Universo da obra
Universo da obra
O Marinheiro NáufragoDisse o servidor excelente: Alegra teu coração, meu senhor, pois chegamos à terra. O martelo já foi tomado; a estaca foi fincada; a proa repousa sobre a margem. Louvado seja Deus: todos os homens da tripulação voltaram sãos, e nenhum deles se perdeu.
Escuta, portanto, uma história que aconteceu comigo quando eu seguia para as minas do soberano. Desci ao mar em um navio de cento e vinte côvados de comprimento e quarenta de largura. Nele havia cento e vinte marinheiros, escolhidos entre os melhores do Egito. Olhavam o céu, olhavam a terra, e seus corações eram mais firmes que os dos leões. Sabiam anunciar a tempestade antes que viesse, e o vento antes que soprasse.
Mas uma tempestade se ergueu quando ainda estávamos no alto-mar. Antes que pudéssemos alcançar a costa, o vento aumentou, levantou uma onda de oito côvados e despedaçou o navio. Dos que estavam nele, nenhum restou; só eu fui lançado por uma vaga sobre uma ilha.
Passei três dias sozinho, tendo meu coração por companheiro. Dormia sob uma árvore e abraçava a sombra. Depois estendi as pernas para procurar alimento. Encontrei figos, uvas, legumes magníficos, frutos de todos os tipos, peixes e aves. Nada faltava naquela ilha. Satisfeito, acendi fogo e fiz uma oferenda aos deuses.
Então ouvi um ruído como trovão. As árvores se partiram, a terra tremeu, e apareceu uma serpente enorme. Tinha trinta côvados de comprimento, barba maior que dois côvados, corpo revestido de ouro e sobrancelhas de lápis-lazúli. Ela se ergueu diante de mim.
Abri a boca para falar, mas caí de bruços. A serpente me tomou em sua boca, levou-me sem ferir-me e me pôs em seu abrigo. Então disse: Quem te trouxe, quem te trouxe, pequeno? Se demoras em responder, farei com que conheças a ti mesmo como cinza.
Respondi como pude, tremendo: Eu vinha às minas por ordem do soberano, em um grande navio, com os melhores marinheiros do Egito. A tempestade nos alcançou; o navio morreu no mar, e só eu fui lançado a esta ilha.
A serpente disse: Não temas, pequeno. Deus permitiu que vivesses e te trouxe a esta ilha do espírito, onde nada falta. Passarás aqui quatro meses. Depois virá um navio de tua terra, com marinheiros que conheces, e voltarás para casa. Morrerás em tua cidade.
Então a serpente contou sua própria dor: Eu vivia aqui com meus irmãos e meus filhos, setenta e cinco serpentes ao todo. Uma estrela caiu do céu, e todos arderam. Eu não estava entre eles quando o fogo veio. Ao voltar, encontrei-os consumidos. Meu coração se partiu.
Inclinei-me diante dela e prometi levar ao faraó notícias de sua grandeza, perfumes, óleos e tesouros. A serpente sorriu: Não te canses com presentes. Sou príncipe de Punt; todos os perfumes são meus. Quando partires, esta ilha desaparecerá nas ondas, e nunca mais a verás.
No tempo anunciado, avistei um navio. Subi a uma árvore e reconheci homens do Egito. Fui chamar a serpente, que me deu mirra, óleo, presas, caudas de girafa, incenso, marfim, cães, macacos e todo tipo de coisa preciosa. Despediu-se dizendo: Leva-me em teu coração. Fala de mim em tua cidade.
Entrei no navio e, depois de dois meses de viagem, cheguei à residência real. Apresentei os tributos ao soberano, e ele me recebeu com bondade. Fui feito servidor de sua casa.
Vê, portanto, meu senhor: é bom escutar aquele que sofreu e voltou. A boca do homem salvo deve falar com mansidão, pois ninguém sabe que ilha o mar ainda prepara.
Um dos mais antigos relatos de naufrágio da literatura: um marinheiro egípcio perdido em uma ilha maravilhosa encontra uma serpente divina e retorna transformado pela experiência.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 7386, Egyptian Tales, Translated from the Papyri: First Series, edited by W. M. Flinders Petrie
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