Universo da obra
Universo da obra
O Texugo Diante do Tribunal Nota Literunico. Edição Literunico preparada a partir de tradução brasileira consolidada com base no texto sérvio em latinica disponível no Wikisource. A obra de Petar Kočić está em domínio público.
Sala de tribunal limpa e clara. Pelas paredes pendem retratos de grandes personagens. À direita da porta, junto à janela, uma mesa; à esquerda, outra mesa também. Sobre as mesas, protocolos e alguns livrões grossos.
DAVID — pequeno, baixo, seco como um galho, leve como uma pena. A perna esquerda é um pouco mais curta que a direita, de modo que ele manca ao andar. Seus olhos brilham e cintilam como os de um gato no escuro. Todo grisalho, com mais de cinquenta anos. Muda a voz. Sabe chorar como uma criancinha, latir como um cão e cantar como um galo. Muitas vezes bate as mãos nas coxas, com jeito, como um galo bate as asas, e canta tão bem que engana os galos, que começam a cantar antes da hora pela aldeia. Por isso as mulheres mais moças o repreendem. Também se finge de tímido. Não acreditem nele.
Ao entrar na sala do tribunal, benze-se e traz um texugo amarrado dentro de um saco. Do texugo só aparece o focinho para fora do saco.
DAVID: Bom dia, senhores cabeçudos!
JUIZ — à direita, junto à janela, com a cabeça enfiada num livro, resmungando qualquer coisa.
ESCRIVÃOZINHO — à esquerda, inclinado sobre a mesa, escrevendo depressa e com rispidez.
DAVID: Bom dia, cabeçudos senhores imperiais!… Eh, espera aí, David tapado! Por que foste tropeçando feito porco no soro? Não vês que os senhores estão ocupados? Encosta-te à parede e espera um pouco. Ao texugo. E tu, ladrão de uma figa, chegaste onde devias chegar! Verdade seja dita, aqui não há milho, mas há outra coisa, texugo. Há parágrafos, parágrafos duplos, parrudos, texugo! Pobre e tristíssima mãe a tua! Comer uma roça inteira de milho e depois não adoçar a boca com um parágrafo — isso, sim, faria até Deus chorar!
JUIZ: Quem está aí?!
DAVID: Bom dia, cabeçudos e mui-venerandos senhores imperiais! Servo obedientíssimo!… Mas que casa é esta, onde nem Deus é recebido?
JUIZ: Cala a boca, besta!
DAVID: “Cala a boca, besta!” Isso é fácil de dizer. Até eu digo. Mas, no mínimo dos mínimos, não está em ordem que um, digamos assim, funcionário imperial diga uma coisa dessas.
JUIZ: Vais querer me ensinar?
DAVID: Deus me livre! Nem em sonho eu poderia sonhar uma coisa dessas. Passou bem a manhã, senhor?
JUIZ: Tu queres apertar minha mão e me cumprimentar?!
DAVID: Estamos bem, graças a Deus! E tu, como estás? E a senhora tua esposa? Ela vai bem?
JUIZ: Está te faltando alguma coisa? Tu estás inteiramente são?
DAVID: Nós também estamos, graças a Deus, todos bem e em paz; e obrigado a ti, que perguntas por mim, por mim e por minha família. Virando-se para o Escrivãozinho. E tu, criança, passaste bem a manhã?
JUIZ: Mas o que há contigo, idiota? De onde és? Como te chamas?
DAVID: Eu me chamo, glorioso tribunal, David Štrbac; aldeia de Melina, distrito de Banja Luka, comarca de Banja Luka; e a terra, penso eu, senhor cabeçudo, deve ser a Bósnia. O número da minha casa é 17. Assim o glorioso tribunal me registra e assim me manda as intimações.
JUIZ: Muito bem, muito bem, David. Vejo que conheces a ordem das coisas. E o que tens aí nesse… Ora, como se chama isso?
DAVID: Saco! Isso se chama saco, e isto aqui dentro do saco se chama texugo.
JUIZ: Texugo! O que queres fazer com um texugo aqui?
DAVID: Venho processá-lo perante o glorioso tribunal porque ele comeu uma roça inteira de milho minha. Processo-o e hei de processá-lo o mais longe e o mais pesado que puder!
JUIZ: Ora essa, minha gente! O que mais um homem ainda há de ver nesta Bósnia maluca! Processar um texugo! Sim, este é um verdadeiro idiota, idiota dos idiotas. Mas de onde te veio à cabeça processar um texugo?
DAVID: De onde me veio, dizes, à cabeça processar um texugo? Não veio de lugar nenhum; é que eu conheço a ordem e a lei de hoje. Ou pensas, homem, que eu não sei que esse vosso imperador tem lei para tudo? David sabe, sabe. Não penses que não sabe! Ele entende um pouquinho de tudo e sempre sabe o que está conforme a lei e o que, por outro lado, não está.
JUIZ: Tudo isso é muito bom e bonito, David, mas processar um texugo! Isso… isso…
DAVID: Tu pensas, senhor cabeçudo, que por eu ter nascido no tempo dos tribunais turcos não conheço a ordem de hoje. Conheço a ordem de hoje, conheço. Verdade seja dita, sofri bastante até arrumar tudo isso na cabeça e, digamos assim, organizar… Sentamo-nos assim, eu e aquela minha velha desdentada, à noite, junto ao fogo, e começamos, como vós dizeis, a estudar: isto, mulher, está conforme a lei; isto, por outro lado, não está; isto poderia estar conforme este parágrafo; isto, por outro lado, não poderia. E assim estudamos até certa hora da noite.
JUIZ: É assim mesmo que vós estudais?
DAVID: Sim, estudamos muito e por muito tempo.
JUIZ: E tua velha sabe alguma coisa?
DAVID: Ela é minha, mui-venerando senhor, e por isso tenho medo de que penses que a estou gabando. Mas não a estou gabando; digo-te apenas a verdade: se, por acaso, voltasse o tempo dos turcos, ela, com a cabeça que tem, poderia ser cádi no meio de Banja Luka. Eu digo: cádi. Que cádi, nada! Por minha alma, se soubesse apenas escrever, podia te dizer com toda a calma: “Levanta-te dessa cadeira imperial, que agora sou eu quem vai distribuir justiça ao povo!” De tão esperta e instruída que é aquela mulher!
JUIZ: Assim tão instruída?
DAVID: Ah, nem perguntes, senhor, aquilo é um assombro! Se tu, por sorte, tivesses conseguido te esgueirar de algum canto esta manhã, para ouvir a sabedoria e a ciência dela: “Tu vais, David?”, diz ela. “Ora, mulher, não estás vendo que estou indo?” “E como vais ao tribunal?” “Vou como todo mundo, com duas pernas.” “Está bem”, diz ela, “mas arrumaste na cabeça como vais processar esse velhaco?” “Arrumei. Vou processá-lo o mais longe e o mais pesado que puder.” “A que tribunal pensas ir?” “Pois penso, mulher, ao tribunal distrital, porque o prejuízo é grande.” “Aí está, Deus não te mate!”, gritou ela, como se alguma coisa lhe mordesse o coração. “Sempre te gabas: eu isto, eu aquilo; sou inteligente, sou instruído, conheço a lei! Pobre da tua ciência e do teu saber!” “Espera, mulher, ensina-me, que eu te escuto. A que tribunal achas que devo ir?” “Primeiro vai lá embaixo, ao nosso tribunalzinho pequeno, camponês, seu burro desmiolado! Como haverias de procurar tribunal por cima de tribunal? Tu sabes, homem, que assim arranjarias encrenca com os senhores imperiais? Primeiro, digo-te, vai ao nosso tribunalzinho pequeno, camponês; se ali não o condenarem, então, só então, vai ao tribunal redondo. Se também ali nada se fizer, volta logo, que veremos o que havemos de fazer. Estou vendo”, diz ela, “que isso ainda vai chegar ao próprio imperador.”
