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Capítulo 4 · Falenas

La marchesa de Miramar

4 de 28 ≈ 5 min de leitura

La marchesa de Miramar

A misérrima Dido

Pelos paços reais vaga ululando.

Garção

De quanto sonho um dia povoaste

A mente ambiciosa,

Que te resta? Uma página sombria,

A escura noite e um túmulo recente.

Ó abismo! Ó fortuna! Um dia apenas

Viu erguer, viu cair teu frágil trono.

Meteoro do século, passaste,

Ó triste império, alumiando as sombras.

A noite foi teu berço e teu sepulcro.

Da tua morte os goivos inda acharam

Frescas *as rosas dos teus breves dias;

E no livro da história uma só folha

A tua vida conta: sangue e lágrimas.

No tranqüilo castelo,

Ninho de amor, asilo de esperanças,

A mão de áurea fortuna preparara,

Menina e moça, um túmulo aos teus dias.

Junto do amado esposo,

Outra c’roa cingias mais segura,

A coroa do amor, dádiva santa

Das mãos de Deus. No céu de tua vida

Uma nuvem sequer não sombreava

A esplêndida manhã; estranhos eram

Ao recatado asilo

Os rumores do século.

Estendia-se

Em frente o largo mar, tranqüila face

Como a da consciência alheia ao crime,

E o céu, cúpula azul do equóreo leito.

Ali, quando ao cair da amena tarde,

No tálamo encantado do ocidente,

O vento melancólico gemia,

E a onda murmurando,

Nas convulsões do amor beija a areia,

Ias tu junto dele, as mãos travadas,

Os olhos confundidos,

Correr as brandas, sonolentas águas,

Na gôndola discreta. Amenas flores

Com suas mãos teciam

As namoradas Horas; vinha a noite,

Mãe de amores, solícita descendo,

Que em seu regaço a todos envolvia,

O mar, o céu, a terra, o lenho e os noivos.

Mas além, muito além do céu fechado,

O sombrio destino, contemplando

A paz*do teu amor, a etérea vida,

As santas efusões das noites belas,

O terrível cenário preparava

A mais terríveis lances.

Então surge dos tronos

A profética voz que anunciava

Ao teu crédulo esposo:

“Tu serás rei, Macbeth!” Ao longe, ao longe,

No fundo do oceano, envolto em névoas,

Salpicado de sangue, ergue-se um trono.

Chamam-no a ele as vozes do destino.

Da tranqüila mansão ao novo império

Cobrem flores a estrada, — estéreis flores

Que mal podem cobrir o horror da morte.

Tu vais, tu vais também, vítima infausta;

O sopro da ambição fechou teus olhos...

Ah! quão melhor te fora

No meio dessas águas

Que a régia nau cortava, conduzindo

Os destinos de um rei, achar a morte:

A mesma onda os dois envolveria.

Uma só convulsão às duas almas

O vínculo quebrara, e ambas iriam,

Como raios partidos de uma estrela,

À eterna luz juntar-se.

Mas o destino, alçando a mão sombria,

Já traçara nas páginas da história

O terrível mistério. A liberdade

Vela naquele dia a ingênua fronte.

Pejam nuvens de fogo o céu profundo.

Orvalha sangue a noite mexicana...

Viúva e moça, agora em vão procuras

No teu plácido asilo o extinto esposo.

Interrogas em vão o céu e as águas.

Apenas surge ensangüentada sombra

Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas,

Um soluço profundo reboando

Pela noite do espírito, parece

Os ecos acordar da mocidade.

No entanto, a natureza alegre e viva,

Ostenta o mesmo rosto.

Dissipam-se ambições, impérios morrem.

Passam os homens como pó que o vento

Do chão levanta ou sombras fugitivas.

Transformam-se em ruína o templo e a choça.

Só tu, só tu, eterna natureza,

Imutável, tranqüila,

Como rochedo em meio do oceano,

Vês baquear os séculos.

Sussurra

Pelas ribas do mar a mesma brisa;

O céu é sempre azul, as águas mansas;

Deita-se ainda a tarde vaporosa

No leito do ocidente;

Ornam o campo as mesmas flores belas...

Mas em teu coração magoado e triste,

Pobre Carlota! o intenso desespero

Enche de intenso horror o horror da morte.

Viúva da razão, nem já te cabe

A ilusão da esperança.

Feliz, feliz, ao menos, se te resta,

Nos macerados olhos,

O derradeiro bem: — algumas lágrimas!

Falenas

Sinopse

Livro de poesia de Machado de Assis em domínio público, publicado no Aurora a partir do acervo digital da Biblioteca Nacional.

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LITEBN
LITEBN-FALENAS-20260702152829
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