fundos, disse o dr. Lino , e, deante da porta do consultorio, afastou-se, cedendo a passagem. A chave rangeu . Elsa, abrindo os olhos, relanceou o quarto e, não vendo o marido, chamou-o. A lamparina vasquejava crepitando nos ultimos lampejos , e, pelas frinchas das janellas, entravam faixas de sol polvilhadas de ouro . Ella soergueu o busto, passou os braços por baixo da cabeça e estirou -se de novo no concavo que o seu corpo cavára no leito tepido, e, d'olhos parados, muito abertos, ficou a pensar. O sangue, aquecido e forte , refervia-lhe nas veias, a sua carne tinha crispações como a agua d'um lago que as auras frizam, um
torpor prostrava-a, embriagava-a deliciosamente . Sentia-se, por vezes, como lambida por uma chamma, depois era uma sensação macia de velludo correndo-lhe a flor da pelle, lenta, molle, sensual. Cerrou as palpebras, com um arfar mais forte, que fazia ondular a coberta, relembrando os seus sonhos . Elle ... Era aquelle o homem que o seu coração reclamára, sentindo-o proprio para fazel-a feliz, amando-a com aquella ternura que ella imaginava existir no amor; todavia, andavam como peregrinos, como malditos, perseguidos por um fado cruel, de logarejo em logarejo , fugindo á cidade, onde haviam, com tanto esmero, composto o ninho de amor que lá estava fechado, esquecido, com um velho creado a guardal-o . Viviam tão longe um do outro como no tempo em que, ainda noiva, compunha a ventura com as promessas que d'elle colhia, as mudas promessas que as mãos juntas permutam e que os olhos languidos confirmam. Desde a noite do casamento trazia no coração aquelle receio e na carne aquella inexplicavel adustão . Buscava-o e elle fugia-lhe . Seria verdade o que elle lhe dissera, com lagrimas , ou haveria entre os dois um voto sinistro , algum juramento terrivel ?
Que sabia ella do mundo ? Vivera sempre na mais recatada innocencia entre os paes, duas almas simples, e partira para a sonhada felicidade arrebatada nos braços d'aquelle que a desposára, deixando-se levar sem mesmo volver os olhos para o lar que abandonava. Tudo era mysterio para a sua alma, todas as suas interrogações afflictas ficavam sem resposta. O que elle lhe dissera, n'um tom de voz em que havia desespero e medo, podia ser verdade mas ... Uma noite encontrára-o chorando, na sombra d'uma janella, e rompendo allucinadamente d'agonia, com o rosto, molhado em lagrimas, a estremecer com os soluços, elle beijára-a muito para, instantes depois , afastar-se triste, arrancando os cabellos, rangendo os dentes . Reabriu os olhos humidos e, mais vivo, ο calor ardeu-lhe no corpo queimando-lhe o seio , incendiando-lhe as faces . Bateram de leve á porta- era Eugenia. Elsa perguntou pelo marido . -Alfredo disse-me que elle está com o doutor . A senhora não vae ao banho ? -Sim ; vou . -Quer antes uma chicara de café ? -Pois sim . Eugenia entreabriu a janella do toilette e houve um clarão. Elsa espreguiçou-se, ergueu-se lesta e toda a sua farta ca
AGUA DE JUVENTΑ belleira , desenrolando-se, despenhou-se pesadamente . No toilette, emquanto lavava o rosto e escovava os dentes , ouvia Eugenia que, a abrir malas, ia fazendo a descripção minuciosa do que vira no estabelecimento balnear : Os compridos e estreitos corredores onde ficavam os cubiculos dos banheiros, os typos curiosos que encontrára pelo passadiço, na sala de espera- gente de outros hoteis : homens macilentos, lividos, alguns escondendo mazellas , com os pescoços muito atabafados, as mãos enfiadas nos bolsos dos capotes, calados, macambuzios. Mulheres com mantilhas pela cabeça, amarellas, enjoadas , tossindo . Um entrevado, que fôra em braços, sorrindo idiotamente, ficára encolhido n'um banco, entre um negro e uma velha, a olhar, com a bocca aberta, o labio pendido , escorrendo baba. Um padre que lia, fungando alto, resmungando de instante a instante, furioso , impaciente, a espichar os olhos para o corredor central . Uma balburdia, um ir e vir constante de doentes e todos servindo-se das mesmas banheiras . Eugenia concluiu com um momo de nojo : «Eu é que não me metto n'esses banhos . Deus me livre! Estou lá para apanhar alguma coisa » . Elsa sorriu e, curiosa, poz-se a interrogal-a
sobre pessoas do hotel : se as vira, se lhes notára alguma coisa ; e a creada lá ia estendendo as suas informações, fazendo commentarios, aventurando suspeitas . Quando se viu prompta, mirou-se ao espelho e decidiu-se a sahir. A creada tomou um casacão de agasalho e a toalha felpuda , e lá foram as duas pelo corredor. Os homens afastavam-se, cosiam-se com a parede, cumprimentando respeitosamente ; senhoras passavam ligeiras , de cabeça baixa, muito forradas d'abafos , receiando as correntes de ar . Na sala, o «philosopho» , repimpado na cadeira de balanço, com a immensa testa a reluzir, os bigodes muito esticados , agudos como espinhos, lia um grande livro ; mas , sentindo passos femininos , voltou o olhar hypocrita, soergueu-se, muito grave, curvou-se <com o respeito que a escola impõe a todas as mulheres » , depois refestelou-se, ainda retorceu as pontas dos bigodes e mergulhou os olhos no transcendente , com o espirito , mais faceto e invisivel , a espairecer em carnes . Quando Elsa chegou ao estabelecimento , o dr. Altino , que conseguira um banheiro e conversava intimamente com o homem que o lavava a grandes vassouradas , fez questão de o ceder. Não tinha pressa. E, saracoteando , a rir, com o rosto contrahido para que não
apparecessem os dentes podres, afastou-se triumphante, quando Elsa, vencida, agradeceu-lhe o obsequio . Rejubilou com aquelle acto de cavalheirismo «medieval » , já deliciando-se com os parabens que receberia quando o referisse na «roda» , com alguns accrescimos-um aperto de mão , um sorriso amavel. Eugenia, que antipathisava com elle, conservou-se sempre reservada, sisuda, muito direita, com o casacão e a toalha no braço , sem o olhar sequer e, quando entrou, acompanhando Elsa ao banheiro, explodiu : -Que homemsinho ridiculo ! E como encara a gente, sempre a torcer aquelles fiapos da cara. A agua jorrava das torneiras e Elsa olhava-a distrahidamente, tão limpida, suave como um oleo fino. Quando o creado appareceu, com o thermometro , para tomar a temperatura d'agua, ella perguntou pelo maridose o vira ? --Sim senhora : está nas duchas . -Ha muito tempo ? -Não , senhora : não ha dez minutos ainda. Prompto o banho, Elsa despediu Eugenia, com ordem de ficar á porta, esperando-a . Despiu-se, e alva, no esplendor do seu corpo de linhas todas puras, reflectiu-se n'agua, como uma nympha, e deitou-se, deliciada, gozando a caricia tepida, esticando-se a todo o compri
mento do banheiro de cimento escuro . A voluptuosa agua amollecia-a e, inerte , os braços cruzados sobre os seios rijos , cerrou os olhos, e alli jazia, longe da vida, n'um sonho suave, quando bateram á porta . -Quem é ? perguntou, sobresaltada . -Eu ! disse Eduardo alegremente. Demoras muito ? Não . Vou sahir . -E' tarde . Se queres dar um passeio antes do almoço , avia-te . - Vou já . E' só o tempo de enxugar e vestir-me . Sahiu d'agua, contente como se houvesse recebido uma boa nova, com um sorriso estampado no rosto lindo. Enxugou-se ás pressas, vestiu-se e , entreabrindo a porta, chamou a creada, anciosa por saber o resultado da consulta, «que dissera o medico ?», sentindo, de novo , o calor que lhe abrazava o corpo, a mesma sensação deliciosa de um velludo que lhe fosse roçando a espinha. Vestida , deu um olhar ligeiro ao espelho, enfiou o casacão de golla alta e foi-se apressada, sem mesmo olhar, attender ás pessoas que a saudavam . A gorda, que grasnava n'um grupo, voltou o rosto e espirrou um risinho quando a viu passar com um farfalho de rendas. Outras senhoras ficaram a admiral-a, achando-a linda
AGUA DE JUVENTΑ -gabavam-lhe os olhos, os cabellos , a côr da pelle fina, a graça do andar airoso . Eduardo estava á porta do quarto, sorrindo-dando com os olhos n'elle, sem preoccupar-se com os homens que passeavam no corredor, partiu a correr, como uma creança, e atirou-se-lhe nos braços. Entraram-elle levou-a, muito chegada ao peito, para o sofásinho , e sentaram-se . -Estás com as mãos geladas, disse ella, achegando - se muito ao marido, como a querer transmittir-lhe o calor que sentia; e elle, radiante : -Tiritei , meu amor. Mas creio que o medico disse a verdade : é a vida que volta. -Que sentes ? perguntou ingenuamente . Elle fitou n'ella um olhar cheio de desejo , ficou a contemplal-a languidamente e, enlaçando -lhe a cabeça com o braço, attrahiu-lhe a bocca e ficaram enlevados n'um beijo que os fazia estremecer e lhes tomou o halito . Ella, sem folego , arrancou- se anciada, respirando largamente, cançadamente . -Ah ! Elsa ... Subito, n'uma decidida resolução, levantou-se afogueado : Queres vir ? Está uma manhan lindissima ! Vamos por ahi devagar . Vou arranjar-me. Olha como tenho os cabellos .
