Leia agora
Contos Gauchescos

Universo da obra

Contos Gauchescos

Capítulo 4 · Contos Gauchescos

Chasque do Imperador

4 de 19 ≈ 13 min de leitura

— Quando foi do cerco de Uruguaiana pelos paraguaios em 65 e o imperador Pedro 2° veio cá, com toda a frota da sua comitiva, andei muito por esses meios, como vaqueano, como chasque, como confiança dele; era eu que encilhava-lhe o cavalo, que dormia atravessado na porta do quarto dele, que carregava os papéis dele e as armas dele.

Começou assim: fui escalado para o esquadrão que devia escoltar aquele estadão todo.

Quando a força apresentou-se ao seu general Caxias, o velho olhou... olhou... e não disse nada.

Cada um, firme como um tarumã; as guascas, das melhores, as garras, bem postas, os metais, reluzindo; os fletes tosados a preceito, a cascaria aparada... e em cima de tudo, — tirante eu — uma indiada macanuda, capaz de bolear a perna e descascar o facão até pra Cristo, salvo seja!...

Pois o velho olhou..., olhou..., e ficou calado. E calado saiu.

O tenente que nos comandava, relanceou os olhos como numa sufocação e berrou:

— Firme! E dando um torcicão forte na banda, começou a mascar a pêra, furioso.

E ali ficamos; de vez em quando um bagual escarceando, refolhando, escarvando...

Daí a pouco, de em frente, das casas, veio saindo unia gentama, muito em ordem, de a dois, de a três.

Na testa vinha um homem alto, barbudo, ruivo, de olhos azuis, pequenos, mas mui macios. A esquerda dele, dois passos menos, como na ordenança, o velho Caxias, fardado e firme, como sempre.

O outro, o ruivo, assim a modo um gringo, vinha todo de preto, com um gabão de pano piloto, com veludo na gola e de botas russilhonas, sem esporas.

Pela pinta devia ser mui maturrango.

Não trazia espada nem nada, mas devia ser um maioral porque todos os outros se apequenavam pra ele. Quem seria?...

O tenente descarregou umas quantas vozes; e nós estávamos como corda de viola!...

O ruivo passou pela nossa frente, devagar; mirou um flanco e outro, e falou com o velho, mostrando um ar risonho no rosto sério.

O velho acenou ao tenente, que tocou o cavalo e firmou a espada em continência.

Então o ruivo disse:

— ‘Stá bem, sr. tenente; estou satisfeito! Mande-me aqui um dos seus homens, qualquer...

— O tenente bateu a espada e deu de rédea, e parou mesmo na minha frente... eu era guia da fila testa.

— Cabo Blau Nunes! Pé em terra! Um!... Dois!...

Estava apeado e perfilado, com a mão batendo na aba levantada do meu chapéu de voluntário.

— Apresente-se!

E baixinho, fuzilando nos olhos, boquejou-me: — aquele é o imperador; se te enredas nas quartas, defumo-te!

Ora!... Caminhei firme e quando cheguei a cinco passos do ruivo, tornei a quadrar o corpo, na postura dos mandamentos.

Aí o velho Caxias perguntou:

— Sabes a quem falas?

— Diz que ao senhor imperador!

— Sua majestade o imperador, é que se diz.

— A sua majestade o imperador!

Vai então, o tal, que pelo visto, era mesmo o tão falado imperador, disse, numa vozinha fina:

— Bem; cabo, você vai ficar na minha companhia; há de ser o meu ordenança de confiança. Quer?...

— O senhor imperador vai ficar mal servido: sou um gaúcho mui cru; mas para cumprir ordens e dar o pelego, tão bom haverá, melhor que eu, não!

Aí o homem riu-se e o velho também. E vai este indagou:

— Conheces-me?

— Como não?!... Desde 45, no Ponche Verde; fui eu que uma madrugada levei a vossa excelência um ofício reservado, pra sua mão própria... e tive que lanhar uns quantos baianos abelhudos que entenderam de me tomar o papel... Vossa excelência mandou-me dormir e comer na sua barraca, e no outro dia me regalou um picaço grande, mui lindo, que...

— Bem me parecia, sim... E ainda és o mesmo homem?

— Sim, sr., com algum osso mais duro e o juízo mais tironeado!

— É que sua majestade vai precisar de um chasque provado, seguro... há perigo, na missão...

— Uê! seu general!... Meu pai e minha mãe hoje, é esta!

