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Capítulo 1 · O Conto de Genji

Kiritsubo

Versão Literunico inicial em português, preparada a partir da tradição textual japonesa em domínio público. Esta publicação começa por "Kiritsubo", capítulo de abertura da obra, e pode receber revisão literária e ampliação capítulo a capítulo.

Kiritsubo Em certo reinado antigo, havia entre as damas do palácio uma mulher de posição não muito elevada, mas de graça tão singular que o imperador não conseguia afastar dela o pensamento. Entre tantas consortes de linhagem superior, acostumadas a medir o mundo pelo peso dos nomes e das casas, aquela preferência parecia uma afronta. O encanto dela não tinha a proteção da força política. Justamente por isso, cada gesto do soberano aumentava contra ela o ressentimento das outras.

Chamavam-na Kiritsubo, pelo pavilhão onde vivia. Sua presença era discreta; sua delicadeza, porém, feria mais do que uma ousadia. O imperador a chamava com frequência, prolongava as visitas, esquecia etiquetas e conveniências. O que para ele era afeto, para a corte virava sinal perigoso. As damas murmuravam, os corredores recolhiam olhares, e a jovem mulher, cada vez mais isolada, suportava em silêncio a violência polida do palácio.

Quando nasceu seu filho, a situação se tornou ainda mais difícil. O menino tinha uma beleza incomum, luminosa, quase excessiva para uma criança. O imperador via nele não apenas um herdeiro afetivo, mas uma espécie de milagre. As consortes de maior posição percebiam nisso uma ameaça. Se aquela criança crescesse sob o favor absoluto do pai, quem poderia prever seu lugar?

A mãe, frágil e já consumida pela pressão da corte, não resistiu por muito tempo. As humilhações diárias, o medo constante, as pequenas crueldades que ninguém ousava nomear como crueldade foram quebrando sua saúde. O imperador tentava protegê-la, mas sua proteção, paradoxalmente, atraía mais hostilidade. Quanto mais ele a amava, mais ela sofria.

Quando Kiritsubo adoeceu gravemente, pediu licença para deixar o palácio e recolher-se à casa de sua mãe. O imperador relutou. Afastá-la parecia confirmar uma derrota íntima. Ainda assim, diante do sofrimento dela, permitiu a partida. O menino ficou para trás, e o palácio pareceu perder uma música que só o imperador ouvia.

A morte veio pouco depois.

O luto do soberano foi profundo e desmedido. Os ritos oficiais não bastavam para conter a ausência. Ele mandava mensageiros, perguntava por detalhes, buscava objetos, lembranças, qualquer sinal que ainda pudesse sustentar a ligação com a mulher perdida. A mãe de Kiritsubo, tomada pela dor, recebia as mensagens imperiais com respeito, mas não havia resposta capaz de consolar uma perda daquele tamanho.

No palácio, a criança permaneceu como memória viva da falecida. O imperador a olhava e via os traços da mãe. A beleza do menino crescia, e com ela crescia também a inquietação política. Astrólogos e conselheiros foram consultados. Havia nele qualidades raras, mas sua origem materna era baixa demais para que fosse posto sem risco na linha sucessória. Elevá-lo poderia lançar a corte em disputa; deixá-lo sem proteção seria outra forma de crueldade.

A solução encontrada foi retirá-lo formalmente da sucessão imperial. O menino recebeu o nome de Genji e passou a integrar a nobreza comum, embora conservasse em torno de si uma aura que nenhum decreto apagaria. Assim, o imperador tentava protegê-lo do destino perigoso dos príncipes e, ao mesmo tempo, mantê-lo perto.

Genji cresceu cercado de admiração. Sua inteligência, sua beleza e sua sensibilidade chamavam atenção desde cedo. Nada nele parecia comum. Mesmo quem tinha motivos para ressentimento acabava reconhecendo a força daquela presença. O mundo palaciano, feito de aparências e cálculos, via naquele jovem uma promessa ambígua: encanto e risco, graça e instabilidade.

O imperador, ainda preso à lembrança de Kiritsubo, ouviu falar de uma jovem dama que se parecia muito com a mulher morta. Ela era filha de um antigo imperador e possuía posição muito mais adequada à corte. Quando foi trazida ao palácio, recebeu o nome de Fujitsubo. A semelhança com Kiritsubo tocou o soberano de maneira profunda. Não era a mesma pessoa, e justamente por isso a lembrança do passado se tornou ainda mais complexa: não voltava como restituição, mas como eco.

Genji, ainda menino, viu Fujitsubo e também sentiu essa força de reconhecimento. Para o imperador, ela era consolo. Para Genji, tornou-se imagem ideal, mistura de reverência, saudade e desejo ainda sem forma definida. A corte via apenas o arranjo conveniente de uma nova favorita imperial. O interior das pessoas, porém, já começava a se mover por caminhos mais difíceis.

O príncipe retirado da sucessão, agora Genji, parecia destinado a viver entre fronteiras: próximo demais do trono para ser apenas um nobre, afastado demais para ser príncipe; filho da mulher mais amada e menos protegida; herdeiro de uma beleza que atraía admiração e perigo. Desde o início, sua vida foi marcada por aquilo que o palácio melhor sabia produzir: esplendor, silêncio e feridas escondidas sob cerimônia.

Assim começa a história de Genji, filho de uma paixão que não encontrou lugar seguro na ordem do mundo.

O Conto de Genji

Sinopse

Versão Literunico inicial em português de O Conto de Genji, clássico japonês de Murasaki Shikibu. Publicação em expansão, iniciada pelo capítulo Kiritsubo.

O Conto de Genji

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