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Capítulo 14 · Crisálidas

Ludovina Moutinho — Elegia

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Ludovina Moutinho

Elegia 15 (1861)

A bondade choremos inocente Cortada em flor que, pela mão da morte, Nos foi arrebatada d’entre a gente. CAMÕES – Elegias

Se, como outrora, nas florestas virgens, Nos fosse dado — o esquife que te encerra 16 Erguer a um galho de árvore frondosa, Certo, não tinhas um melhor jazigo Do que ali, ao ar livre, entre os perfumes Da florente estação, imagem viva De teus cortados dias, e mais perto Do clarão das estrelas.

Sobre teus pobres e adorados restos, Piedosa a noite, ali derramaria De seus negros cabelos puro orvalho; À borda do teu último jazigo Os alados cantores da floresta Iriam sempre modular seus cantos; Nem letra, nem lavor de emblema humano, Relembraria a mocidade morta; Bastava só que ao coração materno, Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos, Um aperto, uma dor, um pranto oculto, Dissesse: — Dorme aqui, perto dos anjos, A cinza de quem foi gentil transunto De virtudes e graças.

Mal havia transposto da existência Os dourados umbrais; a vida agora Sorria-lhe toucada dessas flores Que o amor, que o talento e a mocidade A urna repartiam.

Tudo lhe era presságio alegre e doce; Uma nuvem sequer não sombreava, Em sua fronte, o íris da esperança; Era, enfim, entre os seus a cópia viva Dessa ventura que os mortais almejam, E que raro a fortuna, avessa ao homem, Deixa gozar na terra.

Mas eis que o anjo pálido da morte A pressentiu feliz e bela e pura, E, abandonando a região do olvido, Desceu à terra, e sob a asa negra A fronte lhe escondeu; o frágil corpo Não pôde resistir; a noite eterna Veio fechar seus olhos: Enquanto a alma abrindo As asas rutilantes pelo espaço, Foi engolfar-se em luz, perpetuamente, No seio do infinito; Tal a assustada pomba, que na árvore O ninho fabricou, – se a mão do homem Ou a impulsão do vento um dia abate O recatado asilo, – abrindo o vôo, Deixa os inúteis restos E, atravessando airosa os leves ares, Vai buscar noutra parte guarida.

Hoje, do que era ainda a lembrança resta, E que lembrança! Os olhos fatigados Parecem ver passar a sombra dela; O atento ouvido inda lhe escuta os passos; E as teclas do piano, em que seus dedos Tanta harmonia despertavam antes, Como que soltam essas doces notas Que outrora ao seu contato respondiam.

Ah! pesava-lhe este ar da terra impura, Faltava-lhe esse alento de outra esfera, Onde, noiva dos anjos, a esperavam As palmas da virtude.

Mas, quando assim a flor da mocidade Toda se esfolha 17 sobre o chão da morte, Senhor, em que firmar a segurança Das venturas da terra ? Tudo morre; À sentença fatal nada se esquiva, O que é fruto e o que é flor. O homem cego Cuida haver levantado em chão de bronze Um edifício resistente aos tempos, Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro, O castelo se abate, Onde, doce ilusão, fechado havias Tudo o que de melhor a alma do homem Encerra de esperanças.

Dorme, dorme tranqüila Em teu último asilo: e se eu não pude Ir espargir também algumas flores Sobre a lájea da tua sepultura; Se não pude, – eu que há pouco te saudava Em teu erguer, estrela, – os tristes olhos Banhar nos melancólicos fulgores, Na triste luz do teu recente ocaso, Deixo-te ao menos nestes pobres versos Um penhor de saudade, e lá na esfera Aonde aprouve ao Senhor chamar-te cedo, Possas tu ler nas pálidas estrofes A tristeza do amigo.

Crisálidas

Sinopse

Primeiro livro de poesia de Machado de Assis em domínio público, publicado no Aurora a partir de fonte digital consolidada com referência à Biblioteca Nacional.

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