E beijei a minha divisa de cabo.

O imperador pôs a mão no meu ombro e disse:

— Estimo-te. Podes ir... e cala-te.

E vancê creia... — que diabo! — tive um estremeção por dentro!...

Eu pensava que o imperador era um homem diferente dos outros... assim todo de ouro, todo de brilhantes, com olhos de pedras finas...

Mas, não senhor, era um homem de carne e osso, igual aos outros... mas como quera... uma cara tão séria... e um jeito ao mesmo tempo tão sereno e tão mandador, que deixava um qualquer de rédea no chão!...

Isso é que era!...

Fiz meia-volta e fui tomar o meu lugar; o esquadrão desfilou, apresentando armas e fomos acampar. Logo a rapaziada crivou-me de perguntas... mas eu, soldado velho, contei um par de rodelas, queimei campo a boche, mas não afrouxei nada da conversa; não vê!...

De tardezita já entrava de serviço.

A não ser nas conversas particulares daqueles graúdos — pois tudo era só seu barão, seu conselheiro, seu visconde, seu ministro —, eu sempre via e ouvia o que se passava.

E a bem boas assisti.

Um dia apresentaram ao imperador um topetudo não sei donde, que perguntou, mui concho:

— Então vossa majestade tem gostado disto por aqui?

— Sim, sim, muito!

— Então por que não se muda pra cá, com a família?...

Outro, no meio da roda, puxou da traíra, sovou uma palha de palmo, e começou a picar um naco; esfregou o fumo na cova da mão, enrolou, fechou o baio e mui senhor de si ofereceu-o ao imperador.

— É servido?

— Não, obrigado; parece-me forte o seu fumo...

— Não sabe o que perde!... Então, com sua licença!...

E bateu o isqueiro e começou a pitar, tirando cada tragada que nuveava o ar!

Havia um que era barão e comandava um regimento, que era mesmo uma flor; tudo moçada parelha e guapa.

O imperador gabou muito a força, e aí no mais o barão já lhe largou esta agachada:

— Que vossa majestade está pensando?... Tudo isto é indiada coronilha, criada a apojo, churrasco e mate amargo... Não é como essa cuscada lá da Corte, que só bebe água e lambe a... barriga!...

Este mesmo barão, duma feita que o d. Pedro procurou no bolso umas balastracas para dar uma esmola e não achou mais nada, desafivelou a guaiaca e entregando-a disse:

— Tome, senhor! Cruzes! Nunca vi homem mais mão-aberta do que vossa majestade..., olhe que quem dá o que tem, a pedir vem... mas... quando quiser os meus arreios prateados... e até a minha tropilha é só mandar... só reservo o tostado crespo e um qualquer pelego...

— Mas, sr. barão, nem por isso eu dou o que desejara...

— Ora qual!... Vossa majestade não dá a camisa... porque não tem tempo de tirá-la!...

Numa das marchas paramos num campestre, na beira dum passo, perto dum ranchito.

Daí a pouco, com uma trouxinha na mão apareceu no acampamento uma velha, que já tinha os olhos como retovo de bola. Por ali andou mirando, e depois entrando mesmo no grupo onde ele estava, disse:

— Bom dia, moços! Qual de vocês é o imperador?

— Sou eu, dona! Assente-se.

A velha olhou-o de alto a baixo, calada, e depois rindo nos olhos:

— Deus te abençoe! Nossa Senhora te acompanhe, meu filho! Eu trago-te este bocadinho de fiambre!

E abrindo o pano, mui limpinho, mostrou um requeijão, que pela cor devia de estar um gambelo, de gordo e macio. D. Pedro agradeceu e quis dar uma nota à velha, que parou patrulha.

— Não! não!... Tu vais pra guerra... Os meus filhos e netos já lá andam... Eu só quero que vocês não se deixem tundar!...

Houve uma risada grande, da comitiva. A velhota ainda correu os olhos em roda e indagou:

— Diz que o seu Caxias também vem aqui... quem é?

— Sou eu, patrícia!... Conhece-me?

