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Capítulo 1 · Fome

Fome - Parte 01

FOME

por KNUT HAMSUN

Traduzido do norueguês por GEORGE EGERTON

Com uma introdução de Edwin Bjorkman

Esta edição PG baseia-se na oitava impressão, publicada em setembro de 1921 por Alfred A. Knopf, Inc. Esta edição é uma versão expurgada da tradução original de 1899, também de George Egerton.

Knut Hamsun

Desde a morte de Ibsen e Strindberg, Hamsun é indubitavelmente o principal escritor criativo dos países escandinavos. Os que mais se aproximam de sua posição são provavelmente Selma Lagerlöf, na Suécia, e Henrik Pontoppidan, na Dinamarca. Ambos, contudo, parecem possuir menos do que ele daquela amplitude de visão, validade de interpretação e autoridade de tom que fizeram dos grandes mestres aquilo que foram.

Sua reputação não se limita ao próprio país nem às duas nações irmãs escandinavas. Há muito se espalhou pelo restante da Europa, lançando raízes mais profundas na Rússia, onde várias edições de suas obras completas já apareceram, e onde se fala dele como igual a Tolstoy e Dostoyevski. O entusiasmo dessa aprovação é um sintoma característico que lança uma luz interessante tanto sobre a Rússia quanto sobre Hamsun.

Ao ouvir falar disso, poder-se-ia esperar que ele se revelasse um homem das massas, cheio de aguda consciência social. Ao contrário, deve ser classificado como um romântico individualista e um aristocrata altamente subjetivo, cuja paixão principal na vida é desviar-se, violenta e desafiadoramente, de tudo quanto seja médio e ordinário. Ele teme e escarnece do domínio dos muitos, e seus heróis, que nada são senão imagens ligeiramente variadas de si mesmo, são invariavelmente marcados por uma originalidade de fala e de ação que os leva para perto, quando não para além, da fronteira do excêntrico.

Em toda a literatura que conheço, não há escritor que pareça mais implacável e destemidamente ele mesmo, e o eu que assim nos é apresentado é tão paradoxal e rebelde quanto poético e pitoresco. Uma natureza assim, pensar-se-ia, deve ser a florada final de poderosas tendências hereditárias, convergindo silenciosamente através de numerosas gerações para seu clímax predestinado. Tudo o que sabemos é que os antepassados de Hamsun eram robustos camponeses noruegueses, dos quais se diz apenas que se diferenciavam de seus vizinhos por certas preocupações artísticas que fizeram de um ou dois deles artesãos habilidosos. Mais certo é que aquilo que talvez fosse ou não inato foi favorecido, nutrido e exagerado pelo ambiente físico e pelas primeiras experiências sociais.

Hamsun nasceu em 4 de agosto de 1860, num dos vales ensolarados do centro da Noruega. De lá seus pais se mudaram, quando ele tinha apenas quatro anos, para se estabelecer no longínquo distrito setentrional de Lofoden — essa terra de extremos, onde o ano, e não o dia, se divide igualmente entre trevas e luz; onde o inverno é um longo sono sem sonhos, e o verão um sonho apaixonado sem sono; onde terra e mar se encontram e se entrelaçam de maneira tão gigantesca que o homem quase é esmagado entre ambos — ou então elevado a medidas titânicas pelo espetáculo de sua luta.

O Norte, com suas luzes ofuscantes e sombras negras, suas alegrias sobrenaturais e desesperos abismais, está presente e dominante em cada linha que Hamsun escreveu. É nesse país que se passam seus melhores contos e dramas. Por esse país são marcados seus heróis, onde quer que vaguem. Desse país eles retiram seus principais direitos à verossimilhança. Só nesse país parecem inteiramente em casa. Hoje sabemos, porém, que o caso patológico nada representa senão uma extensão de tendências perfeitamente normais. Do mesmo modo sabemos que a atmosfera miraculosa do Norte serve apenas para desenvolver e acentuar traços que jazem adormecidos em homens e mulheres de toda parte. E, com base nisso, as figuras fantásticas criadas por Hamsun se relacionam com a humanidade comum como a ampliação microscópica de uma seção transversal se relaciona com os tecidos vivos. O que vemos é verdadeiro em tudo, salvo na proporção.

O artista e o vagabundo parecem ter estado igualmente no sangue de Hamsun desde o princípio. Aprendiz de sapateiro, ele usou suas parcas economias para providenciar a impressão particular de um longo poema e de uma breve novela produzidos aos dezoito anos, quando ainda assinava Knud Pedersen Hamsund. Feito isso, abandonou abruptamente o aprendizado e entrou naquele período de inquietas errâncias por ofícios e continentes que durou até sua primeira verdadeira realização artística com “Fome”, em 1888-90. Já se observou muitas vezes que praticamente todos os heróis de Hamsun têm a mesma idade que ele tinha então, e que seu criador se empenha particularmente em acentuar esse fato. É quase como se, naqueles dias de febril luta literária, ele tivesse subido a alturas de onde via as coisas com tal clareza que nenhuma experiência posterior pudesse acrescentar senão detalhes ocasionais.

Antes de alcançar essas alturas, experimentara a vida como carregador de carvão e professor, como reparador de estradas e auxiliar de agrimensor, como trabalhador rural e condutor de bonde, como conferencista e jornalista autônomo, como turista e emigrante. Duas vezes visitou este país durante a metade dos anos oitenta, trabalhando sobretudo nas planícies de Dakota do Norte e nas ruas de Chicago. Duas vezes, durante esse período, retornou ao próprio país e passou pelas experiências retratadas em “Fome”, antes que, afinal, encontrasse seu próprio eu literário e, com ele, também a atenção do mundo em geral. Enquanto esteve aqui, fracassou por completo em estabelecer qualquer contato simpático entre si mesmo e o novo mundo, e seu primeiro livro após o retorno, em 1888, foi um volume de estudos intitulado “A Vida Espiritual da América Moderna”, que um destacado crítico norueguês descreveu certa vez como “uma obra-prima de crítica distorcida”. Mas possuo um exemplar desse livro, cuja folha de rosto traz a seguinte inscrição no autógrafo do autor:

“Obra juvenil. Deixou de representar minha opinião sobre a América.

28 de maio de 1903. Knut Hamsun.”

Em sua forma original, “Fome” era apenas um esboço, e como tal apareceu em 1888 num periódico literário dinamarquês, “Nova Terra”. Atraiu de imediato ampla atenção para o autor, tanto por seu tema incomum quanto por sua forma impressionante. Era uma nova espécie de realismo, que nada tinha a ver com a reprodução fotográfica dos detalhes. Era um estudo declaradamente psicológico que tinha tanto em comum com as concepções antiquadas das atividades mentais do homem quanto os delírios de um paciente febril. Era a vida, mas apresentada no temperamento impressionista de um Gauguin ou de Cezanne. Com o aparecimento do romance completo, em 1890, Hamsun foi saudado como um dos principais arautos do movimento neorromântico que então se espalhava rapidamente pelo norte escandinavo e encontrava expressões típicas não só nas obras de escritores até então desconhecidos, mas também nas mudanças de espírito de mestres como Ibsen, Bjornson e Strindberg.

Fome

Sinopse

Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

Fome

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