AGUA DE JUVENTΑ -Acho-te mais linda assim . - Queres que eu saia por ahi desgrenhada como uma louca ? E' um momento . Chamou Eugenia . Eduardo , á janella, olhava, cheio de esperança, para aquelles verdes campos, para aquelles cerros , para toda aquella terra , mãe d'aquellas aguas bemditas que o haviam de refazer para a vida e para o amor. Sentia-se outro . Alguma coisa revivera n'elle sob a violencia d'aquellas rudes lambadas d'agua. A alegria repontava no seu coração , como a herva florida, que, ao cahir das chuvas, rebenta n'um terreno longamente causticado pelo sol. E olhava, como a divisar os dias novos, de ventura, e, ouvindo a voz harmoniosa de Elsa, mais se alegrava, tambem por ella, pobresinha ! que vivia torturada de amor, sopitando os estúos violentos da mocidade, calando, contendo a sua ancia, resignada, passiva, para não augmentar-lhe a tortura. -Vamos , Elsa. O sol começa a aquecer. -Vamos . Estava prompta e deslumbrante. Sahiram . Na sala, o «philosopho>> dissertava sobre questões de linguistica com um anafado negociante de couros e um fazendeiro italiano, que mancava, com uma ulcera no tornozello , quando o dr. Altino irrompeu, gabando o ba
nho . «Uma delicia ! Divino ! Deixára-se ficar mettido n'agua, a gosar, mais de meia hora» . E concluiu : «Ah ! os romanos ! os romanos ! grande povo ... As thermas de Tito, hein? Já leste ?>> O «philosopho» acenou com geito grave- que sim , tinha lido tudo . Os dois outros conservavam-se boquiabertos . O negociante foi para a janella escarrar a sua gosma, o da ulcera sentou-se, trincando o beiço , esticando a perna ; os outros remontaram sabiamente, mas o promotor, pesado de luxuria, veio logo abaixo , ao lodaçal torpe da devassidão, communicou ao «philosopho>> o incidente amavel- accrescentando : «que ella lhe estendera a mão que mão ! » - chupou, n'um sorvo, os cacos, com os olhos em alvo - e que sorrira . Depois, sempre lubrico , mudando de tom, perguntou, com mysterio : «E tu , já reparaste na creada? » O «philosopho » franziu a testa immensa em sulcos de indignação . « Pois olha é bem bonita ! Um bocado magnifico. Repara » . O outro encolheu os hombros, com desprezo . «E' o que te digo . E eu , em materia de mulheres , sou mestre. Tenho visto o que ha de bom» . Mas, voltou á Elsa , imaginando-a no banheiro, núa, sob a transparencia d'agua . Hein ? Senhoras chegavam, e a gorda, dando com o promotor, ainda purpureo d'enthusiasmo
erotico, perguntou-lhe, com ironia, se dormira bem, se tivera sonhos agradaveis . Elle sorriu e ia sussurrar uma phrase amavel, quando ella o repelliu com um mochocho , rabeando com as saias muito anchas e em prégas duras , de gomma. O «philosopho» voltou ao espiritual, afundando na cadeira com o grande volume . A' hora do almoço, já intimos, os hospedes não se preoccuparam com Alfredo, sempre rigido, e receberam o casal sorrindo . A' noite appareceu na sala- descoberta do dr. Altino-um homem que deitava as cartas . Foi um successo . Fechado n'um circulo ancioso, a baralhar com mysterio, fazendo passes cabalisticos , dizia o futuro das senhoras, e todas, com os olhos abertos, cravados na mesa, esperavam as palavras do cartomante que combinava as figuras e, das relações das cartas , tirava conclusões oraculares , dizendo : «Muito ouro, um casamento feliz, uma viagem, molestia curta» . A's vezes empacava, embaraçado, e o silencio tornavase maior, cheio d'angustia- eram sombras, difficuldades , interpretação complicada . A victima empallidecia, mas impunha corajosamente :
-Que lesse, fosse franco. Sabia mesmo que havia de ser sempre infeliz . Consolavam-n'a com palavras animadoras , e o homem, sem inspiração, suando em bagas , assegurava que não havia nada de mal, pelo contrario- lá estava a boa carta, que conjurava todas as desgraças e, discorrendo, era como um ligeiro rio de ventura, que derivasse docemente, sem embaraços, por meandros suaves, deixando em todas as almas um pouco de felicidade . Elsa sorria, sem atrever-se a pedir o seu destino e foi a pianista, a bôa e magra D. Ursulina, quem fallou por ella. -Veja a sorte de D. Elsa, snr . Cruz . O circulo apertou-se mais. O Cruz pigarreou, baralhando as cartas, com duas centelhas nos oculos, lançou os macinhos na mesa e, descobrindo a primeira carta, declarou , risonho : -Muita felicidade no amor . -Puderal exclamou D. Ursulina . Tambem se ella não fosse feliz no amor não sei que mais havia de ser. Vozes reclamaram silencio e o Cruz , inspirado, foi interpretando : uma viagem , filhos : dois filhos . Houve risinhos maliciosos . A gorda casquinou, derreando-se toda, com um despejo de banhas sobre uma mocinha ruiva, picada de sardas, para sussurrar um segredo. Ouro, sempre ouro, muito ouro, augurou o Cruz, mas hesitou, gaguejou pousando na mesa uma carta que representava um esquife . - Um caixão de defuncto, não é? perguntou Elsa e, sorrindo conformada, adiantou : E' a morte . O Cruz, atarantado, quiz corrigir, mas , diante da figura sinistra, titubeava : - Não , aqui quer dizer- molestia grave ... molestia grave. Resolutamente virou outra carta- era uma arvore de grosso tronco, muito esgalhada, toda verde . Cá está a saude, disse triumphante com a carta entre os dedos, mostrando-a. Eu bem dizia ... E, continuando a cartear, teve um movimento subito de espanto , illuminou-se-lhe a physionomia, e, com um formidavel murro que fez tremer a mesinha, achatou uma carta, bradando : A victorial Era um fundo ceu azul com o sol irradiante. E concluiu : Um sortão ! Fóra a doença, é uma sorte admiravel, soberba! O «philosopho » , sempre teso ao lado do dr. Altino , contemplava , com indifferença, aquella superstição, mas o promotor não se conteve- quiz tambem levantar uma ponta do véo mysterioso, desvendar alguma coisa na sombra do porvir e pediu a sua sorte. Foi hilariante . Logo um casamento, um rancho de filhos , trabalhos e a immobilidade - acaAGUA DE JUVENTΑ baria entre as serras , vegetando obscuramente n'um triste canto do interior . : - Coitado, do dr. Altinol lamentou D. Ursulina ; outros lastimaram o destino ingrato ; mas o promotor protestou : -Que não ! estava bem contente com a sua sorte, nem queria outra coisa. Tivesse elle saude ... O Cruz offereceu-se para ler a sorte do «philosopho» ; elle recusou. - Era positivista... Não concorria, mesmo brincando, para alimentar a superstição . -E' só parapassarmos o tempo, doutor, disseram . Elle insistiu na recusa . Houve algazarra : -Tem medol Tem medol -Medol eu ? Acho pueril. Quem lê, quem estuda, não pode tomar a sério essas coisas . O Cruz, muito grave , defendendo a sua sciencia mysteriosa, declarou : « Que o grande Napoleão Bonaparte consultava cartomantes ... - Ora, Napoleão Bonaparte ... -Sim , senhor, Napoleão Bonaparte, o grande . Posso provar, está nos livros . - Qual ! Emfim, como passa-tempo, vá, passa-tempo para senhoras e creanças , mas para um espirito emancipado, que tem a sua disciplina philosophica, como eu ... atirou um gesto desprezivel como se lançasse de si uma immundicie . Mas as senhoras teimaram, pediram ao Cruz que lesse .
- Então , doutor ... Vamos ver? O «philosopho» deu d'hombros e o Cruz lançou as cartas . Logo á primeira estrondaram gargaThadas : era um vergalho. O Cruz carregando o sobrecenho , decifrou : difficuldades , trabalhos . Vieram ratos - e foi uma balburdia na assistencia . Traições em negocios, interpretou o cartomante . Uma carta sellada ... Ahn ! o segredo ... Agora ... Agora ... Curvaram-se todos , alguns mesmo puzeram-se de pé para vêr melhor : veio uma mulher. Estrugiram palmas . O austero homem fôra pilhado, lá estava a coisa e, por ultimo , uma raposa encurralada na toca, a olhar com desconfiança. O doutor dissimula, disse o Cruz . - Deve ser isso, concordou, já azedo , o <philosopho » e, como a ultima carta annunciasse mudança de vida, logo as senhoras traduziram : casamento . E até a hora do chá o Cruz espalhou, a mãos largas, a fortuna, a alegria, a esperança feliz, abonançando as almas mais desesperadas . Mesmo a gorda rejubilou com a promessa de uma proxima carta que lhe havia de dar «summo contentamento» , no dizer do augure . Ao chá não se fallou em outra coisa : recapitularam-se , compararam- se as sortes, todos contentes porque, em verdade, ninguem ficára sem louvor e sem uma doce esperança.
Só o dr. Altino, engrolando o pão entre as gengivas , esmoía aquelle presagio tremendo de uma vida raza, entre montes, sobre autos , com um tropel de filhos á volta da sua sobrecasaca circumspecta de juiz e uma mulher achamboada, pesada matrona de roça, de saia de chita, casaco frouxo , chinellas de liga, as banhas molles e soltas, costurando junto à janella ou a mexer taxadas de doce. Uma espiga ! O «philosopho» desabou, com muita sciencia , sobre a imbecilidade do Cruz e foi cruel com a assembléa : O idiota diz aquellas coisas n'um tom cathedratico e os parvos admiram-n'o . O nosso povo é isto- massa ignara, sem cultura, incapaz de raciocinio . E são essas as mães que devem preparar o cidadão do futuro. Revolta ! ... Eu, queres que te diga ? eu tenho nojo ... E, como o creado lhe servisse café, repelliu a chicara com desprezo . - Não tomo café, já lhe disse ... -Ah ! é verdade, desculpe. V. s. é só leite... por causa da religião. Desculpe ...
III U MA manhan, ao voltarem da estação onde tinham ido assistir á partida do trem , Elsa suspirou nostalgica : «Que faziam alli ? Estava com tanta saudade do Rio, dos seus ... Eduardo conservou- se calado, taciturno e, até o hotel, não trocaram palavra . Eugenia acabava de arrumar os quartos e alisava a cama sobre a qual o sol estendia uma faixa de ouro . O ar fino das serras entrava ás bafagens macias pelas janellas largas . Cigarras cantavam e bandos de pequeninas borboletas brancas revoavam como petalas soltas que o vento levasse em remoinhos . Eduardo accendeu um cigarro e, emquanto a mulher se revia ao espelho, recompondo os
cabellos esvoaçantes, poz-se a mirar as unhas, limpando-as, polindo-as com um pequenino estylete de prata . Quando a creada sahiu elle deu volta á chave , atirou fóra o cigarro e, sentando-se em uma poltrona de vime, chamou a mulher. Ella voltou-se sorrindo , como arrependida , a pedir perdão com os olhos meigos , do movimento de impaciencia que tivera . - Ficaste sentido commigo ? - Não . -Que queres ... isto está tão triste, Eduardo . O melhor é não irmos mais á estação . Não imagines como eu fico quando vejo partir o trem . Lembro-me de tudo : da nossa casa, de mamãe, de papae ... Elle olhava-a, enternecido. Estendeu-lhe os braços , ella chegou-se, attrahida, e sentandose-lhe ao collo, vergonhosa, com as faces abrazadas , quedou-se de olhos baixos .- Aqui, nem sequer podemos estar á vontade, murmurou , a medo : sempre ha gente a chamarme ; e já não supporto os taes divertimentos -irritam-me. Vou, emfim, para que não digam que sou orgulhosa . Elle ouviu-a, sem achar uma palavra para dizer-lhe ; temia confessar a verdade , e ficaram largo tempo calados , á espera um do outro . Ella corava, empallidecia, as mãos ge
AGUA DE JUVENTΑ lavam-se-lhe . Elle, vasio, sem uma inspiração , procurava uma maneira delicada de narrar o seu soffrimento, na qual ella visse, com a flagrante , dolorosa verdade, a sua situação desesperada. Porque já não confiava nas aguas , aquellas aguas que brotavam quentes das veias profundas da terra, como um sangue forte, que renovava as energias gastas, que transmittia vida, mocidade, reparava as desfeitas das molestias , revigorava, reanimava os debilitados. Quinze dias de tratamento, e nada : a mesma inercia cruel . De repente, tomando-lhe delicadamente o rosto nas duas mãos , fitando-a bem nos olhos, perguntou com meiguice : -Tu não tens pena de mim, Elsa ? Ella corou subitamente e dos seus lindos olhos, sobre os quaes as palpebras cahiram , duas lagrimas desceram lentas. De novo calados , constrangidos , soffrendo, apertavam- se as mãos com ancia, e foi elle, por fim, quem se resolveu a fallar : -Ouve, Elsa, tu és pura, bem sei, mas , para iniciar a innocencia, fez Deus o instincto . Ainda que a tua alma se não tenha insurgido contra mim, sinto que o teu corpo revolta-se . Ella fez um movimento para protestar, elle conteve-a .
AGUA DE JUVENTΑ - Deixa me fallar, não ha no que digo offensa, nem immoralidade, acredita. Sabes que te amo loucamente, vivo por ti só- e has de ter prova d'isso , affirmou com voz surdamas sou um desgraçado . Ella encarou-o. Por que ? não sei . Estraguei-me ... Os medicos dizem tanta coisa ... que eu tenho isto, aquillo . Fallam de uma molestia nervosa ; o dr . Lino attribue exclusivamente ao cerebro acha que sou um obcecado. Sei lá ! A verdade é que nada conseguem ... Sou um homem perdido . Esgotei-me ... Fui um estroina, mais, talvez , do que isso- um devasso . Emquanto vivi na Europa, dissipei a mocidade sadia , com a mesma largueza eamesma indifferença com que gastava aos milheiros de francos . Nunca fiz contas , nunca me preoccupei com molestias- o meu banqueiro e os meus vinte annos não me negavam recursos : fui o verdadeiro prodigo . Não houve estravagancia que eu não fizesse, ás vezes , senão sempre, por ostentação, para dar que fallar . Eu tinha orgulho do vicio. A roda que eu frequentava era a mais elegante , a mais exigente, e eu, para impor-me, excedia a todos em loucuras . Vivia n'um verdadeiro fervedouro, percorrendo desenfreadamente toda a escala das emoções , n'uma fadiga que me consumia e contra a qual só a vaidade reagia. Era o jogo , eram as ceias, as continuadas vigilias de amor, lances de audacia incrivel que me grangearam uma fama que, n'esse tempo , me orgulhava e hoje enche-me de vergonha . Apontavam-me, em Paris, como um heroe de aventuras extraordinarias e eu era disputado pelas ephemeras com verdadeira furia . Não sei como chegou aos nobres salões armoriados a minha chronica, o caso é que as grandes damas assaltavam-me com avidez, e eu fui o amante de não sei quantas hystericas , que se saciavam em mim com frenesi de possessas . Vivi assim durante annos e quando deixei Paris , sentiu-se um grande vacuo e , ainda hoje, nas cartas que de lá recebo, os amigos referem-se a minha ausencia como a um desastre, lamentando a cidade, que perdeu o brilho e a graça e escabuja na banalidade . No Brasil procurei refazer-me , mas como a fadiga só irrompe quando o corpo se entrega ao descanço -a tensão nervosa mantem-se emquanto dura a acção, mas afrouxa, lassa , flacida, logo que se enfraquece, todas as molestias incubadas explodiram quando me apanharam abatido . Fui covardemente assaltado e soffri , durante um anno, quanto se póde soffrer. Foi no fim da convalescença que tive
a fortuna de encontrar-te em Friburgo e, desde logo, amei-te, escravisei- me aos teus olhos , prendi-me á graça purissima da tua mocidade e da tua meiguice. Tu vieste revelar-me a Mulher. Que foi o nosso noivado ? para mim foi a purificação . Amei-te- e eu emprego , pronuncio a palavra veneradamente. Amor, depois que te vi, é , para mim, um vocabulo sagrado . Amei- te e, para possuir-te pura , nunca profanei, com um beijo sequer, o nosso idyllio de noivos . Dediquei-me inteiramente ao teu culto ... Fiz mal , talvez . Depois d'uma pausa angustiosa, disse arrancadamente : O que se dá commigo só póde ser explicado por uma vingança ... divina . Não penses que fallo como poeta , não ! mas parece que Deus entende que a nossa alliança deve ser puramente espiritual , a incidencia de dois raios de luz, como a união dos adelphos nas primeiras éras christans . O corpo vem da impureza ; a alma , essa nunca se deixou polluir. Mergulhei no pantano, mas sempre a tive suspensa , como os soldados que , atravessando as lagunas e os charcos , levam as armas levantadas acima da cabeça . O que eu encontrei em mim, quando nos casamos, foi simplesmente o amor, e esse, Elsa, eu não t'o descrevo , porque não
AGUA DE JUVENTΑ ha palavras tão puras e fortes que o possam exprimir. Amo-te ! Cingiu-lhe o busto com o braço, attrahindo-a e sussurrou : Mas por que não havemos de ser um do outro ? Por que ? Não é justo que assim sofframos, ou antes : que tu soffras . Ella inundou-o de perdão com os olhos virtuosos . - Não falles mais, pediu baixinho. Tenho vergonha . - De que ? Não sei . -Mas eu preciso dizer-te tudo ... Não . -Não queres ouvir-me ? - Sobre isso ... não . Chorava . Levou o lenço aos olhos e inclinou a cabeça sobre o hombro de Eduardo . Um momento os dois corpos tremeram sacudidos pela mesma emoção, e ella, rompendo o silencio torturado, exclamou surdamente : Tenho pena de ti ! -Tu ! por que ? Elsa encolheu os hombros , Elle então, n'um furor, apertando-a com frenesi , disse-lhe aos arrancos : -Pois é, meu amor ... é por isso que aqui estou . Tens-me acompanhado a todos os logares para onde me mandam os medicos . O mar negou-me a vida que lhe pedi, e a ti deu mais força; as florestas nem me senti
AGUA DE JUVENTΑ ram . Iamos os dois, por entre as arvores, sorvendo o ar puro e forte , saturado de seiva, aquecendo-nos á luz viva do sol dos montes -tu ganhavas mais viçor, eu ... Aqui é possivel ... Espero readquirir a minha mocidade . Queres ficar mais uns dias ? Já sabes tudo. Mais nervoso, n'uma irritação , os dentes cerrados , rilhando, rugiu : Além do mais, eu tenho ciume de ti, Elsa, dos teus pensamentos , porque sei que o desejo é mais forte que tudo. És mulher, és carne, és fragil. O noivado abriu-te uma porta sonhada- entraste esperando o deslumbramento e encontraste um cadaver, e é ao lado d'elle que vives, é junto do seu corpo frio que estendes o teu corpo ardente e, quando elle te beija, é como um pesadello que te martyrisa com a illusão . Ella quiz levantar-se, fugir ; tinha medo . Afastou-se procurando desvencilhar-se, mas o marido reteve-a. Os seus olhos ardiam como no furor de um delirio . - Vamos sahir ... implorou . - Não ... Continuou em confidencia : 0 dr. Lino prometteu curar-me. Eu tenho confiança n'elle, é um sabio. Ah ! Elsa, se elle conseguir... Porque eu juro que, se perder a esperança de possuir-te, mato-me . - Não digas isso ! - Mato-me ! affirmou. Deixo-te livre e, para
que não recaia suspeita alguma infame sobre ti , tomarei todas as providencias . -Estás dizendo tolices. Levantou-se ; elle seguiu-a : - Não , é a verdade. Não podemos insistir n'esta vida. Afinal, eu não posso continuar a viver como vivo - dentro de uma hypocrisia, torturado e torturando . Não é d'homem . Entregar- te a teus paes? não, não tenho coragem : é uma vergonha ... e a sociedade ? ... A sociedade não acreditará que és uma victima . Pois não acabaste de dizer que tens confiança no medico ? - Sim, tenho . - Então ? Não digas tolices. Queres que eu fique ainda mais nervosa ? Matar-te ... E eu ? - Sim , mas ... Acalmando-se, sentiu-se vexado do que dissera e, sem animo de encarar a mulher, debruçou-se á janella, olhando o campo todo em sol. Creanças corriam alegremente, aos gritinhos ; na casa contigua, onde havia uma roleta, uma harpa gemia. Elsa foi para o espelho recompor a toilette, e ageitava as mangas fofas da blusa de cassa da India, quando bateram discretamente á porta. Eduardo voltou-se impetuosamente, n'um sobresalto : Quem é ? -Eu ... Era o doutor. Reconhecendo-lhe a voz, perguntou á mulher se podia recebel-o :
-Sim . Estou prompta. O medico entrou muito familiar, gabando o claro dia, a temperatura . - Uma manhan suissa. Elsa offereceu-lhe uma cadeira. Sentou-se descerimoniosamente arrepanhando para os joelhos as abas do sobretudo grosso. Está um dia para passeio . E' o que os senhores não têm lá no seu Rio, confessem . A senhora é que deve estar com saudades , não ? -Nem por isso, doutor. - Isto podia ser uma delicia... não querem . Foi á janella olhar o largo, as collinas cobertas de luz e logo os seus olhos viram surgir o grande parque do seu sonho, o cassino, todas as maravilhas creadas pela sua imaginação e como se effectivamente as visse alli, solidas e ricas, atirou o braço n'um gesto largo : Veja... tudo isto aproveitado. Era uma fortuna para o governo e um regalo para quem viesse ás aguas. Porque não ha melhores, garantiu . Voltou á cadeira e, enrolando um comprido cigarro de palha, perguntou a Eduardo : Então ? mais animado ? Elle sorriu tristemente . O seu marido é muito medroso, minha senhora . Elsa sorriu e, comprehendendo que a sua presença vexava os dois homens, pediu licença e sahiu . Houve um festivo rumor de fallas, risinhos
no corredor e passos que se foram perdendo na distancia. Sós , o doutor deu volta a chave, accendeu o cigarro e inclinou-se, com os supercilios franzidos, um dedo dogmaticamente fincado : Estou convencido, meu amigo, do que hontem lhe disse na palestra que tivemos . A sua molestia é principalmente mental- o senhor vive sob o imperio de uma impressão que é já uma idéa fixa e hoje todo o seu organismo resente-se de máo prestigio d'essa fatalidade. O seu caso não é frequente, mas isto não quer dizer que seja excepcional. Meu amigo -o rachis é a grande columna do edificio humano do qual o cerebro é a cupola. Esse receio de contaminar sua senhora é ja um desequilibrio . O seu espirito em vigilia permanente, sempre cheio de pavor, absorve toda a energia . O tratamento a que o senhor se submetteu foi dos mais energicos , talvez mesmo excessivo - é verdade que esse mal tão temido, uma vez entrado, insinúa-se para o sempre e não sáhe, mas torna-se inoffensivo quando é attenuado. E' preciso reagir contra a preoccupação, ser forte, oppor uma vontade rija a essa falsa consciencia. -Qual, doutor... não tenho mais esperança . -Não tem esperança !? Mas, pelo amor de Deus, o senhor não pode ser um fraco,
não tem o direito de o ser. Meu amigo, o cerebro é o centro de toda a vida physiologica e uma idéa má no cerebro é como um entrave na roda principal de uma engrenagem delicada . Quer um conselho ? passe algum tempo longe de sua senhora para que cesse essa excitação e verá que o mal desapparece. O senhor está ancioso, tem uma vontade excessiva, um intenso desejo, o seu cerebro funcciona com violencia, mas toda força despendida é desaproveitada, ou antes - torna-se contraproducente - é como a helice que, gyrando fóra d'agua, faz maior numero de voltas sem aproveitar ao movimento e abalando o navio n'uma trepidação brutal. Comprehende ? Inhibição, sabe o senhor ? inhibição ... Mas esperte, reaja, saiba querer. Não há estimulante mais energico do que a vontade. Queira ! impoz com auctoridade . Eduardo não poude deixar de sorrir. Tomou a sua ducha ? andou ? Pois é assim . Vamos continuando com o tratamento e não se amofine . Levantou-se, deu uma volta pelo quarto e, parando deante de Eduardo, com o rosto todo franzido, os olhos muito apertados, perguntou : Diga-me, conhece um homemsinho que anda por ahi a prégar philosophia ? Eduardo affirmou : Sim, conhecia de vista. Achava-o ridiculo. -Insupportavel, meu amigo. Simplesmente
insupportavel. Não ha em Teophrasto coisa egual é um producto admiravel do nosso tempo. Agarrou-me hontem no escriptorio e despejou-me em cima da paciencia uma porção de aphorismos e de definições . Já viu !? Tem-se em conta de sabio e polyglotta e anda por ahi a trocar lingua com quanto italiano encontra. Ridiculo ! Irritou-se , e , frenetico, fechando os punhos : Mas isso até compromette o paiz . Que idéa fará o estrangeiro do nosso progresso, do nosso criterio ? E não haver um homem de coragem que diga áquelle imbecil quatro palavras fortes ! E' horrivel ! Faz mal. Não imagina como me enfezam os pedantes e esse, meu amigo ... Achou, então, um pobre diabo, um bacharelete desdentado, promotor não sei onde, que o admira e, impando de vaidade, balofo, arrota sciencia barata com uma empafia irritante. Tudo é pretexto para o homemsinho dissertar : as folhas seccas que cahem, os ventos que sopram, a verruga do coronel Mendonça ... Um inferno ! Consultou o relogio : Bem , tenho ainda gente á espera. E' mysterioso : Que tal o livro ? tem lido ? - Pois não ... - Interessante, hein ? Estão alli todos os grandes fundadores de religiões, desde Rama até Jesus .
