Universo da obra
Universo da obra
Jaz em ruínas o torrão dos mouros; Pesados ferros o infeliz arrasta; Inda resiste a intrépida Granada; Mas em Granada a peste assola os povos.
Cum punhado de heróis sustenta a luta Fero Almansor nas torres de Alpujarra; Flutua perto a hispânica bandeira; Há-de o sol damanhã guiar o assalto.
Deu sinal, ao romper do dia, o bronze; Arrasam-se trincheiras e muralhas; No alto dos minaretes erguem-se as cruzes; Do castelhano a cidadela é presa.
Só, e vendo as coortes destroçadas, O valente Almansor após a luta Abre caminho entre as imigas lanças, Foge e ilude os cristãos que o perseguiam.
Sobre as quentes ruínas do castelo, Entre corpos e restos da batalha, Dá um banquete o Castelhano, e as presas E os despojos pelos seus reparte.
Eis que o guarda da porta fala aos chefes: Um cavaleiro, diz, de terra estranha Quer falar-vos; – notícias importantes Declara que vos traz, e urgência pede."
Era Almansor, o emir dos Cauçulmanos, Que, fugindo ao refúgio que buscara, Vem entregar-se às mãos do castelhano, A quem só pede conservar a vida.
Castelhanos, exclama, o emir vencido No limiar do vencedor se prostra; Vem professar a vossa fé e culto E crer no verbo dos profetas vossos.
Espalhe a fama pela terra toda Que um árabe, que um chefe de valentes, Irmão dos vencedores quis tornar-se, E vassalo ficar de estranho cetro!"
Cala no ânimo nobre ao Castelhano Um ato nobre... O chefe comovido, Corre a abraçá-lo, e à sua vez os outros Fazem o mesmo ao novo companheiro.
Às saudações responde o emir valente Com saudações. Em cordial abraço Aperta ao seio o comovido chefe, Toma-lhe as 25 mãos e pende-lhe dos lábios.
Súbito cai, sem forças, nos joelhos; Arranca do turbante, e com a mão trêmula O enrola aos pés do chefe admirado, E junto dele arrasta-se por terra.
Os olhos volve em torno e assombra a todos: Tinha azuladas, lívidas as faces, Torcidos lábios por feroz sorriso, Injetados de sangue ávidos olhos.
Desfigurado e pálido me vedes, Ó infiéis! Sabeis o que vos trago? Enganei-vos: eu volto de Granada, E a peste fulminante aqui vos trouxe."
Ria-se ainda – morto já – e ainda Abertos tinha as pálpebras e os lábios: Um sorriso infernal de escárnio impresso Deixara a morte nas feições do morto.
Da medonha cidade os castelhanos Fogem. A peste os segue. Antes que a custo Deixado houvessem de Alpujarra a serra, Sucumbiram os últimos soldados.
Primeiro livro de poesia de Machado de Assis em domínio público, publicado no Aurora a partir de fonte digital consolidada com referência à Biblioteca Nacional.
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