“Mas, mulher, de onde te vem tanta inteligência, beijo a tua cruz?”, admiro-me eu, senhor cabeçudo. “E como vais prestar respeito aos senhores imperiais?”, pergunta-me ela, e me interroga como padre em confissão. “Pois direi: Deus vos ajude, juízes imperiais de Banja Luka!” “Aí está, aí está, aí está! Ah, pobre e amarga de mim contigo! Ah, pobre e amarga de mim contigo cem vezes!”, pôs-se ela a gritar como endemoninhada e a arrancar os cabelos. “Escuta, Deus te mate, como se presta respeito aos senhores imperiais. Quando entrares no nosso tribunalzinho pequeno, camponês, grita: Bom dia, senhores cabeçudos! Mas quando entrares no grande tribunal redondo, faz uma profunda reverência…” “Eu não sou moça, mulher, para andar fazendo reverência. Que há contigo? Não estás exagerando um pouco nessa tua ciência?”, digo-lhe eu.
“Cala-te, que o sol do céu te abrase, quando não sabes nada! Escuta: quando entrares no tribunal redondo, faz uma profunda reverência e logo, da porta, assim lá do fundo, exclama: Bom dia, mui-venerandos senhores! E não seria mau”, diz ela, “se no tribunal pequeno dissesses uma coisa e outra: Bom dia, senhores cabeçudos e mui-venerandos! E acrescentasses: Servo obedientíssimo! Assim é a ordem de hoje, e é assim que se presta respeito aos funcionários imperiais.” “Mas, mulher, de onde te vem tanta inteligência e ciência, beijo os teus jejuns!”, fiquei eu pasmado de espanto.
JUIZ: Por Deus, David, tua mulher é mesmo instruída. E onde foi que ela aprendeu tanta ciência?
DAVID: O diabo é que há de saber, senhor cabeçudo! Ela anda muito com a mulher do chefe da aldeia, e vão lá ao quartel dos gendarmes, então eu não sei… Pode ser que tenha aprendido com os guardas imperiais e com a chefa; e a chefa é mesmo danada, grossamente instruída. Forte, vistosa, jovem como uma gota de orvalho, e os guardas imperiais, por carinho, a carregam nos braços, tudo por causa da inteligência e da ciência dela! E a minha velha sentada no meio do quartel, esparramada nos colchões imperiais, bebendo, fumando e recebendo ciência.
Meu Deus, meu Deus, que estranha beleza há nesse vosso imperador! Meu Deus, meu Deus, como fizestes feliz a nossa terra! O povo ficou lindamente morto de tanto bem e doçura, mal consegue respirar. Todos alegres, satisfeitos, todos cantam — só que em parte nenhuma se ouve canção. Só eu, chorando, estou descontente, pobre e amargurado.
JUIZ: Que tens, David? Por que choras? Que há de torto e injusto contra ti nesta terra?
DAVID: Não tenho nada contra o glorioso tribunal, mas contra este maldito ladrão, que sua semente se apague! Bate no focinho do texugo. Que tu, inimigo e carrasco meu, acabes untando a forca, como hás de untá-la se ainda houver nesta terra um pouco de justiça e lei!
JUIZ: Por que o espancas e amaldiçoas tanto? Que foi que ele te fez?
DAVID: Não te disse ainda há pouco?… Permites, senhor, que eu o ponha no chão? Está pesado como pedra de moinho; minha miséria e meu suor ensoparam esse bicho! Permites, senhor?
JUIZ: Permito, permito, David. Põe-no no chão.
DAVID: E que tal, senhor cabeçudo, se eu o tirar do saco e o amarrar a esta perna da mesa, para que vejais o meu carrasco e inimigo, que os ossos dele apodreçam em Zenica! Permites, mui-venerando senhor?
JUIZ: Permito, sim, amarra-o…
DAVID, tirando o texugo do saco: Cuidado, meus senhores, porque, se ele me escapa, haverá desgraça. Em lugar ruim, com perdão, o texugo voa. Espera, ladrão de uma figa, por que te debates e te retorces tanto! Ainda sou forte, embora tenha nascido por volta de quando começaram a cobrar pela primeira vez a terça parte do povo; ainda tenho força e vigor, embora já faça vinte anos que nem na Páscoa tenho com que quebrar o jejum.
Graças ao império, ao nosso misericordiosíssimo Governo Territorial e ao glorioso tribunal, que conservaram em mim este restinho de força! Graças a eles, onde quer que ouçam ou não ouçam!… Vê só, senhor, vê como ele fareja se por algum lado farfalha milho. Ah, que o céu te… Bate-lhe no focinho. …mate! Grita. Cuidado, meus senhores, ele me escapou! Ah, pobre de mim, que fui fazer!
O texugo eriçou-se, encrespou-se e corre pela sala do tribunal. Ora voa para uma janela, ora para outra; ora se atira para debaixo de uma mesa, ora para debaixo da outra; depois corre de novo para a porta, depois entre as pernas.
Lá vai ele bem entre as canelas! Cuidado, senhor! Ai, pobre de mim, se alguma coisa te acontecer, nunca mais nem eu nem tu teremos coragem de aparecer diante dos olhos da tua senhora!
Com dificuldade o agarram e o amarram.
ESCRIVÃOZINHO, pálido como cera: Por que soltaste o bicho, seu burro?!
DAVID: A quem estás chamando de burro?
JUIZ: Por que o desamarraste, idiota?
DAVID, rindo: Mas esperai, homens, deixai-me tomar fôlego! Eu te perguntei: “Permites, senhor?” Tu disseste: “Permito, permito, David.” Então quem é agora o culpado? Eu certamente não sou, porque obedeço ao que o mais velho permite e ordena.
JUIZ: Tu, David, és idiota e não és idiota.
DAVID: Agradeço-te por tal palavra, como a alguém mais velho e mais instruído!
JUIZ: Por que trouxeste este ladrão ao tribunal? Por que não o mataste logo na roça?
DAVID: Como sou meio tapado, talvez tivesse feito isso se não conhecesse a ordem e a lei de hoje. Mas que haverias tu, senhor cabeçudo, de alongar, puxar e repuxar: conheço a lei, e não passo por cima da lei. Não passo por cima da lei, nem que me matem!… Há alguns anos, quando eu ainda não tinha entendido a vossa lei, matei naquela mesma rocinha um texugo. Devia ser irmão deste ladrão. O guarda-florestal imperial me pegou e me multou em cinco florins.
Quando meteu o dinheiro no bolso, ameaçou-me com rispidez: “Não podes mais fazer isso, porque a lei de hoje também protege o texugo.” Pois bem: se o protege, que o julgue quando ele causar prejuízo!… Só tenho aquela velhota desdentada, e a rocinha de milho que eu tinha, e este ladrão me arrasou tudo, nivelou tudo com a terra. Secaram-se os pobres milhos, e quando passo pela rocinha, toma-me uma tristeza, uma aflição. Ah, como farfalham tristemente aqueles milhos amargurados, quebrados! Um homem diria que suspiram por vingança e justiça… Só, chorando, só aquela rocinha de milho eu tinha, e…
ESCRIVÃOZINHO, com malícia: E como se chama a rocinha? O glorioso tribunal precisa saber disso.
DAVID, enxugando as lágrimas: A rocinha, meu filho, tem nome curioso. Chama-se: Nem de David, nem imperial, nem senhorial. Esse é o nome dela, e assim, parece-me, também está escrito aqui no tribunal.
JUIZ, rindo: Contigo, David, tudo parece meio embrulhado. Como se chama a rocinha: Nem de David, nem imperial, nem senhorial? Como assim?
DAVID: É simples, meus senhores. Vou vos contar tudo pela ordem e pela lei. É uma rocinha de mata derrubada. Fui eu que a desbravei, então digo: é minha. Ao redor dessa roça há floresta imperial. Na ponta da rocinha, bem quando se vai descendo para a Fonte de Markan, há um poste fincado na terra, com aquelas duas letras como ganchos de balança: C. S. Dizem que isso escreve: floresta imperial. Meu Deus, meu Deus, que estranha beleza há nesse vosso imperador! Meu Deus, meu Deus, a tudo hoje se presta respeito: floresta imperial! No tempo dos turcos: floresta de todos, floresta de ninguém; hoje, floresta imperial.
Pois eu vos digo: ao redor dessa rocinha há floresta imperial, e o registrador de terras diz: “É verdade, David, tu a desbravaste, mas isso é floresta imperial. Como desbravaste floresta imperial, o que sobrou foi terra imperial. A floresta é imperial, logo a terra também deve ser imperial.” Então chega o senhor feudal: “Mentes, valáquio! Não a desbravaste; isso é, desde tempos antigos, terra cultivável, e cada pedacinho de terra cultivável é meu!” De que lado está o direito, não sei. Só sei que por isso o povo chama aquela rocinha de Nem de David, nem imperial, nem senhorial.
E eu diria que o povo, de certo modo, tem razão, porque essa rocinha, como ouvistes, não é minha, nem imperial, nem senhorial, mas deste maldito ladrão e fora da lei. Enquanto nós aqui brigamos e discutimos de quem ela é, ele, por outro lado, se refestela e engorda, como dizem, feito frade suábio. Por isso vos peço e suplico que o condeneis o mais pesadamente possível. Este glorioso tribunal me fez muito bem. De muitas misérias e aflições me libertou…
JUIZ: De muitas aflições mesmo te libertou? Como assim?
DAVID: Sim, sim, de muita miséria e desgraça me libertou. Vou contar tudo aos senhores, meus senhores, pela ordem e pela lei. Eu tinha um filho. Rapaz forte, moço e esguio como um pinheiro. Não se parecia em nada comigo. Saíra ao avô, meu pai, que morreu na última revolta, em Crni Potoci. Rapaz forte e esguio, mas atravessado e ruim que Deus misericordioso nos livre! Levaram-no para o exército, mandaram-no para Graz, e eu respirei aliviado.
No ano passado, ali por volta da festa das Correntes de São Pedro, o chefe da aldeia me trouxe um livro preto e três florins: “David, teu filho morreu, e o império te manda três florins. É a tua recompensa.” “Oh, bom império, beijo-lhe a cruz!”, eu então gemi lindamente de alegria, e a mulher e as crianças começaram a chorar. “Irmão chefe, devolve esses três florins ao império. Será justo diante de Deus e dos homens que o império os tome para si como, digamos assim, uma recompensa, pois ele me livrou de uma desgraça.”
Depois eu tinha uma vaca, uma vaca boa, gorda. Eu tirava da própria boca para dar a ela. Digo-vos: boa, gorda, mas danosa que Deus nos guarde! Saltava por cima de cerca e tapume onde lhe desse na telha! Todo ano me arruinava a colheita. De algum modo, o glorioso tribunal ficou sabendo disso. Eis que um dia me aparece aquele cobradorzinho que recolhe contribuição e imposto:
“David”, diz ele, “o tribunal soube que te caiu em cima uma aflição, e me mandou para… Que tal se transferíssemos essa infeliz vaca ao império, para que ele se atormente e se entenda com ela lá?”
“Graças”, digo eu, “ao império, que tanto cuida de mim! Leva, irmão, leva agora mesmo!”
Depois eu tinha quatro cabras. No tempo dos turcos, quietas como ovelhinhas; mas, quando chegou a ocupação, também elas sentiram a liberdade — Deus as mate! — e ninguém mais as aguentava. Começava aquela minha velha desdentada a ordenhá-las, e a última dava com a pata no balde e derramava o leite. De novo, de algum modo, o império ficou sabendo.
Eis que aparece o cobradorzinho:
“Deus te ajude, David! Saúde, paz?”
“Bem, graças a Deus; e tu, como estás?”
Ali nos perguntamos pela saúde, até que o cobradorzinho começou:
“Tu, David, foste de novo acometido por uma desgraça: tens umas cabras inquietas, que derramam o leite. Que tal se as entregássemos ao escritório dos impostos, para que ele se atormente com elas?”
“Oh, que bom império, Deus misericordioso!”, arrebatei-me eu, e gemi lindamente de uma espécie de doçura imensa, enquanto a mulher e as crianças soluçavam de tanta alegria.
“Toca, irmão, beijo-te as pegadas, toca!”
E, por Deus, o homem — obrigado a ele, obrigado a ele e ao misericordiosíssimo império! — tocou as desgraçadas e me livrou da aflição.
De toda a pequena propriedade e bens que eu tinha, restou-me ainda um leitão, um bom e gordo leitão, mas danoso e uma desgraça só! Pisoteou o milho, comeu abóboras e morangas; comeu e devorou tudo, com perdão, como um cobradorzinho qualquer. Fiz para ele uma canga e pus assim, como agora em ti — junta as mãos e aponta para o Escrivãozinho — sem querer comparar, ao redor do pescoço; mas não adiantou.
O povo caiu sobre mim como sobre corvo branco:
“Teu porco, David, vai acabar contigo e conosco!”
De boca em boca, até que o império também ficou sabendo. Eis que vem o cobradorzinho:
“Ah, David”, diz ele, “tu és mesmo azarado! Nada te dá certo!”
“Basta, irmão! Eu sei!”, gritei, e o abracei e beijei. “Basta! Toca! Obrigado a ti, obrigado a ti e ao misericordiosíssimo império, que tanto cuida de mim! Obrigado a vós, onde quer que ouçais ou não ouçais!”
ESCRIVÃOZINHO: O senhor ainda não conhece estes camponeses bósnios. Hoje este David louva e eleva o império até o céu, e amanhã, manco como é, se levantaria em revolta e iria contra este glorioso tribunal. Nós nos conhecemos, David, nós nos conhecemos. Sois todos iguais.
