Universo da obra
Universo da obra
Hoje avental, amanhã luva
Texto-fonte:
Teatro de Machado de Assis
, org. de João Roberto Faria,
São
Paulo: Martins Fontes, 2003.
Publicada
originalmente
A Marmota
, Rio de Janeiro,
março de 1860.
Transcrita
em
Páginas Esquecidas
, de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Ed Casa
Mandarino, 1939.
Comédia em um ato imitada do francês por Machado de Assis
Personagens Durval Rosinha Bento Rio de Janeiro — Carnaval de 1859.
(
Sala elegante. Piano, canapé, cadeiras, uma
jarra de flores em uma mesa à direita
alta.
Portas laterais no fundo
.)
Cena I Adormecida no canapé
);
entrando pela porta do fundo
)
Onde está a Sra.
Sofia de Melo?... Não vejo ninguém. Depois de dois anos como venho encontrar
estes sítios! Quem sabe se em vez da palavra dos cumprimentos deverei trazer a
palavra dos epitáfios! Como tem crescido isto em opulência!... mas... (
vendo Rosinha
) Oh! Cá está a criadinha.
Dorme!... excelente passatempo... Será adepta de Epicuro? Vejamos se a
acordo... (
dá-lhe um beijo
acordando
Ah! Que é isto? (
levanta-se
) O Sr. Durval? Há dois anos
que tinha desaparecido... Não o esperava.
Sim, sou eu, minha menina. Tua ama?
Está ainda no quarto. Vou dizer-lhe que V. S. está
(vai
para entrar)
Mas, espere; diga-me uma coisa.
Duas, minha pequena. Estou à tua
disposição. (
à
parte)
Não é má coisinha!
Diga-me. V. S. levou dois anos sem aqui pôr os pés: por
que diabo volta agora sem mais nem menos?
(tirando o sobretudo que deita sobre o canapé)
És curiosa. Pois sabe que venho para... para mostrar a
Sofia que estou ainda o mesmo.
Está mesmo? moralmente, não?
É boa! Tenho então alguma ruga que
indique decadência física?
Do físico... não há nada que dizer.
Pois do moral estou também no mesmo. Cresce com os anos o
meu amor; e o amor é como o vinho do Porto: quanto mais velho, melhor. Mas tu!
Tens mudado muito, mas como mudam as flores em botão: ficando mais bela.
Sempre amável, Sr. Durval.
Costume da mocidade.
(quer dar-lhe
um beijo)
(fugindo e com severidade)
Sr. Durval!...
E então! Foges agora! Em outro tempo não eras difícil nas
tuas beijocas. Ora vamos! Não tens uma amabilidade para este camarada que de
tão longe volta!
Não quero graças. Agora é outro cantar! Há dois anos eu
era uma tola inexperiente... mas hoje!
Está bem. Mas...
Tenciona ficar aqui no Rio?
(sentando-se)
Como o Corcovado, enraizado como ele. Já me doíam saudades
desta boa cidade. A roça, não há coisa pior! Passei lá dois anos bem insípidos
— em uma vida uniforme e matemática como um ponteiro de relógio: jogava gamão,
colhia café e plantava batatas. Nem teatro lírico, nem rua do Ouvidor, nem
Petalógica! Solidão e mais nada. Mas, viva o amor! Um dia concebi o projeto de
me safar e aqui estou. Sou agora a borboleta, deixei a crisálida, e aqui me vou
em busca de vergéis.
(tenta um novo beijo)
(fugindo)
Não teme queimar as asas?
Em que fogo? Ah! Nos olhos de Sofia!
Está mudada também?
Sou
suspeita. Com
seus próprios olhos o verá.
Era elegante e bela há bons dois anos. Sê-lo-á ainda? Não
será? Dilema de Hamlet. E como gostava de flores! Lembras-te? Aceitava-mas
sempre não sei se por mim, se pelas flores; mas é de crer que fosse por mim.
