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Capítulo 27 · Falenas

Uma ode de Anacreonte

27 de 28 ≈ 25 min de leitura

Uma ode de Anacreonte

Sala de festim em casa de Lísias. À esquerda a mesa do festim; à direita uma mesa tendo em cima uma

lâmpada apagada, e junto da lâmpada* um rolo de papiro.

Cena 1

Lísias, Cleon, Mirto.

(Estão no fim de um banquete, os dois homens deitados à maneira antiga, Mirto sentada entre os dois

leitos. Três escravos.)

Lísias

Melancólica estás, bela Mirto. Bebamos!

Aos prazeres!

Cleon

Eu bebo à memória de Samos.

Samos vai terminar os seus dourados dias;

Adeus, terra em que achei consolo às agonias

Da minha mocidade; adeus, Samos, adeus!

Mirto

Querem-lhe os deuses mal?

Cleon

Não; dois olhos, os teus.

Lísias

Bravo, Cleon!

Mirto

Poeta! os meus olhos?

Cleon

São lumes

Capazes de abrasar até os próprios numes.

Samos é nova Tróia, e tu és outra Helena,

Quando Lesbos, a mãe de Safo, a ilha amena

Não vir a bela Mirto, a alegre cortesã,

Armar-se-á contra nós.

Lísias

Lesbos é boa irmã

Mirto

Outras belezas tem, dignas da loura Vênus.

Cleon

Menos dignas que tu.

Mirto

Mais do que eu.

Lísias

Muito menos.

Cleon

Tens vergonha de ser formosa e festejada,

Mirto? Vênus não quer beleza envergonhada.

Pois que dos imortais houveste esse condão

De inspirar quantos vês, inspira-os, Mirto.

Mirto

Não;

São teus olhos, poeta; eu não tenho a beleza

Que arrasta corações.

Cleon

Divina singeleza!

Lísias (à parte)

Vejo através do manto as galas da vaidade.

(Alto)

Vinho, escravo!

(O escravo deita vinho na taça de Lísias.)

Poeta, um brinde à mocidade.

Trava da lira e invoca o deus inspirador.

Cleon

“Feliz quem junto a ti, ouve a tua fala, amor!”*

Mirto

Versos de Safo!

Cleon

Sim.

Lísias

Vês? é modéstia pura.

Ele é na poesia o que és na formosura.

Faz versos de primor e esconde-os ao profano;

Tem vergonha. Eu não sei se o vício é lesbiano...

Mirto

Ah! tu és...

Cleon

Lesbos foi minha pátria também,

Lesbos, a flor do Egeu.

Mirto

Já não é?

Cleon

Lesbos tem

Tudo o que me fascina e tudo o que me mata:

As festas do prazer e os olhos de uma ingrata.

Fugi da pátria e achei, já curado e tranqüilo,

Em Lísias um irmão, em Samos um asilo.

Bem hajas tu que vens encher-me o coração!

Lísias

Insaciável! Não tens em Lísias um irmão?

Mirto

Volto à pátria.

Cleon

Pois quê! tu vais?

Mirto

Em poucos dias...

Lísias

Fazes mal; tens aqui os moços e as folias,

O gozo, a adoração; que te falta?

Mirto

Os meus ares.

Cleon

A que vieste então?

Mirto

Sucessos singulares.

Vim por acompanhar Lísicles, mercador

De Naxos; tanto pode a constância no amor!

Corremos todo o Egeu e a costa iônica; fomos

Comprar o vinho a Creta e a Tenedos os pomos.

Ah! como é doce o amor na solidão das águas!

Tem-se vida melhor; esquecem-se-lhe as mágoas.

Zéfiro ouviu por certo os ósculos febris,

Os júbilos do afeto, as falas juvenis;

Ouviu-os, delatou ao deus que o mar governa

A indiscreta ventura, a efusão doce e terna.

Para a fúria acalmar da sombria deidade,

Nave e bens varreu tudo a horrível tempestade.

Foi assim que eu perdi a Lísicles; assim

Que eu semimorta e fria à tua plaga vim.

Cleon

Ó coitada!

Lísias

O infortúnio os ânimos apura;

As feridas que faz o mesmo Amor as cura;

Brandem armas iguais Aquiles e Cupido.

Queres ver noutro amor o teu amor perdido?

Samos o tem de sobra.

Cleon

Eu, Mirto, eu sei amar;

Não fio o coração da inconstância do mar.

Não tenho galeões rompendo o seio a Tétis,

Estrada tanta vez ao torvo e obscuro Letes.

Aqui me tens; sou teu; escreve a minha sorte;

Podes doar-me a vida ou decretar-me a morte.

Mirto

Mas se eu volto...

Cleon

Pois bem! aonde quer que vás*

Irei contigo; a deusa indômita e falaz

Ser-me-á hóspede amiga; ao pé de ti a escura

Noite parece aurora, e é berço a sepultura.

Mirto

Quando fala o dever, a vontade obedece;

Eu devo ir só; tu ficas*, ama-me um pouco e esquece.

Lísias

Tens razão, bela Mirto; escuta o teu dever.

Cleon

Ai! é fácil amar, difícil esquecer.

Lísias (a Mirto)

Queres pôr termo à festa? Um brinde a Vênus, filha

Do** mar azul, beleza, encanto, maravilha;

Nascida para ser perpetuamente amada.

A vênus!

(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com água perfumada em que os convivas lavam as mãos;

os escravos saem levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)

Queres tu, mimosa naufragada,

Ouvir de hemonia*** serva, em lira de marfim,

Uma alegre canção? Preferes o jardim?

O pórtico talvez?

Mirto

Lísias, sou indiscreta;

Quisera antes ouvir a voz do teu poeta.

Lísias

Nume não pede, impõe.

Cleon

O mando é lisonjeiro.

Lísias

Pois começa.

Cena II

Os mesmos, um escravo.

Escravo

Procura a Mirto um mensageiro.

Mirto

Um mensageiro! a mim!

Lísias

Manda-o entrar.

Escravo

Não quer.

Lísias

Vai, Mirto.

Mirto (saindo)

Volto já. (sai o escravo)

Cena III

Lísias, Cleon.

Cleon

(olhando para o lugar por onde Mirto saiu)

Oh! deuses! que mulher!

Lísias

Ah! que pérola rara!

Cleon

Onde a encontraste?

Lísias

Achei-a

Com Partenis que dava uma esplêndida ceia;

Partenis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da moda,

Sabes que vê fugir-lhe a enfastiada roda;

E para não perder o grupo adorador,

Fez do templo deserto uma escola de amor.

Foi ela quem achou a náufraga perdida,

Exposta ao vento e ao mar, quase a expirar-lhe a vida.

A beleza pagava o emprego de uma esmola;

Dentro em pouco era Mirto a flor de toda a escola.

Cleon

Lembrou-te convidá-la então para um festim?

Lísias

Foi um pouco por ela e um pouco mais por mim.

Cleon

Também amas?

Lísias

Eu? não .Quis ter à minha mesa

Vênus e o louro Apolo, a poesia e a beleza.

Cleon

Oh! a beleza, sim! Viste já tanta graça,

Tão celestes feições?

Lísias

Cuidado! Aquela caça

Zomba dos tiros vãos de ingênuo caçador!

Cleon

Incrédulo!

Lísias

Eu sou mestre em matéria de amor

Se tu atento e calmo a narração lhe ouvisses

Conheceras melhor o engenho desta Ulisses.

Aquele ardente amor a Lísicles, aquele

Fundo e intenso pesar que à sua pátria a impele,

Armas são com que a astuta os ânimos seduz.

Cleon

Oh! não creio.

Lísias

Por quê?

Cleon

Não vês como lhe luz

Tanta expressão sincera em seus olhos divinos?

Lísias

Sim, tem muita expressão...para iludir meninos.

Cleon

Pois tu não crês?

Lísias

Em quê? No naufrágio? De certo.

Em Lísicles? Talvez. No amor? é mais incerto.

Na intenção de voltar a Lesbos? Isso não!

Sabes o que ela quer? Prender um coração.

Cleon

Impossível!

Lísias

Poeta! estás na alegre idade

Em que a ciência da vida é a credulidade.

Vês tudo azul e em flor; eu já me não iludo.

Pois amar cortesãs! isso demanda estudo,

Não vai assim, que as tais abelhitas do amor

Correm de bolsa em bolsa e não de flor em flor.

Cleon

Mas não as amas tu?

Lísias

De certo...à minha moda;

Meu grande coração co’os vícios se acomoda;

Sacrifícios de amor não sonha nem procura;

Não lhes pede ilusões, pede-lhes só ternura.

Não me empenho em achar alma ungida no céu:

Se é crime este sentir; confesso-me, sou réu.

Não peço amor ao vinho; irei pedi-lo às damas?

Delas e deles exijo apenas estas chamas

Que ardem sem consumir, na pira dos desejos.

Assim é que eu estimo as ânforas e os beijos*.

Lá, protestos de boca, eternos e leais,

Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os mortais

Somos todos assim.

Cleon

Ai, os mortais! dize antes

Os filósofos maus, ridículos pedantes,

Os que não sabem crer, os fartos já de amores,

Esses sim. Os mortais!

Lísias

Refreia os teus furores,

Poeta; eu não quisera amargurar-te, e enfim

Não podia supor que a amasses tanto assim.

Cáspite! Vais depressa!

Cleon

Ai, Lísias, é verdade.

Amo-a, como não amo a vida e a mocidade;

De que modo nasceu esta afeição que encerra

Todo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a terra

Porque é mais bela ao sol e às auras matinais?

Amores estes são terríveis e fatais.

Lísias

Vês com olhos do céu coisas que são do mundo;

Acreditas achar esse afeto profundo,

Nestas filhas do mal! Se a todo o transe queres

Obter a casta flor dos célicos prazeres,

Deixa a alegre Corinto e todo o luxo seu;

Outro porto acharás: procura o Gineceu.

Escolhe aquele amor doce, inocente e puro,

Que inda não tem passado e vive do futuro.

Para mim, já to disse, o caso é diferente;

Não me importa um nem outro; eu vivo no presente.

Cleon

Deu-te amiga Fortuna um grande cabedal:

Viver, sem ilusões, no bem como no mal;

Não conhecer o amor que morde, que se nutre

Do nosso sangue, o amor funesto, o amor abutre;

Não beber gota a gota este brando veneno

Que requeima e destrói; não ver em mar sereno

Subitamente erguer-se a voz dos aquilões.

Afortunado és tu.

Lísias

Lei de compensações!

Sou filósofo mau, ridículo pedante,

Mas invejas-me a sorte; oh! lógica de amante.

Cleon

É a do coração.

Lísias

Terrível mestre!

Cleon

Ensina

Dos seres imortais a transfusão divina!

Lísias

A lição é profunda e escapa ao meu saber;

Outra escola professo, a escola do prazer!

Cleon

Tu não tens coração.

Lísias

Tenho mas não me iludo,

É Circe que perdeu o encanto e a juventude.

Cleon

Velho Sátiro!

Lísias

Justo: um semideus silvestre.

Nestas coisas do amor nunca tive outro mestre.

Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir.

Três artigos da lei: gozar, beber, dormir.

Cleon

Compras com isso a paz; a mim coube-me* o tédio,

A solidão e a dor.

Lísias

Queres um bom remédio,

Um filtro da Tessália, um bálsamo infalível?

Esqueces empresas vãs, não tentes o impossível;

Prende o teu coração nos laços de Himeneu;

Casa-te; encontrarás o amor no gineceu.

Mas cortesãs! jamais! São Gorgones! Medusas!