DAVID, encarando o Escrivãozinho de muito perto: Quem?! Quem, homem? Eu me levantar em revolta?! Minha querida criança, vejo que és inteligente e instruído, mas não me calunies nem me incrimines diante deste tribunal imperial, pelo pão do imperador! Eu me levantar em revolta? Homem, homem, eu daria minha cabeça por este tribunal!… Mas eu te suplico, senhor cabeçudo, que condenes este ladrão o mais pesadamente possível. Ele me destruiu em tudo. Tira-o do meu pescoço, por tua função imperial! A nós, camponeses, digo-vos, este glorioso tribunal libertou de muita coisa.
Já não nos berram mais nos pastos os touros estufados, nem ferem nossa gente com os chifres; já não nos arrasam mais as poderosas juntas de bois as cercas e as plantações, como naquele antigo, tonto tempo dos turcos. Hoje não se pode ver no mundo rebanho cevado e taurino. O que o glorioso tribunal nos deixou é quieto, dócil, inteligente; é verdade, um pouco magro e fraco, mas para nós, bósnios tapados, outra coisa nem serve!…
ESCRIVÃOZINHO: Essa, David, ficou no lugar certo.
DAVID: Todas as minhas ficam, criança, todas! Não penses que não. Mas dizei-me vós agora: começareis ou não a condenar este fora da lei, para que eu saiba em que pé estou?
JUIZ: Tu, Štrbac, és um idiota completo. Condenar um texugo! Tu estás louco, homem de Deus!
DAVID, como ofendido, irritado: Não fales assim comigo, senhor! Quando o pobre lavrador finalmente aprende a vossa ordem e a vossa lei, vós logo: tu és louco, tu és idiota…
JUIZ: Tu estás apontando a mão para mim, David? Cuidado contigo!…
DAVID, continuando calmamente: Se eu fosse louco, estaria no hospício, e não conversando hoje com homens imperiais. Ora, não é assim? Mas condenai-o. Se não o condenardes, atiro-me no Vrbas, porque não tenho coragem de aparecer diante da mulher.
JUIZ: Tua mulher é assim tão terrível?
DAVID: Ah, meu senhor, que Deus não te dê viver com ela! Não há nada pior, senhor cabeçudo, do que quando uma viúva se inflama, que Deus misericordioso nos guarde! É capaz até de sacudir, como dizem, um império inteiro. Ora, não sei, cabeçudo e mui-venerando senhor, que diabo me tentou a casar com uma viúva. No fim das contas, ainda há de me custar a cabeça.
ESCRIVÃOZINHO: Casaste com uma viúva?
DAVID: Como disseste?
ESCRIVÃOZINHO: Pergunto se casaste com uma viúva.
DAVID: Pela tua juventude, criança, não te metas na conversa quando não sabes nada. “Casaste com uma viúva?”…
JUIZ: Vós dois não vos entendeis. A mim tu entenderás melhor. Essa tua mulher, isto é, a atual, casou contigo como viúva ou como moça? Agora talvez compreendas.
DAVID, espantado: Ora, senhor, pelo menos tu não sejas idiota! Como minha própria mulher haveria de casar comigo?!
ESCRIVÃOZINHO, esforçando-se seriamente para explicar a David: Essa tua mulher, isto é, a que tens agora, foi, perguntamos, casada antes?
DAVID: Mulher casada! Benze-se, espantado, e anda pela sala. Mulher casada! Ora, em vossa terra as mulheres se casam com mulheres?
JUIZ, pensando longamente: Quantos anos tem essa tua mulher?
DAVID: Bem, tem uns trinta anos de um lado, e…
ESCRIVÃOZINHO: Então ainda é moça.
DAVID: Pois claro que é moça. Ainda não lhe caíram os dentes da frente.
ESCRIVÃOZINHO: Bem, então, sendo tão moça, deves tê-la tomado como donzela.
DAVID, atônito de espanto: Ora, que há contigo?! Como é que eu haveria de tomar uma mulher como donzela? Que seria isso, então? Por Deus, criança, eu diria que não estás muito bom da cabeça… Para que eu haveria de trazer uma donzela para minha mulher?!…
JUIZ, despertando: Ah, agora sei! Trouxeste-a para casa como viúva ou como moça solteira?
DAVID: Ah, agora eu também sei! Trouxe-a como viúva. Casou-se três vezes. Eu a recebi até de terceira mão. Todos riem. O Juiz anota alguma coisa. Pois te digo, senhor cabeçudo: ela é atravessada, maldosa, rezingona, e não adianta esconder, vem de linhagem de padre; por isso é esperta e muito instruída. Quando começa a enumerar uns parágrafos imperiais, minha inteligência para. Mas é brava, que Deus misericordioso nos guarde!
JUIZ: Por que não te queixas ao pároco, para que ele a repreenda?
DAVID: A quem disseste que eu me queixe?
JUIZ: Ao pároco competente.
DAVID: E o que é agora pároco?
ESCRIVÃOZINHO: O padre, o padre, David.
DAVID: Ah, o padre! Queixei-me duas, três vezes, e o padre diz: “David”, diz ele, “como ela não é casada pela igreja, não cai sob os parágrafos eclesiásticos. Processa-a”, diz ele, “no tribunal. Há de se achar também para ela algum parágrafo, pois esse vosso imperador tem lei para tudo.”
JUIZ: E por que não te casaste com ela pela igreja?
DAVID: O padre pede muito pelo casamento.
JUIZ: Quanto?
DAVID: Pede, homem, quarenta florins, e toda aquela minha desdentada, no fundamento, não vale cinco!
JUIZ: Bem, se ela é assim tão brava e não é casada pela igreja, manda-a embora. Podes mandá-la embora livremente, David.
DAVID: Há muito que eu teria feito isso, mas não consigo. Tenho pena. Eu te diria uma coisa, mas tenho vergonha…
JUIZ: Não te envergonhes de nada.
DAVID: Tu dizes que eu a mande embora. Como vou mandá-la embora se ela é, com perdão, doce e querida para mim, que Deus não a mate! Ouve, senhor cabeçudo e mui-venerando: mulher sem casamento, com perdão, é mais doce e mais querida que a casada. Pois isso eu entendi assim e, em minha cabeça, como dizeis vós, estudei bem. Não adianta esconder: ela me é querida e doce, mas às vezes se enfurece e quer me estrangular.
Se no ano passado, no dia de São Lucas, um guarda imperial lá em Kadina Voda não me tivesse dado um conselho, eu hoje não estaria conversando convosco, mas apodrecendo num túmulo gelado. O homem me encheu o cachimbo de tabaco — obrigado a ele! — e, ao ir embora, disse:
“David”, diz ele, “tu és um dono de casa esperto e claro…”
ESCRIVÃOZINHO, sorrindo com malícia: Ah, és mesmo claro e esperto!
DAVID: Criança, peço-te como se pede a Deus e aos mais velhos: não me interrompas a palavra! Não me interrompas, pelo pão do imperador!… “Tu és”, diz ele, “um dono de casa esperto e claro, mas ainda vou te dar um conselho. Sempre que a coisa apertar para ti, seja entre homens, seja no tribunal, seja onde for”, diz ele, “tu grita apenas, assim, do coração: Viva o nosso misericordiosíssimo Governo Territorial! Não te preocupes, tudo há de acabar bem.”
Certa vez, minha mulher começou a me bater. Agarrou-me pela garganta para me estrangular. Lembrei-me do conselho:
“Viva o nosso misericordiosíssimo Governo Territorial! Larga, mulher, que Deus te mate. Viva o nosso misericordiosíssimo Governo Territorial! Larga, mulher, que Cristo te mate. Viva”, berrei com toda a força da garganta, “o nosso misericordiosíssimo Governo Territorial em Sarajevo!”
Ela ficou toda pálida, os braços lhe amoleceram, e eu me salvei. Se não fosse o conselho, lá me iria eu para debaixo da terra negra.
Esta manhã, ela me ameaçou:
“Se não me trouxeres do tribunal, por escrito, que condenaram esse patife à forca ou a Zenica, não apareças vivo diante dos meus olhos!”
Por isso agora vos peço e suplico que o condeneis o mais pesadamente possível…
JUIZ: Eu não sei o que fazer com este homem!
DAVID: Por quê, senhor? Que culpa cometi contra o nosso misericordiosíssimo Governo Territorial e contra o glorioso tribunal, para que este fora da lei e rebelde lhes seja mais querido do que eu? Ele não reconhece tribunal, nem lei, nem parágrafos, e mesmo assim, vejo eu, o tribunal lhe dá a mão. Que justiça é essa?! Não olheis, meus senhores, para o fato de eu ser um pobre camponês; julgai segundo a justiça e a lei. Nós, camponeses, até agora estivemos satisfeitos com este tribunal, e desejaríamos continuar assim. Não nos levantamos, não nos revoltamos, não pedimos ao Governo Territorial nenhum direito como pedem os senhores ricos…
JUIZ: E que direitos pedem os senhores ricos?
DAVID: Outro dia, lá embaixo no mercado, ouvi alguma coisa, de passagem, que estes nossos senhores ricos…
ESCRIVÃOZINHO, maldoso: Ah, e o que sabem esses vossos senhores ricos?
DAVID, irritado: Criança, pela luz dos teus olhos e pelo pão do imperador, não me interrompas a palavra! Mas que há contigo hoje?! “Ah, e o que sabem esses vossos senhores ricos!” E o que sabes tu, moleque molenga, além dessa farda imperial em cima de ti?! Verde és, criança, verde como o ramo verde na floresta verde.
ESCRIVÃOZINHO: São burros, David, como a meia-noite. Não sabem nada, absolutamente nada!
DAVID, ainda mais irritado, ainda mais malicioso: Absolutamente nada? E quem é que sabe, moleque molenga, além dessa farda imperial em cima de ti, fazer de um arshin um arshin e meio, de uma oka meia oka, e de meia oka uma oka — conforme a ocasião, hein?! Vamos, responde agora, não te esquives! Ah, meu filhinho! Verde és, verde como o ramo verde na floresta verde.
ESCRIVÃOZINHO, corando: Eu estava pensando em outra coisa, mas essa tua também ficou no lugar certo.
DAVID: Todas as minhas ficam, criança, todas. Não penses que não.
JUIZ, andando pela sala, esfregando uma mão na outra e sorrindo de leve: Que foi que ouviste lá embaixo no mercado, David? Que direitos pedem os senhores ricos?
DAVID: Vós sabeis isso melhor do que eu. Vejo que estais, como quem diz, zombando de mim.
JUIZ: Não sabemos, por minha fé, David.
DAVID: Não sabeis mesmo? Não pode ser que não saibais.
JUIZ: Não sabemos, não sabemos.
DAVID: Ora, como é que não sabeis? Então condenareis este patife, e eu vos direi? Quer eu vos diga, quer não, vós tendes de condená-lo pela lei.
JUIZ: Condenaremos, sim, vamos condená-lo. Apenas nos conta tudo o que ouviste.
DAVID: Permites, senhor, que eu me sente? Estou muito cansado. Permites, senhor?
JUIZ: Permito, permito, David. Senta-te e nos diz que direitos pedem os senhores ricos.
DAVID, sentando-se: Um direito estranho, senhor cabeçudo, é o que pedem os senhores ricos. Não sei nem te dizer. É uma papa qualquer, uma coisa colorida, uma coisa Deus-nos-acuda! Pedem ao Governo Territorial que nos conceda que não nos chamemos mais apenas sérvios, como desde Kosovo, mas sérvios, pravorodoxos, escolares, eclesiásticos e auto-no-to… Essa última palavra eu não consigo pronunciar, nem que me matem!… Pois é: esse tipo de sérvios é que devemos ser. É isso que eles pedem, ouvi lá embaixo no mercado, já faz seis anos completos, e não conseguem encontrar.
ESCRIVÃOZINHO: Escuridão, David, escuridão; por isso não veem com os próprios olhos.
DAVID: Pode ser isso também… Outro dia, deve ter sido no mercado passado, o senhor Stevo me perguntou:
“Reconheces tu, David, que és sérvio, pravorodoxo, escolar, eclesiástico e auto-no-to…”
Oh, palavra pesada, beijo-lhe a cruz! Antes quebraria a língua do que a pronunciaria…
“És tu, David, esse tipo de sérvio?”
“Que é isso, senhor? Que nova fé é essa que apareceu agora? Vós, senhores ricos, quereis nos fazer católicos romanos? Não dá para confiar em vós, sois senhores ricos. Eu sou sérvio; mas esse tipo de sérvio, Deus guarde e proteja!”
Ele se irritou e gritou:
“Esse é o nosso direito, o direito dos senhores ricos, que pedimos ao Governo Territorial! E quem não é esse tipo de sérvio — não é sérvio, mas suábio, šokac, espião, traidor!”
“Eu, por Deus”, digo eu, “senhor, pensei que vós pedíeis ao império que abolisse esta maldita terça parte e o dízimo; mas vós começastes a inventar umas bobagens…”
JUIZ: Então tu dizes, David, que vós, camponeses, estais satisfeitos?
DAVID: Oh, nós estamos satisfeitos! O bem nos aperta por todos os lados; de tanta doçura imensa estamos amortecidos e mal conseguimos respirar… Mas me pesa muito que os senhores ricos digam que eu não sou sérvio.
Eu não sou sérvio! Levanta-se da cadeira, e seus olhos faiscam e disparam vivamente contra o Juiz. Olha-me, senhor, olha-me agora bem: pesei-me em duas balanças imperiais, na balança turca e na balança deste vosso imperador, e nem um dram a menos, nem um dram a mais que vinte e cinco okas! Mas, quando o sérvio dentro de mim se infla e se estufa, não há balança imperial neste mundo que possa me pesar!!!
JUIZ, consigo: Esta é uma criatura estranha.
DAVID: Assim é comigo: tudo pesado, de chumbo, firme… Ainda ouvi mais uma coisa por aí. O senhor Stevo diz que eu sou traidor; pois bem, se sou traidor, vou trair também isto.
JUIZ: O que é, David? Vamos, vamos, conta-nos.
DAVID, hesitando: Por Deus, não ouso. Não ouso, senhor; os senhores ricos me matam.
JUIZ, rodeando-o vivamente: Fala, não tenhas medo de nada.
ESCRIVÃOZINHO: Fala, David, fala. Não temas, já que o senhor juiz…
DAVID: Pelo santo do meu nome, não ouso. Não ouso, homens! Vós ainda não sabeis quem são os nossos senhores ricos. Sois inteligentes, instruídos até não se poder mais, mas…
JUIZ, ainda mais vivo: Fala, não tenhas medo de nada!
DAVID: Ora, falarei, e que se vá a cabeça!… Há entre vós uma escola que se chama teresiana?
JUIZ fala em alemão com o Escrivãozinho.
DAVID salta da cadeira como escaldado, põe-se entre os dois e começa a abanar o indicador: Nix, nix! Nix, isso não reconheço de jeito nenhum! Isto aqui é caso da minha cabeça! Ah, nix!
JUIZ, acalmando-o: Não tenhas medo de nada. Esqueci-me de uma coisa, por isso perguntei ao senhor… Há, David, há uma escola dessas entre nós.
DAVID: Então há mesmo entre vós uma escola dessas, chamada teresiana?
JUIZ: Há, há.
DAVID: Nessa vossa escola, que se chama teresiana, estudam filhos de barões, de condes, e um senhor rico me disse que ali também estudam filhos imperiais?
JUIZ, consigo: O que virá agora?… Tudo isso é verdade, David. E então?
DAVID: E sabeis vós filhos de quem mais estudam nessa vossa escola, que chamam teresiana?
JUIZ: Não sabemos.
DAVID: Não pode ser que não saibais. Como não haveríeis de saber? Eu ouvi lá embaixo, no mercado, que nessa escola estudam os filhos dos mais fiéis servidores do vosso imperador, os quais depois, quando crescerem, hão de governar e sacudir todo o vosso império. E nessa mesma escola, talvez sob nome alheio, estudam os filhos do mais duplo senhor rico de toda a Bósnia e Herzegovina.
JUIZ: Isso é bom, David, para o nosso império.
DAVID: Ah, meu senhor, eu pensei que tu fosses mais inteligente e mais fiel ao teu imperador. Então não sabes, homem, que o pai deles se levantou contra o império, mas com pouquíssimo juízo na cabeça? Inteligente ele é, verdade seja dita, o bastante para saber fazer de uma oka meia oka; mas isso é pouco, muito pouco, dizem os senhores ricos.
Por isso mandou os filhos, havendo tantas escolas nossas, para essa vossa escola chamada teresiana; e quando essas crianças, filho de minha mãe, absorverem a vossa instrução, apanharem vossos planos, escritos e protocolos, e depois voltarem aos palácios do pai, ai de vós! Foi-se a Bósnia; foi-se, por Deus, como se nunca a tivésseis tido! Assim será, juro-vos pelo Deus vivo, e minhas lágrimas não vos ajudarão! Homem, homem, eu derramaria meu próprio sangue por este tribunal e pelo nosso misericordiosíssimo Governo Territorial, e é por isso que vos digo isto.
Portanto, vós deveis imediatamente, nesta hora, mandar telegrama ao império para que essas crianças sejam retiradas dessa vossa escola chamada teresiana.
JUIZ: Eu não compreendo este homem.
ESCRIVÃOZINHO: Eu diria, senhor juiz, que ele é um tolo.
DAVID, olhando-o com desprezo: E eu diria, por outro lado, que ele não é tolo! Como podes tu, homem, dizer que sou tolo? Eu nunca ouvi falar de ti, nem até hoje te vi com meus próprios olhos, e, ainda assim, sei qual é teu nome. Queres apostar? Apostar a cabeça?
JUIZ: O senhor chegou aqui ontem?
ESCRIVÃOZINHO: Sim, cheguei ontem.
JUIZ: Nunca viu este homem, nem ele viu o senhor?
ESCRIVÃOZINHO: Nunca! Nunca o vi, nem ele a mim.
JUIZ: Pois bem, David, qual é o nome do senhor? Se acertares, condenaremos imediatamente o texugo; se não acertares, some daqui!
DAVID: Acertando ou não acertando, vós tendes de condenar este ladrão pela lei. Eu só quero mostrar a esta criança que não sou nem tolo nem idiota.
JUIZ: Está bem, David; aceito isso também. Só te digo: se acertares o nome do senhor, condenarei esse ladrão ainda mais pesadamente. Então, qual é o nome do senhor?
DAVID levanta-se, põe o gorro, tira-o de novo e estende a mão ao Escrivãozinho: Saúde e paz, senhor Dane, ou…
JUIZ, surpreso: Sacramento! Acertou!
ESCRIVÃOZINHO: Ah, que o diabo carregue a avó dele, acertou!
DAVID, orgulhoso e um pouco malicioso: Por Deus, acertei mesmo!
JUIZ: Este homem me é completamente enigmático! Ora, como sabes que o nome do senhor é Dane? Alguém deve ter te contado, ou ouviste de alguém.
DAVID: Muito mundo percorri, meus senhores; de muitos fornos comi pão, de muitas fontes bebi água. Andando pelo mundo e pelo povo, prestei atenção em tudo, e gravei isto: se desces por Lijevče, abaixo de Banja Luka, quase todo segundo homem se chama Ćetoje ou Nedo. Se sobes para Glamoč e encontras um homem, grita: “Deus te ajude, Sava!” Lá em cima é tudo Sava puro. Se o caminho te leva para a pedregosa e escarpada Lika, tira o gorro e grita: “Bom dia, Dane!” ou “Bom dia, Mane!” Não vais errar.
Pela fala, vejo que esta criança é de Lika; daí sei como ele se chama.
ESCRIVÃOZINHO: Ah, que o diabo o leve, é assim mesmo! Meu irmão, que está nos gendarmes, chama-se Mane; e no nosso próprio lugar há cinco, seis Danes e Manes.
JUIZ: Então tu, David, pelo que vejo, não és idiota?
DAVID: Quem disse que sou idiota?
JUIZ: Ninguém disse, mas… Como podes tu, homem de Deus, processar um texugo?
DAVID: E como podes tu me fazer essa pergunta outra vez? Pensas, homem, que eu não sei que este nosso imperador tem lei para tudo? Sei disso, sei, eu sei muito bem. Não penses que não sei!
JUIZ: Ora, David, digamos que haja lei também para os texugos; ainda assim, isso é meio inconveniente. És um homem claro e inteligente, pensa um pouco… Tu sabes que, quando o tribunal condena alguém, precisa saber quantos anos ele tem, se é casado, se tem filhos, como fala, de que fé é. Tudo isso é necessário ao tribunal. Então, de que fé é esse teu infeliz?
DAVID: De nenhuma! Se tivesse qualquer fé, não teria mexido na minha pobreza.
JUIZ, sorrindo: É casado?
DAVID: É, é casado.
JUIZ: Como sabes?
DAVID: Sei por certa coisa. Isso o glorioso tribunal não precisa saber. É vergonhoso até pensar nisso aqui, quanto mais dizê-lo. É casado, é casado!
JUIZ: Tem filhos, que o diabo o carregue, já que é casado?
DAVID: Tem. Oh, se visses os filhos e a família dele! O vale inteiro, acima daquela minha pobre e única rocinha chamada Nem de David, nem imperial, nem senhorial, está cheio deles.
JUIZ: Como fala, David, esse ladrão? Em que língua?
DAVID: Isso, senhor cabeçudo, não sei dizer com segurança. Ele resmunga e embrulha a língua como tu e esta criança quando há pouco conversáveis. Resmunga um pouco para ele, senhor, para eu ver se…
JUIZ ri, diz alguma coisa e bate no focinho do texugo.
DAVID: Vê, senhor, vê como ele levanta o focinho, como te entende! Vê o filho da mãe fingindo tristeza. Não te faças de santo, ladrão! Ainda que fales a língua do senhor, isso não há de te ajudar. À vontade, não te faças de santo.
JUIZ: Quando nasceu, quantos anos tem este teu ladrão, David?
DAVID: Não é velho, não. Ainda é jovem.
JUIZ: Não te pergunto isso; quero saber quantos anos ele tem. Também preciso disso.
DAVID: E quantos anos faz que vós chegastes à Bósnia?
JUIZ: Bem, faz uns vinte e três, vinte e quatro anos.
DAVID: Oh, muito, pelo amor de Deus, irmão! De verdade, quando é que vós já… Pois tantos anos, mais ou menos, tem também este ladrão, que sua semente se extinga!
JUIZ: Como sabes?
DAVID: Sei por certa coisa. Escreve sem medo, é isso que ele tem.
JUIZ: “Escreve sem medo, é isso que ele tem”! Estás me dando ordens, hein? Pegamos-te, David! Tu não sabes!
DAVID: Ora, escreve, senhor, quando te digo. É isso que ele tem.
JUIZ: Mas não é assim! Tens de dizer como sabes.
DAVID: Pois, já que queres que eu diga, direi: ele mexe na pobreza alheia, então penso que nasceu mesmo no vosso tempo. É por isso que sei!
JUIZ: Como, como?
DAVID: Tudo devagar… Perdoa, senhor, confundi-me. Perdoa, senhor, nós te pedimos; fiquei atrapalhado e já nem sei o que digo. Sempre que entro no glorioso tribunal, parece-me que, de todos os cantos, aqueles infelizes ganchos paragráficos me espetam os olhos. Minha mulher, que Deus a mate, andou me assustando, aquela minha velha desdentada!
ESCRIVÃOZINHO: Eu diria, senhor juiz, que este homem está fingindo.
DAVID, consigo: Ah, meu filhinho, só agora viste isso?… Não peques contra a alma, criança. Não me incrimines diante do glorioso tribunal!… Pronto, senhor, disse tudo o que me perguntaste. Agora podeis condenar esse ladrão pela lei.
JUIZ: E o nome?
DAVID: O nome dele é Patife de David. Assim o povo o chama, e assim o glorioso tribunal há de escrever-lhe as intimações, se não o condenardes hoje à forca. A aldeia dele se chama Melina; distrito de Banja Luka, comarca de Banja Luka; e a terra, penso eu, senhor cabeçudo, também deve ser a Bósnia. O número da casa dele, diz o chefe da aldeia, são aqueles dois ganchos de balança: C. S.
JUIZ, levantando-se: David, escuta agora! A lei condena…
DAVID: E onde ficou aquilo: Em Nome Dele? Ah, não, senhor! Isso eu não reconheço de jeito nenhum! Eu me atenho à ordem e à lei! Se eu quisesse agir por cima da lei, eu mesmo o teria matado na floresta. Conheço a lei, e por cima da lei não deixo passar nem meu próprio pai!… Vós podeis, se a lei permitir, vesti-lo de seda e veludo e então soltá-lo para passear pela cidade, sem comparação, como algum herdeiro do trono. Mas, se não fordes pela ordem e pela lei, há nesta terra também o Tribunal Distrital, há o nosso misericordiosíssimo Governo Territorial, e este mesmo David, com esta mesma cabeça tapada e com este mesmo ladrão, poderia amanhecer certa manhã em Viena. Não penseis vós o que pensais! Se eu não ouvir aquilo: Em Nome Dele, vou imediatamente ao Tribunal Distrital.
JUIZ: Pois então, David, em nome dele, a lei condena Patife de David a vinte…
DAVID, interrompendo-o: Suplico-te, senhor cabeçudo, como se suplica a Deus e aos mais velhos: fica apenas na ordem e na lei! Não é assim, mas assim: O glorioso tribunal, Em Nome Dele, condena Patife de David, da aldeia de Melina, distrito de Banja Luka, comarca de Banja Luka, terra… Virando-se ao Escrivãozinho. O que tu dirias, criança: a terra dele também é a Bósnia, ou ele veio convosco nesta última revolta?
ESCRIVÃOZINHO: Ele é da Bósnia, David.
DAVID: Se não veio da vossa terra, nasceu aqui no vosso tempo, então dá tudo no mesmo. Vamos, vamos, senhor, continua, para ouvirmos!
JUIZ: O glorioso tribunal, em nome dele, condena Patife de David, de vinte e dois anos…
DAVID: Ah, obrigado por isso! Agora vejo que és homem de ordem e de lei. Esqueci-me há pouco de dizer quantos anos ele tem. O homem que segue a ordem e a lei, ainda que seja um cigano negro, é logo bom comigo. Ah, obrigado por isso! Vamos, vamos, senhor, adiante.
JUIZ: O glorioso tribunal, em nome dele, condena Patife de David, de vinte e dois anos, casado…
DAVID: Também por isso, obrigado. Também disso me esqueci. Casado ele é, que seus ossos apodreçam em Zenica! Mas não sei por que me meto nos negócios do glorioso tribunal. Eu sei processar, mas não sei julgar. Deus não me criou para isso, e pronto! Vamos, vamos, senhor, queremos ouvir.
JUIZ: O glorioso tribunal, em nome dele, condena Patife de David, de vinte e dois anos, casado, da aldeia de Melina, distrito de Banja Luka, comarca de Banja Luka, terra da Bósnia, e número da casa aqueles dois ganchos de balança, C. S., a vinte anos de cárcere pesado em Zenica…
DAVID, salta de alegria e bate no focinho do texugo: Oh, oh, texugo! Escuta, texugo! Queres mais um pouco de milho, texugo? Texugo! Texugo, homem, por que não falas?! Pobre e tristíssima mãe a tua! Há, há lei também para ti nesta terra, não penses que não há!
JUIZ, continuando: O mesmo Patife de David arruinou a David Štrbac uma roça inteira de milho…
DAVID: …que se chama Nem de David, nem imperial, nem senhorial. Só peço, pela ordem e pela lei!
JUIZ: …que se chama Nem de David, nem imperial, nem senhorial, com base no que a sentença acima foi pronunciada. Estás satisfeito agora, David?
DAVID: Agradeço ao glorioso tribunal! Estou satisfeito com a sentença. Só acrescenta ainda isto, assim por mim: David Štrbac, da aldeia de Melina, distrito de Banja Luka, comarca de Banja Luka, terra da Bósnia, número da casa quarenta e sete, agradece ao império, ao nosso misericordiosíssimo Governo Territorial e ao glorioso tribunal por o terem libertado de tudo e, como se diz, deixado pelado como um dedo. Graças a eles, onde quer que ouçam ou não ouçam! Acrescenta isso, assim por mim e em meu nome…
E agora vos pergunto, pela ordem e pela lei: quem vai me pagar o prejuízo que este ladrão causou? Ele é da floresta imperial, então penso eu…
JUIZ, sorrindo e lhe estendendo algum dinheiro: Aqui tens, David, pelo prejuízo; e este ladrão amanhã irá para Zenica.
DAVID: Isso vem do caixa imperial? Não será alguma esmola, já que é tão pouco? Se for esmola, não aceito!
