Leia agora
Neonfae

Universo da obra

Neonfae

Capítulo 5 · Neonfae

AÇOUGUE

5 de 5 ≈ 14 min de leitura

Hema sai do portal com cautela, afinal, está ali como espião. Se esconde entre arbustos para se recuperar da dor e da fadiga por usar magia para ativar o portal. A investigação de seu pai sobre a palavra desconhecida, o fez encontrar informações sobre um mercado interespécie na fronteira entre Umbrossangue e Brumafe; e agora precisa encontrar esse tal açougue e saber para o que serve. Começa sua caminhada após o sol se pôr e se sentir um pouco melhor.

Percebe que possui a mesma altura que umas criaturas escuras e cobertas por algum tipo de planta verde, que cheiram mal, chamadas de trolls, então decide roubar a capa de um e se cobre com ela, apesar de não ter a mesma largura e menos ainda aquela aparência de pedra lodosa cheia de musgo, como todos ignoram as criaturas, consegue passar desapercebido e sempre atento para não ser pisoteado.

Se atenta às conversas, consegue encontrar alguém que está rumo ao tal açougue e o segue, quando chega lá, se assombra, precisa escalar a parede e se sentar na viga de madeira do teto para poder ver e entender o que é o tal leilão e o porquê da gritaria dos seres aglomerados. Sente ódio ao ver o corpo da jovem evanense sobre a mesa, suspensa por algum tipo de magia que a mantém como se fosse uma estátua viva apesar de alguns dias já terem se passado; algumencouradoacaba de adquirir o direito de sugar todo o sangue dela. A gritaria aumenta novamente, agora estão vendendo a carne, o arremate é feito por uma criatura maligna da linhagem dos Cabriolas, o monstro bípede tipo bode bate no chão com seus cascos em um ritmo animado demonstrando sua felicidade pela aquisição tão rara, as caveiras amarradas em seus chifres tilintam com o balançar. Estão todos animados, pois além de ser um humano, é de fora desse mundo.

Agora estão leiloando os ossos, e o absurdo é tão grande que Hema não consegue mais prestar atenção, piorado com a dor de sua maldição latejando seu peito, fica enjoado, a cabeça roda, o coração bate dolorosamente, sente a ira inundar seu ser, e seu braço arde irradiando para seu corpo; por mais que queira lutar contra tudo isso para não deixar a escuridão possuir seu ser, é impossível ficar parado diante da maldade escancarada, saber que existem seres carnívoros é uma coisa completamente diferente de ouvir a comemoração da atrocidade e é ainda pior tentar entender como farão essa divisão para entregar o produto aos compradores.

Seu estômago revira, precisa tapar a boca e o nariz para forçar o vômito de volta e não denunciar sua posição, é melhor sair dali. Se agarra na viga e engatinha para a parede, pretende saltar pela janela e se prepara.

— Eu sabia que tinha algo errado, esse fedor de fada é repugnante de tão doce!

Duas criaturas magras de cara alongada pela boca ser um funil comprido, com asas finas e longas, lembrando o aspecto de um mosquito, o cercam após o derrubarem da parede, as criaturas magras de braços finos não passam de 1m de estatura, contudo, são bem maiores que uma fada, mesmo o sanguíneo sendo dos mais altos em toda Neonfae.

Hema se contorce de dor pela queda, está indeciso entre usar sua magia para fugir e correr o risco de piorar ainda mais sua maldição por ter usado o portal, ou arriscar a vida contra os Abúhucü, sugadores de cérebro que vivem no alto das árvores de florestas amaldiçoadas. De qualquer jeito, a garantia é uma morte extremamente dolorosa, seja pelas criaturas horrendas ou pela escuridão que assola seu corpo que em breve o tornará um faeumbra.

O abúhucü o pega com as mãos e voa para sair dali e poder saborear sua aquisição antes que mais alguém perceba.