— De nome, sim, senhor. O meu defunto, em vida dele, sempre falava em vancê... Pois os caramurus iam fuzilar o coitado, quando vancê apareceu... Lembra-se?... E vai, quando o seu general Canabarro fez a paz entre os farrapos e os legais, o meu defunto jurou que onde estivesse o seu Caxias, ele havia de ir... mas morreu, pro via dum inchume, que apareceu, aqui, lá nele. Mas, como por aqui, correu que vancê ia pra guerra dos paraguaios, o meu filho mais velho, em memória do pai, ajuntou os irmãos e os sobrinhos e uns quantos vizinhos e se tocaram todos, pra se apresentarem de voluntários, a vancê!... Vancê dê notícias minhas e bote a benção neles; e diga a eles que não deixem o imperador perder a guerra... ainda que nenhum deles nunca mais me apareça!... Bem! com sua licença... Seu imperador, na volta, venha pousar no rancho da nhã Tuca; é de gente pobre, mas tudo é limpo com a graça de Deus... e sempre há de haver uma terneira gorda pra um costilharl... Passar bem! Boa viagem... Deus os leve, Deus os traga!...

O imperador — esse era meio maricas, era! — abraçou a velha, prometendo voltar, por ali, e quando ela saiu, disse:

— Como é agradável esta rudeza tão franca!

Numa cidade onde pousamos, o imperador foi hospedado em casa dum fulano, sujeito pesado, porém mui gauchão.

Quando foi hora do almoço, na mesa só havia doces e doces... e nada mais. O imperador, por cerimônia provou alguns; a comitiva arriou aqueles cerros açucarados. Quando foi o jantar, a mesma cousa: doces e mais doces!... Para não desgostar o homem, o imperador ainda serviu-se, mas pouco; e de noite, outra vez, chá e doces!

O imperador, com toda a sua imperadorice, gurniu fome!

No outro dia, de manhã, o fulano foi saber como o hóspede havia passado a noite e ao mesmo tempo acompanhava uma rica bandeja com chá e... doces...

Aí o imperador não pôde mais... estava enfarado!...

— Meu amigo, os doces são magníficos... mas eu agradecia-lhe muito se me arranjasse antes um feijãozinho... uma lasca de carne...

O homem ficou sério... e depois largou uma risada:

— Quê! Pois vossa majestade come carne?! Disseram-me que as pessoas reais só se tratavam a bicos de rouxinóis e doces e pasteizinhos!... Por que não disse antes, senhor? Com trezentos diabos!... Ora esta!... Vamos já a um churrasco... que eu, também, não agüento estas porquerias!...

·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
·
NewPP limit report Parsed by mw‐web.eqiad.main‐5d595dd685‐v96kl Cached time: 20260622145731 Cache expiry: 2592000 Reduced expiry: false Complications: [vary‐page‐id] CPU time usage: 0.136 seconds Real time usage: 0.222 seconds Preprocessor visited node count: 676/1000000 Revision size: 248/2097152 bytes Post‐expand include size: 22569/2097152 bytes Template argument size: 2098/2097152 bytes Highest expansion depth: 19/100 Expensive parser function count: 1/500 Unstrip recursion depth: 0/20 Unstrip post‐expand size: 15593/5000000 bytes Lua time usage: 0.009/10.000 seconds Lua memory usage: 921923/52428800 bytes Number of Wikibase entities loaded: 1/500 Transclusion expansion time report (%,ms,calls,template) 100.00% 103.003 1 -total 61.79% 63.643 1 MediaWiki:Proofreadpage_header_template 57.52% 59.244 1 Predefinição:Navegar 8.73% 8.989 1 Predefinição:Navegar/ano 8.16% 8.404 1 Página:Contos_gauchescos_(1912).djvu/105 7.85% 8.089 1 Página:Contos_gauchescos_(1912).djvu/102 6.33% 6.522 1 Predefinição:Linha_de_correlatos 3.91% 4.023 1 Página:Contos_gauchescos_(1912).djvu/109 3.67% 3.785 1 Predefinição:Contar_página 3.13% 3.220 1 Predefinição:Is_subpage Render ID b1834978-6e4a-11f1-821b-11a1034eedc0 Saved in parser cache with key ptwikisource:pcache:30903:|#|:idhash:canonical and timestamp 20260622145731 and revision id 432572. Rendering was triggered because: page_view
Contos Gauchescos

Sinopse

Contos Gauchescos, de João Simões Lopes Neto, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível para leitura gratuita online no Literunico. Esta edição em HTML foi preparada por capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA, com fonte pública validada no Wikisource.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978656911282065657675556
Contos Gauchescos

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Contos Gauchescos

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Contos Gauchescos

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Contos Gauchescos Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 4 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir