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Diálogos das Grandezas do Brasil

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Diálogos das Grandezas do Brasil

Capítulo 1 · Diálogos das Grandezas do Brasil

Diálogo primeiro

Diálogo primeiro ALVIANO QUE bisalho é esse, Sr. Brandonio, que estaes revolvendo dentro nesse papel ? porque, segundo o consideraes com attenção, tenho para mim que deve ser de diamantes ou rubis.-

BRANDONIO Nenhuma cousa dessas é, sinão uma lanugem que produz aquella arvore fronteira de nós em um fructo que dá, do tamanho de um pecego, que semelha propriamente a lã. E porque m'a trouxe agora ha pouco a amostrar uma menina, que o achou cahido no chão, considerava que se podia applicar para muitas cousas (1 ).

ALVIANO Não de menos consideração me parece o modo da arvore que o fructo della; porque, segundo estou vendo, semelha haver-se produzido do sobrado desta casa, onde deve ter as raizes, pois está tão conjuncta a ella.

BRANDONIO A humidade de que gozam todas as terras do Brasil a faz ser tão fructifera no produzir que infinidade de estacas de diversos páos, mettidos na terra, cobram e em breve tempo chegam a dar fructo; e esta arvore, que vos parece nascer de dentro desta casa, foi um esteio que se metteu na terra, sobre o qual, com outros mais, se sustenta este edificio, que, por pender, veio a criar essa arvore, que demonstra estar unida com a parede.

ALVIANO Aos que ignorarem esse segredo deve de parecer o modo estrauho; mas, comtudo, dizei-me: para que effeito imaginaveis que se podia applicar essa lanugem que estaveis considerando ?

BRANDONIO Parece-me certamente que servira para enchimentos de travesseiros, almofadas, e ainda pera colchões, e que tambem, si fôr fiada, se poderá della fazer pannos, posto que chapéos tenho por sem duvida que se farão muito bons.

ALVIANO Bôa graça é essa; pois, quando isso prestara pera esse effeito, não era possivel estar tanto tempo escondido sem os homens o haverem experimentado.

BRANDONIO Essa razão não conclúe pera se deixar de entender que póde mui bem esta lã ou lanugem prestar pera o que digo, porque muitas cousas ha ainda, assim de fructos como de mineraes, por descobrir, que os homens não alcançaram sua propriedade e natureza.

ALVIANO Isso entendo eu pelo contrario; porque o mundo é tão velho e os homens tão desejosos de novidades, que tenho pera mim que não ha nelle cousa por descobrir, nem experiencia que se haja de fazer de novo que já não fosse feita.

BRANDONIO Enganae-vos nisso summamente, Sr. Alviano, porque ainda ha muitas cousas por descobrir e segredos não achados que pera o diante se hão de manifestar.

ALVIANO Não me posso persuadir a isso; porque tudo está já tão trilhado, que me parece que todos esses segredos são resolvidos e apalpados dos homens, e sómente se tem aproveitado dos que acharam ser de proveito que puzeram em uso.

BRANDONIO Essa opinião é nova, e como tal engano manifesto; porque quem vos amostrára, ha hoje trezentos annos, uma canna de que se faz o assucar, e vos dissera que daquella canna se havia de formar, com a industria humana, um pão de assucar tão fermoso como hoje o vemos, te-lo-ieis por cousa ridiculosa; e pelo conseguinte, se vos fosse mostrado um pedaço de panno velho de linho, e vos affirmassem que daquelle panno se havia de fazer o papel, em que escrevemos, quem duvida que o terieis por zombaria ? E da mesma maneira, se vos puzessem diante um pouco de salitre, enxofre e carvão, com vos jurarem que daquelles materiaes se havia de compor uma cousa que, chegada ao fogo, derrubasse muros e fortalezas, e matasse homens de muito longe, não me fica duvida que, quanto mais vo-lo affirmassem, menos o crerieis; porque haveis de saber que os primeiros inventores das cousas as acharam toscamente com um principio mal limado, e depois os que lhe succederam as foram apurando, até as pôrem no estado de perfeição em que hoje as vemos,

ALVIANO Confesso o que dizeis, mas tambem não me haveis de negar que essas cousas, de que nos aproveitamos, são criadas e cultivadas com a industria e diligencia dos agricultores e mestres inventores dellas, o que não ha nessa vossa lanugem que se tira de uma arvore nascida por acaso por esses campos; porque o trigo, linho e mais legumes, de que os homens se aproveitam para seus mantimentos e uso são cultivados e grangeados, e por isso dão o fructo perfeito; e é tanto assim, que nunca vimos o trigo ou legumes nascer pelos campos de si, sem serem cultivados dos homens.

BRANDONIO Quando essa vossa opinião tivera lugar, parece que se devia tambem conceder que os homens fossem os criadores desses fructos, o que seria tirar a Deus o haver criado tudo, e pelo mesmo caso blasphemia; pois sabemos bem que Deus criou esse trigo, linho e legumes pelos campos, e depois a industria humana os cultivou pera se poder melhor aproveitar delles; porque nem pela Escriptura dizer que Noé plantou vinha, se deve de cuidar que elle fosse o criador della, sinão que tomou o vidonho, donde estava agreste, criado por Deus nos campos, e o poz em uso de se cultivar; com o qual levou o fructo mais perfeito. E se o trigo e mais legumes não nascem de per si nos campos, é porque lhe falta a semente; e quando alguma cae, de onde se produz, o gado e as aves a trilham e comem; mas, si fôra semeado em parte onde não pudesse ser destruido das alimarias, elle por si produziria da semente que lhe fosse caindo ao pé, como fazem as demais plantas.

ALVIANO Confesso ser isso assim; porque sei mui bem que as cousas todas foram produzidas de um principio, o qual foi a primeira criação que nellas fez Deus; e posto que vemos alguns fructos, que parecem não ser criados neste principio, como são as limas doces, laranjas e outras semelhantes, que a industria humana se fez produzir por via de enxertos e outros modos que para isso buscaram todavia a causa de onde procedem são daquellas que por Deus foram primeiramente criadas. Mas esta não é a materia, sobre que começamos nossa pratica, sinão de me parecer que essa lanugem, que dizeis achastes semelhante a lã, deve de prestar pera pouco; porque, si fôra de effeito, já os nossos passados se aproveitaram della; nem me confundem os exemplos, que allegastes, da canna de assucar, papel e polvora, porque esses são uns partos que o tempo produz em muitos decursos de annos; e assim me torno a affirmar, como já disse, que melhor fôra ser esse bisalho de diamantes ou rubis, que são pedras descobertas e tidas por preciosas desde o principio do mundo.

BRANDONIO E quem vos ha de negar que isso fôra de mais proveito pela reputação em que o mundo as tem, por serem reluzentes e campearem muito, com alegrarem a vista com sua fermosura; porque dellas não sei outra excellencia, posto que nunca me inclinára a ter minha fazenda embaraçada nessa mercadoria; porque, quando assim fôra, a teria por pouco segura.

ALVIANO Peregrina opinião é essa vossa por ser encontrada com estylo, que todos os homens de bom entendimento guardam, porque os taes pretendem sempre ter uma parte de sua fazenda em pedraria pela grande estimação em que está tida pera com o mundo, e tambem por ser cousa que em qualquer parte, por pequena que seja, se póde esconder e salvar sem ser achada; e assim, pera os casos repentinos que succedem, fica sendo de muita utilidade pera quem as possue; porque nella levam cabedal bastante para suas necessidades, segundo o preço e estimação das pedras.

BRANDONIO Tudo isso é verdade, e ainda concedo que as pedras preciosas alegram o coração com sua vista, e pera manenconizados é maravilhoso remedio; e da esmeralda se tem por verdadeiro que, se a pessoa que a trouxer commetter algum acto sensual, se quebra por si, tanto ama a castidade (2 ). Comtudo me torno a affirmar que não quizera ter a minha fazenda embaraçada em semelhante mercadoria; porque imagino que, assim como, havendo sido a esmeralda entre as pedras preciosas a de mais estima, veio a faltar della, pelas muitas minas que se descobriram nas Indias Occidentaes, donde se tiram em grande cópia; da mesma maneira se pódem descobrir tantas minas de rubis e diamantes, que percam de sua reputação e valia, e as pessoas que as tiverem se achem por esta via sem a fazenda que cuidavam que tinham.

ALVIANO Não me parece mal essa vossa opinião, porque tenho visto muitas esmeraldas grandes e perfeitas, que se trazem dessas Indias, e agora, em nossos tempos, appareceram outras descobertas neste nosso Brasil pelo Azeredo (3 ), que prometteram no principio muito de si, mas logo mostraram sua fragilidade, por não serem verdadeiramente esmeraldas: do que infiro que ouro, prata e pedras preciosas são sómente para os castelhanos, e que para elles as reservou Deus; porque habitando nós os portuguezes a mesma terra que elles habitam, com ficarmos mais orientaes (parte onde, conforme a razão devia de haver mais minas ), não podemos descobrir nenhuma em tanto tempo ha que nosso Brasil é povoado, descobrindo elles cada. dia muitas.

BRANDONIO Não se póde tirar aos castelhanos serem bons conquistadores e descobridores; porque atravessaram conquistando, desde Cartagena até Chile e Rio da Prata, que é innumeravel terra, pela qual foram achando quantidade grande de minas de ouro, prata, cobre, azougue, e outras diversas, de que hoje em dia gozam e se aproveitam; mas nem por isso, se deve de attribuir aos nossos portuguezes o nome de ruins conquistadores.

ALVIANO Como não, se vemos que em tanto tempo que habitam neste Brasil, não se alargaram para o sertão para haverem de povoar nelle dez leguas, contentando-se de, nas fraldas do mar, se occuparem sómente em fazer assucares ?

BRANDONIO E tendes essa occupação por pequena ? Pois eu a reputo por muito maior que a das minas de ouro e de prata; como alguma hora vo-lo mostrarei provado claramente (4 ). Mas, porque não tenhaes aos nossos portuguezes por pouco inclinados a conquistas, abraçandovos com essa erronea opinião, vos affirmo que, de quantas nações o mundo tem, elles foram os que mais conquistaram; e sinão, lançae os olhos por esse Oriente, aonde nossos avós conquistaram ganhando, á custa de seu sangue tantos reinos opulentos, cidades famosas, provincias ricas, fazendo tributarios potentissimos reis ao imperio lusitano: o que não succedeu aos castelhanos, porque as conquistas que fizeram nas Indias Occidentaes e Perú foi por entre gente fraca e imbelle, que sempre tiveram as mãos atadas pera a sua defensão, por lhe faltarem armas e animos com que pudessem fazer resistencia, em tanto que quatro castelhanos, mal armados manietaram reis, poderosos de riquezas, e abundantes de gentes no seu proprio reino e dentro em suas cidades e casas, sem os seus naturaes vassallos terem animo nem industria pera os saberem defender; o que não succedeu aos nossos portuguezes no Oriente, por-- que fizeram suas conquistas entre gentes bellicosissimas, mui bem armadas, assim de cavallo como de pé, que tinham innumeraveispeças de artilharia, e outros bellicos instrumentos de fogo, que hoje em dia espanta ao mundo ver a grandeza das balas que lançavam, contra as quaes não arreceiavam de oppor o peito, largando mui-- tos a vida ás mãos de sua furia. Vêde tambem tantas ilhas, situadas no meio desse grande pégo do Oceano, as quaes descobriram e povoaram esses reinos de Angola e do Congo, ilhas do Cabo Verde e de S. Thomé, esta grande terra do Brasil; de modo que aos nossos portuguezes se póde, com rezão, attribuir (nas muitas conquistas que fizeram por mar e terra ) o verdadeiro nome de Hercules. e de Argonautas.

ALVIANO Quem ha que possa duvidar disso ? Mas o que digo é que neste Brasil fazem curta a conquista, podendo-a fazer muito larga.

BRANDONIO E ' verdade que não se tem estendido muito pera o sertão; mas,. pera isso, haveis de saber que todos os conquistadores, que até hoje descobriram de novo as terras que nos são patentes lançaram mão, e se inclinaram trabalhando naquelle exercicio de que primeiramente tiraram proveito; de onde vejo que os nossos portuguezes que povoaram as ilhas dos Açores, pelos primeiros se haverem lançado em agricultura do trigo, até o presente permanecem nella; os castelhanos, que povoaram as ilhas de Canarias, deram em plantar vinhas, e o mesmo exercicio guardam até hoje em dia, e os que povoaram as ilhas do Cabo Verde tiveram proveito da commutação de negros, e com isso vivem e no reino de Angola, da conquista que tambem fazem delles, nessa permanecem; na ilha de S. Thomé deram em lavrar assucar muito negro, com elle continuam até o presente, e tendo apparelho pera o fazer melhor, não se querem occupar nisso. Os que povoaram as Indias Occidentaes, uns se occuparam na pescaria das perolas, outros em fazer anil, outros em ajuntar cochonilha, outros na cria de gados, outros em lavrarem minas, e todos naquelle primeiro exercicio, em que se exercitaram nesse permaneceram. Nesse nosso Brasil os seus primeiros povoadores deram em lavrar assucares; pois que muito que os de mais os fossem imitando, conforme o costume geral do mundo, que tenho apontado ? E este é o respeito por onde no Brasil seus moradores se occupam sómente na lavoura das cannas de assucar, podendo se occupar em outras muitas cousas.

ALVIANO Não imagino eu isso assim nesse modo: mas antes tenho por sem duvida que o lançarem-se no Brasil sómente seus moradores, a fazer assucares é por não acharem a terra capaz de mais beneficios: porque eu a tenho pela mais ruim do mundo, aonde seus habitadores passam a vida em continua molestia, sem terem quietação, e sobre tudo faltos de mantimentos regalados, que em outras partes costuma haver.

BRANDONIO Certamente que tenho paixão de vos ver tão desarrezoado nessa opinião; e porque não fiqueis com ella, nem com um erro tão erasso, quero-vos mostrar o contrario do que imaginaes. E para o poder fazer como convem, é necessario que me digaes se o ser o Brasil ruim terra é por defeito da mesma terra ou de seus moradores ?

ALVIANO Que culpa se póde attribuir aos moradores pela maldade da terra, pois está claro não poderem elles supprir sua falta nem fazerem abundante a sua esterilidade.

BRANDONIO Por maneira que me dizeis que á terra se deve de attribuir esse nome que lhe quereis dar de ruim ? Assim o digo.

Alviano

BRANDONIO Pois assim vos enganaes: porque a terra é disposta pera se haver de fazer nella todas as agriculturas do mundo pela sua muita fertilidade, excellente clima, bons céus, disposição do seu temperamento, salutiferos ares, e outros mil attributos que ajuntam.

ALVIANO Quando os tivera, creio eu que em tanto tempo, quanto ha que é povoada de gente portugueza, já tiveram descobertos esses segredos, que até agora não acharam pelos não haver.

BRANDONIO Já me ha de ser forçado fazer-vos retratar dessa erronia em que estaes. Não vêdes vós que o Brasil produz tanta quantidade de carnes domesticas e selvaticas, que abunda de tantas aves mansas, que se criam em casa, de toda sorte, e outras infinitas, que se acham pelos campos; tão grande abundancia de pescado excellentissimo, e de differentes castas e nomes; tantos mariscos e cangrejos que se colhem e tomam á custa de pouco trabalho; tanto leite que se tira dos gados; tanto mel que se acha nas arvores agrestes; ovos sem conto, fructas maravilhosas, cultivadas com pouco trabalho, e outras sem nenhum que os campos e matos dão liberalmente; tanto legume de diversas castas, tanto mantimento de mandioca e arroz, com outras infinidades de cousas salutiferas e de muito nutrimento pera a natureza humana, que ainda espero de vo-las relatar mais em particular. Pois á terra que abunda de todas estas cousas como sc lhe póde attribuir falta dellas ? Porque certamente que não vejo eu nenhuma provincia ou reino, dos que ha na Europa, Asia ou Africa, que seja tão abundante de todas ellas, pois sabemos bem que, se tem umas lhe faltam outras; e assim erraes summamente na opinião que tendes.

ALVIANO Pois de que nasce haver tanta carestia de todas essas cousas, se me dizeis que abunda de todas ellas ?

BRANDONIO E ' culpa, negligencia e pouca industria de seus moradores, porque deveis de saber que este estado do Brasil todo, em geral, se fórma de cinco condições de gente, a saber: maritima, que trata de suas navegações, e vem aos portos das capitanias deste Estado com suas náos e caravelas, carregadas de fazendas que trazem por scu frete, aonde descarregam e adubam suas náos, e as tornam a carregar, fazendo outra vez viagem com carga de assucares, pão do Brasil e algodões pera o reino, e de gente desta condição se acha, em qualquer tempo do anno, muita pelos portos das capitanias. A segunda condição de gente são mercadores, que trazem do reino as suas mercadorias a vender a esta terra, e commutar por assucares, do que tiram muito proveito; e daqui nasce haver muita gente desta calidade nella com suas lojeas de mercadorias abertas, tendo correspondencia com outros mercadores do reino, que lh'as mandam, como o intento destes é fazerem-se sómente ricos pela mercancia, não tratam do augmento da terra, antes pretendem de a esfolarem tudo quanto podem. A terceira condição de gente são officiaes mechanicos de que ha muitos no Brasil de todas as artes, os quaes procuram exercitar, fazendo seu proveito nellas, sem se alembrarem por nenhum modo do bem commum. A quarta condição de gente é de homens que servem a outros por soldada que lhe dão, occupando-se em encaixamento de assucares, feitorizar cannaviaes de engenhos e criarem gados, com nome de vaqueiros, servirem de carreiros e acompanhar seus amos; e de semelhante gente ha muita por todo este Estado, que não tem nenhum cuidado do bem geral. A quinta condição é daquelles que tratam da lavoura, e estes taes se dividem ainda em duas especies: a uma dos que são mais ricos, tem engenhos com titulo de senhores delles, nome que lhes concede Sua Magestade em suas cartas e provisões, e os demais tem partidas de cannas; a outra, cujas forças não abrangem a tanto, se occupam em lavrar mantimentos legumes. E todos, assim uns como outros, fazem suas lavouras e grangearias com escravos de Guiné, que pera esse effeito compram por subido preço; e como o do que vivem é sómente do que grangeam com os taes escravos, não lhes- soffre o animo occupar a nenhum delles em cousa que não seja tocante á lavoura, que professam de maneira que tem por muito tempo perdido o que gastam em plantar uma arvore, que lhes haja de dar fructo em dous ou tres annos, por lhes parecer que é muita a demora porque se ajunta a isto o cuidar cada um delles que logo em breve tempo se hão de embarcar para o reino, e que lá hão de ir morrer, e não basta a desengana-los desta opinião mil difficuldades que, a olhos imprevistos, lhes impedem pode-la fazer. Por maneira que este presupposto que tem todos em geral de se haverem de ir pera o reino, com a cobiça de fazerem mais quatro pães de assucar, quatro covas de mantimento, não ha homem em todo este Estado que procure nem se disponha a plantar arvores fructiferas, nem fazer as bemfeitorias ácerca das plantas, que se fazem em Portugal, e pelo conseguinte se não dispõem a fazerem criações de gados e outras; e se algum o faz, é em muito pequena quantidade, e tão pouca que a gasta toda comsigo mesmo e com sua familia. E daqui nasce haver carestia e falta destas cousas, e o não vermos no Brasil quintas, pomares e jardins, tanques de agua, grandes edificios, como na nossa Espanha, não porque a terra deixe de ser disposta pera estas cousas; donde concluo que a falta é de seus modores, que não querem usar dellas.

ALVIANO O ser novo ainda neste Estado me faz ignorar dessas grandezas, que me affirmaes poder nelle haver, e pera que fique melhor inteirado dellas a me poder retratar da minha opinião, vos peço que me digaes como ou de que maneira póde haver todas essas cousas que tendes dito ser o Brasil capaz de produzir ? E assim do seu sitio, bom céo, bondade de astros, e outras cousas de que o tendes feito abundante.

BRANDONIO Esta provincia do Brasil é conhecida no mundo com o nome de America, que com mais resão houvera de ser pela terra de Santa Cruz (5 ), por ser assim chamada primeiramente de Pedralvares Cabral, que a descobriu em tal dia, na segunda armada que el-rei D. Manoel, de gloriosa memoria, mandava á India, e acaso topou com esta grande terra não vista nem conhecida até então no mundo, e por lhe parecer o descobrimento notavel despediu logo uma caravela ao Reino com as novas do que achara, e sobre isso me disse um fidalgo velho, bem conhecido em Portugal, algumas cousas de muita consideração.

ALVIANO E que é o que vos disse esse fidalgo ?

BRANDONIO Dizia-me elle que ouvira dizer a seu pai, como cousa indubitavel, que a nova de tão grande descobrimento foi festejada muito do magnanimo rei e que um astrologo, que naquelle tempo no nosso Portugal havia de muito nome, por esse respeito alevantára uma figura, fazendo computação do tempo e hora em que se descubriu esta terra por Pedralvares Cabral, e outrosim do tempo e hora em que teve El-Rey aviso de seu descobrimento, e que achara que a terra novamente descoberta havia de ser uma opulenta provincia, refugio e abrigo da gente portugueza, posto que a isto não devemos dar credito, são signaes da grandeza em que cada dia se vai pondo (6 ).

ALVIANO Não permitta Deus que padeça a nação portugueza tantos damnos que venha o Brasil a ser o seu refugio e amparo; mas dizei-me se Pedralvares Cabral poz a esta provincia nome de terra de Santa Cruz, que razão ha pera nestes proximos tempos se chamar Brasil, estando tanto esquecido o nome que lhe foi posto ?

BRANDONIO Não o está pera com Sua Magestade e os senhores dos conselhos; pois, nas provisões e cartas que passam quando tratam deste Estado, lhe chamam a terra de Santa Cruz do Brasil, e este nome Brasil se lhe ajuntou por respeito de um páo chamado desse nome, que dá uma tinta vermelha, estimado por toda a Europa, e que só desta provincia se leva pera lá.

ALVIANO Pois dizei-me agora da grandeza, com que já me tendes ameaçado, desta provincia chamada Brasil ou terra de Santa Cruz.

BRANDONIO Tem seu principio esta terra, a respeito do que está hoje em dia povoado dos portuguezs, do rio das Amazonas, por outro nome chamado o Pará, que está situado no meio da linha equinocial até a capitania de São Vicente, que é a ultima das da parte do Sul da dita linha, e entre esta primeira povoação e a ultima de S. Vicente ha muitas terras fertilissimas, povoações, notaveis rios, famosos portos e bahias capacissimas de se recolherem nelles e nellas grandes armadas.

ALVIANO Pois dizei-me de cada uma em particular.

BRANDONIO O Pará ou Rio das Amazonas, que é nos tempos presentes a primeira terra do nosso descobrimento a respeito das mais que temos povoadas pera a parte do Sul, está situada, como tenho dito, na linha equinocinal, aonde não temos até o presente (por ser novamente povoada ) mais que uma pequena fortaleza guardada de poucos e mal providos soldados (7 ). Tem de bocca mais de oitenta leguas, e no reconcavo deste seio de tanta largueza ha innumeraveis ilhas, umas grandes e outras pequenas, bastecidas de muitos arvoredos, com sitios excellentissimos pera se poderem fazer nellas grandes povoações, e todas estão cercadas de agua doce; porque toda o que occupa este grande reconcavo é desta calidade. A terra firme pelo rio a dentro é fertilissima, acompanhada de muito bons ares, e por esse respeito nada doentia; tem muitas excellentes madeiras, capazes pera grandes fabricas, muito mantimento de ordinario da terra, muita caça agreste, de que abundam todos os seus campos, muito peixe, que se pesca com pouco trabalho, sadio e saboroso, e de differentes castas, muito marisco e até o presente (pelo pouco tempo que ha que é povoada ) não se ha feito pelos nossos nenhum beneficio na terra; a qual habita gentio de cabello corredio e côr baça, e que usa da mesma lingua de que usam os demais do Brasil.

ALVIANO Sabeis porventura de onde traz seu principio tão grande rio ?

BRANDONIO Os naturaes da terra querem que o tenha de uma alagoa, que dizem estar no meio do sertão, de onde affirmam nascerem os demais rios reaes e caudalosos, que sabemos por toda esta costa do Brasil; fortalecem sua razão com mostrarem que na mesma conjuncção, em que uns crescem, o fazem os outros, posto que o tempo esteja sereno e concertado naquella parte da costa de onde desembocam; mas eu não persuado a metter este rio do Pará (de que tratámos ) na conta dos demais pera haver de crescer com elles, pelo que tenho ouvido contar a um Peruleiro, homem nobre e rico, e não pouco sciente. E que é

ALVIANO o que haveis ouvido a esse Peruleiro ?

BRANDONIO No anno de oitenta e seis veio a Pernambuco este homem de que trato, o qual me relatou que havendo-lhe succedido a um irmão seu, na cidade de Lima, um negooio pesado, pelo qual o vice-rei trabalhava summamente de o haver ás mãos pera effeito de fazer nelle um exemplar castigo, lhe foi necessario ausentar-se; e por ser buscado por todas as partes, temeu que, se caminhasse por longo da costa, pudesse ser achado, e, querendo desviar-se deste temor, se metteu pelo sertão a dentro com outros dous companheiros que o quizeram acompanhar, e tendo andado, segundo seu parecer, cerca de cincoenta leguas, encontrára um rio o qual, posto que dalli tomava principio, no modo do seu canal lhe parecêra que devia de ser caudaloso, ajuntando-se a isto o ver que suas aguas caminhavam contra o Oriente, veio a cuidar que por ventura viria a desembocar desta outra parte, na costa do Brasil, para onde elle desejava summamente de passar; pelo que, provendo-se de alguns mantimentos, que lhe deram os indios que á roda habitavam, a troco do resgate, e havendo delles mais alguns anzóes, em uma canoa que no proprio rio achou, com os dous companheiros que o seguiam, se mettera nella, navegando sempre pela corrente abaixo, por onde de cada vez se ia o rio mais alargando e fazendo o seu canal mais profundo, até que topou com uma cachoeira, por onde as aguas se despenhavam, de muito alto, por entre grandes penedos, de modo que pera haverem de passar por elles, lhe foi necessario tirar a canôa ás costas pela margens do rio até descerem dos penedios; que dalli cousa de 150 leguas mais abaixo, segundo sua estimação, acharam tambem outra cachoeira, que passaram da mesma maneira; de onde navegaram sempre, sem terem outro impedimento, até desembocarem neste rio, de que tratamos, das Amazonas; de onde por ser verão, na mesma canôa, ao longo da costa, passaram ás Indias, levando por mantimento do muito peixe que sempre pescavam, e alguma agua que ajuntavam em cabaços.

ALVIANO Se isso passa dessa maneira, podera Sua Magestade forrar muito gasto com navegar a sua prata por esse rio abaixo.

BRANDONIO Assim m'o affirmava Peruleiro, dizendo que seu irmão notára, com muita curiosidade que, fazendo-se duas povoações nas duas cachoeiras, que pelo rio arriba havia, não tão sómente podia Sua Magestade navegar por elle abaixo a sua prata, mas ainda os mercadores levariam as suas mercadorias para o Perú pelo mesmo rio acima, com forrarem tão grande gasto quando fazem com ellas pelo comprido caminho por onde as levam (8 ).

ALVIANO E as cachoeiras que dizeis haver nesse rio, não dariam impedimento a essa navegação ?

BRANDONIO Pera isso dizia elle que era necessario que Sua Magestade mandasse lavrar tres esquipações de barcos, uns que levassem a fazenda e trouxessem a prata e mais cousas da foz do rio até a primeira cachoeira, e outros que a levassem e trouxessem da mesma maneira, da primeira até á segunda; e outros dalli até donde o rio toma principio; porque, como as partes, nas quaes se havia de fazer as taes mutações, estivessem povoadas, seria facil o pôr-se em uso.

ALVIANO Se isso passa na fórma que esse Peruleiro vo-lo relatou tenho pera mim que não devem de passar muitos annos sem se tratar dessa navegação, com grande utilidade dos mercadores e moradores do Perú. E adiante desse rio das Amazonas ou Pará, pera a parte do Sul, qual é a primeira povoação ?

BRANDONIO Segue-se logo o Maranhão, rio famoso, que está situado em dous gráos da parte Sul da linha equinocial, o qual el-Rei D. João, de gloriosa memoria, mandava povoar com uma armada que para esse effeito ordenou, que, por ruins successos e algumas desordens (depois de terem tomado terra ) se perdeu, sem se conseguir o effeito pera que fora ordenada (9 ); e agora ultimamente, em nossos dias, o governador que foi deste Estado, Gaspar de Sousa, tendo noticia verdadeira que se fortificavam e apoderavam francezes daquelle grande rio por ordem de Sua Magestade, no anno de 615, ordenou uma armada de que foi capitão Jeronymo de Albuquerque, o qual, com felicissimo successo tomou terra onde, em uma batalha que deu aos Francezes já fortificados nella com o seu governador Monsieur de Reverdere, os venceu e debellou, lançando fóra do rio e do sitio de sua fortificação com morte de muitos, ficando a conquista pelos nossos (10 ); que hoje está povoada e fortificada por elles, e mettida debaixo do imperio de Sua Magestade, com se tirar por este modo aos francezes um porto capacissimo, que tinham naquelle rio pera seus commercios e abrigo das náos de corsarios que vinham de França, todos os annos, a roubar por esta costa do Brasil.

ALVIANO Esta terra do Maranhão, que dizeis estar já povoado dos nossos, além da utilidade que segue a este Estado do Brasil com sua povoação, por não terem nelle os corsarios abrigo de onde possam reparar as suas náos, tem por ventura outras utilidades para seus moradores, como tem as demais capitanias deste Estado ?

BRANDONIO Até agora as não sabemos, por haver tam pouco tempo que é povoada; mas dá de si grandes esperanças de haver de ir em muito augmento pera adiante; porque os nossos, de presente tem feito a sua povoação em uma ilha que está á bocca da barra, de vinte leguas de largo e de outras tantas de comprido, que, por ser sitio capaz de ser fortificado, e aonde os Francezes o estavão, por se poder dalli impedir a entrada da barra, assentaram nelle: mas pelo rio acima, que é grandissimo, na terra firme, se tem descoberto muitas terras fertilissimas pera poderem ser povoadas, com se fazerem muitos engenhos de fazer assucares, e lavrar mantimento em grande cantidade e nelles se achão tantas madeiras, tão boas e de tanta grandeza, que causam espanto; pelo que me não fica duvida de se poder fazer pera adiante, naquella nova povoação, um commercio de muita importancia.

ALVIANO E de que mantimentos usão os moradores que assistem nessa nova conquista pera sua sustentação ?

BRANDONIO Dos mesmos de que se servem os demais moradores deste Estado, porque se produzem alli em grande cópia; e sobretudo abunda de muitos e bons pescados, que se tomam com muito pouco trabalho.

ALVIANO E de que modo se toma esse pescado, que dizeis não custar trabalho o haver-se de pescar ?

BRANDONIO Mandam duas ou tres canoas, ou as que querem, de noite, que se vão atravessar no largo do rio, em certo tempo do anno, se põem inclinadas com a borda pendente contra aquella parte donde a maré vem enchendo, e basta pera o fazerem assentarem-se os indios, que vão nellas, no bordo que pretendem que se incline; e em outros tempos a arrumam contra a vasante da mesma maneira; e estando assim inclinadas por espaço de duas horas, sem mais outro benefieio, se enchem de peixe excellentissimo, que por si salta nellas; e como tem recolhido por esta via todo o que lhes é necessario, encaminham pera a terra, donde se reparte entre todos os moradores.

ALVIANO Se com tanta facilidade se faz a pescaria nesse rio, abundantes devem estar seus moradores de pescado, e, se da mesma maneira podessem haver as carnes, poderiam dizer que estavam na idade dourada, da qual fabulavam os poetas que manavam rios de mel e de manteiga.

BRANDONIO Quando nisso estivera o haverem de gozar dessa idade, tambem vos poderia affirmar que gozam de carnes excellentes á vida com a mesma facilidade.

ALVIANO E de que modo ?

BRANDONIO Mandam algumas canoas pelo rio arriba, e nellas homens exercitados pera o effeito que levam consigo farpões, e em certas paragens, por reconcavos que o rio vai fazendo, em braços e alagoas, que forma pela terra a dentro, acham grande cantidade de peixes, a que chamam bois (11 ), maiores muito do que aquelles de que tomam o nome, de uma proporção e figura estranha, que estão nas taes partes juntos, como em viveiro, e ali os matam ás farpoadas facilmente; porque se deixam achar sem serem buscados, por andarem sobre a agua. E estes peixes bois não tem nenhuma differença (comida de qualquer modo que seja ) de carne de vaca; antes é tão semelhante a ella que vi já muitas pessoas que a comeram por tal, e depois com se lhe dizer e affirmar que era peixe o que comeram, o não quizeram crer. Assim que estes peixes-bois, que se tomam por esta via em grande cantidade podem servir aos moradores do Maranhão, na falta que padecem de carnes, posto que pera o diante virão a gozar de muita, por ser a terra assaz disposta pera criação de gados; além de que se acha pelos campos e mattos muita caça de animais agrestes, gostosos de comer e de muito nutrimento.

ALVIANO Pelo que me dizeis do Maranhão novamente povoado, entendo que virá a ser pera o diante uma capitania (como chamam ás demais do Brasil ) de muita importancia; pelo que, deixando-a de parte, vos peço que me digaes do sitio, calidade das demais povoações, que se vão continuando pela costa adiante pera a parte do Sul.

BRANDONIO A outra povoação que segue, posto que pequena de moradores e sitio, se chama Jaguaribe (12 ), está situada em quatro gráos da parte do Sul da linha equinocial, a qual não promette pera adiante muita grandeza, por a terra de seus derredores não servir para mais que pera mantimentos; posto que a sua costa é fertilissima de ambre gris, muito esmerado, que costuma sair della, em certos tempos do anno, em grandes pedaços, donde se colhe e se vende a mercadores e outras pessoas, que o levam e mandam para o reino; o qual é lá muito estimado, por ser elle de si perfeito e alvissimo.

ALVIANO Se o ambre sae fóra do mar nessa paragem, em muita cantidade, não deixará de ir essa povoação em augmento, por que a riqueza delle supprirá a pobreza da esterilidade da terra.

BRANDONIO Os capitães passados do Rio Grande tiravam muito proveito de o mandarem resgatar com o gentio, antes da costa estar povoada, e agora, com o estar, cessaram de o fazer; e por isso fica sendo o triennio de sua capitania de pouca importancia, a qual está conjuncta a esta de Jaguaribe.

ALVIANO Pois dizei-me della.

BRANDONIO A capitania do Rio Grande, que foi povoada e fortificada, pormandado de Sua Magestade, por Manuel Mascaranhas Homem, capitão que era de Pernambuco, e por Feliciano Coelho de Carvalho, capitão que era da Paraiba, no anno de 1597 (13 ), está situada em seis grãos da parte do Sul, tem na bocca da barra uma fortaleza muito bem provida, assim de soldados pagados da fazenda de Sua Magestade (14 ), como de artilharia, com a qual se defende a entrada dos piratas francezes naquelle porto, aonde costumavam a ir espalmar as suas náos, e a prover-se de agua e mantimentos, e ainda a carregar de páo Brasil, que compravam ao gentio da terra a troco de resgate. Assiste nesta capitania um capitão de Sua Magestade o qual se provê de tres ém tres annos. Não ha nella engenhos de fazer assucares mais de um até este anno de 1618 (15 ), por a terra ser mais disposta para pastos de gado, dos quaes abunda em muita cantidade, até entrar na capitania da Paraiba que lhe está conjuncta.

ALVIANO Deixemos logo esse Rio Grande por esteril, e passemo-nos á capitania da Paraiba; porque já a vi gabar de muito boa e fertil, e juntamente me affirmaram que custára muito dinheiro á fazenda de Sua Magestade, e aos moradores de Pernambuco não pequeno trabalho e despesa, a sua conquista e povoação (16 ).

BRANDONIO A capitania da Paraiba está situada em sete gráos e meio da parte do Sul; mette-se entre ella e a de Tamaracá o Cabo Branco, bem conhecido dos navegantes. Esta capitania é de Sua Magestade por se haver povoado á custa de sua fazenda e da mesma maneira o são as demais para a parte do Norte, de que até agora tratamos. A Paraiba, por ser fertilissima e lavrar muitos assucares nos engenhos, em que se fazem, que no seu districto estão situados não poucos em numero, occupa o terceiro lugar em grandeza e riqueza das demais capitanias deste Estado; porque, tirada a capitania de Pernambuco, que com muita rezão tem o primeiro de todas, e logo a da Bahia, a quem se dá o segundo lugar, posto que seja cabeça de toda a provincia do Brasil, por assistir nella o Governador Geral, Bispo e Casa da Relação. logo esta capitania da Paraiba occupa o terceiro lugar; porque dá ella rendimento á fazenda de Sua Magestade nos dizimos, que se pagam da colheita de suas novidades de assucar, gado, mandioca, e mais legumes, em cada um anno, passante de doze mil cruzados; e estes afóra o que lhe montam nas alfandegas do Reino os assucares que nellas entram levados nesta capitania, que são em muita cantidade. E tenho por sem duvida que, se não estivera tão conjuncta com a capitania de Pernambuco, que já se houvera augmentado no seu crescimento, com se haver começado a povoar por poucos e pobres moradores, posto que mui valorosos soldados, do anno de 1586 a esta parte; por que, no mesmo anno, me alembra haver visto o sitio onde está situada a cidade agora cheia de casas de pedras e cal e tantos templos, cobertos de mattos.-

ALVIANO E que damno é o que faz a capitania de Pernambuco a est'outra com sua vizinhança ? por que eu tenho pera mim que antes lhe devia ser de proveito, por se poderem seus moradores prover com facilidade della de todo o necessario pela sua vizinhança.

BRANDONIO Antes isso é causa de não haver sido ella em mais crescimento: porque, como tem Pernambuco tão chegado os seus moradores se costumam a prover della das cousas de que tem necessidade, fazendo levar, pera esse effeito, muitos assucares que commutam pelo que compram, com o que engrandecem de cada vez mais a capitania de Pernambuco, e diminuem na sua. E a rezão é porque deixam de vir as náos a ella, que viriam, se os seus moradores esperassem por ellas pera se haverem de prover do que lhes fosse necessario, pera esse effeito reservarem os seus assucares, tendo-os prestes pera com elles se carregarem as ditas náos; mas, como estão já providos de Pernambuco, aonde tem despendido os seus assucares, as náos que vem ao seu porto não podem dar a sahida que quizeram ás fazendas que trazem, nem menos carregarem com a brevidade que lhes era necessaria e por este respeito vem poucas, sendo a capitania capaz de carregar em cada um anno vinte náos (17 ).

ALVIANO Esse inconveniente podéra Sua Magestade remediar com facilidade, mandando que se não navegassem dessa capitania assucares pera a de Pernambuco, e com isso ficará atalhado esse damno.

BRANDONIO Assim o tem mandado; mas o descuido dos capitães, pouco cuidado e menos curiosidade dos do governo da terra em o fazerem cumprir, ajuntando-se a isso a muita facilidade com que os governadores geraes dispensam o contrario, desbarata tudo, de maneira que só deixa de levar assucares pera Pernambuco aquelle que não tem.

ALVIANO Não devêra de ser assim; porque sendo essa capitania da Paraiba de Sua Magestade, tinham obrigação seus vassallos e ministros de trabalharem pela augmentar, e não procurar de engrandecer a capitania de Pernambuco, que é de senhorio; por esse modo, com damno tão notavel de est'outra de seu Rei, que lhe tem custado tanta despesa a povoação della.

BRANDONIO Sim, custou com muitos capitães e armadas, que pera o effeito de sua conquista mandou ao Reino; com presidio de Castelhanos, que assistiram na guarda de suas fortalezas; o que nunca vimos nas demais conquistas que se fizeram por todo este Estado.

ALVIANO E qual é a rezão por que metteu Sua Magestade mais cabedal na povoação e conquista desta capitania da Paraiba que costumava metter nas demais ?

BRANDONIO Foi por respeito do seu bom porto, no qual costumavam os piratas francezes ir a reparar suas náos, e ainda a carregar de páo do Brasil, que commutavam por resgate com o gentio Petiguar, e com elle e mais prezas que tomavam pela costa, tornavam a fazer sua navegação pera França em notavel prejuizo de todo o Estado do Brasil; e tudo se atalhou com Sua Magestade se fazer senhor do seu porto e barra que, por ser com muita força defendida dos piratas francezes confederados com o gentio Petiguar, senhor de todo o sertão, belicosissimo e inclinado a guerras, custou muito trabalho e despesa faze-los reduzir á nossa amizade, e desvia-los da que tinham com os francezes, sendo forçado aos nossos, pera se haver de conseguir este effeito, fazerem muitas entradas com mão armada, pelo sertão a dentro, principalmente a uma serra, que chamam de Copaoba, aonde estava o gentio junto em muita cantidade, por ser fertilissimo, e como tal se affirma della produzira muito trigo, vinho, e outras fructas de nossa Espanha (18 ).

ALVIANO Qual é a rezão por que se não aproveitam os nossos dessa serra, que dizeis ser tão abundante ?

BRANDONIO Não o fizeram até agora, por estar um pouco desviada pera o sertão e o gentio que nella habitava andar desinquieto; mas já ago ra tem mandado Sua Magestade que se povoe, elegendo pera effeito da dita povoação Duarte Gomes da Silveira, com titulo de capitão-mór da mesma serra, onde assistem já, na doutrina dos Indios, religiosos da ordem do patriarcha S. Bento, com muito fructo de suas almas, e a um homem amigo meu de credito ouvi affirmar, com outros mais, haver-se achado, nos tempos atrazados, na mesma serra, uma novidade e estranheza que me causou espanto.

ALVIANO Pois não me encubraes o que vos disse esse homem haver achado nessa serra.

BRANDONIO Relatou-me por cousa verdadeira que, andando Feliciano Coelho de Carvalho, capitão-mór que foi da dita capitania pela mesma serra, fazendo guerra ao gentio Petiguar, aos 29 dias do mez de dezembro do anno de 1598, se achára junto a um rio chamado Arasoagipe, que, por ir então secco, demonstrava sómente alguns poços de agua, que o calor do verão não tinha ainda gastado, e que alguns soldados, que foram por elle abaixo, toparam nas suas fraldas, com uma cova, da banda do poente, composta de tres pedras, que estavam conjunctas umas com outras, capaz de se poderem recolher dentro quinze homens; a qual cova tinha de alto, pera a banda do nascente, de sete a oito palmos, e da banda do poente, trese até quatorze palmos; e ali por toda a redondeza que fazia na face da pedra, se achavam umas molduras, que demonstravam, na sua composição, serem feitas artificialmente (19 ). Primeiramente a banda do poente desta cova, na face mais alta della, estavam cincoenta móssas todas conjunctas, que tomavam principio debaixo pera cima de um tamanho, que semelhavam, no modo com que estavam arrumadas, o em que se pinta por retablos o rozario de Nossa Senhora; e no cabo destas móssas se formava uma moldura de rosa desta maneira: E é de advertir que os mais dos caracteres, que se demonstravam nesta cova, se arrumavam da banda do poente, aonde da parte direita das cincoenta móssas, em um cotovello que a pedra fazia, se demonstravam outras trinta e seis móssas, como as demais; das quaes nove dellas corriam do cumprido pera cima, e as outras tomavam através contra a mão esquerda, em cima dellas todas estava outra rosa, como a primeira que tenho pintada: e logo, um pouco mais abaixo, estava outra semelhante rosa, e junto della um signal que parecia caveira de defunto, e logo, contra a mão esquerda, se formavam doze móssas semelhantes ás demais e no alto dellas, que era conjuncto ás cincoenta primeiras, pareciam uns signaes ao modo de caveiras, e da banda direita do cotovello estava uma cruz e logo, para a banda esquerda, na face da pedra, se demonstravam, em seis partes, cincoenta móssas. Em uma das partes estava uma rosa mal clara, porque parecia estar gastada do tempo, e logo adeante estavam outras nove móssas semelhantes ás primeiras, e, por toda a redondeza da cova se viam pintadas outras seis rosas, e na pedra, que se assentava em meio das duas, estavam vinte e cinco signaes ou caracteres que abaixo debuxarei, divididos em tres partes, com mais tres rosas, que os acompanhavam. O que de tudo era mais de consideração, era o estar entre duas pedras muito grandes, uma que botava a borda sobre as outras arcadamente, com estarem tão juntas, que por nenhuma parte davam lugar a se poder metter por ellas o braço. E na pedra de mais baixo da cova pareciam doze móssas da propria maneira das que temos mostrado, e no meio dellas se formava um circulo redondo desta calidade о com mais uma rosa, pintada perfeitamente; e é de notar que todas as rosas eram de uma mesma maneira, excepto uma que tinha doze folhas com a do meio. E pela redondeza desta cova estavam as molduras que tenho dito, ou caracteres que se formavam na maneira seguinte: " primeiro outro outro I 10 % outro outro outro outro outro T I M T outro outro Outro P outro P A cairo )۵ D outro 5 фoutro P outro outro T outro Х outro > outro I Estes caracteres todos nos deram debuxados na fórma que aqui vo-los demonstro.

ALVIANO Certamente que imagino, pelo que noto desses signaes que me amostraes, que devem de ser caracteres figurativos de cousas vindouras, que nós não entendemos porque não me posso persuadir que a natureza esculpisse de por si esses pontos, rosas e de mais cousas, sem intervir a industria humana. E pois não podemos entender semelhante segredo, deixae-as assim debuxadas pera outros melhores entendimentos, e passemo-nos a tratar do mais que ha que dizer da capitania da Paraiba.

BRANDONIO Governa-se por um capitão mór que de tres em tres annos é provido por Sua Magestade, tem na boca da barra uma fortaleza provida de soldados pagos de sua fazenda, com seu capitão. Não está bem fortificada por culpa dos governadores geraes, que se descuidam de o mandarem fazer. A cidade que está situada pelo rio acima ao longo delle, posto que pequena, todavia é povoada de muitas casas, todas de pedra e cal; e já nobrecida de tres religiões que nella assistem, com seus conventos, a saber: o da ordem do patriarcha S. Bento, e os religiosos de Nossa Senhora do Carmo, com os do Serafico padre S. Francisco, da provincia capucha de Santo Antonio, que tem um convento sumptuoso, o melhor dos daquella ordem de todo o Estado do Brasil; no espiritual é esta capitania da Paraiba cabeça das demais, da parte do Norte, de Pernambuco adiante; por quanto se intitula o prelado Administrador da Paraiba. E ' capaz a capitania de lançar de si todos os annos vinte náos carregadas de assucares (20 ): parte, pera a banda do Sul, com a capitania de Tamaracá.

ALVIANO Pois dizei-me della.

BRANDONIO Está situada a capitania de Tamaracá em altura de oito gráos, da banda do Sul da linha Equinocial, della é hoje senhor, por Sua Magestade, o conde de Monsanto (21 ): tem a povoação em uma ilha conjuncta ao seu porto e barra, chamada Tamaracá, da qual toma o nome toda a capitania, que contém em si muito boas terras, pelas quaes ha engenhos de fazer assucares, que pagam pensão ao senhorio, o que não fazem os moradores que são das capitanias de Sua Magestade; porque estas pensões lhe importam muito, juntamente com a redizima, que se lhe deve por sua doações, de todo rendimento que a fazenda de Sua Magestade colhe della. No antigo teve cincoenta leguas de costa, nas quaes entrava o districto da Paraiba, de que Sua Magestade a desmembrou, por haver povoado á sua custa parte com a capitania de Pernambuco, entre as quaes estão mettidos marcos, que dividem as suas terras.

ALVIANO Passemo-nos á capitania de Pernambuco, porque desejo summamente ouvir tratar della em particular, pela muita fama que tem adquirido no mundo de grande, rica e abundante de tudo.

BRANDONIO Essa capitania é tal que se antecipa a sua riqueza e abundancia á fama que della dão os que a viram pelo olho: é de senhorio, porque de presente é capitão e governador della, por Sua Magestade, Duarte de Albuquerque Coelho, a quem importam as pensões, redizima e outros direitos que della colhe, em cada anno, ao redor de vințe mil cruzados, importando os seus dizimos, alfandega, páo do Brasil, no estado em que está hoje, á fazenda de Sua Magestade perto de cem mil cruzados; isto afóra os assucares que se navegam e entram nas alfandegas do Reino, onde pagam os dizimos devidos nellas. Está situada em oito gráos e dous terços da parte do Sul da linha equinocial. Chama-se a principal villa do seu districto, aonde concorre e se ajunta todo o commercio, Olinda, nome que lhe deram seus primeiros povoadores, depois que descobriram de um alto, onde está situada, a formosa vista que campêa, a qual pela exaggerarem por tal disseram Olinda (22 ). Está esta villa situada em uma enseada, da qual sahem duas pontas ao mar; de uma dellas se forma o cabo tão conhecido no mundo por Santo Agostinho, e a outra se chama a ponta de Jesus, por nelle estar situado um formoso templo dos padres da companhia, chamado do mesmo nome. Contém em si toda a capitania cincoenta leguas de costa, que toma principio de onde parte com a ilha de Tamaracá até o rio S. Francicso; e dentro nellas ha infinitos engenhos de fazer assucares, muitas lavouras de mantimentos de toda a sorte, criações sem conto de gado vaccum, cabras, ovelhas, porcos, muitas aves de bolateria e outras domesticas, diversos generos de fructas, tudo em tanta copia que causa maravilha a quem o contempla e com curiosidade o nota. Dentro na villa de Olinda habitam innumeraveis mercadores com suas lojas abertas, colmadas de mercadorias de muito preço, de toda a sorte, em tanta quantidade que semelha uma Lisboa pequena. A barra do seu porto é excellentissima, guardada de duas fortalezas bem providas de artilharia e soldados, que as defendem; os navios estão surtos da banda de dentro, segurissimos de qualquer tempo que se levante, posto que muito furioso, porque tem para sua defensão grandissimos arrecifes, onde o mar quebra. Sempre se acham nelle ancorados, em qualquer tempo do anno, mais de trinta navios; porque lança de si, em cada anno, passante de cento e vinte carregados de assucares, pão do Brasil e algodões. A villa é assás grande, povoada de muitos e bons edificios e famosos templos, porque nella ha o dos padres da Companhia de Jesus, o dos padres de S. Francisco, da ordem capucha da provincia de Santo Antonio, o mosteiro dos carmelitas, e o mosteiro de S. Bento com religiosos da mesma ordem; em todos estes mosteiros assistem padres de muita doutrina, letras e virtudes. De pouco tempo a esta parte a dividiu Sua Santidade, com mais as capitanias de Tamaracá, Paraiba e Rio Grande, do bispado da bahia de Todos os Santos, criando rellas novamente por administrador Antonio Teixeira Cabral, prelado mui consummado nas letras e virtudes, com titulo de administrador da Paraiba (23 ). Acha-se mais na villa um recolhimento pera mulheres nobres com nome de mosteiro de freiras, posto que até o presente vivem sem regra (24 ). E ' capaz toda a capitania de Pernambuco de pôr em campo seis mil homens armados com oitocentos de cavallo; porque toda a gente nobre são por extremo bons cavalleiros, e, por se prezarem muito disso, costumam a ter seus cavallos bem ajaezados e paramentados. Os padres da companhia teem escolas publicas, aonde ensinam a ler e escrever e latinidade, e pelos mais mosteiros se leem as artes e theologia, donde saem consummados theologos. Pela terra a dentro, posto que seus moradores se não alarguem muito pelo sertão, ha muitas cousas que notar per grandes, assim de rios caudalosissimos, arvores de summa grandeza, alagoas e outras cousas; e a mim me lembra no anno de mil e quinhentos e noventa e um, vindo de seguir uns inimigos Petiguares, em cujo alcance fui com a gente armada, por haverem dado um assalto na matta do Brasil, aonde mataram alguns homens brancos, encontrar com uma cova, a que o gentio da terra dava o nome de camucy, muito digna de consideração.

ALVIANO Pois dizei-me o que vistes nessa cova.

BRANDONIO Cheguei a par della de noite, aonde me aposentei com a gente que me seguia, por me convidar a faze-lo um rio, que por alli corria de frigidissima agua; depois de estarmos aposentados, mostraram os indios grandissimo pavor de se avizinharem á bocca da cova, e crescendo de cada vez mais este receio, o qual passava ainda nos mamalucos filhos de brancos, dizendo que indubitavelmente morreria logo todo aquelle que ouzasse entrar pela cova a dentro, e tão arraigado estava este temor nelles que fui não poderoso a lh'o tirar, com lhes pedir que não arreceiassem de chegar á cova porque lhes affirmava que era graça e disparate mui grande o cuidarem que os poderia matar; o que vendo que aproveitava pouco com todos elles, desejei ver a causa de tanto receio, e querendo por em effeito este desejo, com dous soldados que me quizeram acompanhar, levando outros tantos brandões acesos, entrei pela bocca da cova, achando grande resistencia nos morcegos de que estava povoada, que, espantados da claridade, vinham sahindo para fóra, com nos darem grandes porradas no encontro que comnosco faziam; comtudo passamos adeante, caminhando pela cova a dentro, que se alargava em algumas partes, e em outras se tornava a estreitar, até que topamos com um pequeno ribeiro, que por debaixo corria de frigidissima agua, o qual passado, se alargava mais a cova, fazendo um reconcavo, pelo qual (oh ! cousa estranha !) estavam arrumados innumeraveis alguidares, que, por serem muitos, me não arremeço a querer- The signalar numero, que cada um delles tinha em si a ossada de um defunto inteira com a caveira em cima, porque parece haver servido aquella cova de mortuario antigo do gentio; e do que mais me maravilhei foi affirmarem-me os indios, posto que eu não o experimentei, que muitas pessoas brancas haviam já entrado naquella cova, e que, quebrando alguns alguidares daquelles, e tornando a entrar outro dia, nella os achavam inteiros e sãos e com a ossada dentro.

ALVIANO Isto tenho eu por fabula, posto que o modo da cova me parece estranho, e folgára de saber se pelos seus arredores se demonstravam alguns vestigios de povoações que por alli houvesse havido, antigos; porque então creriamos haver-se trazido dellas essas ossadas a sepultar naquelle lugar por esse modo; mas não os havendo, parece grande curiosidade trazerem-se de longe para effeito de os metterem alli dentro.

BRANDONIO Ao redor da cova não havia sinão grandes mattas, que, no modo de sua composição e grandeza, davam indicio de serem criadas logo depois do diluvio universal.

ALVIANO Assás de grandezas me tendes relatado dessa capitania de Pernambuco, das quaes não me espanto, pelo muito que já o vi engrandecer; e, para que levemos a costa enfiada, dizei-me que povoação The fica mais vizinha pera parte do Sul ?

BRANDONIO Segue-se-lhe logo a povoação e fortaleza de Seregipe del-Rei, situada em 11 gráos, cousa pequena, e só abundante de gado, que naquella parte se cria em grande cópia. E ' capitania de Sua Magestade, onde tem uma fortaleza e capitão com soldados, que defendem o porto dos piratas, vedando-lhes o fazer suas aguadas e prover-se do necessario, como costumavam fazer antes de alli haver fortaleza vizinha com a capitania da Bahia, cabeça de todo este Estado do Brasil.

ALVIANO Pois dizei-me das grandezas dessa capitania, que não devem ser pequenas, pois a fez Sua Magestade cabeça de um Estado tão grande.

BRANDONIO A capitania da Bahia está situada em 13 gráos da banda do Sul da linha equinocial. E ' de Sua Magestade, e como tal cabeça do Estado do Brasil, por ser séde aonde reside o governador geral; porque alli lhe manda Sua Magestade ter o seu assento, posto que, de poucos annos a esta parte, se ha defraudado este mandato em grande maneira; porque se contentam mais os governadores de assistirem na capitania de Pernambuco, ou seja por tirarem della mais proveito ou por estarem mais perto do Reino que disso não saberei dar a causa certa (25 ). Tambem é a Bahia séde da cadeira episcopal, aonde assiste o bispo na sua sé com conegos, clerisia e mais dignidades, pagados todos da fazenda de Sua Magestade do rendimento dos dizimos; e da mesma maneira assiste na cidade, que toma o nome de Bahia de Todos os Santos, a Relação, com muitos desembargadores, chanceler-mór, juiz dos feitos del-Rei e da fazenda, com seu provedormór, e provedor-mór dos defuntos, os quaes determinam e decidem as causas de todo o Estado do Brasil, com alçada em bens moveis até 3.000 cruzados; porque passando da dita conta dão appellação pera a Relação da cidade de Lisboa. Todos estes desembargadores e mais officiaes da casa são pagos de seus salarios da fazenda de Sua Magestade.

ALVIANO Tenho ouvido a muitos homens experimentados nas cousas do Brasil que essa Relação, que assiste na cidade da Bahia, dá mais perda ao Estado do que causa proveito a seus moradores.

BRANDONIO Verdade é que a Relação da Bahia se podera muito bem escusar, e dessa opinião fui eu sempre, e assim o signifiquei por muitas vezes ao bispo de Coimbra, D. Affonso de Castelbranco, sendo governador de Portugal; porque, além de fazer essa casa muita despesa á fazenda de Sua Magestade, podendo reservar o dinheiro que com ella gasta pera outras cousas mais uteis pera seu serviço, ella não corresponde com aquelle effeito que se imaginou fizesse com a sua assistencia no Brasil; e o engano nasceu de que, como os moradores de todo este Estado se achavam molestados e aggravados das insolencias de que usavam os ouvidores geraes, que antes da casa tinham a administração da justiça em sua mão, por se livrarem de tão pesada carga, concorreram a Sua Magestade, pedindo-lhe que lhes mandasse uma casa de Relação ao Brasil que assentasse na Bahia de Todos os Santos, na fórma que estava assentada no Estado da India, na cidade de Gôa; no que se enganaram porque poderam reduzir a justiça em melhor fórma. E pelo não considerarem então bem, se acham agora envoltos no damno presente (26 ).

ALVIANO Folgara de saber qual é o damno que causa a Relação que assiste na Bahia aos moradores do Estado; porque creio que, se Sua Magestade entendera que não lhe era de proveito, escusara de despender tanto dinheiro, como despende em sustenta-la.

BRANDONIO O damno é este; todos os moradores deste Estado, como nas capitanias onde moram são liados um com outros por parentesco ou amizade, nunca levam seus preitos tanto ao cabo, que lhes seja necessario concorrerem por fim com a appellação delles á Relação da Bahia; porque, antes disso, se mettem amigos e parentes de per meio, que os compoem e concertam; de maneira que poem fim ás suas causas, e daqui nascem ir poucas por appellação á Bahia, e essas que vão lhe fôra de mais utilidade a todos os moradores do Brasil seguirem-nas para o Reino. Porque a mim me aconteceu já (não uma sinão muitas vezes ) mandar alguns papeis a despachar á Bahia, e no mesmo tempo que os mandava pera lá, mandar outros semelhantes pera o Reino, e virem-me os do Reino muito antecipados dos da Bahia; porque, como toda essa costa se navega por monções, succede encontrar-se com alguma contraria, o que dilata muito o despacho dos negocios. De mais que não ha nenhum morador em todo este Estado, tão desamparado, que não tenha no Reino algum parente ou amigo, a quem possa mandar seus papeis dirigidos por appellação, e mandando juntamente com elles um caixão de assucar, basta para a sua despesa; o que não acontece na Bahia, porque nem todos teem lá parentes ou conhecidos, e, em falta dos taes, lhes fica sendo forçoso haverem de seguir pessoalmente suas causas com muita despesa que fazem na jornada, sendo-lhes neecssario levarem pera isso dinheiro de contado, que custa muito a ajuntar-se no Brasil, o que não succede, como tenho dito, nos papeis que se mandam ao Reino, porque basta encommendarem-se a parentes ou amigos e pera sua despesa um caixão de assucar; pelo que tenho considerado que devera Sua Magestade (neste negocio da justiça ) tomar outro meio mais util, e que redundara em commum beneficio do Estado.

ALVIANO E que meio é esse que poderá Sua Magestade tomar ?

BRANDONIO " Tirando e extinguindo de toda a casa da Relação da Bahia, podia em seu logar criar no Estado tres corregedores com titulo de comarca, da maneira que os ha no Reino, e com a mesma alçada; e quando se lhe accrescentassem mais alguma cantidade, não o teria por desacertado. Destes corregedores havia de mandar que assistisse um na Paraiba, por ser cidade real, o qual conhecesse, por appellação e aggravo, de todos os feitos que viessem a elle dante os juizes e ouvidores da capitania de Pernambuco e seus districtos, e da capitania da Tamaracá, e da mesma capitania da Paraiba, e da capitania do Rio Grande e das mais povoações do Maranhão e Pará, emquanto Sua Magestade não dá outra ordem no seu governo. O outro corregedor dos tres havia de assistir na cidade da Bahia de Todos os Santos, conhecendo, por appellação e aggravo, dos feitos que a elle viessem dante os juizes e ouvidores de Seregipe del-Rei, da mesma Bahia e das capitanias de Boipeva, Ilhéos, e Porto Seguro com seus contornos. O terceiro corregedor da comarca havia de assistir no Rio de Janeiro, e tomar da mesma maneira conhecimento, por appellação e aggravo, de todas as causas que a elle viessem dante os juizes e ouvidores da capitania do Espirito Santo, do mesmo Rio de Janeiro e capitania de S. Vicente, villa de S. Paulo e seus contornos. E dos taes corregedores havia de haver appellação e aggravo nas contias que não coubessem em sua alçada pera a Relação da cidade de Lisboa, com terem expresso regimento que cada um delles, nas capitanias de seu distrito, não pudessem entrar mais que por correição, que nella gastaria sómente trinta dias, e passante elles não seriam obedecidos, por se atalhar com isto a muitos inconvenientes que se seguiriam do contrário, ficando remediadas grandes oppressões que os moradores deste Estado de presente padecem.

ALVIANO Folgarei que me digaes quaes são essas oppressões.

BRANDONIO São muitas e grandes. Por qualquer negocio, posto que leve, em que uma pessoa é pernunciada pela justiça á prisão, lhe é necessario concorrer á Bahia por carta de seguro; porque se lhe não póde passar sinão lá, o que lhe custa muito enfadamento, tempo e despesa, com o, no entretanto, haver de andar homiziado. De mais que de qualquer incidente que se aggrave do julgador convem seguir-se o aggravo á Bahia, com muito descommodo e despesa da parte aggravante, e emquanto demora em ir e tornar, que é muito tempo, o julgador vai correndo com a causa por diante, em muito perjuizo dos litigantes, o que não succedêra quando tivessem o corregedor da comarca vizinha; porque, pela vizinhança das capitanias de seu distrito, podia-se concorrer a elle com muita brevidade e pouca despesa. Mas não sei no que nos havemos mettido desviando-nos de nossa pratica, pois tratamos de cousas que não estão em nossa mão o remedia-las.

ALVIANO Não vos pese de as haver tratado, porque póde succeder que esta nossa pratica passe ainda á mão de pessoa, que a possa manifestar aos senhores do conselho de Sua Magestade, pera que lhe dêm o remedio conveniente.

BRANDONIO Queira Deus que assim seja. E assim deixando esta materia de parte, me passo a tratar das demais grandezas da Bahia de Todos os Santos, da qual o porto e barra é uma obra grandissima, capaz de recolher dentro em si innumeraveis náos, posto que de muito porte, e por ser cousa tão grande se recolhem dentro muitas baleas, nas quaes fazem Biscainhos, que pera o effeito alli residem, grande matança pera haverem de tirar dellas azeite, que lavram em cantidade, donde se leva para as demais capitanias do Estado a vender (27 ). O seu reconcavo é assás largo, no qual ha muitas ilhas e rios, que nella desembocam entre enseadas e esteiros, pela borda dos quaes, ao redor deste grande reconcavo, estão muitos engenhos de fazer assucares, os quaes se servem de grandes barcas pera o carreto da canna e lenha, por terem os demais destes engenhos ou case todos a serventia por mar, por lhe ficar assim mais facilitada pera o meneio do assucar. A cidade está situada em um alto medianamente grande, guardada de tres fortalezas postas em sitios accommodados pera sua defensão; tem a sua sé com dignidades, cleresia e conegos, aonde reside o bispo, com mais quatro mosteiros de religiosos, a saber: o dos padres da companhia de Jesus, e os da ordem de S. Bento, os carmelitas e os capuchos da provincia de Santo Antonio. Importa o rendimento dos dizimos ao redor de sessenta mil cruzados em cada um anno; é povoada de gente nobre e rica; tem o principio do seu distrito do rio de S. Francisco, e chega até á capitania de Ilhéos.

ALVIANO Passemo-nos a tratar das demais capitanias e povoações.

BRANDONIO Adiante da capitania da Bahia, a primeira povoação, que está nas fraldas do mar, é Boipeva. E ' de pequeno commercio; é de senhorio; por quanto esta povoação com os Ilhéos é de Francisco de Sá de Menezes, senhorio de ambas por Sua Magestade. Pois dizei-me dos Ilhéos.

Alviano

BRANDONIO A capitania dos Ilhéos está situada em 13 gráos da parte do Sul da linha equinocial; é de presente cousa pouca e de pequeno rendimento, posto que a terra do seu districto é fertilissima, capaz de se poder nella fazer muitos engenhos de assucar, o que impede haver effeito as muitas correrias que nella faz o gentio chamado Aymoré, com damno notavel dos moradores; e della se tem esperança haver de dar muito de si pera adiante, pelo seu bom sitio e calidade do seu terreno.

ALVIANO Assim o ouvi já dizer e affirmar a muitas pessoas que me gavaram muito a fertilidade de suas terras. E, pois não ha mais que dizer desta capitania, passemo-nos a de Porto Seguro que está conjuncta.

BRANDONIO Essa capitania de Porto Seguro está situada em 16 gráos e meio da banda do Sul. E ' do duque de Aveiro, que della é senhor por Sua Magestade (28 ); tem poucos engenhos de fazer assucares, e por esse respeito colhe Sua Magestade pequeno rendimento nos dizimos della, e pelo conseguinte o senhorio nas suas redizimas e pensões; porque o mesmo gentio aymoré, que disse, molestava a capitania dos Ilhéos, faz de ordinario tambem grande damno nesta; e por isso não vai no crescimento que poderá ir por ter bonissimas terras e capacissimo sitio para tudo. Acaba os seus limites para a parte da capitania do Espirito Santo.

ALVIANO Pois dizei-me desta capitania.

BRANDONIO A capitania do Espirito Santo está situada em 20 gráos da banda do Sul da equinocial. E ' de senhorio, e de presente se intitula capitão della, por Sua Magestade, Francisco de Aguiar Coutinho (29 ); contém em si alguns engenhos de fazer assucares; é terra larga e abundante de mantimentos, e de muito balsamo, de que seus moradores se aproveitam, lavrando com elle contas e outros brincos, que mandam pera a Espanha, onde são estimados por serem cheirosos. Desta capitania foi Marcos de Azeredo ao descobrimento das minas de esmeraldas, que havia fama haver no sertão; em effeito chegou a ellas, e trouxe grande cópia de pedras que no principio se tiveram por perfeitas, mas depois se acharam faltas de muitas calidades que deviam ter pera serem verdadeiras esmeraldas.

ALVIANO Foi pouco venturoso esse descobridor em perderem essas pedras a primeira estimação, porque sem isso ficaram sendo para elle tesouro. E assim passemos avante, correndo pela demais costa, porque já sei que tem tambem essa capitania do Espirito Santo mosteiros de Religiosos que a ennobrecem.

BRANDONIO Adiante da capitania do Espirito Santo, pera parte do Sul, está a do Rio de Janeiro, nome que lhe foi posto por se descobrir noutro tal dia, a qual está situada em 23 gráos. E ' de Sua Mages-- tade, aonde tem uma galharda fortaleza bem abastecida de artilharia, munições, e soldados e um capitão posto por elle de tres em tres annos; tem uma cidade, posto que pequena, bem situada, a qual é de presente de grande commercio; porque vem a ella muitas embarcações do Rio da Prata, que trazem riqueza muita em patacas, que commutam por fazenda, que alli compram; donde tornam a fazer viagem para o mesmo rio. Tambem neste Rio de Janeiro tomam porto as náos que navegam do Reino pera Angola, aonde carregam de farinha da terra, de que abunda toda esta capitania em grande cantidade, e dalli a levam para Angola, onde se vende por subido preço. Tem alguns engenhos em que se lavram assucares, e estes annos passados foi cabeça de governo e séde do governador: por quanto apartou Sua Magestade, governando o Brasil D. Diogo de Menezes, tres capitanias, a saber: a do Espirito Santo, e esta do Rio de Janeiro e a de S. Vicente, e as incorporou em um novo governo, de que fez governador D. Francisco de Sousa, a titulo de descobrir as minas de ouro de S. Vicente, de que vinha feito Marquez,quando se conseguisse perfeito descobrimento dellas (30 ). E com sua morte se atalharam estas esperanças, que não eram pequenas. Assiste mais na dita capitania, pera o tocante ao espiritual, um administrador; que tem á sua conta a administração da mesma capitania e da do Espirito Santo e de S. Vicente, isento da jurisdicção do Bispo; o qual somente por appellação póde conhecer das cousas que ante elle se tratam. Tem mosteiros de Religiosos, como as demais capitanias que as ennobrecem grandemente.

ALVIANO Fico já bem inteirado das cousas dessa capitania do Rio de Janeiro, pelo que dellas tendes referido, e assim podemos passar a tratar da de S. Vicente, que cuido que é a que lhe está mais conjuncta.

BRANDONIO A capitania de S. Vicente é a ultima das que temos povoado nesta grande costa do Brasil. Está situada em 24 gráos da parte do Sul do Equinocinal; é de senhorio, e della foi capitão e governador, por doação regia, Lopo de Sousa, e por sua morte lhe succedeu D. Francisco de Faro (31 ). Tem duas villas, uma que está situada ao longo do porto, que toma o nome de S. Vicente, e outra mais pera o sertão, chamada de S. Paulo; e lavram-se nesta capitania poucos assucares, mas é muito abundante de carnes e de muitas fructas de nossa Espanha, que se produzem nella com facilidade, principalmente marmellos de que se fazem muitas marmelladas, que dalli se levam pera todo o Estado do Brasil (32 ); e agora com as minas de ouro, que nelle se descobriram se vai augmentando, e houveram já de estar muito, se os seus moradores ou os nossos portuguezes fossem mais curiosos de lavrarem minas do que são; porque eu vi grão de ouro, tirado de suas minas, como a natureza o criou, que tinha de peso sete mil réis.

ALVIANO Não deve ser pobre a mina que tão grande grão cria em si com ser de lavagem, como essas o são; e passando isso assim, não sei que rezão haja pera se não fazer muito cabedal dellas.

BRANDONIO A pobreza dos moradores, que habitam no distrito da capitania, sem se ajuntar tambem a isso pouca industria, é causa de se não colher de suas minas muito ouro. E os que as poderão lavrar, com levarem á dita capitania fabrica de escravos e mais cousas para o effeito necessarias, o não querem fazer. E por este respeito estão essas minas case desertas; posto que tenho pera mim que tambem deve de ser causa disso haver-se começado a lavrar por onde se houveram d'acabar, porque o primeiro que se devia de fazer, antes de se bolir nellas, depois de estarem certos que eram de proveitos, houvera de ser plantarem-se muitos mantimentos ao redor do sitio onde ellas estão, e como os houvesse em abundancia, tratar-se da lavoura das minas; mas isto se fez pelo contrario, porque, sem terem mantimentos, entenderam em tirar o ouro, e como as minas estão muito pelo sertão, os que vão levam de carreto o mantimento necessario, e como se lhe acaba, tornam-se, e deixam a lavoura, que tinham começada. E esta cuido que é a verdadeira causa de darem as ditas minas pouco de si.

ALVIANO Pois eu tenho pera mim que pera o diante hão de vir a ser essas minas de muita importancia. E, pois temos chegado á ultima capitania da parte do Sul, das que estão povoadas de Portuguezes, dizeime quanto espaço ha de costa por todas estas povoações de que haveis tratado ?

BRANDONIO Desde o Pará ou rio das Amazonas, que está situado na linha equinocial, até á capitania de S. Vicente, ha de costa case setecentas leguas, e de Norte a Sul, contado por rumo direito, quatrocentas e vinte leguas; terra bastantissima pera se poder situar nella grandes reinos e imperios. A costa corre por algumas partes do Norte a Sul, por outras de Noroeste Sueste e de Leste Oeste; e o que mais espanta é ver que toda esta grande costa, assim no sertão como nas fraldas do mar, tem excellentissimo céo e goza de muito bons ares, sendo muito sadia e disposta pera a conservação da natureza humana.

ALVIANO Isso entendo eu pelo contrario; porque, se os antigos não se enganaram, é zona que foi julgada por inhabitavel por muito quente; e por este respeito os moradores da costa de Guiné e da mais costa opposta a esta do Brasil gozam de ruins ares, que causam muitas doenças nellas. E se isto é verdade, não vejo causa por onde os que habitam o Brasil, estando no mesmo parallelo e debaixo do mesmo zenith, possam gozar de bons ares e céos, faltando tudo isto á outra que lhe corresponde.

BRANDONIO Isto vai já sendo tarde, e a duvida que agora me moveis é difficultosa de soltar: pelo que me parecia acertado que reservassemos a sua pratica pera o dia d'amenhã, que neste mesmo lugar vos esperarei pera tratar dessa materia, que não deve de ser pouco curiosa.

ALVIANO Assim seja, e eu terei cuidado de acudir com tempo.

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