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Capítulo 2 · Neonfae

Hema

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Hema

Algumas fadas voam, outras caminham, todos tranquilos até um vulto vermelho passar deixando todos em alerta, logo, um enxame rubro segue o ponto luminoso adiante até chegarem ao hall de recebimento dos patrulheiros, então a esfera toma forma crescendo de tamanho e atinge dois dos soldados recém-chegados.

Sandy e Forje haviam acabado de entregar o equipamento ao primeiro comandante e estavam prestes a sair quando sentem a vibração mágica no ar, porém, é tão rápido que não conseguem nem virar o rosto a tempo de ver a fonte da oscilação.

Hema golpeia ambos com um único movimento usando suas mãos em garra com as unhas crescidas e pontiagudas penetrando a carne do pescoço de Sandy e de Forje.

— O que pensa estar fazendo, comandante Hema? — O primeiro comandante, atrás da mesa se levanta com a aparição repentina do colega que brilha tão intensamente que parece pegar fogo e a expressão irada no rosto deixa a situação extremamente delicada a ser causado uma comoção tão grande que fragilizasse sua posição como líder diante das centenas de soldados atentos e curiosos com qualquer que seja a razão do ataque de Hema.

— Pelo sangue em seus corpos confessem a verdade, ou serão absorvidos em integridade — entoa, então faz a pergunta em tom alto e irritado: — vocês viram o portal se ativar ou não cumpriram seu dever e deixaram o portal desprotegido por algum momento?

Hema está bravo, não apenas pela insubordinação, mas pela sua dor crônica em usar a magia, contudo, isso faz com que todos o temam considerando que seja por sua intensa devoção ao dever. Sandy grita por ter a sensação de que seu sangue está fervendo e cozinhando seus órgãos, a dor só para quando confessa:

— Nós saímos, deixamos o portal desprotegido.

— Não precisa disso, Hema, — Forje fala entre os dentes, devido a dor — nada acontece naquele portal há séculos, se nos absorver só provará o quanto é cruel e que deveria ser banido de... Aaaaaaah — grita por sentir seu sangue queimar, decide confessar: — Nós não protegemos o portal, estávamos na praça dos floristas na vila ao sul de Leukocyte.

Hema solta os dois ao encerrar o encantamento e tenta disfarçar a rigidez de seu braço esquerdo, ambos caem ao chão desmaiados, opacos, enfraquecidos com os buracos promovidos pelas garras, os filetes vertem o rubro quente líquido e viscoso de seus corpos.

— Os levem para a paty na ala de recuperação — o primeiro comandante Eritro ordena e dois soldados pegam os corpos. — Não acha que exagerou, Hema? — Se coloca diante do outro, com os braços cruzados.

— Um evanense atravessou o portal, o selei na floresta e encaminhei para o calabouço, — o olha nos olhos com visível irritabilidade reforçada pela voz grave parecendo um rugido alto por tentar conter o grito de dor enquanto explica a situação — assumirei o interrogatório com o general, então envie algum veterano para auxiliar o soldado Eros no portal da floresta e de preferência, alguém com experiencia em invasões para o orientar a como limpar o local devidamente e pegar vestígios que expliquem a ativação desse portal, e aliás, se você não punir esses dois imprestáveis, farei questão de indicar asuaexoneração do cargo — toca no peito dele e sai caminhando para ir salão de detenção.

Eritro cerra os punhos de raiva, mas precisa se conter para não deixar seu sobrinho mal-humorado e ranzinza estragar seu dia; há centenas de fadas ali, soldados trocando de turno e curiosos que seguiram o comandante por saberem que quando ele voa, é porque o assunto é urgente. Mas não deixa de se sentir orgulhoso, mesmo que ele tenha um gênio mais terrível que o de seu irmão.

— Voltem aos seus afazeres se não quiserem ser drenados! — Ordena em alto tom e todas as fadas se dispersam imediatamente.