- Diga-me , doutor, interrompeu Eduardo -e se eu voltasse á electricidade ? -Deixe-se d'isso ... Qual electricidade ! Observe o que eu digo e deixe-se estar que a coisa ha de vir ; sorriu. Logo, porém, muito sério , pausadamente : Eu comprehendo a sua situação ... realmente ... mas não se incommode : ha outras peores. O senhor tem a mocidade que ha de vencer. Não se trata de um mal incuravel, se fosse, eu lhe diria com franqueza, acredite . Não, isso é um estado de inercia, a reacção ha de vir. Encaminhava-se para a porta ; Eduardo tomou o chapéu para acompanhal-o . Vou ver um dos politicões da terra. Ah ! elles guerream-me, não a mim , exclamou espalmando a mão no peito e, estendendo o braço, abrangeu toda a paizagem n'um gesto largo - ao progresso , a isto ! mas, assim que lhes entra o mal em casa, lá vão, afflictos , bater á minha porta . Eu attendo porque, emfim, é a minha obrigação- exerço um ministerio sagrado e comprehendo esta Humanidade, feita de lodo ou de coisa peior, como o Severino Lopes ... Bem, com licença : vou por esses mattos apalpar o figado empedernido do meu excellente adversario . Atravessou o largo, ao sol, dirigindo-se vagarosamente para o lado da cascatinha, onde morava o enfermo . Eduardo, que ficára á
porta, fumando, a olhar o ceu liso, voltava-se para entrar, quando ouviu um triste, dolente gemer, e descobriu o velho, que todas as manhans ia alli esmolar. Deu-lhe uma moeda e entrou á procura de Elsa. O piano zangarreava desabridamente e, na sala de leitura, discutia-se politica, com furor. Um velho, magro e frenetico , que se dava intimamente com todos os chefes da situação» , republicano da propaganda, historico desde os bancos collegiaes, defendia os actos do governo aos berros , com as mangas arregaçadas , rouco, tossindo e fallando sinistramente em sangue . O «philosopho» lá estava, a prumo, secundando o energumeno com o melaço da sua voz e a sua sciencia vasta. O promotor, medrosamente encravado n'um canto, ouvia, coçando o queixo que a barba encarvoava. Na sala, as senhoras gosavam docemente o sol . A gorda, descobrindo Eduardo, logo se poz aos cochichos com uma outra, rindo . Elle passou tocando de leve na aba do chapeu e seguia, quando uma menina sahiu da sala, a correr, e chamou-o : - Está procurando sua senhora ? Sahiu com D. Ursulina e umas moças. Foram para o lado do mercado . Elle sorriu , agradecido, acariciando a face
da pequenita, e retrocedeu, indo ficar á porta, onde o velho, sempre triste, resmungava o seu soffrimento. Mas um grupo appareceu ao longe : Elsa á frente, com um ramo de flôres , a sombrinha aberta reluzindo ao sol . Para a tarde o ceu enfarruscou-se, nimbado de nuvens escuras . Anoiteceu tristemente, com uma lua sinistra que apparecia e desapparecia e , para as onze horas, já com o silencio , desabou o aguaceiro com trovões atroadores , abalando as vidraças que trepidavam medonhamente . Entraram dias densos e tristes , de chuva e vento. Apezar das invenções do promotor, sempre preoccupado com divertimentos, a propor jogos , brinquedos, todos se queixavam da insipidez melancolica- bocejava-se e, pelas cadeiras , eram somnos quietos, molles cochilos ; a palestra cahia preguiçosa e a vida, refugindo das salas, concentrava-se nos quartos . As gotteiras batiam monotonas, sem descontinuar ; ás vezes, lufadas de vento frio atiravam com as portas, que estrondavam . Homens , amorrinhados de tédio, affrontavam o tempo agreste,- curvados sob os guarda-chuvas , lançavam-se afoitamente pelo campo e,
aos saltos, fazendo espirrar a lama, lá iam passar algumas horas á batota. Senhor absoluto da sala, o «philosopho » doutrinava em grupos que se formavam e que logo se desfaziam . O promotor não se fartava de gabar o amigo-um genio ! Dizia os seus conhecimentos profundos em todos os ramos do saber ; referia-se ás grandes obras que elle andava meditando : graves problemas sociaes ou miudas questões philologicas, regras precisas , mathematicamente exactas , sobre a prosodia e uma memoria solida e immensa, com gravuras, sobre os «sambaquis » . Aquillo era uma gloria nacional, sussurrava, apontando discretamente o amigo abarrotado e inedito. As senhoras , apezar dos elogios do promotor, achavam o «philosopho» muito cheio de si, muito atrapalhado. A gorda, ás gargalhadas, citava-lhe as phrases campanudas e perguntava, com interesse, quem era uma Clotilde de que elle tanto fallava? D. Ursulina, muito simples , resumia, n'uma phrase chan, a sua impressão : « Parece meio pancada» . E Caldas , a villa santa e formosa, tão alegre, tão viva nos dias luminosos, murcha, silente, ennevoada, com lameiros por toda a parte, parecia uma tapera morta. Raro em raro, ao longe, um vulto, abrumado pela chuva fria, passava e perdia-se ; os mesmos urubús
haviam desertado o logarejo, um ou outro apparecia á beira dos telhados, encolhido, encharcado, a olhar melancolicamente o horizonte, como a orientar-se para a luz saudosa . Uma tarde, porém, o ceu aqueceu-se, dourado e sanguineo. A alegria renasceu . Bom tempo ! presagiaram todos e o «philosopho » , hirto, á janella, ia apontando as nuvens, vivamente coloridas, que se estiravam, como cartazes, annunciando o sol, e dizia-lhe os nomes com garbo erudito . A' noite dançou-se . E as estrellas brilhavam no ceu limpido . Foi justamente na primeira manhan de sol, á hora do almoco, quando Alfredo atravessou o salão com uma immensa bandeja carregada de pratos, que se deu pela ausencia dos noivos . Houve logo curiosidade. «Estaria algum d'elles doente ? Mas, na vespera, á noite, tinham estado na sala, juntos, até de tarde . Que haveria ? » Algumas senhoras deram-se mais pressa em comer, mesmo regeitaram pratos, abreviando o almoço . Os creados foram interrogados . Como Alfredo reapparecesse, chamaram-n'o de uma das mesas para saber -quem estava doente ? O creado encolheu os hombros : talvez o patrão, com enxaqueca, e, discreto,
casmurro , lá foi cumprir a ordem que trouxera . Debalde rondaram o quarto. D. Ursulina bateu de leve, pediu noticias, offerecendo- se para o que fosse preciso. Eugenia entreabriu a porta, agradeceu e, de novo, a chave ringiu . Que haveria ? O promotor affirmou que ouvira gemidos á noite ; quizera mesmo levantar-se, julgando que houvesse alguma coisa séria, mas tudo recahira em silencio . O «historico » tambem ouvira qualquer coisa, mas , como tinha por norma não se metter com a vida dos outros , principalmente dos ricaços- pensam logo que a gente lhes vae lamber os pés, por causa do dinheiro - deixára-se ficar deitado . As senhoras ardiam em curiosidade e, quando o dr. Lino appareceu, houve uma balburdia na sala-queriam todas vêr se elle ia para lá, e a gorda, mais ousada, espichando o pescoço, acompanhou-o com o olhar agudo, e toda agitada, sacudindo as mãos, annunciou: -Entrou ! Entrou ... Effectivamente, o doutor fora chamado para vêr Elsa, que tivera uma crise durante a noite. O quarto, em suave penumbra, recebia uma restea de luz pela frincha de uma janella entreaberta . Elsa, recostada nos travesseiros ,
muito branca, levemente pallida, acolheu o medico com o seu lindo e meigo sorriso, e foi Eduardo quem narrou o incidente. O doutor, sempre alegre, achou aquillo «molestia de moça bonita» . Ella sentia-se triste, disse Eduardo, chorava á toa, tudo lhe aborrecia. E queixava-se do coração : ancia, palpitações ... Isso é do tempo, minha senhora. Felizmente já temos ahi o nosso irmão sol, como The chamava S. Francisco de Assis . Ah ! esses dias de chuva ... Poz-se a passeiar esfregando as mãos, friorento. Agora foram quatro dias e o hotel está cheio ... Imagine a senhora que, ás vezes , são semanas e semanas a fio , mezes ! agua que Deus manda e isto deserto . E eu vivo aqui ... E quer que lhe diga ? é quando passo melhor. Dias tranquillos, noites agradaveis- porque para mim é uma delicia adormecer ouvindo o bater da chuva no telhado . Metto-me em casa, bem agazalhado, a ler e as aguas que rolem por esses campos , os ribeirões que rujam . E' a riqueza da terra . Não vê como a verdura está d'uma cor mais viçosa e macia ? parece que tudo é novo ; o mesmo sol reluz com mais brilho . A senhora o que devia fazer era sahir, gozar lá fora a belleza do dia. Emfim ... Tomou-lhe o pulso branco e tenro ... Vou sempre receitar um calmante . Tenho uma formula que parece
invenção de frade, é um licor... chuchurreou com delicia ; ha de vêr. Elsa sorria , com a cabeça entre as rendas largas d'almofada, immovel sob os lençoes alvissimos , a colcha de seda atirada em ondas, disfarçando-lhe o relevo do corpo. Terminada a receita, o medico tornou para junto do leito . Falla-se agora em um passeio á cascata das Antas ... Porque não vão ? é uma maravilha. Eu mesmo que vivo aqui ha mais de vinte annos- quando cheguei a esta villa a floresta vinha até aqui embaixo ... os politicos arrazaram-n'a ... - Mas dizia ... eu que vivo aqui ha mais de vinte annos, de quando em quando, metto-me n'um troly e vou almoçar nas pedras, olhando aquellas aguas soberbas que se despenham, brancas , espumando como um rio de leite, d'uma altura prodigiosa e, lá em baixo, perdem-se n'um fluir sereno, por entre os mattos. Descrevia com doçura de voz, curvado, estendendo o braço a collear com o dedo para desenhar os meandros graciosos da corrente . E' uma das bellezas de Caldas . -Se nos convidarem ... aventurou Elsa. Por que não ! -- -Queres ir? perguntou Eduardo carinhosamente . - Vamos .
- Não se hão de arrepender, garanto ! affirmou o medico. Depois ... só o ar ! Os caminhos é que não são grande coisa mas, que se ha de fazer? temos governo, municipalidade ... é atural-os ! Voltou-se abruptamente para Eduardo : Brevemente tenho uma surpreza magnifica para o amigo-e segredou : a installação de uma loja maçonica. Vae ser uma delicia . E' verdade ... Mas, porque não se levanta, minha senhora? Olhe que os nossos caipiras costumam dizer que «a cama cozinha o sangue» . Bem ... Tenho hoje um dia tremendo - um ror de casos de influenza. Sabe ? o typo, o tal do catechismo positivista -a proposito : chama-se Anastacio- procurou-me hontem, com muita reserva, para fallar-me de uma coceira nas pernas que elle attribue á vida sedentaria ... -E então ? - Receitei mercurio . Hoje cedo lá esteve, dissertou sobre a lei dos tres estados e queixou -se d'uma nascida maligna . Propuz-lhe o tratamento pelas injecções hypodermicas e quer saber ? supporta a agulha com uma coragem digna: nem pisca, meu amigo . Um stoico ás direitas, lá isso é. Bem, até logo ; o cavaco foi longo . Estendeu a mão á Elsa : Pois, minha senhora, sempre ás ordens , é só um recado e cá estou. Até logo. Isso não é nada .
AGUA DE JUVENIА Fechando a porta Eduardo poz-se a passeiar ao longo do quarto, os braços cruzados, cabisbaixo , pensando . Elsa retorcia distrahidamente a renda larga da fronha. Ouvia-se o surdo zumbir das moscas que enxameavam o aposento esvoaçando assanhadas , sentindo o sol. O rincho agudo, monotono , d'um carro de bois, vinha riscando o silencio- era a faina da vida campestre que recomeçava depois d'aquelles longos dias d'aguaceiro . - - Não te incommoda o sol ? Não . -Posso, então, abrir, a janella ? -Pódes . Foi uma explosão . Elsa cerrou os olhos deslumbrada. O ceu, d'um azul forte e limpido, luzia; o ar, fino e fresco, soprando de leve , acariciante, trazia aromas silvestres d'aquellas serranias longas . A perspectiva da paisagem afundava-se, perdia-se em horisontes claros , orlados de faixas ondulantes que eram florestas . A terra, fartamente abeberada, reçumando seiva, robusta, fecunda, gerava tranquillamente rebentando em renovos . A vida vegetal pullulava dos germens . As hervas murchas, esturricadas , que chocalhavam á aragem das tardes seccas, reerguiam-se viçosas, d'um verde alegre, com flores desabotoando nas
AGUA DE JUVENTΑ finas hastes flexiveis ; os arbustos , revestidos de folhas tenras, balançavam-se airosamente ao lento passar das brisas que pareciam trazer abelhas , tantas eram gyro-gyrando pela campina e nos ares, todo o arvoredo parecia renovado, mais ramalhudo e mais rico . Na linha raza das campinas distantes a herva era um fino, macio velludo. Passarinhos cruzavam-se chilreando, cigarras faziam um concerto estridulo . Toda a gente que veraneava parecia gozar com volupia o sol- eram grupos pelos caminhos , longe, nos cerros ; figurinhas que se moviam devagar nas asperezas ingremes das collinas pedregosas e acenavam alegremente para a planicie . A's vezes um grito atroava. Um sino começou a bater docemente . Eduardo deixou a janella e foi sentar-se á beira do leito, affagando de leve os cabellos de Elsa . -Ainda sentes alguma coisa ? - Não , estou boa. Nem sei que foi aquillo . Talvez humidade . Elle contemplava-a, mudo, em extase . Não , não fora humidade, mas aquella excitação permanente, aquelle desejo sempre contrariado, aquella ancia sempre insatisfeita . O seu espirito tinha o reforço da virtude, mas a sua carne joven, cheia de seiva, era
AGUA DE JUVENTΑ como aquella terra que reclamava a luz e se enfeitava e floria ao primeiro affago tepido dos raios d'ouro. Pobresinha ! luctava, continha-se subjugando violentamente a ardencia do sangue . Que supplicio ! E alli estavam os dois soffrendo a mesma tortura ; ambos cheios de amor e de desejos e separados, desunidos por uma fatalidade cruel . Pensava, fitando-a enlevadamente, e inclinou-se, com um beijo para a linda bocca, que se entreabria, vermelha como uma flor desabotoando ; ella, porém, voltou o rosto, empallidecendo , e, medrosa, implorou quasi com lagrimas, humilde : - Não , Eduardo ... pelo bem que me queres . Elle pôz-se de pé, n'um impeto : -Tens razão ... Para que?! e, lentamente, passou ao quarto de vestir.
IV A BRIL, o ceruleo mez, entrára friissimo, toldado de brumas . Começava a abalada. Os hoteis esvasiavam-se, era como uma precipitada, espavorida fuga. Todas as manhans partiam familias, e, na estação apinhada, junto ao comboio, era um tumultuoso alvoroço - adeuses, abraços, affirmações de amizade, de compromissos de visitas. Os homens, açodados , iam e vinham, despachando a bagagem, escolhendo logares nos wagons, embarcando creanças . As senhoras , em grupos de amigas , com saudade d'aquelles serenos logares, tão lindos e amaveis na sua simplicidade agreste, fallavam commovidas . Só, então, as outras lhes notavam as côres , a boa disposição, as melhoras, e ellas, satis
AGUA DE JUVENTΑ feitas , suspiravam, lamentando não poder ficar mais tempo, mas a vida lá em baixo, a casa, o trabalho ... O trem apitava e, n'uma atarantada corrida, com os ultimos adeuses, precipitavam-se para os carros, ficavam á janella, e era uma algazarra, um agitado mover de braços que se estendiam . Um silvo agudo vibrava, e, docemente, deslisando , lá se movia o comboio, partia, sumia-se , deixando um vasio enorme, como se um pedaço da mesma terra se houvesse deslocado . A' noite, no salão, eram despedidas, ás vezes com lagrimas- das que recalcavam esperanças , das que viam desfazer-se o sonho de amor . Os doentes fallavam das suas chagas , já seccas ; alguns arregaçavam as calças, mostravam as pernas ; outros sacudiam os braços, livres dos rheumatismos, apalpavam as juntas sem os tophos , arthriticos . Um guarda-livros , que entrára magro e livido, curvado sobre duas bengalas, arrastando os pés enormes em frouxas chinellas de trança, na vespera da partida appareceu na sala, muito lepido, calçado e com uma rosa immensa na botoeira do jaquetão de flanella. Foi um delirio, e como só havia homens, elle declarou lampeiro : « Que estava morto por apanhar-se
AGUA DE JUVENTΑ no Rio para tirar o seu ventre de miseria» , e, á luz minguada, emquanto um cometa agadanhava o piano, saltou para o meio da sala, a dançar, atirando as pernas- e as gargalhadas estrondavam . No salão de jantar sentia-se ainda mais o vazio- tantas mesas abandonadas, toda uma ala deserta, porque os que ficavam iam-se approximando, n'uma necessidade de união e para facilidade do serviço. Dois creados haviam desapparecido- o hotel parecia mais vasto , mais sombrio e, á noite, era lugubre e reboava sinistramente ao mais leve ruido, como uma funda caverna . Anoitecia cedo . A bruma subia, fluida e alva , espalhando-se nos campos em ramas algodoadas , enrolando-se no topo dos outeiros , e as estrellas, d'um brilho nitido, maiores , scintillavam no ceu puro . Esfriava , frio de inverno . Elsa levantava-se tarde, tiritando, e, com Eugenia a vestil-a, lamentava aquella desolação . Não podia mais ! «A gente sahe para o sol e ainda sente mais frio, dizia a creada ; e depois a senhora não imagina o que está chegando agora para o hotel . Hontem entrou um homem com a cara amarrada em pannos cheios de sangue . E o padre que anda n'um carrinho? ainda não
o viu ? Foi um trabalho para o trazerem da estação até aqui. Não ouve, de noite, um barulho no corredor? é um coitadinho, todo entrevado, que anda por ahi de rasto, n'um bolo, como un sapo . Faz pena» . Era, effectivamente, a miseria que chegava de todos os lados, como infelizes que houvessem pacientemente esperado o final de um festim para se lançarem famintamente aos restos . Alguns traziam apenas o dinheiro da passagem, ou viajavam com passes, contando com a caridade, como o velho padre, todo encarquilhado e tolhido, mettido n'um carro de rodas de madeira, que um velho negro arrastava vagarosamente . Com um triste sorriso no rosto, comprido e cavado, sussurrava a sua historia infeliz, mostrando as mãos retorcidas e seccas como raizes , os joelhos que saltavam em dois bolos sob a batina surrada, e ainda o peito que reentrava, varado de dôres. Davam-lhe esmolas e elle lá ia dizendo a um e a outro a sua desgraça : como a molestia o prostrára, forçando-o a deixar o suave serviço do Senhor, a sua parochia humilde, em Minas, sempre festiva e florida. A's vezes , á noite, n'um tom brando de réza, com o entrevadinho sentado junto ao carro, na sombra do corredor deserto, elle punha-se a contar vidas de santos, martyrios , milagres . Fallava de Belém e dos magos, descrevia a Paixão, remontava ao ceu n'um sonho suave de bemaventurança, e o entrevadinho, boquiaberto, fitando n'elle os grandes olhos meigos, interrogava-o sobre Jesus, sobre Nossa Senhora, como haviam fugido para o Egypto , se a Virgem era bonita, como se chamava o rei negro que fôra ao presepe-e o padre ia respondendo docemente. O «philosopho » , que ficára sem o seu grande amigo, o bacharel, já restituido á sua promotoria, nas serras, atulhava o salão com a sua prosapia. Uma vez, encontrando o velho sacerdote, que lia o breviario no fundo do seu carro tosco, interpellou-o sobre os mysterios do christianismo, combatendo, á luz da sciencia, toda a patacoada theologica. O velhinho ouvia-o, calado, encolhido, com um sorriso de resignação, e elle confundia-o com os grandes nomes da philosophia. Explicava a creação , com Haeckel ; a descendencia do Homem, com Darwin ; reduzia tudo a leis physicas, acabando com Deus, com o mesmo desprezo com que atirava pela janella a ponta do cigarro . D. Ursulina, muito religiosa e compadecida, não poude conter-se uma manhan, e , «sahindo do sério» , como ella mesma declarou, investiu em defeza do humilde sacerdote :
- Que coisa tambem ... Ora o senhor, com o coitado do homem. Isso até não é bonito, perdôe que lhe diga. O senhor é um moço, elle é um pobre velho, carregado de cabellos brancos e doente. Tem a sua crença, como eu, como muita gente, para que ha de estar o senhor, todo o santo dia, a amofinal-o com historias ? Desculpe a minha franqueza, não se zangue commigo, mas isso é feio. O «philosopho » olhava-a d'alto, superiormente, com o pince-nez a brilhar : -E' um dever de todo o homem que estuda, que pensa, corrigir os erros, combater os prejuizos . -Oral que é que o senhor corrige? O senhor pensa que alguem vae deixar a sua religião por sua causa? Quem crê, crê ; eu penso assim . -Pois faz mal, minha senhora . -Pois sim. O senhor veiu aqui para se tratar ou para fazer propaganda ? Se veiu para se tratar, faça como eu, que tomo os meus banhos e metto-me commigo. O coitado do velho nem póde vir um bocadinho á sala distrahir- se . E' até uma falta de caridade . -Bem, minha senhora ... se é por causa do padre ... tollitur questio. Com licença. E sahiu muito teso .
Os dias vasios, silenciosos, pareciam infindaveis e Eduardo sempre a esperar o milagre das aguas . -Por que não vamos para o Rio? ha lá outros recursos, disse-lhe Elsa, uma noite , ao vêl-o macambusio, a metter os dedos pelos cabellos , desesperado . Elle irritou-se . -Qual ! o melhor mesmo é acabar com isto . Olha, se queres, eu telegrapho para que te venham buscar. Ella rompeu a chorar silenciosamente. Eduardo arrependeu-se e, carinhoso , ameigando-a, implorou : Perdoa-me... eu não sei que digo. Estou nervoso, frenetico . Que queres , Elsa ... eu vejo. Tu é porque não te preoccupas com isto, eu, não : informo-me de tudo, acompanho com interesse todos os doentes e o que tenho visto é verdadeiramente prodigioso . Pois então só eu é que não hei de aproveitar ? porque ? Homens com os corpos abertos em ulceras , entrevados ; aquelle hespanhol, com os olhos em pús, que nem apparecia á mesa, o filho d'aquella tua amiga cujo corpo era um só darthro e tantos, tantos ! não sahiram curados ? Então ? - Mas a tua molestia é outra, Eduardo . -Se o doutor me garante a cura ... Elsa encolheu os hombros. Tu tens razão- isto
está realmente triste mas ... se eu ficar bom ? Olha, já combinei um passeio para amanhan, ao alto do morro. Tem paciencia mais uns dias . Eu soffro muito mais do que tu. Se até domingo eu não melhorar, vamo-nos embora . -Pois sim . Mais animada, explicou : Eu tambem estou convencida da virtude d'estas aguas, mas não para o teu mal . -Pois, está ditol decidiu resolutamente Eduardo - se eu não sentir melhora durante estes dias, partimos no domingo ... e será o que Deus quizer . Na manhan seguinte, com o hotel ainda quieto , Alfredo bateu á porta, dizendo- que os animaes estavam á espera. Elsa, com um preguiçoso bocejo, logo abafado nos travesseiros , levantou-se e, mollemente chamando Eugenia , passou ao quarto contiguo . Eduardo, já prompto , foi para um canto, sentou-se em uma cadeira de lona e ficou inerte . Passára a noite em claro, n'uma perturbada insomnia, assaltado por idéas sinistras, sem poder tirar-se do circulo tremendo em que a razão o prendia . Não podia admittir aquella resignação da mulher, aquelle energico supportar d'um desejo que n'elle era um suppli
AGUA DE JUVEN ΓΑ cio e que ella acceitava docilmente, como um caso natural . A sua alma virtuosa podia resistir ás seducções refugiando-se na religião , amparandose nos austeros exemplos de honestidade com que fôra educada, mas a carne, a carne bruta, escrava do instincto, que traz o seu destino amoroso, essa havia de insurgir-se, de reclamar o que as nupcias the haviam promettido . As freiras são tambem mulheres e vencem , mas vivem protegidas pelos conventos que são as fortalezas do Senhor . Defendem-nas sólidos e fortes muros além dos quaes as vozes do mundo, os clamores ardegos da vida chegam em leve, apagado murmurio . Pelos immensos e soturnos corredores os passos que resoam são de mulheres puras , o aroma que trescala é das resinas mysticas, as vozes que se cruzam veladamente, como em segredo, não pronunciam senão palavras santas e de renuncia. Uma porta que se abre deixa entrever ouros , alvuras de altares , cirios, lampadas de luzes tristes, vultos piedosos de martyres hirtos , immoveis nos seus nichos , ou é uma lufada sonora que remoinha e passa com um clamor de litania dentro da plangencia melancolica do orgão . Nas cellas , d'alvas paredes núas, tudo é algido e mudo. Os passarinhos, o mesmo sol
parecem fugir ao gradil ferrenho dos postigos e os aromas agrestes da terra fecunda passam n'uma aura ligeira, como se um perpetuo exorcismo os repellisse d'aquelles logares de esterilidade . - Deitam-se nos seus grabatos como um cadaver rigido fica estirado no esquife. Os cilicios que vincam os seus flancos cingem-nas como um césto de pureza adormentam-lhes a carne , constrangem-lhes os nervos, regelamlhes o sangue e, emquanto não lhes pesa o somno nas palpebras, de joelhos ou prostradas nas gelidas lages , rezam, penitenciando-se até que , exhaustas , cahem pesadamente, adormecendo sob a hypnose do mysticismo . Sonham : são incubos que as perseguem, que as fazem gozar o prazer ephemero e irreal, verdadeiras erupções de sensualismo. Logo despertam aterradas e , ainda tremulas, com os vincos dos dentes nos labios seccos , e , desvairadas , com orações fervorosas, longos jejuns e penitencias, expulsam de si o peccado e flagellando-se, com o sangue a escorrer dos seios murchos , rasgando a carne ás unhadas, com lagrimas , quedam prostradas deante do negro cruzeiro que as defende, abrindo, acima das suas cabeças, vasias de idéaes humanos, os largos e rijos braços misericordiosos . Ah ! as freiras solitarias , vageiros como a
AGUA DE JUVENTΑ terra morta do Golgotha em que só avultavam os postes de martyrio, essas pódem resistir . Nunca ouviram as tremulas vozes supplices do desejo, nunca sentiram os effluvios passionaes , mas ella, que fizera voto de amor deante do mesmo Deus que das outras recebe a promessa triste da eterna castidade, ella que fôra abençoada como a terra santa e as gerações do Eden, para a fecundidade ; ella que sahira da iniciação da puberdade para ser Mãe e gerar e entrára na camara nupcial levando as humildes palavras maternaes que a rendiam passivamente ao esposo ; ella que encontrára o preparo de um ambiente voluptuoso ; que ficára a sós com um homem ; que se vira pouco a pouco, desfolhada das suas vestes virginaes ; que caminhára a tremer, fria e com o sangue estuante, para o leito ; que, encolhida, sentira estender-se a seu lado um corpo , o vira volver-se, aquecera-se ao seu calor, alvoroçára-se com os seus beijos e, entrelaçada, enlanguecera, suave e suave, até a inercia ; ella que se entregára e que, durante dois mezes , noite por noite, exgotava-se em ancias inuteis ... ella não poderia resistir ás solicitações da natureza, ao tormento desesperador, allucinante que a sua miseria lhe infflingia. Não -era superior a toda a energia, a toda a virtude.
Os mesmos santos cediam nos desertos e os demonios devassos, os seres hybridos que rondavam os eremiterios, affectando fórmas delgadas e sensuaes de mulheres formosissimas , possuiam-nos e, depois que os rojavam nos desfallecimentos dos espasmos, sahiam silvando , batendo os caminhos com os cascos de bode e, rindo, desappareciam triumphantes entre os cardos e as urzes, zombando do arrependimento dos miseros, que ficavam clamando no limiar das cavernas conspurcadas . Aquella crise que ella tivera não fôra mais que uma revolta da carne flagiciada. Quem póde conter um rio assoberbado com a fragilidade de uma repreza ? e que era a virtude n'aquelle caso senão uma comporta opposta á violencia do instincto ? Não, ella não podia ser uma excepção . A fatalidade havia de vencer forçosamente. O seu mal era uma estagnação . O mesmo medico já não escondia a desesperança, fugia á responsabilidade da cura com evasivas subtis , attribuindo a insistencia d'aquelle « estado de inercia » á ausencia do soccorro moral . Porque elle não reagia, não procurava auxiliar o tratamento com o «querer» . E aquella palavra que, uma vez, lhe sahira da bocca inadvertidamente : «myelite» não seria a pro
AGUA DE JUVENTΑ pria expressão da verdade ? Myelite ... sim , devia ser esse o seu mal, a medula ... a medula... -Estou prompta, disse Elsa, reapparecendo . Elle sahiu bruscamente d'aquelles cuidados e, vendo-a a sorrir, mais se lhe accentuou a certeza cruel do que elle conjecturava. «Em que pensará ella? em quem!?» Levantou-se : -Vamos , então . Tomou uma bolsa de couro da Russia, passou-a a tiracollo, e iam sahindo distrahidamente, quando Alfredo appareceu com o café. Tomaram-n'o de pé, em silencio , e foram . Iam sem interesse, como a um trabalho fatigante, julgando, cada qual, causar prazer ao outro . Os cavallos, velhos sendeiros de aluguel , modorravam á porta. Ainda havia nevoeiro, uns raios fluores de neblina á flór dos campos ; mas o ceu, d'um azul intenso e lucido, era todo esplendor. Fazia frio . Montaram e , á voz do guia, um caboclo esguio , escarranchado n'uma bestinha, partiram através do campo rociado que refulgia . Rolas fugiam com surdos ruflos d'azas ; gafa
nhotos voavam chirriando, e um cheiro forte, acre, de terra fecunda subia de todos os cantos, á luz que dourava as hervas rasas e o alto arvoredo . Iam já defrontando as ultimas casas do largo quando o dr. Lino appareceu, muito atabafado, com a golla do capote levantada até as orelhas, seguindo as sinuosidades de uma vereda para evitar as humidas hervas . -Bom dia ! - Bom dia, doutor. -Então, que é isso ? Onde vão ? -Vamos ao morro respirar um pouco, gosar a paizagem . -A vista é linda, hão de gostar. E ha lá uma agua excellente, celebrisada por quantos a têm bebido . Sabes onde é a fonte, Firmino? -Sei sim, senhor. -Pois é , leva os senhores até lá. Vale a penna ... E, voltando-se para o morro, mostrando-o com o guarda-chuva : Aquillo já foi um dos passeios obrigados de Poços . Fazia-se a ascensão a pé, com matalotagem, uma bandeira e foguetes . O que primeiro chegava era acclamado, então chantavam a bandeira, soltavam os rojões e lá iam para a fonte, comer o lombo de porco . Pagodeira . Hoje, nem isso ... O nosso povo está cada vez mais triste ; não sei que é, mas
a verdade é que a melancolia está arrazando este paiz. Bem, não lhes quero tomar tempo . Lá vou para a minha Capharnaum, aos meus doentes . Para esta gente sou como um Christo -entendem que posso fazer milagres . Ainda hoje appareceu-me lá em casa um pobre morphetico , pedindo-me que o curasse, porque tem familia. E' isto . E, se eu não os fôr illudindo, adeus ! não dirão que sou um medico honesto , dirão que sou uma besta. Até logo . Divirtam-se . O ar picante excitava os animaes, que se puzeram a trote. A villa, quieta, com as casas fechadas, parecia dormir ainda. Nos longes da terra, apezar do sol que aquecia, rastejavam nevoas barrando o horisonte-eram como os ultimos espectros nocturnos que fugiam deante da luz, afundando nas covas . Na ponte, sob a qual o ribeirão da Serra borbulhava, escachoando com estrondo, torcendo-se n'uma volta angusta, galgando pedras em torno das quaes a espuma refervia, pobresinhos esmolavam . Um cégo, de cocoras , com o chapeu de palha nos joelhos, cantarolava esganiçadamente rolando os olhos brancos ; os filhos , sentados em torno, jogavam pedrinhas. Adeante uma velhita murcha, encarquilhada, com a bocca sumida, os olhinhos empannados de
nevoa, os cabellos brancos fugindo em falripas esvoaçantes do lenço que lhe cingia a cabeça, resmungava estendendo a mão mirrada e tremula. Em frente do mercado juntavam-se os tropeiros descarregando os ceirões, os jacás, arriando saccos . Chegavam mulheres com taboleiros de verdura, cestos d'ovos, cabazes de fructas , pencas de frangos . Os açougueiros , com os facalhões gordurosos, espostejavam a carne, talhavam o toucinho. Carros de lenha, recuas de mulas, atravancavam a estrada. Diante da porta de um armazem, um bando de caipiras : uns de pé, outros de cocoras encostados á parede, discutiam beberricando pinga ou alisando, á faca, nas coxas, as grossas palhas de milho dos cigarros . O guia, dando voltas por entre os carros , tocando os animaes que se afastavam, abria caminho e a gente simples voltava- se para ver o casal airoso, Elsa principalmente, muito esbelta e flexivel na sua amazona escura, com um leve chapeu de palha sobre os cabellos louros . A subida ia-se tornando aspera com os fundos e sinuosos sulcos cavados pelas enxurradas e os pedrouços que rolavam sob as patas dos animaes . Nas ultimas casas, pobres, já o trabalho começára. Mulheres estendiam roupa em cor
AGUA DE JUVENTΑ das esticadas de tronco a tronco ou nos grammados scintillantes de orvalho . Sob uma vinha um homem trabalhava, cercado de bambús, cortando varetas para gaiolas. Creanças núas, com as pernas escalavradas, outras em camisola, ainda estremunhadas, com pedaços de pão nas mãos sujas, corriam ás cercas floridas de rosas ou de madresilvas , trepavam ás arvores , sahiam á estrada, aos pinchos, gritando alvoroçadamente para que viessem vêr a moça a cavallo e mulheres appareciam ás portas , debruçavam-se nas cancellas olhando admiradas, segredando-se louvores, sorrindo extasiadas com a belleza de Elsa. O guia deu de redeas e a bestinha partiu a galope para a porteira, mas um pequeno já havia corrido a abril-a e todos passaram , agradecendo . Começava a lombada do monte, com a vegetação soberba e o doce silencio das alturas . O guia, sentindo-se, emfim, entre as arvores , poz-se a cantar, derreado e molle no lombilho, deixando-se embalar pelo animal. O caminho, em voltas, muito batido, luzia entre as ribanceiras vermelhas. Viam-se largas pégadas , calcaduras e estravo de animaes que por alli haviam passado. A um e a outro lado o arvoredo era frondoso, d'um verde novo e lustroso e, com o mais leve mover dos ramos
inclinados , o orvalho esparzia-se em chuva sonora . Elsa arripiava-se com as gottas frias , evitava o rorejo encolhendo-se toda e rindo . Eduardo animava-a e, adiante, a voz alegre do guia provocava a passarada que chilreava esvoaçando , perseguindo-se nas ramagens, nos ares . Borboletas immensas, azues e brancas, lentas, pesadas, atravessavam d'um para outro lado ; ás vezes as folhas seccas farfalhavam e lagartos fugiam ligeiros desapparecendo nos mattos . De quando em quando nas passagens mais encobertas , sob as densas copas, escurecia e esfriava, mas o sol lá estava adiante dourando a terra sanguinea, polvilhando de ouro as folhas molhadas . Vagarosamente, arquejando, com um monotono ringir dos arreios , os animaes seguiam pelas veredas apertadas . Eduardo gabava a belleza sadia da paisagem, mostrava parasitas nos troncos , gravatás , lindas florinhas silvestres , corymbos enfestoando galhos seccos , insectos que reluziam á luz, arvores altas , robustas , cujas raizes fortes saltavam á flor da terra em formidaveis e retorcidos vergões . A's vezes paravam á beira d'uma grota toda rendada de samambaias, olhavam calculando o fundo e o guia cantava enamoradamente como se o seu amor vivesse, á maAGUA DE JUVENTΑ neira das nymphas, em alguma d'aquellas arvores e o ouvisse. O silencio de Elsa continuava obstinadoseria de enlevo ou de tedio ? Subitamente as palavras pronunciadas pelo medico, no largo , com relação aos enfermos, saltaram no espirito de Eduardo : «Entendem que posso fazer milagres ... E se eu não os for illudindo, adeus ! » Elle não referira o caso do leproso senão para desenganal-o com aquellas phrases . Já lhe havia notado o desanimo . Estava a entretel-o, a embahil-o com uma vaga esperança para ganhar tempo, certo da impossibilidade da cura. Chegavam ao alto por uma azinhaga humida e sombria. O vento soprava livremente, rijo e frio, vergando os ramos . Redouças de cipós oscillavam de arvore a arvore e os melros piavam nas frondes altas, buscando o sol . Já no planalto os animaes lançaram-se a galope . Formigueiros enormes levantavam espalhadamente entre as hervas os cocurutos calvos, uma ou outra arvore isolada frondejava sussurrando ás lufadas do vento livre ; nas moutas rasteiras de joás os fructos, muito amarellos , eram como immensas gemmas d'ovo e de todos os lados era o abysmo, o fundo perdido. Elles acharam-se como insulados no espaço, cercados pelo vacuo .
AGUA DE JUVENTΑ Foi Elsa que saudou a villa mostrando-a no fundo com as suas ruas direitas, amarellas e lisas, que a distancia alhanava tudo, fazendo desapparecer os caldeirões, os vallos. O casario alvejava entre as verduras dos pomares copados, os ribeirões luziam, com a agua quieta, como adormecida. Um carro de bois atravessava o largo vagarosamente e o rincho dos eixos , chegava, por vezes, á altura mas logo o vento o leváva. Lá estava a estação - os trilhos brilhavam ao sol . Lá estava o hotel ... - Olha, Eduardo. Aquella não é Eugenia ? alli, n'aquella janella... Eduardo , mais calmo com a alegria da mulher, graduou o binoculo e levou-o aos olhos relanceando todo o fundo da terra, a immensa cratera concava . -Não , não é Eugenia. Parece aquella senhora que toca . -D . Ursulina. Dá cá ... Tomou o binoculo e confirmou : E' , sim. Gente miuda movia-se no largo, apparecia ás janellas ; bandos de pombos cortavam os ares e em cima, fechando todas as distancias, o azulado, rutilo ceu não tinha a mais leve nodoa de nuvem . Longe eram outeiros e campos, uma ondulação cambiante começando no verde, passando ao violete até o azul fundo dos relevos das serras . Para outro lado, perdidas na distancia, mon
tanhas esboçavam-se em tons suaves , pareciam accumulos de nuvens no ceu raso do horizonte e campos, varzeas chatas, desertas , sem sombras d'arvores, sem um colmado, riscadas pelos caminhos . O guia chamou-os para o outro lado, mas Elsa, embebida, não se fartava de olhar. Onde nascem as aguas , Eduardo ? -Não sei. Parece que é na serra de Caldas . O guia mostrou além a massa soberba da serrania. -A serra é alli. Dizem que tem ouro . -Ouro ! - Sim senhor. O sol aquella hora, era o ouro da serrra, forrava-a toda, cobria-a até a espalda e descia á planicie rica. -Olha, Elsa : o estabelecimento dos Macacos, alli onde o sol bate. Vés ? A luz, dando em cheio na galeria envidraçada, fazia um rastro de fogo e mais longe outra chapa brilhante lampejava- era a cascatinha. Estás vendo ? -Estou . E a gente como fica pequenina, observou risonha. Se viessemos mais cedo podiamos ter visto a partida do trem. Vamos para o outro lado. Tocaram os animaes . A vista alargou-se por uma terra farta de cultura e floresta, com uma casa de fazenda muito branca, entre os terreiros , a destacar-se
do fundo sombrio do arvoredo . Os cafezaes corriam alinhados , como grandes esponjas escuras ; aqui , além , esguios coqueiros subiam com as palmas esfiapadas em franjas , tremulando ao vento e os olhos dilatavam-se como se voassem ao longo da extensa terra forte , que, sob a fecundação do sol, produzia em silencio, florindo, fructificando para o homem . O guia estendeu o braço mostrando um brilho d'aguas, ao longe- o rio. Elsa só via a verdura luxuriante, a grande, a estupenda geração vegetal que tudo avassalava e encobria e d'aquelles algares, d'aquelles fundos e alcantilados abysmos, de todo o circuito que se perdia em precipicios subia uma voz surda e perenne, um arquejo ininterrupto como se a terra, no esforço ingente de gerar, de conceber , gemesse para os altos ceus com a mesma dôr alanceada com que as mães humanas dão o seu fructo á vida. - Vamos . O guia partiu . E agora : para onde vamos ? -Vosmecê não quer vêr a fonte ? -E' muito longe ? -Não , senhor. E' um instantinho. Elsa receiava as cobras . Não tenha medo. Agora não é tempo . Tocaram . Não havia caminho- foram por um sapesal farfalhante: a herva alta chegava ao peito
dos animaes , abrindo-se em sulcos, como as aguas que uma quilha corta. Chegaram á beira d'um declive, e o guia, saltando da bestinha mansa, prendeu-a a uma arvore, dizendo : Agora é melhor vosmecês apearem, o caminho não dá para os animaes . Eduardo , agil, pôz-se logo a pé, e, estendendo os braços , tomou Elsa e depol-a em terra carinhosamente . Nunca, ao contacto d'aquelle corpo juvenil, elle sentira a emoção violenta e de goso que experimentou n'aquelle momento. O guia prendeu os animaes e, tomando a frente, lá foi rompendo o matto, afastando ramos, e chegaram ás primeiras arvores d'um pequenino bosque, cheio de perfume e luzera como o vestibulo da floresta, que se estendia opulenta, dominando todo um flanco da montanha . Caminhavam. O terreno tornava-se macio, como se o forrasse um molle tapete, a luz era mais branda-aos lados, em entrelaçados recantos, havia como um resto de sombra nocturna, estrellada de nimbos de sol . Vozes mysteriosas sahiam dos meandros quietos. Aqui eram passarinhos lepidos saltando nos ramos, apanhando achegas ou mariscando na terra ; abelhas douradas que erravam ; grandes bezouros negros que passavam d'esfuzio com um zumbido roufenho .
Os arbustos tinham fraquezas languidas, inclinando-se, offerecendo mimosamente as suas flores cheias de mel ; as arvores espreguiçavam-se em movimetos molles ; o sol, descendo pelos escassilhos da folhagem, estendia nos caminhos um crivo luminoso e, nas faixas obliquas que passavam, envolvendo os troncos, fervilhava uma viva poeira de ouro . O guia desceu uma rampa resvaladia e, debaixo, como homem habituado á vida al- . pestre, para o qual a montanha não tinha surprezas , offereceu a mão aos excursionistas, animando-os. Era um pulo. Elsa receiava, e, sorrindo, ia, pé ante pé, procurando as anfractuosidades, um talude ; mas Eduardo, agarrando-se a um tronco, deu-lhe a mão e a foi descendo. O guia esperava-a embaixo, e ella, assim amparada, precipitou-se, n'um passinho ligeiro, com gritinhos de susto. Eduardo atirou-se num salto e achou-se junto d'ella, risonho . Já a voz calma das aguas murmurava no silencio. Tudo estava fechado pelas hervas, e elles tiveram de romper o matto para chegar a uma especie de gruta sombria, onde a agua fluia em limpidos filetes, remansando-se n'um transparente, pequenino lago. Varios regos, reticulando o sitio, levavam as aguas em voltas para além. Um jorro casquinava despenhando-se em cascata, outros fios insinuavam-se sob as hervas, corriam sussurrando e as arvores, pendidas, com as ramagens derreadas, miravam-se n'agua. Elsa, de pedra em pedra, escolhendo as mais seccas, grandes lages orladas de limo, avançava para os nenuphares abertos no seio da cripta verde. Equilibrando-se, procurando o amparo dos cipós , sorria vendo-se toda reflectida no espelho liquido. -Que bellezal Eduardo ... O cheiro acre das resinas, o almiscar capitoso da selva, circulava como um ambiente. Tudo era sombrio, as mesmas folhas, que se reproduziam n'agua, eram de um verde negro, como se a sombra as houvesse tisnado ; só os fétos e as tremulas, delicadas avencas conservavam o claro verde alegre . Libellulas pairavam acima d'agua, mirando-se com faceirice e levemente, ligeiramente, molhavam as pontas das azas , logo fugindo . Cigarras chiavam em volta, por entre as folhas . A poucos passos da fonte , em contraste com aquelle segregado e obscuro retiro, uma clareira abria-se ao sol, recebendo toda a luz no seu tapete de gramma. Alli era o centro da vida- passaros galreiavam, zumbiam insectos, voavam moscas azues . Aranhas negras,
incrustadas d'ouro, marinhavam nos galhos , subiam, desciam pelos fios ou no centro das teias , balançavam-se ao sol . Elsa, com pena de deixar a fonte, curvouse, as mãos em concha, tomou uma mancheia d'agua e sorveu com delicia . Um raio de sol incendiava-lhe os cabellos finos da nuca eo seu perfume delicado, como a irradiação do seu corpo, vencia o cheiro agreste das silvas . Eduardo contemplava-a, extasiado, n'um enlevo , como se o poderoso effluvio d'aquella natureza agreste o fosse penetrando, infiltrando-se-lhe nas veias, como um amavio, excitando-o, compellindo-o ao amor. Os olhos amortecidos ficaram afogueados, as narinas aflavam e um vivo calor de renascimento, uma aurora que se accendia, animava-o . O guia, farto d'aquellas maravilhas tantas vezes vistas , descera uma rampa e, cantando, fôrase á procura de parasitas . A sua voz perdia-se no fundo da terra. Elsa ergueu-se, corada, respirando forte, com o collo cheio e, voltandose , achou-se em frente de Eduardo, que sorria . -Como estás linda, meu amor ! Ella quiz passar, elle abriu os braços , detendo-a. - Espera , Eduardo . -Não . Ella corou , sentindo o homem . Não . E ficaram immoveis . De repente, n'um movimento rapido, Eduardo tomou-lhe a ca
AGUA DE JUVENTΑ beça a mãos ambas e beijou-a na bocca, soffregamente . Ella não reagiu, e os dois ficaram como esquecidos n'aquelle beijo, transmittindo- se as almas . Subito, n'um sobresalto , repellindo-a desatinadamente, fitou- a, cravou-lhe os olhos no rosto e gritou-lhe o seu nome n'um delirio, como para chamal-a ao amor : Elsa ! Ella encarou- o tremula, e, ambos mudos , olhando-se, ficaram um momento como petrificados . Elle deixou -a , partiu a correr, chamando o guia aos brados . O homem respondeu do fundo da gruta- estava engachado n'uma arvore arrancando parasitas . Deixou-se escorregar e, em terra, precipitou-se, subindo o recosto agarrado ás raizes . Appareceu esbaforido, alagado em suor e, vendo Eduardo debruçado sobre o abysmo, perguntou, assustado : -Aconteceu alguma coisa, patrão ? -Não , nada. Eu queria que fosses lá embaixo buscar qualquer coisa para almoçarmos aqui . E's capaz ? - Uai ! vosmecê querendo . - Então , olha... vae ! Abriu a bolsa, tirou uma nota e deu-lh'a . - Qu'é que vosmecê quer ? -Qualquer coisa, o que encontrares – peixe, lombo, fiambre, pão e vinho . O que encontrares .
- Vosmecê fica aqui mesmo ? Aqui mesmo . -Eu vou n'um pulo. E' só o tempo de chegar os animaes para a sombra. -Sim . Eduardo tremia, fallava aos arrancos, como se lhe faltasse o ar. O caipira partiu a correr e perdeu-se no matto. Elsa, que deixára a fonte e, na clareira, resplandecia n'uma aureola de sol, olhava, sem comprehender, aquelle capricho do marido e, quando o caipira enveredou pelos mattos, ligeiro como um animal acuado, encarou Eduardo, com uma interrogação nos olhos claros. Elle travou-lhe das mãos frias e, ajoelhando-se, ficou a contemplal-a, a adoral-a, enlevado. A voz do caipira perdia-se ao longe, e Eduardo, nervoso, febricitante , disse á mulher um segredo suave que a fez corar. -Que idéa, Eduardo. Elle perseguia-a, sem deixar- lhe a mão. Isto é um logar procurado. Que tolice ! - Que importal és minha, exclamou , e agarrou -a, cingiu-a, beijando-a, murmurandoThe aos ouvidos, por entre beijos allucinados, uma só palavra, o seu nome : Elsa ! Elsa ! Ella cedia, oppondo uma resistencia molle, sempre assustada com os rumores confusos da natureza, a andar com os olhos medrosos d'um para outro lado. Que importava ! Era a
AGUA DE JUVENTΤΑ vida que exigia o seu tributo de amor. Tudo era silencio em torno, uma quietação enervada e languida. Elsal -Não ! Eduardo, disse em segredo, tremula, vencida. Olha ... escuta ... -São os passarinhos. Não ha ninguem, Elsa adorada ! As boccas sellaram-se com um beijo . O sol, mais alto, estendia, na alfombra da clareira, um lençol de ouro fino ... Nunca leito algum nupcial teve tão precioso brocado . As aguas aligeiravam-se abrandando as vozes em murmurio. Em torno, no bosque denso, tudo se concentrára em religioso silencio para que soasse isolado, solitario, dominador, o hymno suave do triumpho amoroso, todo em sons de beijos . E as folhas, uma a uma, cahindo docemente, eram como a saudação festival da natureza áquella victoria humana. Quando o caipira reappareceu com as provisões n'um cabaz, Elsa, estendida na gramma, a cabeça no collo de Eduardo, dormia tranquillamente, com um sorriso no rosto lindo, que era como o reflexo do sorriso com que a contemplava o esposo .
V A PESAR do frio intenso que, desde o crepusculo, despovoára a villa, concentrando toda a vida nos lares, o doutor appareceu á noite, muito agazalhado e, logo á entrada, a um homem que esfregava desesperadamente as mãos fallando em geada, com desanimo, perguntou por Eduardo. O homem não sabia, sahira do quarto n'aquelle momento para agitar-se ; estava transido, tinha os pés gelados, nem os sentia. Irra ! - Está frio, hein? Que tal o começo do inverno ? -Nem na Russia ! e, baixando a voz em confidencia : O' doutor, um cognaquesinho fará mal ? -Não, sendo pouco. O homem agradeceu
e abalou ás largas pernadas, encolhido na golla do casacão . Na sala não estava ninguem -as lampadas amortecidas davam uma luz triste. No corredor, o carrinho do padre, com o entrevadinho ao lado a ouvir as historias santas, era só . O doutor passou pelos infelizes, saudou-os, fallando-lhes tambem do frio, da geada que o ceu limpido annunciava e foi-se, ter com o Fonseca, que o mandára chamar a pedido do Eduardo, «que partia na manhan seguinte» . O Fonseca lá estava no escriptorio revendo a escripta. A sala de jantar immensa, com todo o fundo apagado, era lugubre. Em duas mesas apenas alvejavam toalhas. -Boa noite . Então, que ha? O Fonseca escorregou do banco e informou : -Que o snr. Eduardo pagára a conta. Já estava com a bagagem na estação . -Assim de repente ! -E' verdade : de repente. Chegaram do passeio ás duas horas, nem almoçaram e logo o creado me veiu pedir a conta até hoje e correu á lavadeira e, ás cinco, lá foram as malas a despacho . -E foi elle que me mandou chamar ? -Foi . -Bem ... Manda lá dizer que estou aqui. E, preoccupado, o medico poz-se a passeiar
cabisbaixo, em silencio, no estreito escriptorio atravancado de caixas . Instantes depois Eduardo apparecia risonho ; o medico sahiu a recebel-o e foram para uma das mesas, pediram cerveja. -E' então verdade que parte amanhan ? -E' verdade ... ámanhan . E fitavam-se sorrindo . -Mas ... que resolução foi essa? Eduardo encolheu os hombros. O medico não se atrevia a lançar a pergunta e ambos, embaraçados , guardaram um silencio vexado. Por fim, Eduardo assegurou : -E' verdade, doutor... Eu ja estava resolvido a acabar com isto ... não era vida. O medico, muito interessado, deu um puxão á cadeira, chegou-se mais e, com os cotovellos na mesa, perguntou vivamente : - Então ? houve alguma coisa ? Elle acenou com a cabeça . O medico exultou : Ora ainda bem! E ... - Não sei , doutor. De novo o embaraço tolheu-os . O medico não se conteve : -O caso era dos mais bellos . Não tivera egual na clinica ... E então ? -Foi a natureza, doutor. De repente, com mais desembaraço, explicou : Estavamos junto á fonte, a olhar a agua... calou-se de novo . O medico tinha os olhos cravados attentamente no seu rosto, elle tamborilava com uma faca . -Eu não lhe dizia? Foi a despreoccupação . O senhor vivia aferrado ao terror, escravizado a uma idéa, consumindo em cuidados toda a sua energia cerebral e o cerebro , meu amigo ... o cerebro é o regulador da vida, é o registro, O medico estava triumphante. Encheu o copo de cerveja, esvasiou-o d'um trago e continuou : O systema nervoso, meu amigo, não supporta a inercia durante muito tempo - reage e vence ou succumbe. O senhor não tem lesão alguma, era apenas um «impressionado» , um captivo - a sua vontade fora eliminada . O meio em que se fixava logo ficava viciado, permitta-me a expressão, como impregnado de terrores : tudo recordava a sua fraqueza, os menores objectos contribuiam para a desordem moral. Já viu um assombrado ? tremendo ao leve ruido, vendo espectros em todas as sombras , sentindo-se agarrar por mãos invisiveis , ouvindo vozes no escuro ? ... pois o senhor estava assim . Sahiu , distrahiu-se ao ar livre , entrou n'um sitio novo, olhou com olhos limpidos, desannuviados o que sempre via através do medo e realizou-se o que eu esperava, o que fatalmente se havia de realizar. Ahi tem. E a agua contribuiu para isso, acredite . Foi ella que preparou a reacção,
o bosque ou melhor : a fonte concluiu a obra. Ah ! meu amigo , a natureza. Emfim... queira acceitar os meus parabens sinceros. Apertaram- se effusivamente as mãos . Eu cheguei a receiar, palavra. O seu estado de irritada excitação podia leval-o a tudo. Não imagina como eu andava preoccupado. Realmente ... Emfim ... tout est bien qui finit bien. Agora é não ser ingrato, lembrar- se de nós, visitar-nos de vez em vez. Tem obrigação de querer bem a esta terra , o seu verdadeiro templo de amor porque ... emfim... foi aqui... Elle concordou : -Sim , foi aqui . Hei de voltar ... quando por mais não seja, por gratidão ... O medico arrematou sorrindo : -A' nympha invisivel da fonte. Pois ahi tem... um caso admiravel. Ninguem o ha de acceitar como verdadeiro . O senhor experimentou tudo ... -Tudo ! affirmou Eduardo . -Foi bastante ficar um minuto entre as arvores , olhando a agua correr para voltar... á vida, não é verdade ? Capricho . E o homem é assim : uma machina delicada que com qualquer coisa se desarranja. Ora, vão lá saber, por exemplo : por que um homem de bons costumes , provadamente honesto, commette, ás vezes, um crime infame ? uma idéa
no cerebro a empecer, a embaraçar o exercicio normal das cellulas- é o infinitamente pequeno , que os ha no mundo moral, peiores, talvez , do que os do mundo physico, destruindo a consciencia . E' assim . O senhor era o que é : um homem forte, de invejavel saude e estava para ahi inutilizado ... por que ? porque tinha no cerebro uma idéa fixa, um grão de areia, um atomo de pó. Varreu-o ou antes - os ares puros varreram-n'o e toda a machina voltou a funccionar com a regularidade integral que a vida exige. Eis o que somos - escravos dos minimos . E é para vêr, meu caro. Quando eu insisto com o governo dizem que sou impertinente, que exijo impossiveis. Está ahi a prova. Uma estancia como esta não se póde limitar ás fontes . Fontes não faltam por essas terras vastas de Minas, mas onde ? em carrascaes , em logares inaccessiveis, inhospitos onde, só com immensos sacrificios, póde o enfermo chegar e manter-se. O tratamento thermal deve ser feito como entendiam os gregos que, ao lado das fontes, levantavam o templo a Asclepios, tratavam de conservar as florestas das visinhanças, alhanavam arenas para jogos , isto é : auxiliavam a medicina com a suggestão e com as distracções . O deus era um recurso moral e as florestas corrigiam a tristeza, dissipavam os cuidados ao mesmo
tempo que purificavam o ar, garantiam a agua, e os jogos levantavam os espiritos abatidos suspendendo-os com o enthusiasmo provocado pela victoria de um athleta ou de um carro . Vão lá explicar o seu milagre. Um verdadeiro milagre, pois não . - Sim , verdadeiro milagre . -E' isto ... Pois não calcula a minha satisfação, como medico e como amigo . E, se me dá licença ... A noite está fria, e creio que ainda tenho um parto. E' a vida, meu caro ; é a vida que por ahi pullula. Nós, medicos, andamos sempre a preparar esta terra de Deus, tão cheia de abrolhos- somos os capinadores que a despimos das urzes, que são as molestias, tornando-a san, para o amor, e, no tempo do fructo, lá o vamos colher. Hoje vou dormir contente com o seu caso, lá pelo nascimento, não porque agora os fructos humanos já nascem bichados, é uma miseria ... Emfim, é mais um casal que entra na communhão da Humanidade, e um casal intelligente e bello... bello sobretudo porque a nossa raça degenera cada vez mais- estamos regressando ao mono . Levantou-se, a mão estendida. Até amanhan. Lá irei á estação despedir-me da senhora. Quando Eduardo quiz abordar a questão do dinheiro : consultas, chamados ... o medico
repelliu , muito digno : Não fallemos n'isso . Eu nada fiz . O senhor deve tudo a esta terra maravilhosa, ás aguas e á linda fonte lá em cima. A mim, nada. Lembre-se da terra, pague- lhe com a saudade . -Hei de lembrar-me, doutor . -Pudéral exclamou o medico a rir . -Ah ! sim ... Seguiram juntos pelo corre-- dor e Eduardo, apezar da opposição do medico, quiz acompanhal-o á porta. -Não , não venha ; está muito frio . - Qual ! Estou habituado á neve . -Ah ! na Europa... mas lá ha o conforto, que não se conhece n'este relaxado paiz . O senhor chega da rua, a tiritar, e encontra um bom fogo, o punch , o leito aquecido e dorme sem receio dos ventos ; mas as nossas casas ? verdadeiras gaiolas. Ainda não nos civilizamos, meu amigo - só temos presumpção , nada mais . Olhe esse homemzinho da philosophia : muita moral, muito conceito, muita patacoada ; não tem um preparatorio e vive a encharcar-se de mercurio . Farofia ! Somos assim- um povo de exterioridades- por dentro, ainda os mesmos botocudos. Até amanhan . Foi-se . Eduardo ficou um momento á porta, acompanhando o vulto, que se perdia na sombra do largo, faiscante de vagalumes . De longe ainda o medico exclamou, numa
lembrança : E a installação da loja maçonica !? Pois tem coragem de perder espectaculo tão rico ? - Que fazer ? -Ah ! é porque não conhece o pessoal . Vae ser uma delicia . Boa noite ! - Boa noite , doutor . O ceu limpo, bordado de estrellas, tinha um brilho sedoso. Em redor das lampadas havia uma teia de nevoa. A villa dormia calada, só o ribeirão roncava entre as barrancas . O hotel, sombrio e deserto, parecia abandonado de todo. Recolhendo-se, Eduardo ouviu vozes na sala dos jornaes- era o «philosopho>> que embasbacava um marchante goyano que vendera o seu gado e alli fôra descançar uns dias . O pobre homem bocejava e o outro ia-lhe desvendando os altos arcanos da philosophia, e adiante, na sombra do corredor, o velho padre, entre o negro que cochilava e o aleijadinho attento, ia dizendo, do fundo do seu carro, com muito vagar e com muita doçura, a desgraça de Job. -Boa noite . Só o negro não respondeu , cabeceando . Muito frio ... -E' verdade, meu senhor. Estou aqui entretendo este rapazinho com umas historias dos livros santos .
-Faz bem. Até amanhan . -Até amanhan... Então , é verdade que o senhor vae deixar-nos ? -E' verdade : parto ámanhan . -Que pena ! E como isto vae ficar triste ... E ainda Eduardo pôde ouvir a voz da sacerdote, dizendo : «A' hora da tarde, estando Job á porta da sua casa, viu chegar um moço ... » Entrou no quarto, onde a temperatura era tepida e ainda fluctuava um fino aroma de essencias . Elsa, com os cabellos soltos, toda arripiada , tiritava, sentada diante do lavatorio . -Que frio ! Eugenia adiantou-se para fazer-lhe a trança. Depressa, Eugenia ... estou toda gelada . E' então ámanhan ? -A'manha ! -Bem cedo estou de pé. Quando a creada sahiu Elsa, ao voltar-se, deu com Eduardo parado diante do leito, a olhar-eram os lenções do hotel que o forravam, sem o grande monogramma, em relevo, que dava tanta distincção, uma severidade heraldica, sem as colchas de seda, o fofo cobertor felpudo, as fronhas de rendas. Estás olhando ? Já mandei tudo . Por uma noite até tem graça. -Sim, observou elle enlaçando-a pela cinta, mas olha que esta é verdadeiramente a nossa noite de nupcias. Ella teve um movimento vivo, um momo gracioso .
AGUA DE JUVENTΑ -Por isso, não ... e sorrindo : e lá em cima? -Ah ! lá em cima... tivemos o sol ! Cedo, ainda escuro, estavam de pé. Eduardo quiz ir ás duchas, pela ultima vez, Elsa acompanhou-o, ficou em um dos banheiros . De volta , corados, vestiram-se á pressa, tomaram café na sala de jantar e fôram para a janella, olhar o largo . As nevoas rolavam densas, todo o fundo da paisagem era um fumo espesso, alvejando - aqui , alli pelos rasgões, appareciam verdores d'arvores, pontas de telhados, ás vezes uma casa-as hervas luziam molhadas . Mas o sol rompia o nevoeiro, illuminava-o-já nos cerros alastravam clarões d'ouro e o azul limpava-se a trechos. As horas passavam vagarosas como se os prendessem á villa. Lá estava a montanha, com o seu dorso immenso coberto de nevoa branca como a lan das ovelhas lavadas . Eduardo mostrou-a. Tinha sido alli, n'um canto verde, entre as arvores . Ficaram a olhar, sorrindo . -Se eu tivesse trazido a minha machinal ...
AGUA DE JUVENTΑ - Para que ? - Oral para termos uma lembrança ... --Ha tantas photographias por ahi ... -Sim, da villa... mas eu queria a fonte. Riram . Um silvo da locomotiva em manobra tirou-os do extase. Já se haviam despedido de todos . Elsa, porém, quiz dizer adeus á D. Ursulina, que estava adoentada, com o seu achaque, dar alguma coisa ao padre e ao aleijadinho e lá os foi vêr. A boa senhora recebeu -a gemendo, tolhida de dôres, a amaldiçoar aquelle tempo . -Não imagina as noites que tenho passado, são dôres em todas as juntas, o peito parece que me vae rebentar. Ah ! estas aguas são boas , são , para quem tem mocidade, mas para uma velha como eu, cheia de ferrugem... Esticou o beiço, desanimada. Emfim ... Abraçaram-se . D. Ursulina offereceu a sua casa, em Lavrinhas, uma choupana. Elsa deu-lhe um cartão com o seu endereço, no Rio, e despediram-se : Boa viagem ! Sejam muito felizes ... Olhe, recommende-me a seu marido e dê muitas lembranças á Eugenia ... Boa rapariga. E, baixando a voz : E' verdade ! ella não lhe disse nada ? -Não . Sobre que ? -Sobre o tal sabichão ? -Não .
- Pois , sim senhora - contou-me ella : agarrou-a, minha filha; agarrou-a, uma noite, no corredor e se ella não fosse quem é, uma rapariga forte, nem sei. Deu-lhe ! deu-lhe mesmo . -Eugenia ! exclamou Elsa sem conter o riso. - Sim, senhora. Um sonso, o tal sujeitinho . Eu nunca me enganei com aquella cara. Homem sem religião ... Olhe, eu não vou á estação porque estou como vê. Boa viagem , muitas felicidades e que encontre todos os seus bons . O padre e o aleijadinho cobriramn'a de bençãos e de louvores . O Fonseca acompanhou-os . Na estação eram poucos os curiososgente da terra, em mangas de camisa, pobres esmolando . O doutor lá estava passeiando na plata-fórma, com grossas luvas de lan, um chale sobre o capote . Elsa, ao dar com elle, ficou atarantada, um vivo rubor tingiu-lhe as faces . O medico adiantou-se respeitoso e um menino, com uma linda parasita, seguiu-o de perto . -O homem do matto, minha senhora, só póde offerecer lembranças agrestes ; e tomando a parasita da mão do pequeno, apresentou-a á Elsa . -Que belleza ! Muito obrigada, doutor.
-E' bonita , é . Eu não sou muito entendido n'essas coisas, mas um allemão que aqui esteve ficou deslumbrado . Ah ! só os estrangeiros dão valor ao que possuimos ... - Ficará na minha sala de jantar. Eduardo lembrou-se da grota em que vira Firmino enganchado na arvore coberta de parasitas e disse : -Lá em cima ha lindas . Elsa corou de novo . - Lá em cima !? exclamou o medico ... em toda a parte . Na Europa isto é uma fortuna. Mas o chefe de trem annunciou a partida . Embarcaram . Boa viagem ! - Obrigado, doutor. - -Felicidades... Minha senhora ... O comboio moveu-se, foi indo . Eduardo e Elsa, á janella do wagon, acenavam ao doutor que agitava o lenço . A' volta, perdendo-se a estação , a paisagem alargou-se deslumbrante -campos , arvoredos , collinas , palhoças fumegando, e alta, soberba , dominando as varzeas, a montanha carregando a floresta nos rijos e fecundos flancos e lá ao fundo , recatada como uma camara nupcial , os dois adivinhavam a fonte e áquella hora os velhos troncos, os arbustos, as hervas, os nenuphares, os passarinhos , as abelhas , as parasitas , as aguas, tudo que alli vi
via commentava alegremente, ao calor do sol, aquelle idyllio da vespera, sob os pendidos ramos . Eduardo , sorrindo, estendeu o braço na direcção da montanha e, como iam sós no wagon, mesmo á janella, em face da natureza esplendida , beijaram-se ... E o comboio, a toda a velocidade, rompia as nevoas da serra .
DESAPONTAΜΕΝΤΟ
Leia gratuitamente Água de Juventa, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1904, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.