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Neonfae

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Neonfae

Capítulo 4 · Neonfae

Viajante

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Icarela organiza seus pertences, guarda tudo sobre a carroça e se coloca diante da capivara, passa a mão na cabeça dela e sorri com o focinho lhe fazendo cócegas.

— Vamos passear novamente, obrigada por sempre vir — fica de lado e segura nos pelos para poder escalar e montar no pescoço.

O animal começa sua caminhada tranquila pelo caminho gramado, serão alguns dias de viagem já que Icarela não pode voar, e precisa tomar cuidado para não se perder na floresta, pois apesar das dríades serem criaturas divertidas e simpáticas, as ninfas amam fazer pegadinhas. E a natureza, apesar de ser bela, é também traiçoeira, existe ciclo de vida e cadeia alimentar por um motivo.

Porém, isso também lhe fortalece, pois, por ser treinada pelas faunérias, adquiriu um gosto peculiar pela prática manual de manejo com os animais, por sempre observar hábitos e gostos de cada espécie, sabe quais são amigáveis e quais são perigosas sem precisar interferir com magia, respeitando o ciclo natural; e há alguns anos aprendeu o feitiço que a permite se comunicar e os fazer obedecê-la caso precise, com a Caipora.

Também por ter convivido com as verdejantes, sabe apreciar as plantas e a individualidade de cada espécie, a respeitar o tempo pacientemente, e com a Pétala, havia aprendido que as plantas podem drenar praticamente tudo, o que lhe pode ser útil em caso de envenenamento acidental por algum animal peçonhento e até sentimentos ruins caso não tenha uma paty por perto para ajudar.

Graças às terrosas, conhece os tipos de solo. Pelas aquarianas, consegue encontrar todo tipo de fonte de água. São vinte anos vivendo um ano em cada clã para aprender tudo o que puder sobre cada um deles, seus tipos de magias e feitiços, costumes e estilo de vida. Para quê? Ainda não sabe. Muito menos para alguém que sequer tem asas. Certamente é um erro da natureza e por isso precisa encontrar algum lugar para se estabelecer. Então não entende a razão pela qual a rainha lhe atribuíra essa tarefa, muito menos o fato de conhecer as monarcas do reino — mas não poder usufruir desse benefício, e ainda ter que guardar esse segredo. O reino é pacífico e todos sabem que as fadas são o que são por serem boas, caso contrário, a escuridão as toma e as tornafaeumbras,que são imediatamente expulsas do reino pela própria magia que protege o continente contra as forças trevosas, ou seja, não existe inimigos a temer.

— Icarelaaaa!

Ah, esse apelido, um lembrete constante de sua falha com uma magia que até os recém-nascidos sabem fazer, invocar suas asas. Porém, precisa se conter, as duquesas a fizeram jurar que nunca diria seu nome de nascimento, e por isso, todo o reino adotou facilmente o apelido criado pelo filho do duque há dez anos. A voz lhe é agradável, olha para trás e sorri vendo sua amiga voar em sua direção.

— Não acredito que iria embora sem se despedir — fala um pouco rápido visto que voar velozmente é fatigante para uma terrosa acostumada a fazer túneis na terra.

— Teresa — sorri sem graça —, você sabe que eu não gosto de despedidas.

— Sei, sei, você é uma viajante — voa ao lado acompanhando o ritmo da caminhada da capivara e com um saco cheio em mãos. — Aliás, como você conseguiu fazer esse bicho puxar sua carroça?

— Essa é a Fiorella, não a chame de bicho, ela não gosta — ri, a capivara as observa de perifericamente com olhos semicerrados.

— E como você saberia o que ela pensa? Virou uma faunéria, agora? — Debocha de um jeito amistoso.

— Bem, eu conheço algumas, vantagens de ser uma viajante. A Fiorella é minha amiga há muitos anos, me acompanha às vezes, não sei como ela sempre me acha — ri, sabe bem que é a Caipora que a envia sempre que o prazo se finda, a lembrando que precisa partir para o próximo ducado.