Hema caminha pelos corredores do castelo até encontrar o que procura, uma sala vazia onde pode se jogar no chão se contorcendo de dor, o peito arfa e range os dentes para não chamar atenção, assim permanece encolhido até conseguir se acalmar e o latejar do braço esquerdo com as pontadas no peito diminuírem. Se levanta ao se sentir melhor, observa o corredor por uma fresta na porta antes de sair, caminha então até seu quarto para poder jogar uma água fria no rosto e melhorar sua aparência. Sem as luvas, percebe que sua mão esquerda está totalmente preta, respira fundo, já se descontrolou por demais hoje, mais um pouco e acabará revelando estar amaldiçoado, e será banido de Neonfae para morrer e não contaminar os demais. Calça as luvas novamente e sai do quarto para terminar o serviço.

Hema chega na entrada do calabouço antes que o general toque a porta para a abrir.

— Pela sua cara não está tendo um bom dia, hoje... aliás, acho que você nunca teve um bom dia, — encara o rapaz — às vezes duvido que você seja uma fada.

— Estamos em horário de trabalho — empurra a porta ignorando seu pai/chefe.

— Obtemos nosso poder dos sentimentos felizes — as fadas em geral —, é a nossa principal fonte... como você consegue continuar vivo se nunca sorri? Vamos, tente sorrir.

Hema move os lábios numa tentativa falha, apenas franze o nariz, está com dor demais para conseguir fazer qualquer coisa além de não gritar e de não desistir da vida. Toquio ri da careta do filho.

— É, não tem jeito.

No salão, algumas fadas voam colorindo o ambiente com tubos nas mãos e os introduzem nas cavidades externas da enorme criatura. O calabouço possui o teto de vidro para entrada de luz solar, e as paredes, pedras rígidas lapidadas pelas construtoras terrosas milênios passados.

Uma paty — fada rosa, magia empata — desce sorridente e pousa diante dos dois.

— É realmente uma criatura humana, uma fêmea evanense, especificamente. Está muito enfraquecida e iremos alimentar para restaurar a saúde, há apenas um ferimento no corpo, direto no coração. E de acordo com as anotações que temos, aqueles desenhos e o local atingido indicam que ela é uma vítima de ritual do mundo não mágico para acessarem a magia do nosso mundo.

— Então precisamos de uma bruxa para reforçar aquele portal — o general coloca as mãos na cintura.

— E por que ainda está viva? — Hema questiona.

— E isso importa? — A fada de asas rosas sorri perguntando alegremente. — É a vida! Devemos comemorar.

— Chame uma gótica, quero a opinião dela! — Hema soa sério e firme.

— Tsc, tsc — ela roda no ar cintilando poeira rosada e fala em tom divertido — onde uma gótica está, uma paty não ficará.

— Então suma, eu quero falar com a Bashemath.

A fada fecha o rosto e em uma explosão de purpurina rosa, desaparece. Tóquio balança a cabeça em negativa e cruza os braços.

— Hema, Hema... é por isso que ninguém gosta de você.

— Se nem os sobrenaturais sobrevivem ao perderem o coração, muito menos os fracos dos humanos — soa óbvio e se aproxima do corpo da mulher deitada, as fadas anis e verdes ajustam a hidratação e a nutrição enviadas ao organismo, utilizam magia para acelerar o processo, e a cor pálida da pele começa a melhorar.

Uma pequena sombra surge ao lado de Hema, logo tomando forma.

— Como está a minha fada favorita? Não me chamava há semanas — sorri se colocando na frente o forçando a recuar os passos.

— Bashemath, estou trabalhando — reclama.

A fada que surge possui asas em formato de meia lua, tão escuras quanto a noite, cintilando como se fosse coberta por glitter prateado, usa um comprido vestido preto rendado adornado por pedras ônix que fazem um forte contraste com a pele pálida... não é pele, são ossos, e um brilho negro emite das órbitas onde deveriam ficar os olhos.

— Estou com saudades — o ignora o envolvendo em um abraço apertado e passa as falanges no rosto dele com carinho. — Cada dia mais lindo, adoro seus olhos vermelhos, me lembram sangue — encosta o osso nasal no nariz dele.

