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Capítulo 26 · Falenas

Lira chinesa

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Lira chinesa

Lira chinesa

I

Coração triste falando ao sol.

( Imitado de Su-Tchon)

No arvoredo sussurra o vendaval do outono,

Deita as folhas à terra, onde não há florir

E eu contemplo sem pena esse triste abandono;

Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cair.

Como a escura montanha, esguia e pavorosa

Faz, quando o sol descamba, o vale enoitecer,

A montanha da alma, a tristeza amorosa,

Também de ignota sombra enche todo o meu ser.

Transforma o frio inverno a água em pedra dura,

Mas torna a pedra em água um raio de verão;

Vem, ó sol, vem, assume o trono teu na altura,

Vê se podes fundir meu triste coração.

II

A folha do salgueiro

(Tchan-Tiú-Lin)

Amo aquela formosa e terna moça

Que, à janela encostada, arfa e suspira;

Não porque tem do largo rio à margem

Casa faustosa e bela.

Amo-a, porque deixou das mãos mimosas

Verde folha cair nas mansas águas.

Amo a brisa de leste que sussurra,

Não porque traz nas asas delicadas

O perfume dos verdes pessegueiros

Da oriental montanha.

Amo-a porque impeliu co’as tênues asas

Ao meu batel a abandonada folha.

Se amo a mimosa folha aqui trazida,

Não é porque me lembre à alma e aos olhos

A renascente, a amável primavera,

Pompa e vigor dos vales.

Amo a folha por ver-lhe um nome escrito,

Escrito, sim, por ela, e esse... meu nome.

III

O poeta a rir

(Han-Tiê)

Taça d’água parece o lago ameno;

Tem os bambus a formam de cabanas,

Que as árvores em flor, mais altas, cobrem

Com verdejantes tetos.

As pontiagudas rochas entre flores,

Dos pagodes o grave aspecto ostentam...

Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,

Cópia servil dos homens.

IV

A uma mulher

(Tchê-Tsi)

Cantigas modulei ao som da flauta,

Da minha flauta d’ébano;

Nelas minha alma segredava à tua

Fundas, sentidas mágoas.

Cerraste-me os ouvidos. Namorados

Versos compus de júbilo,

Por celebrar teu nome, as graças tuas,

Levar teu nome aos séculos.

Olhaste ,e meneando a airosa frente*,

Com tuas mãos puríssimas,

Folhas em que escrevi meus pobres versos

Lançaste às ondas trêmulas.

Busquei então por encantar tua alma

Uma safira esplêndida,

Fui depô-la a teus pés...tu descerraste

Da tua boca as pérolas.

V

O imperador

( Thu-Fu)

Olha. O Filho do Céu, em trono de ouro,

E adornado com ricas pedrarias,

Os mandarins escuta: — um sol parece

De estrelas rodeado.

Os mandarins discutem gravemente

Coisas muito mais graves. E ele? Foge-lhe

O pensamento inquieto e distraído

Pela janela aberta.

Além, no pavilhão de porcelana,

Entre donas gentis está sentada

A imperatriz, qual flor radiante e pura

Entre viçosas folhas.

Pensa no amado esposo, arde por vê-lo,

Prolonga-se-lhe a ausência, agita o leque...

Do imperador ao rosto um sopro chega

De rescendente brisa.

“Vem dela este perfume”, diz, e abrindo

Caminho ao pavilhão da amada esposa,

Deixa na sala olhando-se em silêncio

Os mandarins pasmados.

VI

O leque

(De-Tan-Jo-Lu)

Na perfumada alcova a esposa estava,

Noiva ainda na véspera. Fazia

Calor intenso; a pobre moça ardia

Com fino leque as faces refrescava.

Ora, no leque em boa letra feito

Havia este conceito:

“Quando, imóvel o vento e o ar pesado,

Arder o intenso estio,

Serei por mão amiga ambicionado;

Mas volte o tempo frio,

Ver-me-eis a um canto abandonado”.

Lê a esposa este aviso, e o pensamento

Volve ao jovem marido.

“Arde-lhe o coração neste momento

(Diz-ela) e vem buscar enternecido

Brandas auras de amor. Quando mais tarde

Tornar-se em cinza fria

O fogo que hoje lhe arde,

Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.”

VII

As flores e os pinheiros

(Tin-Tun-Sing)

Vi os pinheiros no alto da montanha

Ouriçados e velhos;

E ao sopé da montanha, abrindo as flores

Os cálices vermelhos.

Contemplando os pinheiros da montanha,

As flores tresloucadas

Zombam deles enchendo o espaço em torno

De alegres gargalhadas.

Quando o outono voltou, vi na montanha

Os meus pinheiros vivos,

Brancos de neve, e meneando ao vento

Os galhos pensativos.

Volvi o olhar ao sítio onde escutara

Os risos mofadores;

Procurei-as em vão; tinham morrido

As zombeteiras flores.

VIII

Reflexos

(Thu-Fu)

Vou rio abaixo vogando

No meu batel e ao luar;

Nas claras águas fitando,

Fitando o olhar.

Das águas vejo no fundo,

Como por um branco véu,

Intenso, calmo, profundo,

O azul do céu.

Nuvem que no céu flutua,

Flutua n’água também;

Se a lua cobre, à outra lua

Cobri-la vem.

Da amante que me extasia,

Assim, na ardente paixão,

As raras graças copia

Meu coração.

UMA ODE

DE ANACREONTE

(Quadro antigo

A

MANOEL DE MELLO

PERSONAGENS

LÍSIAS

CLEON

MIRTO

TRÊS ESCRAVOS

A cena é em Samos.

Falenas

Sinopse

Livro de poesia de Machado de Assis em domínio público, publicado no Aurora a partir do acervo digital da Biblioteca Nacional.

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LITEBN
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