JUIZ, dando-lhe mais: Não é esmola. O dinheiro vem do caixa imperial. Pagam-te o prejuízo.
DAVID, pondo o dinheiro na bolsa: Ah, obrigado ao império, ao nosso misericordiosíssimo Governo Territorial e ao glorioso tribunal! Homem, homem, eu daria meu próprio sangue, embora seja forte e venenoso como mordida de cobra, ao nosso misericordiosíssimo Governo Territorial…
JUIZ: Como, como?
DAVID: Tudo devagar…
JUIZ: Homem, não te entendo!
DAVID: É difícil me entender, porque sou homem muito cheio de cantos. Ouvi gente dizer que os palácios de certo rei judeu chamado Salomão tinham doze cantos, e eu juraria por meus filhos que em mim há vinte e quatro cantos. Não tenho culpa de Deus querido me ter criado de tal modo que, em uma hora, começo vinte discursos e não termino nenhum. Difícil, muito difícil é me entender, senhor cabeçudo!
JUIZ: Eu não te entendo, mas outro senhor te entenderá. Espera aí, David, já volto. Sai.
DAVID, preocupado: Aonde foi agora o senhor juiz cabeçudo?
ESCRIVÃOZINHO: O senhor já vem.
DAVID, consigo: Isso não cheira a coisa boa! Ah, pobre de mim! Abana a mão e começa a passear pela sala do tribunal, olhando os retratos. Vê, criança, como eu também sei desfilar. Por minha alma, eu saberia desfilar como qualquer funcionário imperial. Só que minha perna esquerda é um pouco mais curta que a direita, então manco um bocadinho… De quem é esta estampa, criança?
ESCRIVÃOZINHO: É o imperador.
DAVID: Este é vosso imperador?
ESCRIVÃOZINHO: Nosso e vosso!
DAVID: Não é nosso, irmão, por Deus. Este chapéu dele é teu?
ESCRIVÃOZINHO: É.
DAVID: Então como vai ser meu? Ah, minha criança, se este fosse nosso imperador, eu choraria de alegria. Nossos imperadores, como se diz, foram e se acabaram. Mas ouvi dizer que nós, sérvios, temos um rei e um príncipe. Dize-me, pelo pão do imperador — e vejo que és inteligente e instruído —, será que de algum modo, de algum modo mesmo, desse nosso rei e desse nosso príncipe se poderia entalhar ao menos um imperador mediano? Pois nós, sérvios, há muito tempo andamos com saudade de imperadores.
ESCRIVÃOZINHO: Para vós, nosso imperador também serve.
DAVID, consigo: És de Lika, criança, mas não me levaste para o gelo fino!… Não digo nada, senhor. Serve. Só falta abolir a terça parte, o dízimo e, digamos assim, essas multas — nunca houve imperador melhor!
ESCRIVÃOZINHO: Então ele também seria vosso?
DAVID: Ah, isso eu não sei dizer com segurança, porque não se pode dizer a qualquer um: Imperador Lázaro, joelho honrado! Não, senhor, isso não se diz a qualquer um!… E de quem é esta estampa?
ESCRIVÃOZINHO: É aquilo que vós, camponeses, chamais Governo Territorial.
DAVID: Oh, espera, que eu o beije, quero vê-lo! Sobe numa cadeira, põe a mão acima dos olhos e olha longamente, muito longamente. Oh, então é caolho o nosso Governo Territorial, maldito seja! Cai da cadeira. Por isso é que tudo nos vai torto e cego nesta terra, ferida medonha!
JUIZ, entrando com o Doutor: Que é isso?!
DAVID, levantando-se: Nada, senhor cabeçudo… Ah, meus homens, se eu tivesse morrido ontem, não saberia que o nosso misericordiosíssimo Governo Territorial é caolho!
JUIZ: Este é o camponês que processa o texugo. Peço-lhe, senhor doutor, que o examine. Ora me parece um idiota acima de todos os idiotas, ora muito claro e inteligente. Criatura estranha e enigmática!
DOUTOR, com ar superior: À primeira vista, isso será um idiota, bladsinniger Kerl, cretino! Para David. Como se chama ser?
DAVID: Espera, homem, primeiro nos perguntemos pela saúde como gente, e depois… Saúde e paz, senhor. Como estás? E a senhora tua esposa? Ela acordou bem?
DOUTOR: Não, como nome, como se chama ser?
DAVID: Senhor doutor, não rompeu, mas nasceu…
DOUTOR, irritado: Não, como se chama ser?
DAVID: Eu se chama ser, já que queres assim, Deus te mate, David Štrbac, aldeia de Melina, distrito de Banja Luka, comarca de Banja Luka, terra da Bósnia. O número da minha casa é 47. Assim o glorioso tribunal me registra e assim me manda as intimações.
DOUTOR, gargalhando: Este imaginou que conde é! Não, que é isto? Grande nome e título, como um conde, tinha tu?
DAVID: Ah, eu me atenho à ordem e à lei como qualquer conde!
DOUTOR: Tinha mulher?
DAVID: Oh, tinha mulher muito danada, grossamente instruída!
DOUTOR: Tinha crianças?
DAVID: Tinha, senhor doutor: duas crianças fêmeas, duas menininhas como duas maçãzinhas de ouro.
DOUTOR: Não, duas fêmeas e duas machos crianças?
DAVID, devagar: Ah, meu mal-encabeçado pateta, meu tapado cabeça-de-vento!… Sim, assim é, assim.
DOUTOR: Por que processava texugo?
DAVID: Processava… comeu uma roça inteira de milho.
DOUTOR: Não, tu idiota! Quem processava texugo, animal processava? Isso nada outro senão idiota! Com animal, com texugo, não tem lei…
DAVID: Ah, tem, tem no imperador de vocês! Vimos isso hoje. Não estragues minhas contas!
DOUTOR olha-o de todos os lados, encara-o nos olhos, tira um instrumento e mede-lhe a cabeça.
DAVID: O quê?! Entre vós até a inteligência se mede por graus? Por isso sois tão inteligentes!
DOUTOR, sussurrando: Quarenta…
DAVID: Então sou quarenta graus idiota?! Oh, é muito, pelo amor de Deus, irmãos! E quantos graus sois vós, então?
ESCRIVÃOZINHO: És, és, David! És quarenta graus idiota.
DAVID: Cala-te, seu paspalho paspalhento! Estufa o peito, pisca os olhos, nos quais brilham lágrimas de ódio e malícia imensos. Não sou eu, meus senhores, quarenta graus idiota; sou estranho para vós porque em mim há um milhão de corações e um milhão de línguas, pois hoje, diante deste tribunal, chorei por um milhão de almas que, de tanto bem e doçura, ficaram amortecidas e mal conseguem respirar! Todos o olham pasmados. Adeus, texugo! Adeus, meus senhores! Adeus também a ti, seu paspalho paspalhento! Ficai todos com Deus e não levem a mal esta prosa.
NOTA O chefe do Governo Territorial para a Bósnia e Herzegovina, Sua Excelência o senhor barão Johann von Appel, perdeu, ao que parece, um olho em alguma guerra.
Sátira dramática de Petar Kočić, em tradução brasileira Literunico a partir do original sérvio em latinica. A peça acompanha David Štrbac, camponês que leva um texugo ao tribunal e transforma a audiência em crítica mordaz da burocracia imperial na Bósnia.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
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