— É tão raro ver uma fada fora das florestas abençoadas que não sei como vou apreciar essa iguaria — ri, um som agudo e irritante que faz a cabeça de Hema latejar e o ouvido pulsar, se remexe, mas o aperto é forte, não consegue soltar os braços para pegar sua espada, e a baba do bicho cai sobre seu corpo deixando a seu rosto dormente por ser a única parte com pele exposta.

— Silêncio, — o outro fala voando ao lado — não quer que descubram o nosso achado!

Tarde demais, os dois são abatidos por um monstro peludo cheio de dentes e um único olho.

— Dê para mim! — A criatura grita em agonia, todos sabem que comer uma fada que é pura energia boa, garante a quebra de qualquer maldição.

Coitados, mal sabem que ele está contaminado, se o comerem, será como qualquer outro pedaço de carne. Hema range os dentes por raiva, o que pretendem fazer com ele é o que ocorrerá com aquela pobre menina, escalpelada, fatiada, moída, nem os cabelos restarão.

A briga entre os três atrai mais criaturas, em algum momento Hema se vê liberto, machucado, mas com possibilidade de fuga, e não há outra opção, a melhor chance de sair dali com vida é usando magia. Imediatamente suas asas aparecem e foge como um flash vermelho zigue-zagueando as criaturas antes de desaparecer no escuro da noite.

Hema voa o mais veloz que consegue cortando a floresta até retornar pelo ponto de onde viera horas passadas, reluzindo como um raio transversal, ativa e atravessa o portal para voltar ao reino das fadas, sente a queimação aumentar pelo contraste da pureza do lugar, mesmo que esteja na fronteira de Neonfae, dentro da floresta e longe do Palácio da rainha, a força impedindo que ele avance mais é esmagadora por culpa da escuridão lhe tomando completamente. A escuridão pode retroceder com a ajuda da magia de Bashemath, porém, o efeito rebote é sempre pior. Seus ossos doem tal se estivessem sendo esmagados, sua carne repuxa em cãibras terríveis dobrando seus membros em poses estranhas, o grito não sai pelos dentes fixos rangendo devido a dor imensurável.

A pressão do ar puro esmaga seu corpo e sufoca seus pulmões, sua consciência começa a vacilar.

Deveria ter contado o problema ao seu pai, mas mesmo sendo um duque, não conseguiria impedir o banimento, e do lado de fora, ele não conseguiria vencer a escuridão sozinho. Seu cérebro dói tanto que começa a alucinar, a preocupação no olhar de seu pai, o nojo no olhar da rainha, e o riso daquela ignóbil que sequer consegue invocar asas, mas tendo a ousadia de aprender os feitiços da sua cor, e que sequer se lembra o nome.

— Hema, Hema, o que faço com você?

Abre os olhos com esforço, vê apenas o borrão do esqueleto feminino de vestido negro voando acima.

— Basheee — geme por dor, não consegue nem pedir por ajuda, seu corpo está se contorcendo, suas mãos estão em garra, se encolhe não por querer, mas pelos músculos abdominais se contraindo terrivelmente. Não consegue gritar, está sufocado.

— Eu te avisei que não podia te ajudar mais, que você tinha que sair do castelo para procurar sua alma gêmea e se curar pelo beijo do amor verdadeiro ou qualquer uma dessas merdas dos contos infantis. — Se exalta brava. — Mas não, você atravessa um portal, invade o reino mais obscuro desse continente e usa magia lá! Você praticamente implorou para morrer, seu estúpido!

Está irritada com razão, e sua maior frustração é não poder levá-lo diretamente à única fada que pode curá-lo por ser obrigada a obedecer às regras do destino, qualquer interferência é punível com morte.

— Me a-juda — sussurra antes de desmaiar espumando a saliva, seu corpo ainda convulsiona.

— Aaaaaaah que raiva! — Grita estralando suas falanges das mãos enquanto voa de um lado ao outro sem saber o que fazer. — Pensa, pensa! Como posso ajudar sem que o rei do destino veja meus lindos ossinhos? — Olha para as pontas pálidas que estalam conforme o movimento.