Cleon

Essas que conheceste e tão severo acusas

— Pobres moças! – não são o universal modelo;

De outras sei a quem coube um coração singelo,

Que preferem a tudo a glória singular

De conhecer somente a ciência de amar;

Capazes de sentir o ardor da intensa chama

Que eleva, que resgata a vida que as infama.

Lísias

Se achares tal milagre, eu mesmo irei pedir-to.

Cleon

Basta um passo, achá-lo-ei.

Lísias

Bravo! chama-se?

Cleon

Mirto,

Que pode conquistar até o amor de um deus!

Lísias

Crês nisso?

Cleon

Porque não?

Lísias

Tu és um néscio; adeus!

Cena IV

Cleon

Vai, cético! tu tens o vício da riqueza:

Farto, não crês na fome...A minha singeleza

Faz-te rir; tu não vês o amor que absorve e mata;

Mirto, vinga-me tu da calúnia insensata;

Amemo-nos. É ela!

Cena V

Cleon, Mirto.

Mirto

Estás triste!

Cleon

Oh! que não!

Mas deslumbrado, sim, como se uma visão...

Mirto

A visão vai partir.

Cleon

Mas muito tarde...

Mirto

Breve.

Cleon

Quem te chama?

Mirto

O destino. Adivinha quem me escreve?

Cleon

Tua mãe.

Mirto

Já morreu.

Cleon

Algum antigo amante?

Mirto

Lísicles.

Cleon

Vive?

Mirto

Sim. Depois de andar errante

Numa tábua, à mercê das ondas, quis o céu

Que viesse encontrá-lo um barco do Pireu.

Pobre Lísicles! teve em tão cruenta lida

A dor da minha morte e a dor da própria vida.

Em vão interrogava o mar cioso e mudo.

Perdera, de uma vez, numa só noite, tudo.

A ventura, a esperança, o amor, e perdeu mais:

Naufragaram com ele os poucos cabedais.

Entrou em Samos pobre, inquieto, semimorto.

Um barqueiro, que a tempo atravessava o porto,

Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a ventura

Da malfadada Mirto.

Cleon

É isso, a sorte escura

Votou-se contra mim; não consente, não quer

Que eu me farte de amor no amor de uma mulher.

Vejo em cada paixão o fado que me oprime;

O amar é já sofrer a pena do meu crime.

Ixion foi mais audaz amando a deusa augusta;

Transpôs o obscuro lago e sofre a pena justa;

Mas eu não. Antes de ir às regiões infernais

São as graças comigo Eumênides fatais!.

Mirto

Caprichos de poeta! Amor não falta às damas;

Damas, tem-nas aqui; inspira-lhe estas chamas.

Cleon

Impõe-se leis ao mar? O coração é isto;

Ama o que lhe convém; convém amar a Egisto

Clitemnestra; convém a Cíntia Endimião;

É caprichoso e livre o mar do coração;

De outras sei que eu houvera em meus versos cantado;

Não lhes quero...não posso.

Mirto

Ai, triste enamorado!

Cleon

E tu zombas de mim!

Mirto

Eu zombar? Não; lamento

A tua acerba dor, o teu fatal tormento.

Não conheço eu também esse cruel penar?

Só dois remédios tens: esquecer, esperar.

De quanto almeja e quer o amor nem tudo alcança;

Contenta-se ao nascer co’as auras da esperança;

Vive da própria mágoa; a própria dor o alenta.

Cleon

Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão lenta!

Mirto

Não sabes esperar? Então cumpre esquecer.

Escolhe entre um e outro; é preciso escolher.

Cleon

Esquecer? sabes tu, Mirto, se a alma esquece

O prazer que a fulmina, e a dor que a fortalece?

Mirto

Tens na ausência e no tempo os velhos pais do olvido,

O bem não alcançado é como o bem perdido,

Pouco a pouco se esvai na mente e coração;

Põe o mar entre nós...dissipa-se a ilusão.

Cleon

Impossível!

Mirto

Então espera; algumas vezes

A fortuna transforma em glória os reveses.

Cleon

Mirto, valem bem pouco as glórias já tardias.

Mirto

Um só dia de amor compensa estéreis dias.

Cleon

Compensará, mas quando? A mocidade em flor

Bem cedo morre, e é essa a que convém a amor.

Vejo cair no ocaso o sol da minha vida.

Mirto

Cabeça de poeta, exaltada e perdida!

Pensas estar no ocaso o sol que mal desponta?

Cleon

A clepsidra do amor não conta as horas, conta

As ilusões; velhice é perdê-las assim;

Breve a noite abrirá seus véus por sobre mim.

Mirto

Não hás de envelhecer; as ilusões contigo

Flores são que respeita Éolo brando e amigo.

Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as colhamos.

Cleon

Se eu a Lesbos não vou.

Mirto

Podem colher-se em Samos.

Cleon

Voltas breve?

Mirto

Não sei.

Cleon

Oh! sim, deves voltar!

Mirto

Tenho medo.

Cleon

De quê?

Mirto

Tenho medo...do mar.

Cleon

Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica.

Lesbos é para ti mais formosa, é mais rica.

Mas a pátria é o amor; o amor transmuda os ares.

Muda-se o coração? Mudam-se os nossos lares.

Da importuna memória o teu passado exclui;

Vida nova nos chama, outro céu nos influi.

Fica; eu disfarçarei com rosas este exílio;

A vida é um sonho mau: façamo-la um idílio.

Cantarei a teus pés a nossa mocidade,

A beleza que impõe, o amor que persuade,

Vênus que faz arder o fogo da paixão,

Teu olhar, doce luz que vem do coração.

Péricles não amou com tanto ardor a Aspásia,

Nem esse que morreu entre as pompas da Ásia,

A Lais siciliana. Aqui as Horas belas

Tecerão para ti vivíssimas capelas.

Nem morrerás; teu nome em meus versos há de ir,

Vencendo o tempo e a morte, aos séculos porvir.

Mirto

Tanto me queres tu!

Cleon

Imensamente. Anseio.

Por sentir, bela Mirto, arfar teu brando seio,

Bater teu coração, tremer teu lábio puro,

Todo viver de ti.

Mirto

Confia no futuro.

Cleon

Tão longe!

Mirto

Não, bem perto.

Cleon

Ah! que dizes?

Mirto

Adeus!

(Passa junto da mesa da direita e vê no rolo de papiro.)

Curiosa que sou!

Cleon

São versos.

Mirto

Versos teus?

(Lísias aparece ao fundo.)

Cleon

De Anacreonte, o velho, o amável, o divino.

Mirto

A musa é toda iônia*, e o estro é peregrino.

(Abre o papiro e lê)

“Fez-se Niobe em pedra e Filomela em pássaro7.

Assim

Folgaria eu também me transformasse Júpiter

A mim.

Quisera ser o espelho em que o teu rosto mágico

Sorri;

A túnica feliz que sempre se está próxima

De ti;

O banho de cristal que esse teu corpo cândido

Contém;

O aroma de teu uso e donde eflúvios mágicos

Provêm;

Depois esse listão que de teu seio túrgido

Faz dois;

Depois do teu pescoço o rosicler de pérolas;

Depois...

Depois de ver-te assim, única e tão êmulas

Qual és,

Até quisera ser teu calçado, e pisassem-me

Teus pés.”

Que magníficos são!

Cleon

Minha alma assim te fala.

Mirto

Atendendo ao poeta eu pensava escutá-la.

Cleon

Eco do meu sentir foi o velho amador;

Tais os desejos são do meu profundo amor.

Sim, eu quisera ser tudo isto, — o espelho, o banho,

O calçado, o colar...Desejo acaso estranho,

Louca ambição talvez de poeta exaltado...

Mirto

Tanto sentes por mim?

Cena VI

Cleon, Mirto, Lísias

Lísias (entrando)

Amor, nunca sonhado

Se a musa dele és tu!

Cleon

Lísias!

Mirto

Ouviste?

Lísias

Ouvi.

Versos que Anacreonte houvera feito a ti,

Se vivesses no tempo em que, pulsando a lira,

Estas odes compôs que a velha Grécia admira.

(a Cleon)

Quer falar-te um sujeito, um Clínias, um colega,

Ex-mercador, como eu.

Mirto

Ai, que importuno!

Lísias

Alega

Que não pode esperar, que isto não pode ser,

Que um processo...Afinal não no pude entender.

Pode ser que contigo o homem se acomode.

Prometeste talvez compor-lhe alguma ode?

Cleon

Não. Adeus, bela Mirto; espera-me um instante.

Mirto

Não tardes!

Lísias (à parte)

Indiscreta!

Cleon

Espera.

Lísias (à parte)

Petulante!

Cena VII

Mirto, Lísias

Mirto

Sou curiosa. Quem é Clínias, ex-mercador

Amigo dele?

Lísias

Mais que isso; é um credor.

Mirto

Ah!

Lísias

Que belo rapaz! que alma fogosa e pura,

Bem digna de aspirar-te um hausto de ventura!

Queira o céu pôr-lhe termo à profunda agonia,

Surja enfim para ele o sol de um novo dia.

Merece-o. Mas vê lá se há destino pior:

Quer o alado Mercúrio obstar o alado Amor.

Com beijos não se paga a pompa do vestido,

O espetáculo e a mesa; e se o gentil Cupido

Gosta de ouvir canções, o outro não vai com elas;

Vale uma dracma só vinte odezinhas belas.

Um poema não compra um simples borzeguim.

Versos! são bons de ler; mais nada; eu penso assim.

Mirto

Pensas mal! A poesia é sempre um dom celeste;

Quando o gênio o possui quem há que o não requeste?

Hermes, com ser o deus dos graves mercadores,

Tocou lira também.

Lísias

Já sei que estás de amores.

Mirto

Que esperança! Bem vês que eu já não posso amar.

Lísias

Perdeste o coração?

Mirto

Sim; perdi-o no mar.

Lísias

Pesquemo-lo; talvez essa pérola fina

Venha ornar-me a existência agourada e mofina.

Mirto

Mofina?

Lísias

Pois então? Enfaram-me estas belas

Da terra samiana; assaz vivi por elas.

Outras desejo amar, filhas do azul Egeu.

Varia de feições o Amor, como Proteu.

Mirto

Seu caráter melhor foi sempre o ser constante.

Lísias

Serei menos fiel, não sou menos amante.

Cada beleza em si toda a paixão resume.

Pouco me importa a flor; importa-me o perfume.

Mirto

Mas quem quer o perfume afaga um pouco a flor;

Nem fere o objeto amado a mão que implora o Amor.

Lísias

Ofendo-te com isto? Esquece a minha ofensa.

Mirto

Já esqueci; passou.

Lísias

Quem fala como pensa

Arrisca-se a perder ou por sobra ou por míngua.

Eu confesso o meu mal; não sei tentear a língua.

Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu tens

A graça das feições, o sumo bem dos bens;

Moça, trazes na fronte o doce beijo de Hebe;

Como um filtro de amor que, sem sentir, se bebe,

De teus olhos distila a eterna juventude;

De teus olhos que um deus, por lhes dar mais virtude,

Fez azuis como o céu, profundos como o mar.

Quem tais dotes reúne, ó Mirto, deve amar.

Mirto

Falas como um poeta, e zombas da poesia!

Lísias

Eu, poeta? jamais.

Mirto

A tua fantasia

Respirou certamente o ar do monte Himeto.

Tem a expressão tão doce!

Lísias

É a expressão do afeto.

Sou em coisas de Apolo um simples amador.

A minha grande musa é Vênus, mãe de amor.

No mais não aprendi ( os fados meus adversos

Vedaram-mo!) a cantar bons e sentidos versos.

Cleon esse é que sabe acender tantas almas,

Conquistar de um só lance os corações e as palmas.

Mirto

Conquistar, oh! que não!

Lísias

Mas agradar?

Mirto

Talvez.

Lísias

Isso mesmo; é já muito. O que o poeta fez

Fá-lo-ei jamais? Contudo, inda tentá-lo quero;

Se não me inspira a musa, alma filha de Homero,

Inspira-me o desejo, a musa que delira,

E o seu canto concerta aos sons da eterna lira.

Mirto

Também desejas ser alguma coisa?

Lísias

Não;

Eu caso o meu amor às regras da razão.

Cleon quisera ser o espelho em que teu rosto

Sorri; eu bela Mirto, eu tenho melhor gosto.

Ser espelho! ser banho! e túnica! tolice!

Estéril ambição! loucura! criancice!

Por Vênus! sei melhor o que a mim me convém.

Homem sisudo e grave outros desejos tem.

Fiz, a este respeito, aprofundado estudo;

Eu não quero ser nada; eu quero dar-te tudo.

Escolhe o mais perfeito espelho de aço fino,

A túnica melhor de pano tarentino,

Vasos de óleo, um colar de pérolas, — enfim

Quanto enfeita uma dama aceitá-lo-ás de mim

Brincos que vão ornar-te a orelha graciosa;

Para os dedos o anel de pedra preciosa;

A tua fronte pede áureo, rico anadema;

Tê-lo-ás, divina Mirto. É este o meu poema.

Mirto

É lindo!

Lísias

Queres tu, outras estrofes mais?*

Dar-tas-ei quais as teve a celebrada Lais.

Casa, rico jardim, servas de toda parte;

E estátuas e painéis, e quantas obras d’arte

Podem servir de ornato ao templo da beleza,

Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riqueza

Te há de faltar, mimosa, e só quero um penhor.

Quero...quero-te a ti

Mirto

Pois quê! já quer a flor,

Quem desdenhando a flor, só lhe pede o perfume?

Lísias

Esqueceste o perdão?

Mirto

Ficou-me este azedume.

Lísias

Vênus pode apagá-lo.

Mirto

Eu sei! creio e não creio.

Lísias

Hesitar é ceder: agrada-me o receio.

Em assunto de amor vontade que flutua

Está prestes a entregar-se. Entregas-te?

Mirto

Sou tua!

Cena VIII

Lísias, Mirto, Cleon

Cleon

Demorei-me demais?

Lísias

Apenas o bastante

Para que fosse ouvido um coração amante.

A Lesbiana é minha.

Cleon

És dele, Mirto!

Mirto

Sim;

Eu ainda hesitava; ele falou por mim.

Cleon

Quantos amores tens, filha do mal?

Lísias

Pressinto

Uma lamentação inútil. “A Corinto

Não vai quem quer,” lá diz aquele velho adágio.

Navegavas sem leme; era certo o naufrágio.

Não me viste sulcar as mesmas águas?

Cleon

Vi,

Mas contava com ela, e confiava em ti.

Mais duas ilusões! Que importa? Inda são poucas;

Desfaçam-se uma a uma estas quimeras loucas.

Da árvore bendita, ó minha juventude,

Vão-te as flores caindo ao vento áspero e rude!

Não vos maldigo, não; eu não maldigo o mar

Quando a nave soçobra; o erro é confiar.

Adeus, formosa Mirto; adeus, Lísias; não quero

Perturbar vosso amor, eu que já nada espero;

Eu que vou arrancar as profundas raízes

Desta paixão funesta; adeus, sede felizes!

Lísias

Adeus! Saudemos nós a Vênus e a Lieu.

Ambos

Io Poean! ó Baco! Himeneu! Himeneu!

Falenas

Sinopse

Livro de poesia de Machado de Assis em domínio público, publicado no Aurora a partir do acervo digital da Biblioteca Nacional.

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LITEBN
LITEBN-FALENAS-20260702152829
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