— Tenho tantas perguntas — general Toquio observa a cena amorosa entre os dois —, mas não quero saber as respostas.

— Quero que me diga o motivo de ela não estar morta — a empurra com calma pela clavícula; e apesar de ele disfarçar muito bem, a gótica compreende rapidamente que ele está com dor devido a maldição que o assola.

Ao contrário do que se espera, os ossos das fadas góticas são maleáveis, e o sorriso é assustador. Os dois são envolvidos por névoa escura e se encontram no vazio, a luz branca acinzentada brilha e um fantasma feminino se apresenta.

— Então essa é a sua fac...

— Não faça perguntas — Hema cobre a boca do pai. — Essa é a forma oráculo.

Bashemath ri e entoa:

— As memórias são a representação do passado e a humana capturada, teve a infância roubada, mas foi felizmente tratada. Uma falsa vida bela até ser apunhalada por quem mais amava. Um plano traçado e manipulado para trocar a vida por magia. A trataram tão maravilhosamente bem, que a alma pura inocentemente os traiu e a magia foi recompensada a ela, não aos opressores.

A escuridão some em um piscar de olhos, os dois estão de volta ao salão, a gótica pula abraçando Hema.

— Meu pagamentooooo.

— Não respondeu a minha pergunta — Hema pisca com um olho.

Pela raiva, o grito agudo e pavoroso da gótica faz todos se encolherem, Hema apenas faz careta e sangue escorre de seus ouvidos.

— Ela não morreu porque eles não sabiam que ela possui um defeito no coração — cruza os braços sobre a região da caixa torácica —, a humana morreria a qualquer momento; na verdade, é surpreendente que tenha vivido por tanto tempo. E a magia que deveria ir para eles, se prendeu no corpo dela pela alma pura, o que a fez ser puxada para cá.

— Então a magia não atravessou, ela ficou?

— Sim... chato né? Não há necessidade de atravessar o portal para eliminar os assassinos dela — sorri, obviamente com todos os dentes à mostra.

— O melhor é a mandarmos para Brumafe, que os lilytuanos resolvam o problema dessa humana — Toquio comenta em tom pensativo.

— Inútil, assim como o trabalho de todos aqui — sua mão esquelética balança no ar mostrando o local. — Ela nunca mais irá despertar, é preciso libertar a alma dela para que o corpo enfim se decomponha.

— Entendo... ela superou a expectativa de vida que tinha — faz surgir a lâmina assim que segura o punhal da espada e impõe magia.

— Espera, o que pretende fazer? — Toquio fala firme, segura o pulso do filho.

— Libertar a alma — se solta do general e se aproxima novamente da criatura, todas as fadas presentes se afastam se mostrando assustadas e ficam às costas do general.

— Hema, não faça isso, é um humano sem magia, é um sacrilégio mesmo para uma fada de sangue!

— Não se preocupe, — a gótica fala colocando suas falanges sobre os ombros do comandante enquanto seu crânio gira em 180° para encarar o general — a alma dela virá para mim.

— Ah claro... muito animador — soa irônico. — É um ser humano do outro mundo! — Fala firme.

A gótica ri e a cabeça gira completando o círculo. Hema salta e suas asas aparecem em um vermelho incandescente destacando contra a fada esqueleto em suas costas. Enfinca a espada no coração e o corpo sofre um espasmo, a boca se abre e o suspiro que sai, é coletado pela gótica que o torna uma esfera brilhante antes de a engolir.

Hema sente o fluxo de sangue parar e retira a lâmina, a faz desaparecer e guarda a empunhadura no suporte de sua calça. Voa e pousa, Bashemath se aproxima rodopiando e rindo, toma forma encarnada e suas asas desaparecem, o abraça pelos ombros e o beija nos lábios por breves segundos, suficiente para constatar a tensão nele.

— Os encontros com você sempre são maravilhosos — se afasta, a pele sai de seu corpo, se estende às costas se tornando as negras asas novamente. — Por favor, me chame mais vezes.

Desaparece em um mini buraco negro criado por ela mesma, que se engole e desaparece num piscar de olhos.

