Universo da obra
Universo da obra
A Mulher do TropeiroA casa de dois cômodos é feita de troncos arredondados, tábuas rudes e casca de árvore. Ao lado, uma cozinha de casca, maior que a própria casa. Em volta, o mato: plano, sem horizonte, sem montanhas ao longe, só árvores raquíticas, alguns carvalhos-do-mato junto a um riacho quase seco e dezenove milhas até o primeiro sinal de civilização.
O tropeiro, antigo pequeno proprietário, está fora com as ovelhas. Sua mulher e os filhos ficaram sozinhos.
Quatro crianças magras e esfarrapadas brincam perto da casa quando uma delas grita: Cobra! Mãe, tem uma cobra!
A mulher, queimada de sol e ossuda, salta da cozinha, apanha o bebê, segura-o no quadril e procura um porrete. A cobra foge para a pilha de lenha e depois se enfia debaixo da casa. O cachorro Alligator, enorme, preto, mestiço de todas as raças e dono de olhos amarelos, arrebenta a corrente para persegui-la, mas chega tarde. A cauda desaparece entre as tábuas.
A mulher põe as crianças sobre a mesa da cozinha. A casa não é segura: a cobra pode subir por qualquer fresta do assoalho. A cozinha, ao menos, tem chão de terra batida. Ela prepara uma cama improvisada sobre a mesa, põe a cesta de costura ao lado, deixa o porrete verde à mão e chama o cão para dentro. A noite cai com cheiro de tempestade.
Tommy, o mais velho, promete ficar acordado para esmagar a maldita cobra. A mãe o repreende por praguejar. Ele protesta, mas acaba dormindo com os irmãos. Ela fica sentada, de olhos fixos no canto escuro.
A vigília abre nela o livro inteiro de sua vida. Recorda os anos de isolamento, as cheias, a seca, o parto sem ajuda, a febre das crianças, o marido ausente por meses, as pequenas humilhações e os sustos que uma mulher aprende a engolir no mato. Já enfrentou boi bravo, incêndio, fome, viajantes bêbados, negros assustados, cães doentes, solidão. Não chora com facilidade; quando chora, é por cansaço acumulado.
O cachorro fareja, rosna, se agita. A mulher costura um pouco, lê algumas linhas de uma revista velha, escuta a respiração das crianças e torna a olhar para a parede. A lamparina enfraquece. Lá fora, o mato parece respirar, grande e vazio.
À meia-noite, Alligator salta. A cobra aparece junto à parede, sinuosa, silenciosa, negra na luz amarela. A mulher levanta o porrete. O cão avança. A cobra se enrosca, tenta escapar para debaixo da mesa. A mulher grita para as crianças ficarem quietas, golpeia uma vez, duas vezes; o cão recebe parte do golpe, mas não larga. Por fim, a cabeça da cobra é esmagada.
Ela a atira no fogo. O cheiro ruim enche a cozinha. Tommy acorda, vê a cobra queimando e olha para a mãe com admiração. Diz, com a seriedade brutal das crianças do mato, que nunca se casará e deixará a mulher sozinha daquele jeito.
A mulher ri, mas seus olhos se enchem de lágrimas. Ri porque precisa rir; chora porque, por uma noite inteira, sustentou sozinha a casa, as crianças, o medo e o mundo.
Sozinha no mato australiano, com quatro filhos pequenos e uma cobra escondida sob a casa, a mulher de um tropeiro passa a noite em vigília. Um clássico breve e duro de Henry Lawson.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 7144, While the Billy Boils, by Henry Lawson
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