Universo da obra
Universo da obra
Sofia Amaral voltou à mansão da família numa manhã de calor seco, vestindo roupa de cidade e carregando uma mala pequena demais para vinte anos de ausência. O portão verde continuava alto, coberto por hera, com a pintura descascada nos mesmos pontos onde ela prendia os dedos quando criança. A casa ficava atrás de um caminho de pedras, cercada por árvores antigas e por um silêncio que parecia administrado. Sofia não vinha para lembrar. Vinha para assinar a venda do terreno, encerrar o inventário da avó e permitir que uma construtora transformasse o jardim fechado em condomínio de luxo com nome em inglês. A proposta era ofensiva, lucrativa e, segundo seus irmãos, inevitável.
Daniel Vilar esperava na varanda com pasta de couro, camisa clara e a expressão cuidadosamente neutra de advogado que conhecia segredos demais da família do cliente. Aos dezessete anos, ele esperara Sofia no mesmo lugar, segurando duas passagens de ônibus e um plano ridículo de fuga. Ela partira sozinha. Agora ele a cumprimentou com aperto de mão profissional, sem ironia, o que a incomodou mais que qualquer acusação. Disse que precisava mostrar o testamento antes da reunião com os compradores. Sofia respondeu que preferia assinar logo e evitar teatro de família. Daniel olhou para o jardim fechado, visível atrás da casa, e disse que o testamento tinha começado a mudar desde que o portão fora aberto naquela manhã.
O jardim fechado era uma área murada, construída pela bisavó para cultivar rosas raras, ervas medicinais e ressentimentos familiares. Ninguém entrava ali desde o desaparecimento de Clara Amaral, mãe de Sofia, encontrada apenas em boatos, cartas nunca enviadas e no perfume de dama-da-noite que invadia a casa em aniversários errados. Sofia lembrava da última tarde com a mãe. Clara de vestido branco, mãos sujas de terra, dizendo que algumas plantas sobreviviam melhor sem luz. Depois gritos, chuva, o portão batendo, e a versão oficial. Crise nervosa, fuga voluntária, mulher instável. Famílias ricas gostavam de palavras que pareciam diagnóstico quando queriam esconder violência.
Daniel abriu a pasta na biblioteca. O testamento da avó, dona Celeste, tinha sido lavrado com todas as formalidades, mas a cláusula final aparecia borrada, reescrita em tinta fresca sobre papel velho. Para vender o jardim, Sofia deveria passar uma noite na estufa e ler as cartas de Clara até o amanhecer. Caso recusasse, a propriedade iria para uma fundação desconhecida chamada Casa das Raízes. Sofia acusou Daniel de fraude antes de terminar a leitura. Ele aceitou a acusação com paciência irritante e mostrou as cópias feitas na véspera. Nelas, a cláusula mencionava apenas venda direta. A tinta mudara durante a madrugada, dentro do cofre do cartório.
Os irmãos chegaram antes do almoço. Vera, elegante e prática, queria assinar. Marcelo, bronzeado e endividado, queria antecipar parte do dinheiro. Nenhum dos dois queria falar de Clara. Quando Sofia mostrou a cláusula, Vera chamou aquilo de encenação emocional. Marcelo perguntou se a fundação podia ser comprada. Daniel informou que a Casa das Raízes existia havia quinze anos, administrava abrigos para mulheres no interior e tinha recebido doações anônimas de dona Celeste até sua morte. Sofia percebeu o nome da mãe ausente ocupando a sala sem ser pronunciado. Do corredor veio cheiro de dama-da-noite. A biblioteca estava fechada, as janelas também. Sobre a mesa, uma carta caiu de dentro do testamento, endereçada a Sofia com a letra de Clara.
Sofia retorna à mansão da família para assinar a venda do jardim onde a mãe desapareceu vinte anos antes. O advogado encarregado do inventário é Daniel, o amigo de infância que ela deixou sem resposta. Entre cartas escondidas, uma estufa trancada e um testamento que muda a cada leitura, Sofia descobre que a herança real talvez seja a verdade que todos preferiram podar.
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