As demais fadas se desesperam, voam desordenadas de um lado para o outro. Toquio chama a atenção de todos e os manda sair. Então encara Hema, com os braços cruzados sobre o peito.

— Se aliar a uma gótica? Sério, Hema? — Soa bravo e seus olhos piscam luminosos em tom vermelho. — Não sabe como é perigoso para uma fada de sangue? Quer ser tomado pela escuridão e ser banido para as terras sombrias?

— Isso é preconceito — o olha nos olhos. — Elas são incríveis, a morte pode ser, e é, muito bonita, pode ser divertida, e pode ser um alívio — soa seguro. — Não sabe como aquela humana estava assustada, aterrorizada, frustrada e triste, à beira da morte. Eu adiei pensando em poder ajuda-la, mas nem sempre é possível, ainda mais com uma dor tão grande. Se sobrevivesse é provável que se tornaria uma bruxa sombria. Mas vistes a cor da esfera na mão da Bashemath? Amarelo. Então ela foi resgatada antes de se tornar sombria. Poderá renascer e tentar de novo.

— Como sabe disso?

— Porque eu não tenho medo das góticas, deveria tentar também, são ótimas amigas.

— Suponho que muito mais que amiga.

— Todos temos necessidades, e a Bashe não tem receio de se aproximar de mim.

— Facilitaria se você sorrisse e conversasse com os demais. Alegria e felicidade são as...

— Me poupe — caminha em direção à saída.

Toquio usa o comunicador no ouvido para contatar uma terrosa e pedir que leve o corpo para o território de Brumafe.

— Aliás, posso saber para onde a levarão? — Questiona assim que o macho alaranjado ressurge do chão.

— Para o açougue.

— Como assim, açougue? — Fica totalmente surpreso.

— Eu não faço perguntas, é melhor não fazer também — amplia o buraco criado na terra. — A única coisa que sei é que quanto antes a levar, maior é a recompensa que os comerciantes de Umbrossangue dão, pelo menos é o que ouço dos necrobruxos, eles que cuidam dos corpos.

Contudo, isso só o deixa ainda mais intrigado. Não existe nenhum açougue em Neonfae, portanto, sequer sabe o que essa palavra significa. E por que razão seu conterrâneo levaria para Umbrossangue ao invés de Brumafe?

Hema caminha sozinho até a ala do dormitório, se tranca em seu quarto, após destampar a saída de água do pequeno túnel de madeira que vem pela parede externa e se conecta ao quarto pela janela. Enquanto o filete de água preenche a banheira de pedra cavada, se alimenta das frutas dispostas no cesto quase vazio, em seguida puxa o pano para manter a janela fechada e prende as pontas nos pregos para o vento não erguer o tecido e deixa vãos para que a luz entre, retira toda a roupa e se ilha pelo pequeno espelho que havia adquirido de um comerciante brumafense; metade do seu corpo está enegrecido, o que o faz chorar em silêncio até se enfurecer, então mergulha e grita embaixo d’água até ficar sem fôlego.

Emerge deixando só a cabeça para fora, e o ar invade seus pulmões de maneira ardente por entrar com resquícios de água visto ele quase ter se afogado propositadamente, as lágrimas escorrem por seu rosto úmido, não suporta mais essa aflição. A água escorre pelas bordas ao chão e ele tampa a saída para evitar o desperdício. Escora sentado e tenta relaxar apesar do lembrete excruciante marcado em sua pele.

A cada vez que usa sua magia, se sente poderoso e invencível, mas a dor é tão grande que o desejo pela morte e pelo alívio, é sufocante, se não fosse por Bashemath, já teria se entregado e atravessado um dos portais para o mundo dos demônios, mas escolheu acreditar na profecia de sua melhor amiga e tem dolorosamente esperado pela cura. Contudo, a tentação de mergulhar e se segurar embaixo até perder a consciência é cada segundo maior, agarra as bordas firmemente com suas mãos e cerra as pálpebras apreciando o silêncio e a brisa fria que escapa pela fresta do tecido na janela o arrepiando, desce devagar pensando no alívio que viria após os primeiros minutos agonizantes do líquido invadindo seus pulmões. Esperar pelo arco-íris o salvar é impossível, já que a única fada dessa linhagem o quer morto.

— Buh!

— Bashe... — sussurra o nome dela com tranquilidade ao abrir os olhos.

— Sabe bem que se pensar na possibilidade de se matar, eu vou aparecer — sorri voando acima dele.

— Eu não estava pensando em morrer, estava analisando a sua profecia — mira na luz negra das órbitas ósseas.

— Minha não, fofo, — toca na ponta do nariz dele — sua. Cabe somente à sua vida. E essa água parece tão gostosinha, por que não me faz um convite?

Hema esboça a tentativa de sorrir. Sua única amiga, confidente e amante, sua única luz, mesmo que esteja ciente de que deve esperar pelo seu arco-íris. Ninguém conseguiria entender como é possível amar uma gótica, a linhagem de fadas responsável pela morte, sendo a única que o mantém vivo.

— Quer tomar um banho comigo?

— Ebaaaa! — Bate palmas, as asas e o vestido desaparecem, dando lugar a uma mulher cinza pálida e muito magra de longos cabelos negros como ébano.

A queda na banheira espirra água para todo lado, os braços dela o envolvem sobre os ombros e ele a puxa pela cintura aproximando seus corpos que se arrepiam pela água fria e o contato físico quente.

— A escuridão está cada vez maior — constata o observando e tocando no peito com as pontas de seus dedos finos.

— Não consigo impedir o crescimento, não usar magia ajuda a não piorar, mas hoje precisei usar, e aumentou um pouco.

— Precisa encontrar a sua metade, sabe disso, mas se não sair de casa, nunca a encontrará — se ajoelha e o abraça, o beija nos lábios antes de descer se encaixando nele.

O beijo é calmo, lento, as mãos quentes do macho passeiam pelas costas sentindo os ossos sob a pele pela linha da coluna, ela suspira e ele a beija delicadamente no pescoço, desce pela clavícula a fazendo subir um pouco ao pressionar a bunda com uma força contida.

— Você me faz tão bem — a olha nos olhos.

— Eu posso te dar alívio, mas nunca serei a sua cura — sussurra aproximando a boca na dele, mas hesita, se sente observada por algo além do ambiente.

— Uma pena, somos tão perfeitos juntos — a firma pelo quadril e a beija no pescoço.

— Somos — geme por ele a estimular com o polegar e a fazer se mover.

— Eu te amo — a toca no rosto com a outra mão aproveitando do prazer que ela lhe conceder.

— Mas eu não sou o seu amor verdadeiro, você precisa encontrá-la.

— Shiiii — a agarra invertendo a posição e a prende contra a borda da banheira. — Não estrague esse momento tão bom — a beija nos lábios e puxa uma perna para seu ombro, se encaixa novamente e faz um vai-vem tranquilo, fecha os olhos para sentir melhor.

O prazer recíproco nas horas seguintes de intimidade reduz um pouco da mancha preta que agora fica somente em parte do peito e em todo o braço esquerdo. Depois da segunda rodada, cansado, e já sem luz no quarto pela noite ter chegado, ele se deita de lado, os brilhos de seus corpos iluminam o ambiente em um tom rosado pelo vermelho que ele emite mesclado ao acinzentado dela.

— Eu te amo — a segura pelo rosto, a olha nos olhos, a abraça com carinho.

— Não — sorri. — Você acha que me ama porque te mostrei um dos prazeres da vida — fica deitada por cima. — Mas quando você encontrar a sua fada metade, verá que o que sente por mim não é metade do que sentirá por ela, seu corpo todo irá reluzir de tão fascinado.

— Por que insiste nisso? Eu não brilho suficiente por você? — Passa os dedos no cabelo dela.

— Sua luz é linda, Hema, mas confie em mim, ela será a sua salvação.

Hema desvia o olhar chateado, a solta, fica de costas no colcaho de plumas e feno coberto por tecido de algodão, tenta se controlar para não piorar o sentimento de frustração e piorar a mancha escura da infecção.

— Então me diga quem é ela.

— E que graça tem isso? — Rola para fora da cama. — Sabe que eu não posso revelar o futuro só porque quer, e eu nem posso ficar fazendo isso, é extremamente desgastante porque o futuro sempre está mudando. Precisa fazer as escolhas por si mesmo, e precisa conhece-la, quando for a hora, você saberá que é; — o olha e se sente triste pelo rosto fechado de quem não tem mais forças para lutar, então usa um tom mais brando de voz: — O amor é natural, jamais pode ser forçado. Eu já te dei a sua profecia, a resolução dos seus problemas está nela.

— Nesse ritmo eu vou morrer antes de a conhecer. E se o futuro muda, não pode tornar você...

— Não diga besteiras — sorri. — As coisas mudam, mas no caso do amor, muda apenas oquandoo conhecerá, e garanto que você precisa se apressar. Saia para se divertir, não fique apenas trabalhando — soa mais séria. — Mas agora eu tenho que ir. E por favor, — volta a ser o esqueleto quando suas asas aparecem — saia de casa, sorria, e procure a sua metade porque esse foi o nosso último encontro com sexo, adeus Hema — passa as falanges no rosto dele antes de desaparecer.

Hema encara o teto branco de seu quarto que se esconde na penumbra pelo seu brilho enfraquecido; não há o que fazer, então recita a profecia recebida há 5 anos, quando a mancha apareceu em sua mão pela primeira vez. A observa, está toda escurecida, evita cumprimentos para não perceberem a tinta que finge seu tom de pele quando não pode usar luvas, evita falar porque fica difícil disfarçar a dor, e evita sair porque as roupas revelam parte de seu tronco cuja metade já está tomado pela maldição. A resposta está na profecia... que irritante.

O ódio e a raiva são sentimentos fáceis.

Porém, o amor é difícil.

A vingança e a morte são escolhas prováveis.

Largar a dor sozinho é impossível.

A escuridão cederá, quando o arco-íris brilhar.

— Detesto enigmas, não ajuda em nada... — Resmunga se levantando da cama. — Seria mais fácil me dar um nome, um lugar, algo para seguir.

Veste uma roupa e sai para caminhar na passarela que conecta as torres de vigília, é noite, e as estrelas brilham lindamente no céu, milhares e milhares delas, brilhando em todas as cores trazendo iluminação vasta e perfeita. Ainda assim, não consegue sorrir.

Uma dríade acena do limite da floresta, ele a observa sumir entre as árvores imóveis que abrigam os milhares de vaga-lumespiscantessimulando o céu no chão, e isso o faz recordar da última vez em que se divertira de verdade, de quando passava seus dias com aquela garota irritante sem asas; aquela mesma dríade os havia levado para uma cachoeira escondida na mata e os ensinara a balançar nos cipós para pularem na água. Reconhece a árvore humanizada por ela ter um tecido encardido preso entre os galhos folheados que simulam seus cabelos. A criatura é uma constante na sua vida, se pudesse, desceria e conversaria com ela, mas árvores não possuem boca para responderem, apesar de serem ótimas ouvintes.

Neonfae

Sinopse

O continente Runex abriga todos os seres mágicos, separados em um mundo paralelo da realidade humana e mortal. O equilíbrio entre a natureza e a magia, assim como bem e mal separados, é a responsabilidade de Aislin, rainha das fadas, do reino de Neonfae. Opala é uma fada viajante que vive em plenitude até ser engolida por um grifo e ser levada a outro reino, fica ainda pior quando descobre que quem viu seu sequestro e tentou resgatá-la, mas acabou sendo levado junto, é o Hema, o macho mais arrogante que já conheceu, agora ela precisa tentar sobreviver junto ao soldado mais detestável de Neonfae. Um mundo perfeito para um romance feliz. Vai mesmo confiar nessa autora para um livro colorido, fofo e feliz? Boa sorte.

PROIBIDO A LEITURA À MENORES DE 18 ANOS.

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