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Um Aspecto Antropofágico da Cultura Brasileira: O Homem Cordial

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Capítulo 1 · Um Aspecto Antropofágico da Cultura Brasileira: O Homem Cordial

Um Aspecto Antropofágico da Cultura Brasileira: O Homem Cordial

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Anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Filosofia, vol. 1, março de 1950, Instituto Brasileiro de Filosofií São Paulo, págs. 229-231. '

P O D E - S E chamar de alteridade ao sentimento do outro, isto é, de ver-se o outro em si, de constatar-se em si o desastre, a mor- tificação ou a alegria do outro. Passa a ser assim esse termo o oposto do que significa no vocabulário existencial de Charles Baudelaire — isto é, o sentimento de ser outro, diferente, isola- do e contrário. A alteridade é no Brasil um dos sinais remanescentes da cultura matriarcal. Entre outros cronistas do passado, Fernão Cardim cons- tata esse sentimento mais do que de solidariedade, de identifi- cação, no fato do recém-chegado a qualquer taba indígena ser recebido com lágrimas e lástimas. Eis o trecho dos Tratados da terra e gente do Brasil onde isso se refere: "Entrando-Ihe algum hóspede pela casa, a honra e agasa- lho que lhe fazem é chorarem-no: entrando pois logo o hós- pede na casa o assentão na rede, e depois de assentado, sem lhe falarem, a mulher e filhas e mais amigas se assentão ao redor, com os cabelos baixos, tocando com a mão na mesma

pessoa, e começam a chorar todas em altas vozes, com grande abundância de lágrimas, e ali contam em prosas trovadas quan- tas coisas têm acontecido desde que se não viram até aquela hora e outras muitas que imaginão, e trabalhos que o hóspede padeceu pelo caminho, e tudo, o mais que pode provocar a lás- tima e choro." Pág. 150. Série V Brasiliana. Vol. 188. O texto clássico ilustra bem o que Sérgio Buarque de Ho- llanda estuda no cap. V das Raízes do Brasil, sob o título "O Homem Cordial". Diz o mestre sociólogo: "A Lhaneza no trato, a hospitali- dade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro". "Seria engano supor que essas virtudes possam significar "boas maneiras", civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coer- citivo — ela pode exprimir-se em mandamentos e em senten- ças." "Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da policlez". "No homem cordial", a vida em sociedade é de certo modo uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se em si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os Qutros reduz o indivíduo ca- da vez mais, a parcela social, periférica que no brasileiro — como bom americano — tende a ser o que mais importa. Ela é, antes, um viver nos outros, págs. 213-216 — 2. a edição. Os modernos estudos de sociologia, de etnologia e de histó- ria primitiva confirmam esse ponto de vista de Sérgio Buarque de Holanda. Diz Robert Briffault, em The Mothers, pág. 61 "A soli- dariedade do clã totémico era um traço decisivo na história social do povo e tinha precedência sobre qualquer outra consi- deração". Citando o missionário Charlevoix, acrescenta: "O que é sobremaneira surpreendente a homens cuja aparência externa é inteiramente bárbara, é vê-los tratarem-se entre si com uma gentileza e consideração que não se encontra na gente comum das mais civilizadas nações". Reproduzindo diversos autores, inclusive William James, atribui Briffault essa oposição de sentimentos a importante

parte que a propriedade privada joga no desenvolvimento ego- tista do indivíduo dentro das sociedades civilizadas, colocan- do-o face ao grupo e em antagonismo a ele. Ê uma das carac-' terísticas do Patriarcado. Diz o nosso autor: "O sentimento da individualidade que forma o centro dos juízos e das aprecia- ções do homem moderno, desenvolveu-se à medida que cres- cia o fato da propriedade individual" pág. 64. E ainda: "O desenvolvimento dos interesses pessoais só se deu, quando o indivíduo teve uma propriedade fora do grupo e se sentiu dele separado econômica e psicologicamente". O u Homem cordial" tem no entanto dentro de si a sua própria oposição. "Ele sabe ser cordial como sabe ser feroz". Brinton, citado por Briffault, afirma: "Na cultura primitiva é duplo o sistema de moral. Existe boa vontade, amor, auxílio, mas tudo, aplicável aos membros do próprio clã, da tribo ou da comunidade; mas, de outro la- do ná aversão, inimizade, roubo e assassínio a se aplicar contra o resto do mundo." No contraponto agressividade—cordialidade, se define o rimitivo em tveltanschaung. A cultura matriarcal produz esse S uplo aspeto. Compreende a vida como devoração e a simboliza no rito antropofágico, que é comunhão. De outro lado a devoração traz em si a imanência do pe- rigo. E produz a solidariedade social que se define em alteri- dade. Ao contrário, as civilizações que admitem uma concepção messiânica da vida, fazendo o indivíduo ^objeto de graça, de eleição, de imortalidade e de sobrevivência, se desolidarizam, roduzindo o egotismo do mundo contemporâneo. Para elas, E á a transcendência do perigo e a sua possível dirimição em Deus. A periculosidade do mundo, a convicção da ausência de qualquer socorro supraterreno, produz o "Homem cordial", que e o primitivo, bem como as suas derivações no Brasil. Hoje, pela ondulação geral do pensamento humano, assis- te-se a uma volta às concepções do matriarcado.

A angústia de Kierkegaard, o "cuidado" de Heiddeger, o sentimento do "naufrágio , tanto em Mallarmé como em Karl Jaspers, o Nada de Sartre, não são senão sinais de que volta a Filosofia ao medo ancestral ante a vida que é devoração. Tra- ta-se de uma concepção matriarcal do mundo sem Deus. Março de 1950

Um Aspecto Antropofágico da Cultura Brasileira: O Homem Cordial

Sinopse

Um Aspecto Antropofágico da Cultura Brasileira: O Homem Cordial é texto de Oswald de Andrade publicado nos Anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Filosofia, em 1950. A edição Literúnico preserva o texto autoral em domínio público, sem reproduzir aparato editorial protegido.

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