Universo da obra
Universo da obra
— O que, meu caro Stroibus? Não, impossivel. Nunca jámais ninguem acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do homem um ratoneiro.
— Em primeiro logar, Pythias, tu omittes uma condição:— é que o rato deve expirar debaixo do escalpello, para que o sangue traga o seu principio. Essa condição é essencial. Em segundo logar, uma vez que me apontas o exemplo do rato, fica sabendo que já fiz com elle uma experiencia, e cheguei a produzir um ladrão...
— Ladrão authentico?
— Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me a maior alegria do mundo:— a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade immortal. Sim, meu caro Pythias; esta é a eterna verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro estão no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado na aguia...
— Os do sabio na coruja, interrompeu Pythias sorrindo.
— Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se pudessemos transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous, faço-te de um caseiro um viageiro. O principio da fidelidade conjugal está no sangue da rola, o da enfatuação no dos pavões... Em summa, os deuses puzeram nos bichos da terra, da agua e do ar a essencia de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animaes são as letras soltas do alphabeto: o homem é a syntaxe. Esta é a minha philosophia recente; esta é a que vou divulgar na côrte do grande Ptolomeu.
Pythias sacudiu a cabeça, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dous philosophos, que iam levar áquelle regaço do saber os fructos da razão esclarecida. Eram amigos, viuvos e quinquagenarios. Cultivavam especialmente a methaphysica, mas conheciam a physica, a chimica, a medicina e a musica; um d'elles, Stroibus, chegára a ser excellente anatomista, tendo lido muitas vezes os tratados do mestre Herophilo. Chypre era a patria de ambos; mas, tão certo é que ninguem é propheta em sua terra, Chypre não dava o merecido respeito aos dous philosophos. Ao contrario, desdenhava-os; os garotos tocavam ao extremo de rir d'elles. Não foi esse, entretanto, o motivo que os levou a deixar a patria. Um dia, Pythias, voltando de uma viagem, propoz ao amigo irem para Alexandria, onde as artes e as sciencias eram grandemente honradas. Stroibus adheriu, e embarcaram. Só agora, depois de embarcados, é que o inventor da nova doutrina expol-a ao amigo, com todas as suas recentes cogitações e experiencias.
— Está feito, disse Pythias, levantando a cabeça, não affirmo nem nego nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a desenvolvel-a e divulgal-a.
— Vive Helios! exclamou Stroibus. Posso contar que és meu discipulo.
Conto de Machado de Assis em domínio público, publicado no Aurora a partir da edição consolidada da Wikisource.
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