— Ah sim, vejo muitas por aí mesmo. São bich... animais pacíficos — corrige com o olhar da amiga, e a capivara parece fungar em agradecimento. — Ah, um lanchinho para você — ergue a trouxa de pano que contém potinhos de doces feitos de algumas raízes. — As suas preferidas. E um extra de batata-doce.

— Obrigada, pode deixar junto das outras coisas na carroça?

— Claro — recua o voo e coloca em um vão para ficar mais protegido, então apressa acelerando as asas rapidamente para ficar lado a lado. — Não demore muito para voltar dessa vez, sentirei sua falta.

— Também sentirei a sua, prometo que a visitarei assim que puder — seu sorriso se alarga.

— Boa sorte na sua viagem — aproxima encostando o nariz no dela, depois fazem um cumprimento com senha de mãos.

— Obrigada, até algum dia — responde durante a troca de carinho amigável, e um selinho nos lábios como despedida.

Teresa se afasta, pousa no chão e logo é engolida por um buraco que se fecha instantaneamente.

Fiorella continua com seus passos tranquilos e ritmados, logo alcançando a estrada que conecta todos os reinos, feita de pedras lapidadas em forma de paralelepípedo; é bem extensa entre as margens para poder caber as carroças e carruagens dos comerciantes que são de diversas espécies, todas muito maiores que as fadas.

Os dias de caminhada se passam tranquilos, sem pressa para chegar, atravessa florestas, se depara com centenas de espécies de animais, passa pelos raros comerciantes de Brumafe — não veem lucro com fadas, que por serem tão pequenas usam pouca quantidade, porém, para adquirir matéria prima mágica, é altamente lucrativo visto a qualidade e quantidade fornecida, só que são pouquíssimos bruxos que conseguem passar pela barreira de Neonfae, pois precisa ter um coração puro. Um último, pouco antes da entrada no território das fadas sanguíneas, a cumprimenta:

— Olha só quem está por aqui, minha amiguinha viajante — o mago Leonardo retira o chapéu pontudo de abas retas e largas que o protegem do sol, e faz o cavalo parar. Desce da carroça e se agacha. — Você cresceu desde a última vez que lhe vi, espere, me deixe adivinhar — faz uma careta divertida —, 4 milímetros?

Icarela ri antes de responder, ainda montada sobre o pescoço da capivara. Leonardo é um mago peculiar, normalmente não passa da fronteira pois seu trabalho é tecnológico, então só negocia com os sanguíneos, e vez ou outra com as terrosas para equipamentos que precisem de diamantes ou metais raros; mas o que a chama atenção é o seu cabelo, tem uma mecha branca se destacando entre os fios castanhos, inclusive metade da sobrancelha e cílio direito também são brancos.

— Na verdade, 1,5 cm — responde após fazer Fiorela interromper a caminhada.

— Já deve ser a mais alta das fadas — sorri amigavelmente.

— Claro que não — ri —. Mas e como você está?

— Estou ótimo. E tenho uma novidade, minha esposa está grávida. Estou indo para o clã das fadas verdejantes, soube que elas fazem uma poção que ajuda no parto. — Seu tom de voz se torna melancólico. — A minha mulher é de uma linhagem de mulheres que morrem no parto — filhas únicas — e eu não quero que isso aconteça, então estou em busca de tudo que possa ajudá-la para evitar uma tragédia.

— Oh, sinto muito. Mas até onde sei, não existe nenhuma magia que impeça o ciclo natural da vida, ainda há menos chances de haver isso entre as verdejantes.

O rosto do homem se mostra entristecido, os olhos se enchem d’água.

— Por favor minha amiguinha, pense bem, não há alguma história, evento, qualquer coisa relacionado à partos? Minha esposa é de um clã veganista, então a tecnologia do meu povo não é aceita, poderíamos cortar a barriga dela, mas se eu fizer isso ela me ofertará em sacrifício, por isso preciso urgentemente de algo natural, — muda a voz parecendo mais amigável a afinando — e talvez com um pouquinho de magia — aproxima o indicador do polegar.

A fada pensa, repassa na memória tudo o que aprendera, e se recorda do ano que passou no plano das patys .

— Na verdade, tem algo sim, contudo, duvido que façam e não tenho como garantir que dê certo por ser de espécie diferente. A questão é que você precisará trazer a sua esposa, você consegue?

— Você sabe que nenhuma espécie é bem-vinda em Neonfae, mesmo nós comerciantes temos muita dificuldade em conseguir um visto, e olhe — aponta para cima, na qual 5 fadas sanguíneas sobrevoam em círculos os observando — somos vigiados o tempo todo.

— Mas é por uma boa razão, não custa tentar, faça um pedido de audiência para com a rainha, eu farei uma solicitação também, a seu favor — sorri.

— Faria isso por mim, amiguinha? — Se mostra esperançoso, apesar da incredulidade, a rainha Aislin não é amigável com estrangeiros, ela põe o próprio povo acima de tudo e todos, e não está errada, a história está registrada para provar.

— Claro que sim, tem amor e paz no seu coração, prova disso é você conseguir entrar em Neonfae e conversar conosco — é sincera.

— Então retornarei para minha terra imediatamente, para buscar minha esposa e solicitar uma audiência.

— Antes que vá — desce do animal e caminha até a carroça —, tenho algo aqui que possa ajudá-la. — Sobe na estrutura de madeira e começa a procurar entre os sacos de sementes. — Para quando é o parto dela?

— Para daqui quatro ciclos lunares.

— Temos tempo — sorri ao encontrar o que procura e leva para Leonardo. — Aqui, plante em terra preta úmida, nascerá com uma semana, escolha um lugar que pegue bastante luz solar e mantenha a terra sempre úmida, não encharcada, apenas úmida. Elas estão encantadas, então dará frutos com quinze dias, ela deve comer todos os dias.

— E para que serve? — Pega o saco e confere as sementes.

— Vai deixá-la mais forte para o parto. Aliás, tem papel e tinta? Posso listar todas as plantas que ela não pode comer.

— Tenho sim. Que bom, ela tem uma horta gigante com mais de mil tipos de ervas, raízes, flores e frutas comestíveis, e medicinais.

Soa empolgado e corre para sua carroça, guarda as sementes junto aos seus itens pessoais, pega um caderno com uma caneta tinteiro, só então retorna, mas se dá conta de que ela não conseguirá segurar a caneta adequadamente. Ela é do tamanho de um bebê humano, só que com o corpo curvilíneo, como o de uma mulher adulta normal, apesar de não ter mais que sessenta centímetros de estatura.

— Acho que será melhor eu escrever e você ditar.

— Não se preocupe — sorri amigavelmente, toca no caderno com uma mão e na caneta com a outra, usa magia de fluídos que aprendera com as aquarianas, então pronuncia os nomes das plantas e vegetais que ela não pode comer durante a gestação. E depois, todas as que ela deve comer que auxiliarão no suporte nutricional, inchaços, melhora de imunidade, para circulação sanguínea, constipação, gases, alívio de dores, entre outras.

— Muito obrigado, amiguinha, de coração. Eu não consigo estimar o preço da sua ajuda — fala emocionado, funga o nariz por querer chorar enquanto observa a letra cursiva com desenhos a enfeitando pela tinta que sai da caneta para grudar no papel.

— Vidas não possuem preço, desejo que seu filho e sua esposa vivam saudáveis por muitos anos.

— Oh amiguinha, posso te dar um abraço? Sei que não posso tocar em nenhuma fada, mas gostaria de poder a abraçar, é assim que meu povo demonstra agradecimento.

— Acho que tudo bem.

Leonardo coloca os itens no chão e se senta para a abraçar, visto que ele tem 177cm de altura.

Os sanguíneos que estão de escolta do comerciante, imediatamente descem e um deles grita em tom de ordem:

— Afaste-se, mago, está quebrando uma lei!

Leonardo solta Icarela, choroso, agradecido.

— Está tudo bem, eu permiti — explica aos soldados que exibem suas compridas asas vermelhas e estão com as espadas empunhadas.

— Não é autorizado tocar, não permita. Agora, — se volta ao mago que se levanta, então voa para ficar na altura do rosto do homem — continue o seu caminho ou te expulsaremos do reino.

Os demais soldados também voam e ficam em redor.

— Sim, senhores, me deixem só pagar a minha amiguinha — guarda os itens e pega sua bola de cristal. — É um comunicador ligado à minha casa, eu uso para falar com minha esposa quando estou em viagem, mas deixarei contigo, assim, podemos manter contato independente da distância, e quero que saiba, amiguinha, — se agacha — que sou muito grato, e se precisar de algo, por favor, entre em contato, farei o possível para atender ao seu pedido.

Icarela segura a bola com as duas mãos, é muito pesada e grande para seu tamanho, mas olha com admiração, maravilhada por não saber que existe algo assim. A analisa magicamente, a esfera é feita de um cristal raro que pode ser moldado por meio de calor escaldante cuja temperatura também é extremamente difícil de alcançar e controlar.

— Se me der isso, como falará com sua esposa?

— Eu farei outra depois, não se preocupe.

— Espere, pegue — entrega de volta e pronuncia: — divisão em fração 1/10.

Suas mãos emitem uma luz alaranjada e a enorme esfera se divide em duas, a menor, flutua para as mãos de Icarela.

— Ficou menor por eu ter retirado um pedaço, mas prometo que continuará funcionando.

— Incrível! — Leonardo exclama empolgado. — Eu gostaria de aprender esse feitiço — ri. — Seria muito útil.

— E como funciona? — Olha para a bola translúcida.

— Só tocar com a mão e dizer meu nome em voz alta, ou da minha esposa, o nome dela é Daiane — demonstra usando a própria esfera, uma luz azulada surge e logo uma mulher com uma tatuagem tribal na face esquerda aparece, os cabelos dela são presos como cordas de um tom claro e há fios arrepiados.

Está tudo bem? —Questiona preocupada pois havia pouco mais de uma hora que falara com ele.

— Sim, meu amor, quero apenas te apresentar a Opala, a fadinha viajante que te falei — sorri.

Que linda! —Seu rosto fica maior na esfera pois se aproxima para poder ver melhor. — Pelos deuses, ela é tão pequenina —faz uma voz fofa.

— Obrigada — sorri. — Mas eu sou bem alta para a minha espécie.

— Oh, me desculpe, não quis ofendê-la.

— Não me senti ofendida. E desejo uma boa gestação para você, espero poder conhecê-la pessoalmente — sorri sincera.

Muito obrigada, e eu desejo que você realize seus sonhos.

Todos se despedem, e Leonardo retorna pelo caminho para voltar para casa seguido pelos soldados sanguíneos até a fronteira de Neonfae, enquanto Icarela mantem seu ritmo calmo caminhando ao lado de Fiorella.

— Sabe de uma coisa? Nunca pensei em um sonho que eu queira realizar. Você tem sonhos? — Encara a capivara que a olha como se sorrisse.

Neonfae

Sinopse

O continente Runex abriga todos os seres mágicos, separados em um mundo paralelo da realidade humana e mortal. O equilíbrio entre a natureza e a magia, assim como bem e mal separados, é a responsabilidade de Aislin, rainha das fadas, do reino de Neonfae. Opala é uma fada viajante que vive em plenitude até ser engolida por um grifo e ser levada a outro reino, fica ainda pior quando descobre que quem viu seu sequestro e tentou resgatá-la, mas acabou sendo levado junto, é o Hema, o macho mais arrogante que já conheceu, agora ela precisa tentar sobreviver junto ao soldado mais detestável de Neonfae. Um mundo perfeito para um romance feliz. Vai mesmo confiar nessa autora para um livro colorido, fofo e feliz? Boa sorte.

PROIBIDO A LEITURA À MENORES DE 18 ANOS.

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