As chamas negras de suas órbitas inflamam com a ideia. Sorri antes de desaparecer. Ela está bem próxima, só precisa dar um jeito de a fazer procura-lo por conta própria, assim, não será acusada pelo senhor do destino e não sofrerá punição, apesar de ter a sensação de estar sendo observada, e por ele, o temível Esfinge.

XXXXX

— Advinha quem chegueeeei — a voz aguda com os barulhos estalados que os movimentos ósseos fazem, provoca um sorriso singelo em Icarela.

— É a Aisha — debocha.

— Ouvi meu nome — a rosada surge de uma pequena explosão colorida em formato de coração.

— O que as bonitas querem? — Sorri para as gêmeas tão opostas quanto purpurina e opacidade.

— Eu estava pensando, faz tantos anos que não brincamos de esconde-esconde.

Icarela e Aisha se entreolham com desconfiança sobre ter ouvido as palavras ditas.

— Ela bateu a cabeça — Aisha cruza os braços.

— Bem forte pelo visto, apesar de que eu não sabia que esqueletos possuíam cérebro.

— Aaaah, isso explica muita coisa.

Bashemath diminui o brilho negro dentro dos buracos orbitais como se tivesse de olhos semicerrados as encarando pela ousadia de estarem sendo sarcásticas.

— Vão mesmo debochar de mim? Suas malévolas. São a prova de que quem vê cara não vê coração.

As três se encaram e riem.

— Bem, está de noite e não tenho que me preocupar com o amanhã, decidi ficar mais um dia atoa antes de começar a última parte do meu aprendizado — Icarela apoia os braços para trás sobre as folhas secas, estão em uma pequena clareira na floresta que circunda o castelo onde as fadas sanguíneas moram. — O que será que o duque fará dessa vez?

— Por quê?

— Não lembra da última vez em que estive aqui? Ele me ensinou o básico para defesa e depois me mandou para o meio da floresta para ser caçada pelo louco do filho dele.

Aisha e Bashemath riem.

— Verdade, o menino era meio doido, como será que ele está agora? — Aisha olha para a irmã.

— Um adulto muito sexy e gostoso.

— Basheee — Icarela a repreende em tom divertido. — Você é um oráculo, sabe quem é a fada metade dele, não acha estranho ficar com ele assim?

— Aaaah não, — balança as falanges do indicador — quando você o vir sem roupa me entenderá, engolirá seco desejando que ele toque cada parte do seu corpo — usa um tom provocativo enquanto se inclina aproximando e se põe sobre a amiga que recua deitando-se sobre o tecido no chão, então a toca no queixo com as pontas de suas falanges e as olha nos olhos enquanto se transforma na versão encarnada.

— Até parece — sorri sem graça pela proximidade que acelera seu coração, pois mesmo que tenha uma aparência de defunto anoréxico na forma encorpada, ainda reflete elegância e sedução. — Eu nunca faria isso, sabe da rixa que nós dois temos.

— Você conhece a minha magia — sussurra baixando o rosto deixando a boca rente a orelha pontiaguda da amiga. — Você também pode vislumbrar o futuro, por que não faz isso agora? Pense nele. Veja como ele está agora com seus próprios olhos, adulto, forte... — sussurra.

Icarela fecha os olhos arrepiada com a mordiscada no lóbulo da orelha seguido pelo beijo no pescoço e peso sobre seu corpo com a mão apertando sua cintura.

— Não dê ideias absurdas! — Aisha se levanta e chuta a irmã. — E pare de ser uma tarada!

A risada de Bashemath é sinistra, mas contagiante.

— Vamos brincar de esconde-esconde então — Icarela se levanta desviando os pensamentos impróprios que a ossuda tarada lhe provocara.

— Quem começa?

— Pode ser eu mesma, vão lá! — Fecha os olhos e começa a contar, sente as gêmeas sumirem no ar pela ausência abrupta das essências mágicas delas.