Ela gostava tanto de flores!
Obrigado. Dize-me cá. Por que diabo sendo uma criada,
tiveste sempre tanto espírito e mesmo...
Não sabe? Eu lhe digo.
Em Lisboa, donde viemos para aqui, fomos condiscípulas: estudamos no mesmo
colégio, e comemos à mesma mesa. Mas, coisas do mundo!... Ela tornou-se ama e
eu criada! É verdade que me trata com distinção, e conversamos às vezes em
altas coisas.
Ah!
é
isso? Foram condiscípulas.
(levanta-se)
E conversam agora em altas
coisas!... Pois eis-me aqui para conversar também; faremos um
trio
admirável.
Vou
participar-lhe a sua chegada.
Sim,
vai,
vai.
Mas olha cá, uma palavra.
Uma só,
entende?
Dás-me
um beijo?
Bem vê
que são três palavras.
(entra à direita)
Cena
II
e
Bravo! A pequena não é tola... tem mesmo muito espírito! Eu
gosto dela, gosto! Mas é preciso dar-me ao respeito.
(vai ao fundo e chama)
Bento!
(descendo)
Ora depois de dois anos como virei encontrar isto? Sofia
terá por mim a mesma queda? É isso o que vou sondar. É provável que nada perdesse
dos antigos sentimentos. Oh! decerto! Vou começar por levá-la ao baile
mascarado; há de aceitar, não pode deixar de aceitar! Então, Bento! mariola?
(entrando com
um jornal)
Pronto.
Ainda agora! Tens um péssimo defeito
para boleeiro, é não ouvir.
Eu estava embebido com a interessante leitura do
Jornal
do Comércio:
ei-lo. Muito mudadas estão estas coisas por aqui! Não faz uma
idéia! E a política? Esperam-se coisas terríveis do parlamento.
Não me maçes, mariola! Vai abaixo ao carro e traz uma
caixa de papelão que lá está... Anda!
Sim, senhor; mas admira-me que V. S.
não preste atenção ao estado das coisas.
Mas que tens tu com isso, tratante?
Eu nada; mas creio que...
Salta lá para o carro, e traz a caixa
depressa!
Cena Iii Durval E Rosinha Pedaço d'asno! Sempre a ler jornais; sempre a tagarelar
sobre aquilo que menos lhe deve importar!
(vendo Rosinha)
Ah!...
és
tu?
Então
ela...
Está na outra sala à sua espera.
Bem, aí vou.
(vai entrar e volta)
Ah! recebe a
caixa de papelão que trouxer meu boleeiro.
Sim, senhor.
Com cuidado, meu colibri!
Galante nome! Não será em
seu coração que
farei
o meu ninho.
à parte
Ah! É
bem engraçada a rapariga!
(vai-se)
Cena Iv ROSINHA,
DEPOIS
Muito bem, Sr. Durval. Então voltou ainda? É a hora de minha
vingança. Há dois anos, tola como eu era, quiseste seduzir-me, perder-me, como
a muitas outras! E como? mandando-me dinheiro... dinheiro! — Media as infâmias
pela posição. Assentava de... Oh! mas deixa estar! vais pagar tudo... Gosto de
ver essa gente que não enxerga sentimento nas pessoas de condição baixa... como
se quem traz um avental, não pode também calçar uma luva!
(traz uma
caixa de papelão)
Aqui está a caixa em questão...
(põe a caixa sobre uma
cadeira)
Ora, viva! Esta
caixa é de meu amo.
Deixe-a
ficar.
tirando o jornal do bolso
Fica entregue, não?
Ora bem! Vou continuar a minha interessante leitura... Estou na gazetilha —
Estou pasmado de ver como vão as coisas por aqui! —
Vão a pior. Esta folha põe-me ao fato de grandes novidades.
(sentando-se
de costas para ele)
Muito
velhas para mim.
(com
desdém)
velhas? Concedo. Cá para mim têm toda a frescura da véspera.
(consigo)
Quererá
ficar?
do outro lado)
Ainda
uma vista d'olhos!
(abre o jornal)
E então
não se assentou?
(lendo)
Ainda um caso:
"Ontem à noite desapareceu uma nédia e numerosa criação de aves domésticas.
Não se pôde descobrir os ladrões, porque, desgraçadamente havia uma patrulha a
dois passos dali."
(levantando-se)
Ora,
que aborrecimento!
(continuando)
“Não é o primeiro
caso que dá nesta casa da rua dos Inválidos."
Como vai
isto, meu Deus!
Abrindo a caixa
Que
belo dominó!
(indo a
ela)
Não mexa! Creio que é para ir ao baile mascarado
hoje...
(silêncio)
Um baile... hei de ir também!
Aonde? Ao
baile? Ora esta!
E por
que não?
Pode ser; contudo,
quer vás, quer não vás, deixa-me ir acabar a minha leitura naquela sala de
espera.
Não...
tenho uma coisa a tratar contigo.
lisonjeado
Comigo,
minha bela!
Queres
servir-me em uma coisa?
severo
Eu cá
só sirvo ao Sr. Durval, e é na boléia!
Pois hás de me
servir. Não és então um rapaz como os outros boleeiros, amável e serviçal...
Vá feito...
não deixo de ser amável; é mesmo o meu capítulo de predileção.
Pois
escuta. Vais fazer um papel, um bonito papel.
Não entendo desse
fabrico. Se quiser algumas lições sobre a maneira de dar uma volta, sobre o governo
das rédeas em um trote largo, ou coisa cá do meu ofício, pronto me encontra.
que tem ido buscar o ramalhete no jarro
Olha
cá: sabes o que é isso?
flores.
É o
ramalhete diário de um fidalgo espanhol que viaja incógnito.
Ah! (
toma o ramalhete
indo a uma gaveta buscar um papel
O Sr.
Durval conhece a tua letra?
Conhece
apenas uma. Eu tenho diversos modos de escrever.
bem; copia isto. (
dá-lhe o papel
) Com
letra que ele não conheça.
Mas o
que é isto?
Ora, que te
importa? És uma simples máquina. Sabes tu o que vai fazer quando o teu amo te
indica uma direção ao carro? Estamos aqui no mesmo caso.
Fala
como um livro! Aqui vai. (
escreve
amontoado de garatujas!...
Cheira
a diplomata. Devo assinar?
Que se
não entenda.
Como um
perfeito fidalgo. (
Subscritada para
mim. À Sra. Rosinha. (
Bento escreve
) Põe
agora este bilhete nesse e leva. Voltarás a propósito. Tens também muitas vozes?
Vario
de fala, como de letra.
Imitarás
o sotaque espanhol?
Como
quem bebe um copo d’água!
Silêncio!
Ali está o Sr. Durval.
Cena V Bento, Durval a Bento
Trouxeste
a caixa, palerma?
escondendo atrás das costas o ramalhete
senhor.
Traz a
carruagem para o portão
Sim senhor. (
Durval vai vestir o sobretudo, mirando-se ao
espelho
) O jornal? Onde pus eu o jornal? (
sentindo-o no bolso
) Ah!...
(baixo a
Bento)
Não passes na sala de espera. (
Bento sai
Cena Vi Durval, Rosinha Adeus, Rosinha,
é preciso que eu me retire.
não!
Dá essa
caixa a tua ama.
Vai
sempre ao baile com ela?
Ao
baile? Então abriste caixa?
Não vale
a pena falar nisso. Já sei, já sei que foi recebido de braços abertos.
Exatamente. Era a
ovelha que voltava ao aprisco depois de dois anos de apartamento.
Já vê que andar
longe não é mau. A volta é sempre um triunfo. Use, abuse mesmo da receita. Mas
então sempre vai ao baile?
Nada sei de
positivo. As mulheres são como os logogrifos. O espírito se perde no meio
daquelas combinações...
Fastidiosas,
seja franco.
É um aleive: não é esse
o meu pensamento. Contudo devo, parece-me dever crer, que ela irá. Como me
alegra, e me entusiasma esta preferência que me dá a bela Sofia!
Preferência?
Há engano: preferir supõe escolha, supõe concorrência...
E então?
E então, se ela vai
ao baile é unicamente pelos seus bonitos olhos, se não fora V. S., ela não ia.
Como é
isso?
indo ao espelho
Mire-se
neste espelho.
Aqui me
tens
O que
vê nele?
Boa pergunta!
Vejo-me a mim próprio.
bem. Está vendo toda a corte da Sra. Sofia, todos os seus adoradores.
Todos! Não é
possível. Há dois anos a bela senhora era a flor bafejada por uma legião de
zéfiros... Não é possível.
Parece-me criança!
Algum dia os zéfiros foram estacionários? Os zéfiros passam e mais nada. É
.
o símbolo do amor moderno.
E a flor fica no
hastil. Mas as flores duram uma manhã apenas. (
) Quererás tu dizer que Sofia passou a manhã das flores?
isso é loucura. Eu disse isto?
pondo a bengala junto ao piano
Parece-me
entretanto...
V. S. tem uma
natureza de sensitiva; por outra, toma os recados na escada. Acredite ou não, o
que lhe digo é a pura verdade. Não vá pensar que o afirmo assim para
conservá-lo junto de mim: estimara mais o contrário.
sentando-se
Talvez queiras
fazer crer que Sofia é alguma fruta passada, ou jóia esquecida no fundo da
gaveta por não estar
em moda.
Estais
enganada. Acabo de vê-la; acho-lhe ainda o mesmo rosto:
vinte e oito anos, apenas.
Acredito.
É ainda
a mesma: deliciosa.
Não sei
se ela lhe esconde algum segredo.
Nenhum.
Pois esconde. Ainda
lhe não mostrou a certidão de batismo. (
vai
sentar-se ao lado
oposto
Rosinha! E depois,
que me importa? Ela é ainda aquele querubim do passado. Tem uma cintura... que
cintura!
É verdade.
Os meus dedos que o digam!
Hein? E o corado
daquelas faces, o alvo daquele colo, o preto daquelas sobrancelhas?
levantando-se
Ilusão! Tudo isso é
tabuleta do Desmarais; aquela cabeça passa pelas minhas mãos. É uma beleza de
pó de arroz: mais nada.
(levantando-se
bruscamente)
Oh!
Essa agora!
A pobre
senhora está morta!
Mas, que diabo! Não
é um caso de me lastimar; não tenho razão disso. O tempo corre para todos, e portanto
a mesma onda nos levou a ambos folhagens da mocidade. E depois eu amo aquela
engraçada mulher!
Reciprocidade;
ela também o ama.
(com um
grande prazer)
Duas vezes chegou à
estação do campo para tomar o
wagon
,
mas duas vezes voltou para casa. Temia algum desastre da maldita estrada de
ferro!
amor! Só recuou diante da estrada de ferro!
Eu tenho um livro
de notas, donde talvez lhe possa tirar provas do amor da Sra. Sofia. É uma lista
cronológica e alfabética dos colibris que por aqui têm
esvoaçado.
Abre lá
isso então!
folheando um livro
procurar.
Tem aí
todas as letras?
Todas. É
pouco agradável para V. S.; mas tem todas desde A até o Z.
Desejara
saber quem foi a letra K.
É
fácil; algum alemão.
Ah! Ela
também cultiva os alemães?
Durval é a letra D. — Ah! Ei-lo: (
lendo
) “Durval,
quarenta e oito anos de idade...”
Engano!
Não tenho mais de quarenta e seis.
Mas
esta nota foi escrita há dois anos.
Razão demais. Se
tenho hoje quarenta e seis, há dois tinha quarenta e quatro... e claro!
Nada.
Há dois anos devia ter cinqüenta.
Esta
mulher é um logogrifo!
V. S. chegou a um
período em sua vida em que a mocidade começa a voltar; em cada ano, são doze meses
de verdura que voltam como andorinhas na primavera.
Já me
cheirava a epigrama. Mas vamos adiante com isso.
(fechando
o
livro)
Bom! Já sei onde
estão as provas.
(vai a uma gaveta e tira dela uma carta)
Ouça: —
"Querida Amélia...
Que é
Uma carta da ama a
uma sua amiga. "Querida Amélia: o Sr. Durval é um homem interessante,
rico, amável, manso como um cordeiro, e submisso como o meu Cupido..."
(a
Durval)
Cupido é um cão d'água que ela tem.
A
comparação é grotesca na forma, mas exata no fundo. Continua, rapariga.
“Acho-lhe contudo alguns defeitos...
Defeitos?
“Certas maneiras, certos
ridículos, pouco espírito, muito falatório, mas afinal um marido com todas as
virtudes necessárias...
É demais
“Quando eu
conseguir isso, peço-te que venhas vê-lo como um urso na chácara do Souto.
Um
urso!
"Esquecia-me
de dizer-te que o Sr. Durval usa de cabeleira."
(fecha a carta)
Cabeleira! É uma
calúnia! Uma calúnia atroz!
(levando a mão ao meio da cabeça, que está
calva)
Se eu usasse de cabeleira...
Tinha
cabelos, é claro.
(passeando
com agitação)
Cabeleira!
E depois fazer-me seu urso como um marido na chácara do Souto.
(às
gargalhadas)
Ah! ah!
ah!
(vai-se pelo fundo)
Cena Vii (passeando)
É demais! E então quem
fala! uma mulher que tem umas faces... Oh! é o cúmulo da impudência! É aquela
mulher furta-cor, aquele arco-íris que tem a liberdade de zombar de mim!...
(procurando)
Rosinha! Ah! foi-se embora...
Oh! Se eu me tivesse
conservado na roça, ao menos lá não teria dessas apoquentações!...Aqui na
cidade, o prazer é misturado com zangas de acabrunhar o espírito mais superior!
Nada! (
) Decididamente
volto para lá... Entretanto, cheguei há pouco... Não sei se deva ir; seria dar
cavaco com aquela mulher; e eu... Que fazer? Não sei, deveras!
Cena Viii BENTO (
de paletó, chapéu de palha, sem botas
mudando a voz
Para a
Sra. Rosinha. (
põe o ramalhete sobre a
mesa
Está
entregue.
(à parte)
Não me conhece!
Ainda bem.
senhor! (
sai pelo fundo
Cena Ix (só, indo buscar o ramalhete)
Ah!ah!flores! A Sra. Rosinha tem quem lhe mande flores! Algum
boleeiro estúpido. Estas mulheres são de um gosto esquisito às vezes! — Mas
como isto cheira! Dir-se-ia um presente de fidalgo!
(vendo a cartinha)
que é isto? Um bilhete de amores! E como cheira! Não conheço esta letra; o
talho é rasgado e firme, como de quem desdenha.
(levando a cartinha ao
nariz)
Essência de violeta, creio eu. É uma planta obscura, que também tem
os seus satélites. Todos os têm. Esta cartinha é um belo assunto para uma
dissertação filosófica e social. Com efeito: quem diria que esta moça, colocada
tão
baixo, teria bilhetes perfumados!...
(leva
ao nariz)
Decididamente é essência de magnólias!
Cena X no fundo
) DURVAL (
no proscênio
consigo
Muito bem! Lá foi ela
visitar a sua amiga no Botafogo. Estou completamente livre. (
desce
escondendo a carta
Ah! és
tu? Quem te manda destes presentes?
Mais
um. Dê-me a carta.
carta? É boa! é coisa que não vi.
Ora não brinque! Devia trazer uma carta. Não vê que um
ramalhete de flores é um estafeta mais seguro do que o correio da corte!
(dando-lhe
a carta)
Aqui a
tens; não é possível mentir.
Então!
(lê
bilhete)
Quem é o feliz mortal?
Curioso!
É moço
ainda?
Diga-me:
é muito longe daqui a sua roça?
É rico,
é bonito?
Dista muito da última estação?
Não me ouves, Rosinha?
Se o ouço! É curioso, e vou satisfazer-lhe a curiosidade.
É rico, é moço e é bonito. Está satisfeito?
Deveras! E chama-se?...
Chama-se... Ora eu não me estou
confessando!
És encantadora!
Isso é velho. E o que me dizem os homens e os espelhos.
Nem uns nem outros mentem.
Sempre graciosa!
Se eu o acreditar, arrisca-se a
perder a liberdade... tomando uma capa...
De marido, queres dizer (
) ou de um urso! (
alto)
Não tenho medo disso. Bem vês a
alta posição... e depois eu prefiro apreciar-te as qualidades de fora. Talvez
leve a minha amabilidade a fazer-te um madrigal.
Ora essa!
Mas, fora com tanto tagarelar!
Olha cá! Eu estou disposto a perdoar aquela
carta; Sofia vem sempre ao baile?
Tanto como o imperador dos turcos...
Recusa.
Recusa!
É o cúmulo da... E por que recusa?
Eu sei lá! Talvez um nervoso; não sei!
Recusa! Não faz mal... Não quer vir, tanto melhor! Tudo
está acabado, Sra. Sofia de Melo! Nem uma atenção ao menos comigo, que vim da
roça por sua causa unicamente! Recebe-me com agrado, e depois faz-me destas!
Boa noite, Sr. Durval.
Não te vás assim; conversemos ainda
um pedaço.
Às onze
horas e meia... interessante conversa!
Ora que tem isso? Não são horas que fazem a conversa interessante, mas
os interlocutores.
Ora tenha
a bondade de não dirigir cumprimentos.
Mal sabes que tens
as mãos, como as de uma patrícia romana; parecem calçadas de luva, se é que uma
luva pode ter estas veias azuis como rajadas de mármore.
Hein!
E esses
olhos de Helena!
Ora!
E estes
bravos de Cleópatra!
Bonito!
Apre!
Queres que esgote a história?
Oh! não!
Então por que se recolhe tão cedo a
estrela d'alva?
Não tenho outra coisa a fazer diante
do sol.
Ainda um cumprimento!
(vai à caixa de papelão)
cá. Sabes o que há aqui? um dominó.
(aproximando-se)
Cor-de-rosa! Ora vista, há de
ficar-lhe bem.
Dizia um célebre grego: dê-me pancadas, mas ouça-me! —
Parodio aquele dito: — Ri, graceja, como quiseres, mas hás de escutar-me:
(desdobrando
o dominó)
não achas bonito?
Oh! decerto!
Parece que foi feito para ti!... É da mesma altura. E como
te há de ficar! Ora, experimenta!
Obrigado.
Ora
vamos! experimenta; não custa.
Vá
feito se é só para experimentar.
(vestindo-lhe
Primeira
manga.
E segunda!
veste-o de todo
Delicioso.
Mira-te naquele espelho.
(Rosinha obedece)
passeando
Fica-me
bem?
(seguindo-a)
A matar! a matar! (
) A minha vingança começa, Sra. Sofia
de melo! (
a
Rosinha ) Estás esplêndida! Deixa dar-te um beijo?
Tenha
mão.
Isso
agora é que não tem grata!
Em que
oceano de fitas e de sedas estou mergulhada! (
dá meia-noite
) Meia-noite!
Meia-noite!
Vou tirar
o dominó... é pena!
Qual
tirá-lo! Fica com ele.
(pega no chapéu e nas luvas)
Não é
possível.
Vamos
ao baile mascarado.
Enfim.
(alto)
Infelizmente não posso.
Não
pode? e então por quê?
segredo.
Recusas? Não sabes
o que é um baile. Vais ficar extasiada. E um mundo fantástico, ébrio, movediço,
que corre, que salta, que ri, em um turbilhão de harmonias extravagantes!
posso ir. (
batem à porta
) [
] É Bento.
Quem
será?
sei.
(indo ao fundo)
Quem bate?
fora com a voz contrafeita
O hidalgo Don Alonso da Sylveira y Zorrilla y
Guclines y Guatinara y Marouflas de
la Vega
!
Assustado
É um batalhão
que temos à porta! A Espanha muda-se para cá?
Caluda! Não sabe
quem está ali? É um fidalgo da primeira nobreza de Espanha. Fala à rainha de
chapéu na cabeça.
E que
quer ele?
resposta daquele ramalhete.
dando um pulo
Ah! Foi
ele...
fora
meia-noite. O baile vai começar.
Espere
um momento.
espere! Mando-o embora.
(à parte) É
um fidalgo!
Mandá-lo
embora? Pelo contrário; vou mudar de dominó e partir com ele.
Não,
não; não faças isso!
(fora)
É meio-noite e cinco minutos. Abre a porta a quem
deve ser teu marido.
Teu marido!
E então!
Abre!
abre!
demais! Estás com o meu dominó... hás de ir comigo ao baile!
Não é possível; não
se trata a um fidalgo espanhol como a um cão. Devo ir com ele.
quero que vás.
Hei de
ir.(
dispõe-se a tirar o dominó
) Tome lá...
impedindo-a
Rosinha, ele é um
espanhol, e além de espanhol, fidalgo. Repara que é uma dupla cruz com que tens
de carregar.
cruz! E não se casa ele comigo?
Não caias nessa!
Meia-noite e dez minutos! então vem
ou não vem?
Lá vou.
(a Durval)
Vê
como se impacienta! Tudo aquilo é amor!
explosão)
Amor! E se eu te desse em troca daquele amor castelhano, um
amor brasileiro ardente e apaixonado? Sim, eu te amo, Rosinha; deixa esse
espanhol tresloucado!
Sr. Durval!
Então, decide!
Não grite! Aquilo é mais forte do que
um tigre de Bengala.
Deixa-o; eu matei as onças do Maranhão e já estou
acostumado com esses animais. Então? Vamos! Eis-me a teus pés, ofereço-te a
minha mão e a minha fortuna!
Ah... (alto)
o fidalgo?
É meia-noite e doze minutos!
Manda-o embora, ou senão, espera.
matá-lo; é o meio mais pronto.
Não, não; evitemos a morte. Para não
ver correr sangue, aceito a sua proposta.
(com regozijo)
Venci o castelhano! É um magnífico
triunfo! Vem, minha bela; o baile nos espera!
Vamos. Mas repare na enormidade do
sacrifício.
Serás compensada, Rosinha. Que linda peça de entrada!
(à
São dois os enganados — o fidalgo e Sofia
ah! ah!
(rindo também)
Ah! Ah! Ah!
) Eis-me vingada!
Silêncio! (
vão pé ante pela porta da esquerda
Sai
Rosinha primeiro, e Durval, da soleira da porta para a porta do fundo, a rir às
Cena última
(abrindo a
porta do fundo)
Ninguém mais! Desempenhei
a meu papel: estou contente! Aquela subiu um degrau na sociedade. Deverei ficar
assim? Alguma baronesa não me desdenharia decerto. Virei mais tarde. Por
enquanto, vou abrir a portinhola.
(vai a sair e cai o pano)
FIM
Comédia em um ato de Machado de Assis em domínio público, publicada no Aurora a partir da edição consolidada da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.