As únicas fadas que podem simplesmente surgir e desaparecer onde e quando quiserem, que não precisam de portais. Porém, Icarela tem um truque na manga que aprendera com a duquesa Caipora quando era criança, um feitiço de rastreamento para encontrar animais perdidos ou sequestrados.

Com os olhos fechados abre a boca e ecoa um som inaudível, as ondas sonoras reverberam mostrando um ponto de luz em sua mente indicando a posição de seu alvo. Faz para o outro lado, e depois mais uma vez, porém acaba pensando em Hema pela influência da amiga e surpreendentemente, um ponto vermelho piscando de maneira falha há centenas de metros, a assusta. Abre os olhos pensando no que pode significar, e para ter certeza de que não foi uma falha no feitiço por mudar o alvo sem querer, se concentra no nome e no rosto dele, apesar de ser da sua memória de quase uma década passada.

Lá está... não é uma falha no feitiço, é um sinal de risco de morte. Faz o feitiço de eco novamente, mas dessa vez para saber se há outras fadas próximas, e não há nenhuma.

Não sabe quanto tempo de vida ele tem, o ponto está fraco, opaco e falho, então decide que irá até ele, invoca as gêmeas e chama uma coruja para lhe dar carona, o animal responde a pegando e voa com ela presa nas patas.

XXXXX

— Bashemath — Aisha vira o rosto para a irmã, estão no plano sobrenatural por terem sido invocadas, mas dentro de uma esfera dourada —, por que estamos presas se quem nos convocou foi a Opala?

— Cuidado com o tom, irmã, não insinue que eu tenha algo a ver com isso — também está preocupada, porque sim, certamente é culpa sua.

— Você andou brincando com o destino novamente, não é? Quer matar a nós duas? — Soa brava, pois vida e morte não existem sem uma à outra.

Não há morte se não há vida, e quando há vida, a morte chegará em algum momento dando o ponto final para encerrar o ciclo.

— Não se preocupe, não fiz nada dessa vez.

— Então por que estamos presas aqui?

— Creio que seja porque se eu aparecer lá, será para coletar a alma dele antes que seja expulso para as profundezas do tártaro — tenta se convencer de outra possibilidade, afinal, à beira da morte, o sanguíneo certamente está.

— Dele quem?

— Do Hema Tócrito.

— Então eu preciso ir! — Aisha soa desesperada, pelo que sua irmã diz, ele deve ter se infectado, então ou morre, ou o campo de força o expelirá ao confinamento.

— Esse encontro é obra do destino, ela precisa encontrá-lo e escolher se aceita.

— Aceita o quê, diacho? — Soa alto, agoniada.

Bashemath move o maxilar exibindo seu sorriso ósseo macabro, pois sabe a importância que ele tem para que o reino tenha um futuro próspero.

— A profecia. Opala está a caminho de Hema para cumprir a profecia dele. O destino deles é interligado, agora precisamos esperar se ambos aceitarão o caminho proposto.

— Bashemath — cruza os braços encarando a irmã que tenta sorrir para diminuir o medo que ambas estão sentindo.

Neonfae

Sinopse

O continente Runex abriga todos os seres mágicos, separados em um mundo paralelo da realidade humana e mortal. O equilíbrio entre a natureza e a magia, assim como bem e mal separados, é a responsabilidade de Aislin, rainha das fadas, do reino de Neonfae. Opala é uma fada viajante que vive em plenitude até ser engolida por um grifo e ser levada a outro reino, fica ainda pior quando descobre que quem viu seu sequestro e tentou resgatá-la, mas acabou sendo levado junto, é o Hema, o macho mais arrogante que já conheceu, agora ela precisa tentar sobreviver junto ao soldado mais detestável de Neonfae. Um mundo perfeito para um romance feliz. Vai mesmo confiar nessa autora para um livro colorido, fofo e feliz? Boa sorte.

PROIBIDO A LEITURA À MENORES DE 18 ANOS.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-243935940627622611917156
Neonfae

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Neonfae

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Neonfae Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
2Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 5 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Neonfae

Todos os capítulos 5 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir